Antes de você ir para esse vídeo, deixa eu te contar uma coisa. Nessa quarta-feira, às 7 da noite, 19 horas, a gente vai ter live aqui no canal Nós da Questão. Então, bota despertador, bota aviso em todo canto, porque você me conhece, sabe que eu sou pontual.
Então, vamos se encontrar quarta-feira às 19 horas, 7 horas da noite aqui no canal Nós da Questão no YouTube. Tô esperando você. Agora vai pro vídeo.
Respondo uma coisa para mim. Você por acaso já olhou pros céus assim chorando? Olhou assim e disse: "Por que comigo?
Por que eu faço tudo certo? Eu pago minhas contas em dia. Eu tento ser uma pessoa boa e tem tanta gente ruim nesse mundo que tá por aí.
feliz da vida e porque é que eu estou passando por isso que eu tô passando agora. E sabe por isso já passou na sua cabeça em algum momento? Porque você já passou por alguma traição, por alguma perda financeira, por alguma morte de alguém que você amava, por alguma injustiça que você viveu, por alguma violência, por alguma coisa dessas já passou.
Você mora na terra, então você já passou. E se você passou, você olhou e disse: "Não é justo. A vida não é justa".
E se você já se bateu com isso, você tá se vendo diante de uma das grandes questões da humanidade, porque a sua mente tá buscando encontrar ordem e justiça, onde parece só haver o caos. E hoje a gente vai usar a psicologia e a filosofia para tentar tirar esse peso das suas costas e para você começar a entender porque é que coisas ruins acontecem com pessoas boas. Talvez você seja uma pessoa boa mesmo.
E talvez mesmo você sendo bom ou boa, aconteçam coisas ruins na sua vida. Quer descobrir? Eu sou Marcos Lacerda, psicólogo.
E esse é mais um nós da questão. Vamos juntos. Há mais de 2000 anos, um filósofo grego chamado Epicuro, ele formulou um problema que até hoje tira o sono de muitos teólogos, psicólogos e filósofos, porque querem uma resposta para esse problema.
Bom, tira o sono deles, né? O meu não tira não, porque eu tenho uma resposta pra questão de Epicuro. Olha que arrogância eu dizer que eu tenho, né?
Bom, eu tenho a minha leitura. Dê licença, vamos ouvindo. Mas vamos ver o que é que Epicuro disse que causou tanto tumulto na vida do povo e que até hoje roda essa história de Apicuro.
É o que talvez você já tenha ouvido falar, o famoso problema do mal. épicuro, devia estar desocupado, olhou pro sofrimento do mundo, paraas injustiças da vida e aí ele pôs uma questão importante a respeito de Deus ou do universo, se você quiser. Na verdade, uma reflexão lógica sobre a ideia de um Deus todo poderoso e infinitamente bom.
A reflexão de Epicuro foi a seguinte: se Deus vir o mal e quiser impedir este mal e não puder, então ele não é todopoderoso. E para ser Deus tem que ser todo poderoso. Se ele consegue impedir o mal, mas ele não faz porque não quer, então ele é mau, ele não é bom.
E se ele não é bom, ele não é um Deus bondoso. E se ele consegue impedir o mal e ele quer impedir o mal, de onde é que vem o mal, afinal de contas? E por outra, se ele não quer e não consegue, por que que a gente deve chamar ele de Deus?
E não, eu não tô aqui para discutir religião com você. A sua fé é sagrada. Até porque daqui pro final desse vídeo você vai ver que na minha compreensão de Epicuro, ele não desestabiliza a ideia da existência de Deus.
Porque muita gente usa o pensamento dele para desestabilizar, né, essa ideia. Não, bobagem. Tem outra leitura que é possível.
Não, mas eu não tô aqui para discutir religião com você. Vamos adiante. O que eu quero analisar aqui com você é o impacto psicológico desse paradoxo que Epicuro coloca, porque ele coloca realmente uma contradição que dá pra gente parar para pensar, né?
É, não é à toa. Era um filósofo grego, a gente tem que pensar sobre. E a primeira questão é a seguinte, sabe por que esse paradoxo depicuro machuca tanto?
Porque o nosso cérebro ele detesta o caos, ele quer ordem. Ele precisa ordenar as coisas matematicamente, de preferência. E aí a gente sofre por conta disso do que a psicologia francesa e a norte-americana também chama da falácia do mundo justo, da mentira do mundo justo.
Porque veja bem, desde criança a gente ouve histórias aonde o mocinho sofre, apanha, mas no final ele vence e o vilão é castigado. A justiça se faz. Até Davi Golias matou lá o gigante com uma pedra no meio da testa.
inteligente, né? Eu não teria pensado diante de um gigante em jogar-lhe uma pedra no meio da testa. Nada mais óbvio, mas enfim, não importa.
O fato é, você já ouviu histórias onde o mundo é justo e o bem vence o mal e espanto o temporal? Se você for velho, você vai pegar essa referência. A gente cresce acreditando que a vida é uma equação matemática.
Ação boa igual a recompensa. Ação ruim igual a castigo. A gente vive ouvindo isso.
O bem sempre vence o mal. No final, o bem sempre triunfa. Para bebê.
Sim. Para porque não é bem assim não, tá? Faltou uma unha para Hitler ganhar a Segunda Guerra.
Na verdade, Hitler só não ganhou a Segunda Guerra porque ele traiu a Rússia. Ele fez pacto com a Rússia, ele não sustentava pacto que ele fazia com ninguém, né? E ele perdeu a guerra só porque ele traiu a Rússia.
E se ele não tivesse traído, eu hoje estaria falando aqui em alemão. Não, eu não estaria. Eu não estaria.
Eu estaria morto porque eu não sou ariano. Bom, que bobagem imaginar que existe alguma raça pura no Brasil. Então, tenha dó.
Pois é. Então não é assim, Hitler perdeu porque era mal, não. Ele perdeu só porque ele foi arrogante e traiu a Rússia.
Então nem sempre o bem vence o mal, tá? E quando a gente olha pra vida real, a vida real chega já assim, dando uma voadora no pescoço da gente, né? Eu não sei tua vida, mas eu levo umas voadora boa.
Por exemplo, isso é uma coisa muito ruim de ver. Ah, crianças muito novas, muito pequenas, com câncer. É uma coisa muito ruim de ver isso.
Ou então uma família de trabalhadores, uma família esforçada, perde tudo no enchente, né, por exemplo, ou então um golpista enriquece, vira dono de um banco, né? Enquanto você que trabalha 12 horas mal consegue pagar o aluguel. Ah, e aí eu abro um parênteses religioso aqui, ainda que você coloque a explicação espírita, o paradoxo de apicuro se mantém, tá?
Ainda que você diga: "Ah, mas é de outras vidas, tá resgatando, vai aprender com isso, tem que passar, tem que pagar é o karma". O paradoxo se mantém. Porque?
Por que é que Deus não ensina de uma vez? Porque é que simplesmente se ele pode tudo já devia me fazer sabendo. Eu não precisava, né, passar pelo aprendizado, né?
Não, não. O paradoxo se mantém. Ainda que eu coloque a explicação espírita, o paradoxo se mantém, porque Deus já podia ter feito pronto.
Não precisava esse negócio de aprontando, não. Mas segure lá, daqui pro final você vai ver que eu não desligo religião nenhuma. E aí é exatamente por tudo isso e por a gente ter essa crença, né, nessa mentira do mundo justo, que quando a desgraça bate na porta da gente, a cabeça da gente entra em colapso, dá um verdadeiro parafuso na cabeça da gente, porque o seu cérebro não consegue articular a ideia de que lhe ensinaram de que o mundo é justo e bom e que o bem sempre vence o mal.
Ele não consegue articular isso com o fato de você tá vivendo uma injustiça. Como é possível? Isso não não se articula.
E sabe qual é a armadilha terrível que o cérebro da gente cria para tentar resolver esse paradoxo? A culpa. Seja de outras vidas, seja dessas, não importa.
A culpa é minha. Tem que ter um culpado e o culpado sou eu. Porque o que não pode ter é a desorganização.
O que não pode ter é a aleatoriedade do mal. É a aleatoriedade da tragédia. Veio a Covid, pega aquele rapaz, Paulo Gustavo, o humorista, um rapaz jovem, forte, saudável, pega COVID e morre.
A mãe dele, uma senhora idosa, pega COVID e não morre. E aí, cadê? Eu quero a explicação.
O seu cérebro fica realmente baratinado, entende? E aí vem aquelas coisas, né? Ai, é a vibração.
Eu tô vibrando baixo, eu tenho que vibrar melhor. Ou então eu fiz por onde, ou então eu tô pagando, ou então é o karma, é o dharma, é seja lá o que for. Mas a culpa é sempre da gente.
Então faz assim para bebê, para de novo, porque o sofrimento e as coisas que a vida coloca já são pesados demais. Você não precisa colocar mais peso dando culpa a você simplesmente porque o seu cérebro não consegue resolver o paradoxo de Epicuro. Então para, para porque você tá sendo carrasco de você mesmo.
Seja colocando a culpa em você e aí você fica realmente aumentando o seu sofrimento ou então você fica esperando a vida ou Deus ou o universo mandar a fatura. Vai ter que mandar aqui. Se fez é que se paga.
Esse infeliz que fez isso comigo, Deus há de castigar. Aí o que que acontece? Você passa a vida paralisado esperando o castigo do outro.
Eu conheço tanta gente que é assim, tanto ex-marido quanto ex-mulher, que espera até hoje? Ele um dia vai pagar, ela um dia vai se arrebentar, vai, tem que ser. Não tem, não tem, tá?
Ao fazer isso, você só tá colocando mais dor sobre a sua dor. Então, cai fora dessa história. Tu saiu de um relacionamento, fosse traído, a pessoa foi ruim, te deu um golpe, fez sabe se lá mais o quê.
Aí tu passa a vida estalqueando a rede social da pessoa e esperando a lei do retorno. Vai vir, há de vir com fé, vai vir. Não, talvez sim, talvez não.
Não, não tem essa coisa. Não é assim. Fez o mal, vai receber o mal.
Não, tire isso da sua cabeça, tá bom? me ensinaram, eu sei, me ensinaram também, mas tire, tire logo aí da sua cabeça, porque se você não tirar isso da cabeça, você vai ficar refém da necessidade de uma justiça cósmica. E enquanto você ficar exigindo que a vida lhe dê uma resposta ou uma satisfação por algo que você não compreende, você está ficando de costas para o seu futuro porque você só está olhando para o seu passado, mas a sua cabeça teima porque ela não aceita, ela quer uma explicação e aí ela fica olhando pro passado tentando resolver isso.
Então não, a dor que você sofreu não foi justa. O que fizeram com você não foi certo, mas ficar sentado em cima das cinzas, esperando que o mundo seja justo e que essa justiça chegue, sabe-se lá de onde, isso só atrapalha o seu caminho. E aí, essas alturas, você já deve estar olhando para esse vídeo e dizendo assim: "Bom, psicólogo infeliz, se o mundo não é justo, qual é a questão por onde eu vou arrumar forças?
ou motivos para me levantar da cama se essa porcaria não é justa. É aqui que eu lhe digo como é que você faz. E é aqui que eu lhe digo como é que eu acho que você deve entender Epicuro.
Comece anotando o seguinte: desista de entender o porquê. Para mim, a grande lição de Epicuro não é se Deus existe ou não existe, não. Porque Deus não é uma questão mensurável, é uma questão de sentir.
Eu me sinto conectado, ligado ou não a força divina. E isso é pessoal. Não é sobre isso para mim que Epicuro tá falando.
O que ele tá explicando é que existem coisas que nunca haverá uma explicação lógica que seja capaz de acalmar a dor do seu coração. Então, acreditando você em Deus ou não, troque isso aconteceu comigo? Por uma pergunta que é muito mais interessante psicologicamente e inclusive teologicamente me atrevo a dizer, tá?
Troque a pergunta por uma pergunta que agradaria muito mais a Deus do que por isto aconteceu comigo. Sabe qual é a pergunta que você vai se fazer? é a seguinte: o que eu vou fazer com isso que aconteceu comigo?
Ao fazer esta pergunta, o poder volta pras suas mãos, sai do universo, sai do acaso e simplesmente eu me submeto. Sim, tem injustiças, tem coisas que eu acho absolutamente odiosas, odiáveis, eu não sei explicar, mas elas aconteceram. Eu não preciso de uma explicação.
Eu não preciso de uma ordem necessariamente lógica, porque tem coisas que vão sim escapar a minha lógica, mas eu preciso pegar isso, tomar o poder disso. E eu tomo o poder dizendo: "O que é que eu vou fazer com isso? " A segunda coisa é: faça o luto dessa fantasia do mundo seguro.
Faça. Não é? O mundo não é seguro, o mundo não é justo.
E eu sei, ensino. Então vamos trocar, vamos fazer o luto dessa fantasia. E como é que você vai fazer esse luto?
Você vai chorar. Chore pelas coisas que aconteceram com você. Você tem direito.
Reconheça as coisas ruins que fizeram a você. Isso merece ser reconhecido. Sim.
Fique com raiva. Você tem direito. Você merece viver o luto e odiar certas coisas que fizeram ou aconteceram a você.
Faz parte do fazer esse luto, da ideia de que só vai acontecer coisas boas, porque o mundo é justo. E se eu só fizer o bem, eu só receberei o bem. B, imagina, Cristo tá aí para dizer, ele fez o bem, só recebeu o bem, não foi?
Pois é preciso fazer o luto dessa fantasia infantil de que as pessoas boas estão blindadas ou protegidas contra o mal. Não estão. A chuva cai.
Sempre caiu e sempre cairá na horta dos justos e dos injustos, tá? E quando você aceita a vulnerabilidade da vida humana, isso é que eu acho bonito, é quando a gente se entrega à vulnerabilidade da vida humana. Aí a gente encontra com Deus, encontra.
Quando a gente se entrega a essa vulnerabilidade assim de peito aberto, aí a gente se torna absolutamente forte, porque aí a dor dói, mas ela deixa de enlouquecer a gente. A gente não fica mais louco porque eu tô entregue à vulnerabilidade da vida e eu confio na vida. Não na justiça, mas na vida.
Eu confio. E por fim, seja você a justiça e a bondade que lhe faltou. Se o mundo é caótico, cruel, misquinho, ordinário, não é o nosso papel exigir que o mundo mude.
Até porque eu exigi que o mundo mude, o mundo vai dar é a língua para mim, ó. Hum. Porque o mundo não tá nem aí para eu tá exigindo nada dele.
O nosso trabalho é ser lareira acesa no meio da sala congelante, porque as tragédias não têm sentido, a injustiça não tem sentido. Nós podemos dar um sentido a essas coisas quando nos fazemos fogo que aquece no português mais claro, faz assim, transforma a tua dor em sabedoria para ajudar quem sofre. Porque eu vou te contar uma coisa, sabe quem são os melhores psicólogos?
Os que estudaram mais, certamente também, mas aqueles que já sofreram mais na vida, pode crer. Psicólogo bom é aquele que tem o couro grosso das lapadas que já levou e aí ele consegue acolher a dor do outro com muito mais inteireza do que aquele que passou pela vida tocando flauta. Sabe?
Porque para mim a rebeldia mais bonita contra um mundo injusto é continuar sendo uma pessoa boa. Apesar de eu vou continuar sendo uma pessoa boa. O mundo não é justo comigo, tá?
Mas eu vou continuar sendo uma pessoa boa. Isso é um ato de rebeldia. E não é escolha ser uma pessoa boa por medo de castigo, não.
É uma escolha amorosa. Eu posso escolher ser uma pessoa boa por amor, independentemente de haver justiça ou não na minha vida. Então, no final das contas, o que é Apicuro queria dizer na minha leitura, né, eu que não sou ninguém na fila do pão, tá?
É algo simples que a vida não lhe deve explicações e não lhe deve, tá? Então você tá vivendo, não tá? Você tá vivo, não tá?
Ache bom. A vida não lhe deve explicações, mas você deve a si mesmo uma vida bem vivida, apesar de todas as cicatrizes e injustiças. Pense nisso.
Tchau, até a próxima.