Nativas, compartilhar é senhor. Por exemplo, continuar provendo Fernanda Maia, que agora vai contar um pouco da entrada dela no curso de Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Isso não quero nada com você.
A Faculdade de Letras foi uma coisa muito boa, foi muito legal, me fez muito bem. Porque eu já era uma leitora compulsiva, eu já era uma leitora, falava: "preciso ler muito". Dessa forma, eu leio muita coisa e eu acho que entrei na Faculdade de Letras para estudar com os dotes, com o professor Tortello, com Ana Maria, com Virgínia, com Marisa, pelo Gene, com tantas, tantas pessoas incríveis e tantos mestres.
Foi muito, muito bom, né? Eles não só me trouxeram coisas novas, abriram horizontes. Aprendi muito mais como organizaram muito do que eu já tinha lido, né?
Então, tudo aquilo que eu já tinha lido, eu me lembro muito das aulas de Teoria da Literatura, que diziam: "olha, isso aqui é a narrativa, isso estava em tal lugar, é isso que eu estou vendo". Então, as coisas que eu sabia tecnicamente passaram a ter um nome técnico, passaram a ter um conceito. Quer dizer que isso se repete.
Então, esse tipo de organização do mundo era quase como se o mundo estivesse se organizando, entendendo como é que o que é, muito pouco, é novo sob o sol, né? Alguém já disse: "não há nada de novo sob o sol". E o Tom Zé disse também que tudo se encontra no passado.
O novo se encontra no passado. Se você quer procurar um novo, olhe para o passado. Então, eu acho que isso foi organizando um pouco uma trajetória de leitura, de conhecimento de mundo mesmo.
Porque a leitura, para mim, sempre foi um jeito de conhecer o mundo. A gente, que foi criado no interior, sendo mulher, tendo nascido na década de 60, a gente não tinha tantas opções assim, né? A gente tinha um escopo de vida, assim, classe média, por exemplo.
Para gente, muito dinheiro. . .
Todo o dinheiro que meus pais ganhavam era pra nossa educação. A gente estudava piano, mas não tenho lembrança de ter ido um dia sair para comer uma pizza com meus pais, minha mãe, meu pai, né? Não tinha dinheiro para passar férias.
. . Não era "vamos todos passar férias na praia", não tinha isso.
Era "vamos todos ter aula de reforço escolar, no hotel de piano, montar o inglês", no dia 7 era "onde é"? Então, a Francisco, que escolhi, né? A gente tinha, então, esse capital doméstico direcionado para a educação, né?
E essas leituras eram um jeito de conhecer o mundo no universo em que a gente tinha um escopo um pouco limitado ainda, né? Hoje a gente tem um mundo, um computador, uma tela de computador. Você entra em contato com tudo.
As possibilidades de viajar são muito maiores, as possibilidades de locomoção são muito maiores, né? Enfim, a Faculdade de Letras me levou a me aprofundar na literatura e a gostar mais do conhecimento sistematizado de literatura. E aí, a vontade de fazer música se uniu à vontade de fazer alguma coisa por literatura.
Adorava literatura inglesa porque era onde eu gostava mais da parte teatral da literatura dramática. E sempre isso, antes de começar a fazer teatro, mesmo do teatro já estava ali. Então, eu li muita coisa de Shakespeare.
Eu gostava muito da literatura dramática. Aí, fui, quando terminei a faculdade, falei: "bom, agora vou fazer música, fazer música". E aí, os cursos de música, a faculdade de música, só tinha em São Paulo.
Eu não sei por quê, para minha família, São Paulo era, sei lá, uma coisa muito. . .
São Paulo, uma coisa muito perigosa. Acho que eles achavam que São Paulo. .
. vencem o assalto, não sei. E aí, como meu pai é paraibano, tinha meus parentes no Nordeste.
Mas que tal se você fizer lá? Não sei como que isso aparecia na cabeça dela. Pronto.
Mas o fato é que tinha uma universidade federal incrível, a UFPB. Fiz vestibular para música, entrei no mestrado, não cheguei a defender sua reputação, mas fiz todos os créditos. Não cheguei a defender, até porque era um problema por uma imaturidade.
Eu tinha 20 anos, né? Fazer as duas coisas e estar no Nordeste me abriu um outro mundo de possibilidades de conhecimento, entendimento de mundo, de relação com o outro, né? Eu entrei em contato com uma cultura que preserva a si mesma, sua identidade.
Entrei em contato com uma produção cultural absolutamente profícua, exuberante, né? E que tem orgulho de conhecer a própria história, e de quem tem orgulho de cultivar as próprias raízes. E que tem orgulho, que a gente aqui em São Paulo, a gente muito.
. . a gente, ponto como cosmopolita, mas também tem um lado ruim de ser.
Colocou uma política de. . .
mas a gente não se preserva, né? A gente não preserva a nossa história, a gente não preserva a nossa raiz, a gente não preserva sequer os nossos prédios públicos. A gente não preserva sequer os prédios históricos.
Nós temos muitos exemplos em Sorocaba mesmo de prédios incríveis que foram derrubados, né? Enfim, o Mosteiro de São Bento, né? A gente não tem esse cuidado.
No Nordeste, essa visão é diferente. As pessoas se agarram à própria identidade. Então, eu acho que lá me aprofundei no desejo de falar de Brasil, né?
De conhecer uma cultura, de entender que as coisas não acontecem só. . .
eu não acho que São Paulo é tudo, é entender que havia uma região que, sim, recebeu muito menos do poder federal do que a gente em São Paulo. Foi interessantíssimo, conheci grandes artistas lá, grandes artistas, pessoas importantíssimas, né? Tive uma formação musical lá muito.
. . Muito legal!
Muito influenciada, porque no conservatório, naquela época só se estudava música erudita; só se estudava música popular na escola de música, uma coisa bastante recente. Ainda é da década de 90. Na escola de música Carlos de Campos, João Batista Janell, de Sorocaba, a vida não é no conservatório.
Carlos de Campos, o lado de bater nas escolas de música, faz testes e dinâmica. Então, não deixava também de estudar música erudita, mas essa música erudita feita no Nordeste por compositores nordestinos, já Siqueira, mas não. Ela bebia na tradição popular.
Então, eu tive contato com o movimento armorial, com coisas interessantíssimas, de uma sofisticação incrível, sabe? Com a poesia nordestina, com a iconografia nordestina, que é de uma sofisticação muito grande, muito grande. E mesmo os mais antigos, na conversa com o público, eram pessoas muito ilustradas, pessoas que tinham, assim, sofisticação da linguagem.
A pessoa mais simples do Nordeste tem uma poesia ao falar. Haja visto o Patativa do Assaré, com certeza. Tem uma pena, assino, prova dessa também se apresenta.
Não importa: o gato é Fátima Bernardes! Já convocar os livros foi muito; ninguém, o próprio pensa, o próprio BC, não conheço quem é. Se o próprio trabalho, olha, que começa a partir de Saleh.
E hoje, toda sexta-feira, normalmente ele fala. Foi uma temporada que ele criou durante a manhã. Olha, tem um menino, tem um menino que foi apresentado em Sorocaba, já é um amigo meu chamado “Dinheiro Pernambucano”.
Ele tem um espetáculo maravilhoso chamado “Leitores do Brasil”. Quando ele voltar a apresentar, vou te falar, porque fala sobre Paulo Freire e letramento. Você vai gostar muito de te conhecer depois.
Então, é bom que você veio, porque essa parte que a gente dita, né?