[Música] O Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Divino menino Jesus, Nossa Senhora do Rosário, São José, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amém. Queiram sentar-se? Quando o espírito imundo saiu de um homem, anda errando por lugares áridos à busca de repouso e não o encontra.
Então diz: "Voltarei para minha casa de onde saí". Há duas semanas nós fizemos uma comparação entre o pecado da impureza e os sacramentos de nosso Senhor, como se esse pecado fosse um antisacramento. Nós sabemos que há três sacramentos que imprimem caráter, a saber, o batismo, a crisma e a ordem.
O caráter é um selo que nosso Senhor imprime em nossa alma. O caráter é um sinal que marca para sempre a alma no momento que ela recebe esse sacramento. Esse selo, esse sinal que é o caráter serve para capacitar a alma para a graça.
Sendo assim: "O caráter impresso pelo batismo nos torna capazes de receber as graças dos demais sacramentos. Em seguida, o caráter impresso pela crisma nos torna capazes de testemunhar a fé como soldados de Cristo e receber com ainda mais perfeição as graças dos demais sacramentos. Por fim, o caráter impresso pela ordem torna o sacerdote capaz de conferir as graças dos sacramentos aos demais batizados.
Em resumo, caros fiéis, o caráter é um sinal impresso na alma, que é, ao mesmo tempo, tanto um sinal, um selo, uma marca invisível do sacramento recebido, quanto uma potência espiritual para se receber as demais graças. Ora, diz o antigo jesuíta que o pecado da impureza se parece com o caráter nesses dois aspectos. Ou seja, a impureza é tanto um sinal de condenação quanto um princípio eficaz da própria condenação.
Sendo assim, há duas semanas nós vimos o primeiro aspecto, ou seja, que a impureza é um sinal de condenação na medida que ela torna a condenação mais provável. Assim como ela torna a alma do impuro já nesta vida uma imagem do próprio inferno, por causa da semelhança da proximidade de estado de alma entre o impuro e os condenados do inferno. Hoje nos resta considerar o segundo aspecto, ou seja, que a impureza é um princípio eficaz de condenação.
Não, apenas um simples sinal de condenação. Ora, se a impureza é um princípio eficaz de condenação, isso significa que ela pode conduzir uma alma à impenitência final, sendo que a impenitência final é a porta de entrada da condenação. No inferno, os condenados já não podem mais fazer penitência pelos seus pecados.
Ou seja, eles não podem mais se arrepender. Eles estão confirmados para sempre em sua culpa e em sua pena. Pois a impureza conduz progressivamente uma alma à impenitência final, que é a porta de entrada da condenação.
Na verdade, não há pecado mais oposto à penitência do que a impureza. Trata-se de um pecado muito difícil de se curar em razão dessa oposição tão grande ao remédio do pecado, que é a penitência. É por causa da oposição tão radical entre impureza e penitência, que Tertuliano, padre da igreja do segundo século, Tertuliano não acreditava que houvesse perdão para os pecados de adultério e fornicação após o batismo.
Quando o Papa Zeferino decretou que tais pecados poderiam ser perdoados, após uma rigorosa penitência, Tertuliano não aceitou a palavra do Papa e se revoltou contra a sua autoridade. Afinal, segundo o Tertuliano, os pecados contra a pureza eram menos excusáveis que a apostasia daqueles que recuavam e negavam o martírio naquele tempo de perseguições romanas. O argumento de Tertuliano era simples, enquanto que os apóstatas eram cristãos que, por temor das torturas dos romanos, preferiram renunciar, preferiram negar a fé em Jesus Cristo do que sofrer os tremendos suplícios do martírio, os adúlteros e fornicadores, por sua vez, não tinham nenhuma desculpa, nenhuma justificativa para o seu pecado, pois ultrajaram a pessoa de Jesus Cristo, não na tortura, não suplício, não no sofrimento, mas em face dos deleites da carne, em face das delícias do pecado.
Uns ultrajavam Jesus Cristo em face tortura, outros em face dos deleites. Por esse motivo, Tertuliano não aceitou o perdão concedido, reconhecido pelo Papa a tais pecados, julgando que a impureza era um pecado injustificável e imperdoável. Mas o principal argumento de Tertuliano na sua revolta contra o Papa e o magistério da Igreja era outro.
Para Tertuliano era inadmissível que um batizado que foi adotado por Deus, que foi purificado dos seus pecados, que foi lavado dos seus crimes, que foi santificado por nosso Senhor, enfim, para Tertuliano era inadmissível que um batizado deshonrasse, manchasse a sua alma com a imundícia dos pecados de impureza. Sendo assim, para Tertuliano, os adúlteros e fornicadores deveriam ser abandonados ao próprio pecado, pois admiti-los novamente ao perdão da igreja seria o mesmo que desprezar o alto preço da nossa redenção, desprezar a paixão de Jesus Cristo, que tanto sofreu para que o homem fosse libertado definitivamente da escravidão do pecado. Em outras palavras, para Tertuliano, perdoar o pecado de impureza após o batismo seria o mesmo que lavar com o preciosíssimo sangue de nosso Senhor uma alma que já foi lavada, que já foi purificada, que já foi santificada e mesmo assim retornou à imundícia que vivia antes do batismo.
Então, para Tertuliano era inadmissível lavar novamente uma alma que já deveria ter renunciado definitivamente aos pecados de impureza após o batismo. E isso seria o mesmo que desprezar o preciosíssimo sangue de nosso Senhor. Ora, é certo que esse zelo excessivo contra o pecado de impureza fez Tertuliano cair em heresia.
Porém, esse zelo excessivo, esse zelo de justiça que nega a misericórdia, não deixa de ser um sinal do estado de espírito dos cristãos nos primeiros séculos. Ou seja, naquele tempo, naqueles séculos, esses pecados eram considerados tão graves a ponto de um padre da igreja julgar que eles sequer mereciam perdão, a ponto de um papa decretar explicitamente que eles poderiam ser perdoados, desde que o adúltero ou fornicador se submetesse a uma rigorosa penitência. Na verdade, caros fiéis, não há pecado que nosso Senhor não possa perdoar na sua infinita misericórdia.
A impureza tem perdão. A impureza tem remissão como todo e qualquer pecado. Porém, é o impuro que costuma se excluir ele próprio da infinita misericórdia de nosso Senhor.
Em outras palavras, o pecado tem perdão, mas é o pecador que muitas vezes se exclui ele próprio desse perdão, permanecendo na impenitência por culpa própria, por vontade própria. Nosso antigo pregador jesuíta cita três motivos pelos quais o impuro se exclui ele próprio da divina misericórdia. Em primeiro lugar, nenhum outro pecado expõe mais o pecador às recaídas.
E isso nosso Senhor afirma ele mesmo quando trata do demônio imundo. Pois o demônio diz no Evangelho: "Voltarei para minha casa de onde saí". Em outras palavras, mesmo depois de desterrado, o demônio imundo ainda se considera proprietário daquela alma, pois presume que se tentá-la mais uma vez e outra vez e outra vez, é uma questão de tempo para ter a sua casa de volta.
E uma vez que ele retorna a essa alma com outros sete espíritos, diz o evangelho que o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro. Em seguida, o segundo motivo pelo qual o impuro se exclui ele próprio da misericórdia divina é que nenhum outro pecado expõe tanto o pecador ao desespero do que a impureza. São João Crisóstomo ensina que o impuro se desespera da sua conversão porque duvida do seu arrependimento, temendo cometer um sacrilégio contra a confissão, temendo cometer uma mentira ao Espírito Santo, o que muitas vezes o afasta do sacramento por não estar seguro do seu arrependimento.
Além disso, o impuro se desespera da sua perseverança, pois ele teme as recaídas, sobretudo após ter tentado tantas e tantas vezes e recaído tantas e tantas vezes. Mas o pior, segundo São João Crisóstomo, é que o impuro se desespera do próprio Deus por ter abusado da sua misericórdia. e da sua paciência tantas e tantas vezes, temendo não ser mais digno de perdão.
E por fim, o impuro se desespera de si mesmo, porque após ter pecado tantas e tantas vezes, ele se considera incapaz de amar o bem, incapaz de querer a sua santificação. Ele vê um abismo entre a imundícia da sua alma e a santidade infinita de Deus. E assim cai no desespero.
Em resumo, desespero da própria conversão, desespero da perseverança, desespero de Deus e de si mesmo. Em seguida, o terceiro e último motivo pelo qual o impuro se exclui ele próprio da misericórdia divina é que nenhum outro pecado mantém o pecador tão preso ao hábito de pecar. Na verdade, não faltam circunstâncias para facilitar o hábito da impureza.
As ocasiões de pecado são mais frequentes. A inclinação da nossa natureza ferida é mais violenta nessa matéria. As impressões que o pecado deixa em nossa imaginação e memória são mais fortes.
Portanto, mesmo quando uma alma quer abandonar o pecado, se ela escolhe não romper com as causas do pecado e com as ocasiões perigosas de pecado, nesse caso, o hábito de pecar não é plenamente vencido e desenraizado. E assim a impureza retorna com certa facilidade nessa aula. É por esse motivo, é por causa do apego às causas do pecado ou então às ocasiões perigosas que muitas vezes o impuro não procura ajustar a sua vida às exigências do sacramento da confissão.
Pelo contrário, o impuro procura ajustar o sacramento da confissão aos seus apegos desordenados e perigosos. Por exemplo, quantas vezes o impuro se acusa superficialmente no sacramento da confissão, temendo que o confessor compreenda, por exemplo, qual a ocasião perigosa da queda? Ou então com que frequência ele se expõe à aquela ocasião perigosa?
Outro exemplo, quantas vezes o impuro procura se justificar na acusação do pecado, na tentativa de atenuar a sua culpa, atribuindo o pecado mais à sua fraqueza do que a sua malícia. Outro exemplo, quantas vezes o impuro muda de confessor quando isso lhe convém, temendo que um mesmo confessor use maior rigor na sua exortação ou então de maior severidade na penitência, procurando então um outro confessor, de preferência um confessor que diga pouco ou que não diga diga nada, que não faça perguntas sobre a quantidade ou a espécie dos pecados, que dê uma penitência leve, enfim, um confessor que não combata o pecado na alma do penitente, que se contenta de absolver e nada mais. E às vezes se quer penitência dá ao penitente, pois muitas vezes o impuro não procura ajustar a sua vida às exigências do sacramento da confissão.
O que ele procura é ajustar o sacramento ao seu vício e assim ele poderá confessar pouco, arrepender-se pouco, penitenciar-se pouco e tomar poucos propósitos ou então propósitos muito vagos que não mudam nada ou quase nada em sua vida. E tudo isso para não ter que renunciar às causas do pecado ou então às ocasiões perigosas de pecado para não ter que mortificar com mais violência, com mais determinação as más inclinações da nossa natureza ferida para não ter que fazer uma penitência proporcional pelos próprios pecados e assim por diante. Portanto, caros fiéis, a impureza é um princípio eficaz de condenação, na medida que conduz o impuro progressivamente à impenitência final, que é a porta de entrada da condenação.
Esse pecado não é apenas um sinal de condenação. Ele não torna apenas a condenação mais provável, mas ele conduz progressivamente a alma a condenação. Ele é também um princípio eficaz de condenação.
Não há pecado que mais expõe o pecador às recaídas. Não há pecado que mais expõe o pecador ao desespero. Não há pecado que mais mantém o pecador no hábito de pecar.
Esse pecado possui perdão, pois nosso Senhor pode perdoar todo e qualquer pecado. Porém, em razão da gravidade e da malícia desse pecado, é o pecador que muitas vezes se exclui ele próprio da misericórdia de Deus, fugindo da confissão, fugindo da penitência, permanecendo na impenitência e assim preparando dia após dia a própria condenação. Não há como vencer esse pecado senão tomando a determinação séria, firme e sólida de vencê-lo definitivamente.
É por esse motivo que estamos nesse tempo especial da graça que é a quaresma para fazer todos os esforços possíveis e necessários, a fim de erradicar esse vício e desterrar o demônio imundo da nossa alma, sempre com o auxílio da graça, pois em última instância nossos esforços não passam de uma cooperação com a graça. Em última instância, é nosso Senhor que erradicará esse vício e desterrará o demônio imundo da nossa alma. Então, nenhum esforço seria eficaz sem o auxílio da graça.
Enquanto tomamos, enquanto não tomamos a firme resolução de combater o pecado, assim como as causas do pecado e as ocasiões perigosas do pecado, esse vício sempre retorna. Pois em nada adianta odiar o pecado e não combater as causas do pecado e as ocasiões perigosas do pecado. Portanto, caros fiéis, não sejamos ingênuos, não sejamos inconsequentes, não sejamos infantis, imaturos em nossa vida espiritual.
Nós tomamos tantas precauções humanas para evitar o roubo ou o furto dos nossos bens materiais e não usamos de prudência sobrenatural para proteger o nosso maior tesouro, que é a graça santificante. Deixamos com facilidade o demônio introduzir o ídolo do pecado no templo da nossa alma. Apoiamos-nos muitas vezes na misericórdia de Deus para continuar pecando, sabendo que depois poderemos nos confessar.
Pecamos com ainda mais ardor antes da confissão para satisfazer ainda mais o vício antes de ter que abandoná-lo. Enfim, caros fiéis, nós somos a vergonha da igreja por causa da licença que demos a nós mesmos. para pecar tanto, com tanta malícia, com tanta presunção da misericórdia, ou então com tanta indiferença pela própria salvação.
Os mártires foram fiéis e perseveraram diante dos tremendos suplícios dos seus algozes. Nós fomos infiéis e ultrajamos a nosso Senhor diante de uma simples sugestão pecaminosa de deleite. Cabe-nos aquela sentença de nosso Senhor mais do que aos demais cristãos.
Se não fizerdes penit, todos perecereis. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
[Música] amca [Música] Amen.