Bom, chat, para a surpresa de ninguém, foi noticiado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos que a ligação entre Nicolás Maduro e o cartel de drogas Loçoles simplesmente não existe, porque o cartel de Loçoles simplesmente não existe. Então, o grande argumento central que foi utilizado pela gestão Trump para poder fazer esses ataques contra a Venezuela, que era a associação do presidente Nicolás Maduro ao narcotráfico, se mostrou falso em mais um movimento em que os Estados Unidos se utilizaram dessa tática de desinformação para poder produzir uma narrativa de legitimidade para realizar os seus ataques e para realizar a sua intervenção que agora agora está acontecendo, né, tanto com o sequestro do Maduro quanto com a operação militar. É, pois é.
Como assim? Os Estados Unidos da América mentiram. Agora eles estão dizendo que na verdade a acusação que eles realizaram era de uma cultura de corrupção e uma e um eventual envenenamento de dinheiro no governo venezuelano e que a associação direta com o tráfico de drogas não existe, né?
Essa matéria já havia sido produzida pela CNN em novembro de 2025. Então, em novembro de 2025, a CNN publicou um estudo, uma reportagem, dizendo que havia uma possibilidade do cartel que o Nicolás Maduro foi associado sequer existir. Não foi a primeira, não será a última.
E não é uma novidade que os Estados Unidos estão se utilizando desse mecanismo de desinformação, de produção de narrativas para poder criar essa esse terreno, né, esse preparo para legitimar as suas ações. E é também muito importante a gente ver que essa estratégia utilizada pelos Estados Unidos, ela tem muitas vezes eh medidas diferentes a depender de quem são aqueles que são acusados de narcotráfico. Então, vale aqui lembrar, por exemplo, que o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, foi processado por ser por supostamente ter a sua campanha presidencial financiada por grandes narcotraficantes da Colômbia.
A Colômbia, que é um país que foi historicamente governado pela direita, pela extrema direita e que sempre serviu como uma base militar de apoio muito importante dos Estados Unidos na América do Sul, tá? Só agora, mais recentemente, com a eleição do Gustavo Petro, que a Colômbia está atravessando o seu primeiro governo de esquerda na história. Vocês nunca viram o Álvaro Uribe e ser acusado dessas coisas ou ter nenhum tipo de movimentação militar nesse sentido por parte dos Estados Unidos.
Assim como no caso do antigo presidente de Honduras, que foi acusado e condenado por tráfico internacional de drogas num valor de transporte de 400 kg de cocaína e que foi perdoado pelo governo Donald Trump. e sem te tubiar, sem ter nenhum tipo de hesitação. presidente Trump, né?
e a que a gente pode acreditar a ele essa franqueza, essa honestidade, disse que ao conceder o perdão presidencial eh ao Juan Orlando Hernandes, que é o ex-presidente de Honduras condenado a 45 anos de prisão, disse que o fez porque era seu apoiador, porque estava numa organização, num partido da qual o Trump era aliado. Então isso é muito revelador porque mostra que todo esse discurso que o Trump se utilizou e que a direita brasileira, a extrema direita brasileira, organizações mesmo como o MBL, o PL e vários desses partidos se usam, nada mais é do que moralismo que serve para poder plantar essa discórdia e plantar no discurso uma armadilha para que as pessoas se indignem moralmente e assim façam valer essas as intervenções dos Estados Unidos. E aqui eu queria eh colocar também e trazer um outro aspecto que eu acho que é muito importante, porque para além do narcotráfico, a gente tem a utilização de mecanismos de comunicação, de mecanismos do discurso ideológico, né, dos aparelhos da hegemonia ideológica para poder produzir um inimigo interno.
Então, não é a primeira vez que os Estados Unidos se utilizam desse mecanismo. Durante toda a Guerra Fria, uma das grandes justificativas pelas quais os Estados Unidos vão vão usar para poder promover suas intervenções e para poder promover suas operações militares, seja com interferência em eleições, como foi na Itália, seja com apoio às ditaduras fascistas na Grécia, seja no apoio aos golpes militares na Guatemala, no Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai, no Chile, era o combate à ameaça comunista. Então, como a gente tinha ali naquele período duas forças que estavam eh disputando a hegemonia internacional, que eram os estados, que era, né, o bloco capitalista e o bloco socialista, os capitalistas sempre se utilizaram desse discurso, sempre se utilizaram dessa justificativa para poder promover doutrinas de segurança nacional e assim eh criar essa esse pânico generalizado, criar um medo unificado que pudesse dar esse se essa validação paraas suas ações.
E acontece que inclusive eh os Estados Unidos chegaram também a financiar alguns grupos para poder combater governos e organizações que eram contrárias aos seus interesses. Um dos exemplos mais emblemáticos disso é o que aconteceu no Afeganistão. No Afeganistão ali, na virada dos anos 70 para os anos 80 existia chegou a existir uma República Democrática que era alinhada com a União Soviética e que vai passar por uma tentativa de golpe interno e que vai sofrer inclusive uma tentativa de intervenção soviética no país para poder assegurar o governo que havia se consolidado naquele momento.
E os Estados Unidos vão fornecer armas, treinamento, inteligência para organizações de radistas, para organizações islâmicas radicais que tinham como princípio o combate aos comunistas e assim eh com esse apoio dos Estados Unidos implementarem eh teocracias islâmicas naqueles locais. Um dos casos mais emblemáticos, né, talvez o que a gente possa se lembrar mais imediatamente é o Talibã. O Talibã tem a sua origem associada a esse financiamento, a esse apoio, assim como diversas outras organizações que vão passar a pipocar daí, como por exemplo, a Alqaida, o Estado Islâmico mais paraa frente e várias outras que são produtos dessas intervenções.
Então, os Estados Unidos se utilizam desse tipo de narrativa, de mecanismo ideológico ao longo da história para poder criar esse pânico generalizado e criar essa indignação moral, né? Porque a partir do momento que você associa, por exemplo, o governo Nicolás Maduro ou que você associa qualquer opositor ao narcotráfico, como o Trump tem feito agora também com o governo do Gustavo Petro na Colômbia, o que você tem é um apoio praticamente incondicional, porque nessa época, né, em que estamos, o narcotráfico, essa atividade internacional promove muitas perdas, ela promove muitos problemas na realidade. de muitas pessoas, especialmente das pessoas mais pobres que acabam sendo submetidas a essa lógica.
Só que é curioso também a gente observar que os Estados Unidos, mesmo sendo o maior importador mundial de cocaína, nunca promoveu nenhum tipo de investigação interna no seu território para poder desarticular os grandes cartéis que operam lá na sua no seu país, né? Então, o Trump não tem esse mesmo tipo de movimentação, não tem esse mesmo tipo de eh vigor para promover esse essas essas investigações, para promover essas intervenções, para poder fazer, né, de fato, com que esse esquema seja desarticulado. Então, ele se vale desse sentimento, ele se vale desse discurso e isso é muito importante.
Por quê, né? Acho que até trazendo uma abordagem mais teórica, né, para poder dar uma substância para vocês entenderem um pouco melhor o não falecido Zizek, né, ele não morreu de verdade, mas falecido porque começou a defender umas coisas horríveis. O Zizek na obra dele, né, no filme dele, O guia pervertido da ideologia, vai mostrar pra gente que uma das funções da ideologia é de conseguir simplificar o máximo possível todas as contradições em torno de um só objeto.
Então o que que ele quer dizer com isso? Ele quer dizer que a classe dominante, né, e a classe dominante que está no poder vai buscar transformar todos os problemas que são oriundos da sociedade em que se vive em uma coisa só para poder facilitar a compreensão geral. E assim, com essa compreensão geral unificada e mirada em um só problema, você vai ter, portanto, o esforço direcionado para acabar com aquele problema.
Como exemplo máximo, ele fala do nazi-fascismo. O nazismo se utilizou muito dessa retórica para não explicar as contradições produzidas pelo capitalismo, as contradições produzidas pela forma de como as relações de produção capitalistas existem, que levam ao empobrecimento da classe trabalhadora, ao desemprego, que levam à guerra, etc, etc. o regime nazifascista vai se utilizar justamente do discurso, né, e que não foram eles que criaram, mas que era muito forte, que eles vão incentivar de maneira muito acelerada, muito intensa, que é o antissemitismo, né, que é o discurso contra os judeus.
E inclusive, né, isso aqui é importante, fazendo uma avaliação, né, com peças de propaganda, com narrativas, com jornais, com peças ideológicas, associando o povo judeu a uma conspiração judaico-bolchevique, né? Vale lembrar aí que muitos comunistas nessa época eram associados a judeus, muitos inclusive eram de origens judaicas, né, até na própria União Soviética. Então, a criação desse grande monstro, né, que o Zizek no filme dele vai retratar como o tubarão, né, que é esse grande medo que unifica todas as contradições, que unifica tudo e se transforma num inimigo único, é aquilo que vai servir para a classe dominante, transformar a opinião pública e para que ela veja aquele agente, naquele objeto, naquele setor, o problema e que, portanto, eliminando aquele problema, combatendo tendo aquele problema, todas as contradições e todas as quereras, todas as questões relacionadas ao mundo estariam magicamente resolvidas.
Essa tática é uma tática que foi utilizada, como eu comentei, na época da Guerra Fria com relação aos comunistas, mas também foi uma tática utilizada posteriormente, porque quando o muro de Berlim caiu e quando a União Soviética foi dissolvida na contra-revolução de 1991, não dava mais para se falar que os comunistas eram os grandes inimigos. Esse discurso ele gravitacionou para um outro lugar. E a partir dos anos 90, dos anos 2000 e até ali a década de 2010, o novo grande inimigo, o elo unificador de todos os medos, se tornou o terrorismo, se tornou a guerra ao terror.
Tanto que a gente tem nessa época, entre os anos 90 e os anos 2010, inúmeras produções de Hollywood que buscaram fomentar e buscaram e aprofundar essa compreensão. filmes como Guerra ao Terror, Soldado Anônimo, eh Falcão Negro, eh, Falcão Negro em Res, não é? Falcão negro em perigo, aquele do helicóptero que cai na Somália.
Enfim, vai se produzir uma série de eh filmes de produções culturais que vão buscar incentivar a opinião pública para o apoio à guerra que os Estados Unidos realizavam, as intervenções que eles realizaram em todo esse período. Lá no vídeo que eu comentei, né, no vídeo que eu postei sobre como os Estados Unidos ascenderam como potência unipolar, eu falo muito desses conflitos, das intervenções que ele fizer, eles fizeram no Haiti, na Somália, no Kuwait, no Iraque, no Afeganistão. Então esse o terrorismo, né, principalmente o terrorismo islâmico, vai se transformar nessa nesse grande centro de gravidade, por onde todas as produções culturais, todo o discurso dominante vai olhar, vai se centrar e vai entender como seu único inimigo.
Então esse tipo de movimento ele é muito importante e muito fundamental porque ele ajuda a dissipar, a esconder todas as contradições, como o fato, por exemplo, de que quem armou e treinou esses grupos para combater os comunistas lá nos anos 70 e nos anos 80, foram os próprios Estados Unidos. Inclusive, uma recomendação de filme aí para vocês assistirem, filme que não é muito bom não, mas que no final tem uma parte curiosa que é Rambo 3, né? O Rambo 3, ele termina o filme fazendo um agradecimento aos bravos guerreiros murragidins, que eram os grupos financiados pelos Estados Unidos para combater os totalitários comunistas do Afeganistão.
E agora, depois que os Estados Unidos conseguiram consolidar a sua posição nessa região tanto do Magreb, do norte da África e no Oriente Médio, depois do período da primavera árabe, da guerra do Iraque, depois que os Estados Unidos destruíram a Líbia, destruíram o Iraque, conseguiram destruir a Síria, agora o inimigo se volta para um outro polo, se volta para um outro olhar. E esse olhar é justamente sobre o narcotráfico. Então agora, diferentemente do que foi na época do comunismo e do que foi na época do terrorismo, o governo Trump precisa investir pesadamente nessa mensagem ideológica e que inclusive e reforça o tempo todo a necessidade de associar narcotraficantes a terroristas.
Porque quando você associa o narcotráfico, a atividade do narcotráfico ao terrorismo, isso prevê a possibilidade de intervenção militar dos Estados Unidos, de outros países em territórios que não são seus. Não é à toa que no ano passado essa foi uma das principais pautas da direita, uma das principais pautas da extrema direita, porque isso ajudaria a viabilizar, a pavimentar um caminho para a intervenção militar dos Estados Unidos no território americano. E mais uma vez, né, vale lembrar que, ah, então você tá defendendo o narcotráfico, não, de forma nenhuma.
A grande questão é que toda essa moralidade, suposta moralidade que os Estados Unidos se valem para poder fazer essas intervenções e para poder fazer esses movimentos, não são soluções concretas e não são soluções de fato efetivas. Porque vale lembrar, quem utilizou o narcotráfico para financiar mercenários na Nicarágua depois de 1979, foi o governo Ronald Reagan que conseguiu utilizar o tráfico internacional de cocaína para financiar os contras. A gente tem a Colômbia sendo governada por partidos de direita e de extrema direita em todo o século XX, um grande polo produtor e exportador de cocaína aliado dos Estados Unidos e que nunca se mexeu um dedo para alterar essa realidade.
Então você tem essas linhas que falam sobre isso, sobre como o governo dos Estados Unidos facilitou a entrada de drogas como craque, como a heroína, como a cocaína no seu território para prejudicar as camadas mais marginalizadas dos trabalhadores negros, principalmente das áreas periféricas, que vão levar a um grande conflito, a uma guerra contra a pobreza, a a guerra contra as drogas, que vai levar a política de encarceramento em massa, que vai levar a política das privatizações de presídios e por aí vai e por aí vai. Então, mais uma vez, os Estados Unidos, para surpresa de ninguém, se utilizaram de um discurso de criar um inimigo, criar um grande espantalho para poder legitimar as suas ações e agora simplesmente lavam suas mãos, simplesmente dizem que o cartel de Lossoles não existia, que o Maduro não tinha relação com isso e que nesse momento agora ele está sendo julgado em um tribunal de Nova York por crimes que ele nunca cometeu. E por que os Estados Unidos fazem isso?
Porque com a maior potência militar do mundo e como o atual estado de império decadente que eles ocupam, eles terão que fazer todos os movimentos possíveis para manter a sua hegemonia. E vale ficar ligado, porque mesmo com o Maduro tendo sido sequestrado e com essa intervenção dos Estados Unidos tendo sido feita no território nesses tempos mais recentes, ainda existe a possibilidade de que a Venezuela seja atacada novamente e que esses interesses de que esse movimento imperialista dos Estados Unidos se desdobre para outras regiões, como a Colômbia, o México e eventualmente até o Brasil. Vale avaliar, vale a gente ficar de olho para ver se o Trump vai ter todo o apoio interno que ele imaginou ter.
Porque a princípio, eu estou dizendo a princípio, tô gravando esse vídeo no dia 6 de janeiro, às 5:20 da tarde, não me parece que ele vai ter o apoio que ele esperava ter. Inclusive por a situação da classe trabalhadora interna nos Estados Unidos em relação à inflação, ao poder de compra, em relação à epidemia de fentanil continua muito grave. E vale também lembrar para poder finalizar esse vídeo, para finalizar essa análise, que o Trump fez isso, promoveu esse estardalhaço todo na mesma época em que os arquivos Epstein começaram a ser liberados, os arquivos que supostamente associam a sua pessoa ao maior escândalo, ao maior caso de pedofilia da história do mundo e que a gente já viu em várias fotos, em várias reportagens, em várias matérias, a presença do laranjão com o seu amigo Jeffrey Epstein.
Então, esse aqui é um resumo da ópera sobre esses últimos acontecimentos. Também um resumo sobre como esse movimento ideológico narrativo do imperialismo opera para poder produzir esse inimigo em comum e a sua eficácia. Porque a gente vê que esse discurso colou muito, especialmente por figuras como Nicolas Ferreira, Tarcío de Freitas, Romeu Zema, Ratinho Júnior estão aí defendendo que se façam operações militares similares no Brasil para poder combater esse suposto inimigo.
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Não acabou a live, só terminou o corte. M.