Esperança e decepção: dois sentimentos opostos que se encaixam perfeitamente na história da 3ª Sinfonia de Beethoven, a Eroica, dedicada inicialmente a Napoleão Bonaparte. Ludwig van Beethoven (1770-1827), um dos maiores nomes da música ocidental, compôs a 3ª Sinfonia entre os anos de 1802 e 1803, período no qual a Europa assistia à ascensão de Napoleão Bonaparte (1769-1821) ao poder na França. Em 09 de novembro 1799, com o golpe do 18 Brumário, Napoleão, então general do Exército, assumiu o poder como um dos três cônsules na França.
Prometendo estabilidade, ordem, crescimento econômico e não violar os princípios republicanos edificados durante a Revolução Francesa (1789-1799), ele pavimentou ele pavimentou o caminho para a centralização do poder em sua figura. Napoleão havia construído a fama de general brilhante, patriota, incorruptível e de republicano moderado. Além disso, sustentava a narrativa de ser uma pessoa de origem humilde que conseguiu, por seus méritos, chegar ao poder.
Essa narrativa era vista por muitos como uma prova de que o período dos privilégios absolutistas estava definitivamente encerrado na França. A figura do jovem general como líder da França que outrora fora governada por Luís XIV inspirava a todos que desejavam o fim de uma época marcada marcada pelos privilégios da nobreza. É dentro deste contexto que Beethoven, aos 32 anos, compôs a 3ª Sinfonia.
Em 1802, o compositor nutria um sentimento de simpatia pelos ideais republicanos. Alguns de seus biógrafos destacam as dificuldades que Beethoven enfrentou em sua juventude por não ter conseguido provar que era de origem nobre. Isso teria reforçado nessa época o seu desapreço pela monarquia e pela nobreza.
Ele via em Napoleão muito mais do que um republicano que poderia poderia inspirar a queda das monarquias por toda a Europa. Beethoven chegou a dizer que se identificava com a personalidade e a vida de Napoleão: alguém de origem humilde que lutava contra tudo e contra todos, , inspirando glória e liberdade. Contudo, em dezembro de 1804, o republicano Napoleão se coroou imperador, restituindo a hierarquia nobiliárquica na França.
Beethoven teria se revoltado com o que considerou uma traição pessoal. Em um acesso de fúria, decidiu retirar a dedicatória a Napoleão, apagando com tal força da partitura o nome do agora imperador que chegou a rasgá-la. A 3ª Sinfonia, a Eroica, quando publicada em 1806, já em plena expansão do Império francês sobre o território alemão, trouxe como subtítulo: "para celebrar a memória de um grande Homem", indicando que o herói da sinfonia já não mais vivia.
Alguns biógrafos apontam outros motivos para a mudança da dedicatória além do desapontamento de Beethoven em relação a Napoleão. Na época, os grandes compositores eram financiados por aristocratas que, como mecenas, costumavam pagar pela encomenda de obras e por dedicatórias. Dedicar a 3ª Sinfonia a Napoleão não renderia nenhum ganho financeiro a Beethoven.
Ciente disso e desapontado com as atitudes de Bonaparte, ele terminou por dedicar a Eroica a Joseph Franz Maximilian Lobkowicz (1772-1816), um aristocrata Vienense entusiasta da música e por muito tempo foi patrocinador da arte de Beethoven Nunca saberemos ao certo em qual momento Beethoven decidiu revogar a dedicatória da Eroica à Napoleão. Em cartas posteriores, ele afirmou ter se reconciliado com Bonaparte. Em um dos famosos “Livros de Conversação”, os cadernos que ele utilizava para se comunicar com as pessoas devido à sua surdez, Beethoven escreveu: “Como alemão, fui seu maior inimigo, mas com o passar do tempo, cheguei a um acordo com ele”.
Beethoven e Napoleão: mais uma vez, a história e a música compondo uma belíssima e eterna obra de arte: a 3ª sinfonia em mi bemol maior, opus 55, a Eroica!