Olá, meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs. É uma grande alegria estarmos juntos mais uma vez no nosso programa “Testemunho de Fé”. Aqui quem fala é o Padre Paulo Ricardo e quero convidar você, nos próximos minutos, para estarmos juntos para refletir a respeito da Palavra de Deus que a Igreja nos propõe neste 24.
º Domingo do Tempo Comum. Neste domingo, nós, que estamos lendo o evangelho de São Marcos, vemos a profissão de fé de São Pedro. Trata-se do Evangelho tirado do capítulo 8, versículos 27 a 35.
É interessante a gente recordar uma coisa. A tradição nos diz que o evangelho de São Marcos é o evangelho de Pedro. Ou seja, São Pedro, humilde, simples pescador da Galiléia, não sabia falar línguas estrangeiras; ele falava o seu aramaico, simplesmente.
Acontece que Jesus disse: “Ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho”, e São Pedro foi pregar o Evangelho. Então, ele se serviu de um rapaz judeu, mas de cultura helênica (ou seja, de cultura grega), que sabia falar muito bem o grego. O nome dele era João Marcos; o nome dele, na língua de Jesus, (língua que São Pedro falava) era João, “Ioannes”, mas ele tinha um segundo nome, que era o seu nome grego: “Markos”, João Marcos.
Foi ele quem andou Mediterrâneo afora com São Pedro, pregando o Evangelho, e traduzia o velho Pedro: Pedro contava as histórias de Jesus em aramaico, e São Marcos as traduzia para o grego. Quando finalmente São Pedro chegou à cidade de Roma, Marcos resolveu pôr por escrito as pregações de São Pedro. Então, o evangelho de São Marcos foi, segundo a tradição, escrito numa casa que, depois, tornou-se a igreja de São Marcos, em Roma, que fica perto da Praça Veneza.
Ali, São Marcos escreveu o evangelho de Pedro, e os testemunhos de Pedro ficaram tão vivos na memória de São Marcos, que muitas vezes São Marcos coloca a própria frase que São Pedro usou em aramaico porque aquilo ficou [gravado] muito forte nele. Ou seja, quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, quem foi testemunha disso? Somente Pedro, Tiago e João, os íntimos de Jesus que o viram olhar para a menina e dizer: “Talita kum”.
Está lá no evangelho de Marcos, em aramaico. São Pedro, no Horto das Oliveiras, viu Jesus agonizando e se recordou do que Jesus disse: “Abba, Pai”. Aquilo ficou impresso em São Pedro, e por isso está lá em aramaico.
Por isso o evangelho de São Marcos é o evangelho de Pedro, com todas as recordações e todas as lembranças de São Pedro. Eu estou dizendo tudo isso por quê? Porque o Evangelho de hoje é a profissão de fé de São Pedro; então, é totalmente compreensível que São Pedro, humilde que era, sendo santo, nos relate que ele professou a fé dizendo para Jesus que Ele de fato era o Messias, e logo em seguida vem aquele episódio meio vexatório em que São Pedro aconselha Jesus a não abraçar a cruz.
Aí Jesus se volta para Pedro e diz: “Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens”. Só que, se você ler o evangelho de Marcos simplesmente, você notará uma grave lacuna: há uma coisa que está faltando ali, e o que está faltando?
Está faltando aquilo que está no evangelho de São Mateus, capítulo 16, em que Jesus olhou para Pedro, feliz e contente, e disse: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de João, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão”. Ora, é uma passagem extremamente elogiosa a São Pedro, mas São Pedro, quando pregava o Evangelho, não falava nada disso por humildade, por isso está ausente no evangelho de São Marcos.
Só de a gente saber isso já é interessante, o que ilumina a leitura do Evangelho de outra forma. Vamos lá, vamos analisar, vamos olhar de perto a realidade dessa reprovação que São Pedro fez questão de documentar aqui na sua pregação. Jesus pergunta: “Quem dizem que eu sou?
” Pedro responde muito corretamente, fazendo a sua profissão de fé, pela qual ficou famoso: “Tu és o Messias”; São Mateus acrescenta e especifica mais ainda: “O Filho de Deus vivo”. São Pedro não reconheceu em Jesus somente o Messias, mas o próprio Deus encarnado que está lá. É certeza que São Pedro fez isso.
Por quê? Porque depois, quando Jesus foi condenado à morte, foi condenado exatamente por isso: porque “se fazia Deus”. Ou seja, os judeus não acreditaram em Jesus e o condenaram à morte exatamente porque, sendo homem (segundo eles, somente homem), se fazia igual a Deus.
Bom, São Pedro acertou dizendo que Jesus era o Ungido de Deus, que Jesus, de fato, era o Filho de Deus. Mas em seguida, uma vez que São Pedro professou a fé, uma vez que São Pedro falou corretamente, Jesus o elogiou e logo em seguida começou a falar da sua Paixão; e, falando de sua Paixão, Jesus usa termos e expressões muito parecidos com aqueles da 1. ª leitura deste domingo, que é tirada do capítulo 50 do profeta Isaías.
Ou seja, Jesus está dizendo: “É verdade, Pedro, eu sou de fato o Messias, o Ungido, o Cristo, aquele que foi prometido; mas eu sou também aquela figura misteriosa do Antigo Testamento, do profeta Isaías, que vocês não sabem quem é: aquele Servo sofredor descrito tão maravilhosamente por Isaías nos três cânticos do Servo sofredor”. Aí São Pedro “encrespa” o negócio! São Pedro não aceitou.
São Pedro, então, viu que aquelas palavras de Jesus pareciam inconvenientes. São Pedro chama Jesus de lado. Jesus disse isso abertamente.
(O evangelho de São Marcos é claro. Olhe o versículo 32: “Ele dizia isso abertamente”. ) Aí São Pedro, com prudência humana, chama Jesus de lado e diz: “Jesus, vem cá!
Deixa eu falar uma coisinha no teu pé de ouvido”. São Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo: “Jesus, esse negócio de morrer na cruz… Aí não, né? É melhor não”.
Jesus, então, se voltou para Pedro, olhou para os discípulos e, diante deles, fez Pedro passar a maior vergonha. Ou seja, São Pedro, que acabou de ser elogiado na frente de todo o mundo, agora passou a maior vergonha que ele podia passar: foi chamado de Satanás! “Tu não pensas como Deus, e sim como os homens”.
São Mateus, que conta o episódio com mais detalhes, diz assim: São Pedro acabou de ser chamado de “pedra sobre a qual edificarei a minha Igreja”; Jesus olha para ele e diz: “Você é um escândalo! Você é uma pedra de tropeço! ” (É pedra nos dois sentidos: é pedra para edificar e pedra para tropeçar.
) Aí vem a pergunta, e aqui a gente chegou ao centro do que eu gostaria de dizer para vocês nessa reflexão: o que fez com que Pedro fosse pedra de tropeço, fosse esse escândalo? Por que Jesus foi tão duro com São Pedro, quando parece que, no fundo, no fundo, São Pedro queria o bem de Jesus? Afinal de contas, quem de nós, ao ouvir Jesus dizendo: “Olhe, eu vou para Jerusalém.
Lá eu vou sofrer muito, vou ser rejeitado, vou morrer”, quem de nós diria: “Isso mesmo, Jesus. Vá lá morrer. Que legal”?
Não, São Pedro disse: “Misericórdia, Jesus”, “Avertat a te Deus”, que Deus não deixe isso te acontecer! Jesus aqui está mostrando para São Pedro que este bem que São Pedro quer para Jesus não é o verdadeiro bem, e Ele diz isso numa frase muito clara no evangelho de São Marcos: “Tu não pensas como Deus, mas como os homens”. Jesus repreende São Pedro, além de chamá-lo de Satanás, ou seja, de opositor, de antagonista, de acusador (“Satã” quer dizer isso: o acusador, o advogado que acusa).
Jesus diz aqui, no evangelho de São Marcos, uma coisa interessante; diz que “tu não pensas as coisas de Deus”. No original grego está escrito assim: ὅτι οὐ φρονεῖς τὰ τοῦ θεοῦ. Φρονεῖς quer dizer o seguinte: o φρόνημα é ao mesmo tempo “pensamento” e “sentimento” — digamos assim, a “vontade” —, ou seja, está dizendo que “o seu coração não é o coração de Deus”.
A palavra φρήν, em grego, é a membrana que envolve o coração, como se fosse uma espécie de membrana que está no centro da pessoa. É claro que Jesus não está falando do coração, do músculo cardíaco de Deus, porque Deus não tem músculo cardíaco. Não é isso, mas está dizendo: “o interior da pessoa”.
“Tu não pensas, Pedro”, ou seja, “tu não tens os sentimentos, tu não tens a mentalidade, tu não tens a visão de Deus”. Para você enxergar a verdade, você tem de enxergar do jeito que Deus enxerga, e Jesus, repreendendo, diz: “Não pensas as coisas de Deus” (τά, o artigo aqui é neutro plural. A gente geralmente traduz em português como “as coisas”: ὅτι οὐ φρονεῖς τὰ τοῦ θεοῦ, “as de Deus”, “as coisas de Deus”; ἀλλὰ, “porém”, τὰ τῶν ἀνθρώπων, “mas as dos seres humanos”).
Ou seja, São Pedro está pensando com uma prudência humana, está pensando como qualquer ser humano pensaria instintivamente. Diante da morte, o que eu quero? Fugir dela!
A gente tem de ver uma coisa, gente: se você tem, de um lado, a Deus e, do outro lado, a você, é evidente que você tem de querer enxergar as coisas do jeito que Deus enxerga e fazer as coisas do jeito que Deus quer. Por quê? Pelo simples fato seguinte.
Vamos constatar: quem são essas duas pessoas? Quem é Deus e quem é você? Deus é sábio.
Ele é a sabedoria, Ele é a fonte de toda a sabedoria. E você? Quem você é?
Gente, nós somos ignorantes, nós somos seres humanos ignorantes! Nós nem sabemos o que é o nosso bem. Quantas e quantas vezes estamos numa encruzilhada e não sabemos o que fazer?
Nós temos de pedir conselhos para outras pessoas. Já aconteceu isso com você? É exatamente isso.
São Pedro está dando um péssimo conselho para Jesus. Por quê? Porque ele está pensando de forma humana.
Deus é sábio, nós somos ignorantes; Deus é bom, Deus sempre quer o bem. Ele não somente é sábio: Ele quer o bem, Ele é o sumo bem e, quando Ele quer, Ele quer o bem. E Deus não somente é sábio, não somente é bom, mas Deus pode: Deus é poderoso.
E nós? Nós somos ignorantes, nós somos maus porque nem sempre queremos o bem, e nós somos impotentes. Agora pense bem: na mão de quem você vai querer entregar a sua vida?
Já pensou? A sua vida está nas mãos de um sujeito ignorante, mau e impotente. Já parou para pensar nisso?
A sua vida está na pior situação. Você está perdido, você está entregando a sua vida nas mãos de um sujeito ignorante, mau e impotente, quando você poderia fazer o contrário: entregar a sua vida nas mãos de Deus, que é sábio, bom e poderoso. Agora, o que acontece?
Se você é ignorante, os seus pensamentos, o seu φρόνημα, a sua mentalidade, o jeito como você enxerga não é como Deus enxerga. Deus enxerga a verdade, Deus enxerga o que é; você, ignorante, vê coisas distorcidas. Quantas e quantas vezes, por exemplo, a gente vai a um médico… Vamos supor que você tenha um médico muito bom, no qual você pode realmente confiar porque o sujeito é super-estudioso, um desses médicos que têm trinta anos de prática de medicina, nunca parou de estudar, nunca parou de se atualizar, nunca parou — o cara é o “bambambam”, ele é muito sábio.
Aí você chega lá, senta na cadeira e já chega com um diagnóstico! Foi o que aconteceu comigo outro dia. Eu fui ao médico.
Estava com uma dor no ombro, e todo o mundo dizia: “Essa é dor lombar, ou isso é bursite, é bursite, é bursite…”. Eu fui ao médico. O médico, muito experiente, me fez fazer uns movimentos e disse: “Padre, isso não é bursite de jeito nenhum; se fosse bursite, esse movimento aqui o senhor não o estaria fazendo, e o senhor o está fazendo perfeitamente.
O seu problema é outro: o seu problema está no manguito rotador”. Eu disse: “Prazer! Nem sabia que eu tinha um ‘manguito rotador’”.
O médico sabe, eu sou ignorante. Gente, eu estava tentando todo tipo de remédio para uma doença que eu não sabia qual era. Eu era ignorante, eu estava achando que era uma coisa, e era outra; agora eu sei o que tenho, agora eu posso fazer alguma coisa.
Então, isso é uma comparação boba e banal, mas é a comparação que você pode fazer com a sua vida. Quantas vezes você está batendo com a cabeça na parede porque acha que a solução da sua vida “é tal coisa, é tal coisa, é tal coisa”, ou: “não, isso é a solução, é a solução, é a solução…”. Cara, abrace a cruz aqui: “Não, isso não pode ser a solução”!
Mas como “não pode ser” a solução? Muitas vezes, abraçar a cruz é a solução de tudo! Por quê?
Porque você está gastando a sua vida batendo a cabeça numa parede que não vai virar porta nunca! Naquilo lá não vai abrir uma porta, e as pessoas fazem isso… Por quê? Porque são soberbas e acham que sabem qual é a solução.
Quanta gente, por exemplo, chega ao absurdo de brigar com Deus. Vai lá rezar e chega dizendo: “Deus, você diz que é bom. Como você é bom, se você não está dando o que eu quero?
! Eu, o grande eu; eu, o sábio eu; eu, o maravilhoso eu, que estou aqui. Deus, sente aí na carteirinha de estudante na escola, sente na mesinha e anote, Deus, que eu vou lhe ensinar do que eu preciso”.
Veja, gente, estou aqui ironizando, falando essas coisas exatamente para você entender a soberba de um sujeito que quer ensinar a Deus as coisas. São Pedro está querendo ensinar Jesus. São Pedro, aqui no Evangelho, está querendo chegar e dizer: “Jesus, a cruz não.
Vamos resolver de outro jeito. O Senhor salve a humanidade de outro jeito. O Senhor marque um dia, e vêm os discos voadores com a cavalaria intergaláctica para salvar a gente.
O Senhor faça de um jeito hollywoodiano aí, mais legal. O Senhor venha montado num cavalo branco e salve a gente de outro jeito. Cruz não, a cruz é feia, cruz dói”.
Jesus olha para Pedro e diz: “Pedro, essa sua mania humana de querer fugir da cruz é satânica”. Sim. Eu estou dizendo isso para você, católico bonzinho, por quê?
Porque quantas e quantas pessoas acham que estão “servindo” a Deus! “Não, imagine, Deus não quer que você sofra, Deus não quer que você abrace uma cruz, porque Deus é bom”. Mas você está medindo Deus conforme a sua medida.
Quem disse que Deus não está permitindo uma cruz porque exatamente essa cruz é a melhor coisa que podia acontecer na sua vida, para fazer de você uma pessoa melhor, para tirar você do seu egoísmo e salvar a sua alma? Nós temos de estar abertos, meus queridos, nós temos de estar abertos a outras possibilidades que não as nossas soluções. É isso o que o Evangelho de hoje nos ensina.
Então, vamos ver de forma bem prática. Você chega e diz: “Padre, o senhor falou, mas e aí: como eu faço? ” Bom, a primeira coisa: você quer seguir Jesus?
Faça o que Jesus está dizendo a você: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga, pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho vai salvá-la”. Transforme a sua dor em amor. “Abraçar a cruz” quer dizer isso.
Renuncie a essa ideia preconcebida que você tem de que Deus é o “deus do analgésico”, um deus que não quer sofrimento de jeito nenhum. Deus, o que Ele não quer é egoísmo de jeito nenhum; o que Ele não quer é pecado de jeito nenhum; o que Ele não quer é maldade de jeito nenhum. Mas às vezes, como um pai bondoso, Ele tem de permitir algumas coisas desagradáveis na nossa vida.
Então abrace isso, renuncie à sua ideia preconcebida, renuncie à sua mentalidade apegada às suas soluções e abrace! Abraçar a cruz é exatamente o quê (na prática, concretamente)? Abraçar a cruz é abraçar coisas que estão na sua vida, estão contrariando a sua vontade e que você vê claramente que não têm solução.
Têm solução? Se têm, então vá lá e solucione. Mas enquanto não soluciona, abrace.
Não têm solução? “Não, não têm”, então abrace. Essa é a atitude da vida.
Aquilo que contraria a sua vontade você pode abraçar e transformar em amor, dizendo: “Jesus, por amor a vós, por amor a vós eu abraço essa contrariedade; por amor a vós eu abraço essa cruz”. Então, como Pedro, ouçamos Jesus, que nos diz: “Tu não pensas como Deus, tu não pensas as coisas de Deus”, ou seja, “a sua mentalidade está apegada a um jeito humano de pensar. Renuncie a essa sua opinião, renuncie a si mesmo”.
É isso: “Abrace outra vontade, e embora essa vontade de Deus o esteja contrariado, abrace-a com amor, transformando dor em amor. Aí você vai ver que esse é o caminho da salvação, porque quem salvar a própria vida vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho vai salvá-la”. Quem está nos dizendo isso é Jesus, mas é também São Pedro, que aprendeu — aprendeu com a experiência da vida — e morreu crucificado por amor a Jesus.
Deus abençoe você. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.