[música] Oi, oi, gente. Sejam muito bem-vindos ao meu canal. Eu sou a Leandra e eu conto relatos todos os dias aqui para vocês de segunda a sexta-feira. Bom, se por acaso, né, você caiu de para-quedas aqui, eu também conto relatos mais curtos no meu TikTok, no meu Instagram e essas redes sociais estão aqui embaixo na descrição do vídeo. Se por um acaso, né, você tiver aí algum relato para me enviar, os relatos devem ser enviados pro e-mail que já fica aqui embaixo na descrição, assim como o link lá pro Spotify. Bom, como vocês já sabem,
eu não gosto de enrolar na introdução, então já já vamos para o relato. Mas antes, né, não se esqueça de se inscrever no canal, de curtir o vídeo e de highpass se tiver aparecendo aí essa opção para você. E bom, gente, agora sim, recadinhos dados, né? Vamos ao que interessa, que é o nosso relato. E assim, gente, só pelo título, né, já é um título sugestivo de que vem bomba por aí. Então, eu não li a história toda, né? Mas só pelo título eu acho que já é uma história assim um pouco pesada. Então, acho
que é válido eh eu lembrar a todos que assiste ao eh que assiste o canal, né, que o meu trabalho aqui é apenas contar a história, tá bom? E é isso, vamos lá. O título do nosso relato é: Eu dei um remédio, né, para o meu marido dormir e ele nunca mais acordou. Então, vamos lá. Eh, olá li a todos que assistem ao canal. Já quero começar este relato dizendo que se resolverem eh se caso, né, você resolver contar a minha história no canal, eh, eu só peço uma coisa, gente, não tentem descobrir quem eu
sou, porque vocês não vão conseguir. Criei esse e-mail apenas para enviar o relato. Eh, todos os nomes utilizados são nomes eh são nomes fictíceis e vou poupar detalhes, né? que possam fazer alguns curiosos eh me encontrar. Então, não vai ter nome de cidade, nome de empresa, absolutamente nada. E eu também vou mudar alguns detalhes que não muda no enredo, né, do relato, só para garantir, OK? Não tem problema, tá, gente? Quando não interferir muito assim na história, eh, pode mudar, tá bom? Eu acho que é até bom, dependendo da história. Então, vamos lá. Bom, eu
não estou escrevendo isso, Li, para aliviar a minha consciência, porque eu acredito que existem culpas que nem Deus tira da gente. Também não estou tentando justificar o que eu fiz. Eu só preciso contar para alguém, pois ninguém sabe dessa história. Eu nunca tive coragem de contar para outra pessoa. Estou contando aqui para o seu canal, Li, porque sei que a minha identidade não será revelada e tenho você como uma amiga. Escuto você todos os dias e por favor nunca pare de postar. Bom, durante 15 anos, todo mundo acreditou que o meu marido morreu por causa
de um acidente com um remédio para dormir. A certidão de óbito diz isso, os médicos disseram isso, a polícia confirmou e a família inteira aceitou essa explicação. Só existe uma pessoa no mundo que sabe que não foi exatamente assim e essa pessoa sou eu. Meu nome não importa, então vocês podem me chamar de Ana, tá? que é um nome fictício. Quando eu conheci Antônio, eu tinha 26 anos. Ele era 16 anos mais velho do que eu. Era dono de uma loja de materiais de construção em uma cidade pequena do interior. Não era rico, mas vivia
bem. tinha uma casa bonita, era respeitado por todos e tinha fama de ser um homem extremamente correto. Todo mundo gostava dele. Eu trabalhava como caixa em um supermercado e conhecia Antônio quando ele apareceu para comprar eh para comprar para comprar algumas coisas para uma reforma. Ele era educado, engraçado e tinha um jeito calmo que me passava segurança. Depois de alguns dias, voltou ao mercado, depois voltou outra vez, até que um dia me chamou para jantar. No começo eu não aceitei, pois a diferença de idade me incomodava. E eu sabia que ele era divorciado, que já
tinha um filho adulto também. Mas ele insistiu durante semanas e eu acabei cedendo. Nos apaixonamos rápido e Antônio me tratava como uma princesa. Nunca levantou a voz para mim, nunca foi agressivo, nunca me traiu e nunca me fez passar por necessidade. Se alguém me perguntasse naquela época se eu era feliz, eu responderia sem pensar duas vezes que sim. Um ano depois nos casamos e foi nesse casamento que eu conheci o Lucas. o filho dele. Lucas tinha 22 anos, morava com a mãe em outra cidade. E foi assim desde que os pais haviam se separado. Foi
um divórcio conturbado. Lucas ficou do lado da mãe e desde então ele não falava com o pai. Ele apareceu apenas um dia antes da cerimônia e eu lembro perfeitamente da primeira vez que eu ouvi. Era alto, simpático e muito parecido com Antônio quando eh quando jovem. Bom, pelo menos pelas fotografias que eu já tinha visto, né, eles eram bem parecidos, mas havia uma diferença enorme entre os dois. Enquanto Antônio era um homem tranquilo, Lucas parecia carregar o mundo dentro dos olhos. Ele sorria pouco, observava muito, falava baixo. E na festa de casamento conversamos apenas o
suficiente para sermos educados. Ele me chamou de madrasta brincando. Eu ri. E naquela época jamais imaginei que aquele rapaz destruiria a minha vida e nem que eu destruiria a vida dele também. Depois do casamento, Lucas voltou para a cidade onde morava e os meses passaram. Nossa rotina era simples. Eu ajudava Antônio na administração da loja ali durante o dia. À noite jantávamos juntos, assistíamos televisão e dormíamos cedo. Era uma vida comum, talvez até boa demais. E eu acho que foi justamente isso que me fez parar de perceber o quanto Antônio estava envelhecendo. Enquanto eu queria
sair, viajar, conhecer lugares novos, já que a gente tinha condição financeira para isso, ele já estava satisfeito em ficar sentado na varanda tomando café ou então o chá que ele amava e vendo o movimento da rua, pois ele, por ser mais velho, já tinha vivido bastante, viajado bastante. E aí eu lembro de dizer: "Ai, vamos passear?" E aí ele respondia: "Ah, outro dia eu perguntava: "Vamos ao cinema?" E ele dizia: "Ah, que nada, esse filme passa na televisão depois". Era sempre assim. Nunca brigávamos, mas também já não existia mais aquela paixão do começo, sabe? Era
como morar com um amigo muito querido. E foi mais ou menos nessa época que Lucas reapareceu. Ele ligou dizendo que havia conseguido emprego na nossa cidade e perguntou ao pai se poderia ficar alguns dias conosco até eh até ele alugar um apartamento. Antônio ficou radiante, disse que era a oportunidade perfeita para recuperar os anos, né, em que viveram afastados. Lembro que Lucas chegou em uma sexta-feira à tarde. Eu estava preparando o jantar. Quando ele entrou na cozinha, ele sorriu e disse: "Ó, espero não atrapalhar, hein?" E aí eu respondi brincando. Só vai atrapalhar se você
comer muito e gastar muito da minha comida. E ele riu. E foi a primeira vez que eu reparei no sorriso dele. Era diferente. Tinha alguma coisa que me deixava nervosa, sem motivo. Naquela noite, jantamos os três juntos. Lucas contava histórias do trabalho e Antônio ria de tudo e eu apenas observava. Durante asan seguintes, Lucas continuou morando conosco. Ele saía cedo para trabalhar e voltava quase sempre no mesmo horário que Antônio. E depois do jantar, nós três conversávamos na varanda. Só que havia uma diferença. Lucas gostava exatamente das mesmas coisas que eu. Enquanto Antônio acabava dormindo
ali na cadeira depois de meia hora, eu e Lucas continuávamos conversando sobre coisas que a gente gostava. Mas era sempre na frente dele, sem maldade, sem segundas intenções. Bom, pelo menos era isso que eu acreditava. Quando o Lucas finalmente alugou um apartamento, eu senti um vazio estranho dentro de casa e aquilo me assustou. Eu passei dias brigando comigo mesma, sabe? Ah, não. Você só sente falta das conversas. Era isso que eu repetia para mim mesma. Mas no fundo eu já sabia que não era apenas isso. Pouco tempo depois, Antônio começou a reclamar que estava dormindo
muito mal e que passava noites inteiras acordado. Eh, o clínico da cidade receitou um remédio para ser usado apenas quando fosse necessário. E ele dizia que o comprimido apagava qualquer pessoa em menos de meia hora. E Antônio usava raramente esse remédio. Era só quando realmente não conseguia dormir. E na época eu jamais imaginei que aquela caixinha branca, esquecida na gaveta do criado mudo, seria o começo da pior tragédia da minha vida. Na semana seguinte, Lucas apareceu em casa dizendo que precisava de ajuda para montar alguns móveis, né, do apartamento novo. Antônio não pôde ir porque
estava trabalhando até mais tarde. Então ele perguntou se eu poderia ajudá-lo a escolher algumas coisas e eu aceitei sem pensar. E foi naquele dia, naquele apartamento, que a linha entre o certo e o errado começou a desaparecer. Capítulo dois, o primeiro beijo. Quando eu aceitei ajudar Lucas a escolher algumas coisas para o apartamento, não havia nenhuma intenção escondida. Bom, pelo menos era isso que eu dizia para mim mesma. Ele havia alugado um lugar simples perto da loja onde trabalhava e ainda havia caixas espalhadas por todos os lados. A cozinha tinha apenas uma mesa pequena e
duas cadeiras e a sala estava praticamente vazia. Passei a tarde ajudando a limpar, organizar e montar alguns móveis. E nós conversávamos sobre qualquer assunto. Era tão fácil falar com ele que eu perdia a noção do tempo. Lucas me fazia rir, perguntava minha opinião sobre tudo e prestava atenção em cada palavra que eu dizia. Era algo que Antônio já não fazia há muito tempo. Não porque fosse um homem ruim, mas porque o casamento entra numa rotina silenciosa. Você conta uma história e a outra pessoa apenas balança a cabeça. Você compra uma roupa nova e ela quase
nem percebe. Você corta o cabelo e passa dias até alguém comentar. Só que com Lucas era diferente. Ele reparava em tudo. Quando eu fui embora, ele agradeceu pela ajuda e antes de fechar a porta disse: "Faz tempo que eu não passava uma tarde tão boa". E eu sorri. Mas aquela frase ficou na minha cabeça durante dias. As semanas passaram e Lucas começou a aparecer na nossa casa pelo menos duas vezes por semana, sempre com alguma desculpa. às vezes, né, dizia que queria jantar com o pai, outras vezes precisava pegar alguma ferramenta emprestada e às vezes
aparecia sem motivo nenhum. E eu percebia que a minha alegria aumentava quando eu vi o carro dele entrando pelo portão. E isso deveria ter sido o meu primeiro alerta, mas eu ignorei. Eu comecei a caprichar mais na roupa, né, quando eu sabia que ele viria. E eu passei a usar perfume, né, até para ficar dentro de casa. Chegava a me olhar no espelho antes de abrir a porta. E eu nunca admiti isso nem para mim mesmo. Hoje, olhando para trás, eu vejo que a traição começou muito antes do primeiro beijo. Ela começou quando meu coração
passou a esperar por outra pessoa. Até que numa sexta-feira à noite, Antônio precisou viajar para resolver um problema com o fornecedor. Isso em uma outra cidade. Ele voltaria apenas no dia seguinte. Eu estava sozinha quando meu telefone tocou e era o Lucas. E aí quando eu atendi, ele disse o seguinte: "Meu pai falou que você ficou sozinha, eu posso passar aí, eu vou comprar uma pizza." E eu achei normal, pois ele era filho do meu marido, né? Então não havia motivo para negar. Jantamos na sala assistindo ali a um filme antigo, rimos, comentamos as cenas
e quando o filme terminou começou uma chuva muito forte. O transformador da rua explodiu, a energia acabou. A casa ficou completamente escura. Então fomos paraa varanda porque a luz da lua em meio ali aquela chuva, enfim, as nuvens meio que clareava um pouco, ou seja, era melhor do lado de fora na varanda no que naquele breu dentro de casa. E ficamos sentados ali na varanda esperando a luz voltar. Sim, gente, pareceu coisa de filme. O silêncio tomou conta e foi Lucas quem quebrou aquele silêncio. Posso te fazer uma pergunta? Eu assenti. Você é feliz? E
a pergunta me pegou desprevenida. Fiquei olhando para a chuva por alguns segundos e respondi: "Acho que sim". Ele sorriu de lado e disse: "Você respondeu como quem não tem certeza". Eu baixei os olhos e disse: "Ah, Antônio é um homem bom. Eu não perguntei isso e aí eu não tive mais respostas." Lucas continuou olhando para mim e disse: "Você merece alguém que enxergue você". Nisso, meu coração acelerou. Eu sabia que aquela conversa estava indo longe demais. Levantei da cadeira, disse que precisava guardar a louça, só que aí quando eu passei por ele, ele disse: "Ô,
minha bobinha, mas tá tudo escuro". E foi aí que eu senti sua mão segurar o meu braço. Foi um toque leve, quase um pedido para que eu não fosse embora. Eu olhei para ele e nossos rostos estavam muito próximos. Ainda dava tempo de sair, ainda dava tempo de acabar com aquilo, mas eu não saí. Lucas me beijou. Foi um beijo rápido, curto. E quando terminou, nós dois demos um passo para trás. Isso ao mesmo tempo. Parecia que havíamos acordado de um sonho. Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvi-lo. Levei a mão à boca
e disse: "Isso nunca mais pode acontecer". Lembro, eh, lembro que a minha voz saiu tremendo e Lucas apenas concordou e foi embora sem dizer mais nada. Eu passei aquela noite inteira chorando e no dia seguinte eu prometi a mim mesma que nunca mais ficaria sozinha com ele. Eu passei dias evitando responder suas mensagens e quando ele aparecia para visitar Antônio, eu inventava qualquer desculpa para sair da sala. achava que, sei lá, tava fazendo a coisa certa, mas a verdade é que eu estava lutando contra algo que já havia crescido dentro de mim. Quase um mês
depois, eu encontrei Lucas, por acaso, no supermercado. Ele estava na fila do caixa e quando me viu, apenas sorriu. Eu pensei em fingir que não conhecia, mas eu não consegui. Conversamos por alguns minutos e antes de ir embora, ele disse: "Eu respeitei seu silêncio, mas preciso que você saiba de uma coisa. Eu tentei esquecer aquele beijo, mas eu não consegui. E eu não consegui porque eu amo você. Quando eu ouvi aquelas palavras, o meu mundo parou. Ninguém nunca havia dito aquelas palavras olhando diretamente nos meus olhos. Voltei para casa repetindo para mim mesma que aquilo
era loucura, que era pecado, que era uma traição, que ele era o filho do meu marido. Mas mesmo assim, naquela noite, pela primeira vez, eu sonhei com Lucas. E quando eu acordei, eu descobri que já era tarde demais para fingir que aquilo não existia. Capítulo 3. As noites em que ele dormia. Depois daquela conversa no supermercado, eu tentei desaparecer da vida de Lucas. Eu apaguei o número dele, parei de responder mensagens e pedi a Antônio que quando o filho dele fosse jantar em casa, me avisasse com antecedência. E eu fiz isso para que eu pudesse
inventar algum compromisso. Eu estava convencida de que aquela seria a única forma de impedir uma tragédia, mas a tragédia já tinha começado, porque mesmo sem vê-lo, eu pensava nele o tempo inteiro, enquanto eu preparava o almoço, enquanto eu dobrava as roupas, enquanto eu tomava banho, enquanto eu estava deitada ao lado do meu marido, era como se eu estivesse vivendo duas vidas. Uma delas era a esposa dedicada que todos conheciam. A outra era uma mulher completamente perdida e apaixonada pelo homem errado. Foi Antônio quem acabou aproximando nós dois outra vez. Em uma tarde de domingo, ele
chegou em casa todo animado e disse: "Olha, convidei o Lucas para fazer um churrasco aqui no próximo fim de semana, tá?" Quando eu ouvi isso, meu estômago embrulhou. Sorri apenas para não levantar suspeitas. E passei a semana inteira rezando para que ele desistisse, mas não desistiu. No sábado, Lucas chegou pouco depois do almoço e estava exatamente como eu lembrava. Jeans, camiseta branca e aquele sorriso discreto. Durante o churrasco, eu fiz de tudo para não olhar na direção dele, mas era impossível. Toda vez que os nossos olhos se encontravam, os dois desviavam imediatamente. Eu imaginava que
ninguém estivesse percebendo, mas eu estava enganada. Quando Lucas foi embora, Antônio comentou: "Você e o Lucas parecem estranhos. Meu coração quase que parou quando eu ouvi isso. Eu tentei parecer natural e perguntei: Estranhos por quê? Ah, sei lá. Antes vocês conversavam o tempo inteiro, hoje mal trocaram meia dúzia de palavras. E aí eu sorri e disse: "Ah, eu acho que ele tá preocupado com o trabalho. Nada demais". Antônio então aceitou a explicação, mas naquela noite eu quase não dormi e foi a primeira vez que eu senti medo de verdade. Até que dois dias depois Lucas
apareceu na loja, né? eh, onde eu trabalhava na loja, que também era do pai dele. Ele esperou todos os clientes saírem e quando ficamos sozinhos, ele falou baixinho: "A gente precisa conversar". Eu balancei a cabeça dizendo que não e aí ele disse: "Então eu nunca mais apareço". E aí eu respirei fundo. Naquele dia, meu esposo não estava na cidade, então marcamos de nos encontrar em uma praça, longe da cidade e longe, né, dos olhares das pessoas que nos conheciam. E eu fiquei repetindo para mim mesma que eu iria apenas colocar um ponto final naquilo. Mas
quando ouvi sentado em um banco esperando por mim, toda a coragem desapareceu. Eu sentei ao lado dele, ficamos em silêncio por alguns minutos e foi Lucas quem falou primeiro. Eu sei que isso é errado. Eu concordei muito errado, mas eu nunca senti isso por ninguém. Olhei para ele e os olhos estavam cheios de lágrimas e respondi: "Nem eu." E ali foi a primeira vez que eu admiti. Lucas então segurou em minha mão e disse: "Então, para de fugir de mim. Naquele instante eu deveria ter levantado e ido embora, mas em vez eh em vez disso,
né, eu o beijei e dessa vez fui eu. Quando aquele beijo terminou, nós dois sabíamos que não havia mais volta. Nos meses seguintes, começamos a nos encontrar escondidos, sempre longe da cidade, sempre inventando alguma desculpa. Eu dizia para Antônio que ia visitar uma amiga e Lucas, que a essa altura estava namorando uma moça, que segundo ele era para despistar, né? Ele dizia que estava fazendo hora extra. Vivíamos aterrorizados com a possibilidade de alguém nos reconhecer, mas mesmo assim continuávamos. A culpa aumentava, mas a paixão também. Até que em uma noite tudo mudou. Antônio reclamava fazia
uns dias que não estava conseguindo dormir. E foi aí que lembramos do medicamento que ficava na gaveta do criado mudo. Eu preparei um chá para ele e dei o comprimido. E aí, menos de meia hora depois ele já estava dormindo profundamente, lembrando que nesse dia ele sabia que estava tomando o comprimido. Foi nesse mesmo momento que o meu celular vibrou e era uma mensagem do Lucas. dizendo: "Queria tanto te ver." Olhei para Antônio, dormindo como uma pedra. Olhei novamente para a mensagem e sem pensar muito, só respondi: "Vem". Lucas entrou pelos fundos da casa e
meu coração parecia querer sair pela boca. Passamos menos de uma hora juntos e quando ele foi embora, eu conferi se Antônio continuava dormindo e ele não havia mudado nem de posição. Na manhã seguinte, ele acordou normalmente e nem imaginava o que tinha acontecido. E foi aí que nasceu a pior ideia da minha vida. Talvez muitos de vocês estejam se perguntando sobre a namorada, né, que morava junto com Lucas. Hoje, olhando para trás, eu vejo que ele era um safado, que queria ficar com nós duas ao mesmo tempo, mas na época eu realmente achava que era
para despistar. Assim, o pai todos achavam que ele tinha um relacionamento, então nós podíamos ser próximos, né, ter ali uma amizade. Mas enfim, algumas semanas depois, Antônio voltou a reclamar da insônia. Naquela noite, eu preparei o chá para ele e enquanto ele estava no banheiro, eu peguei discretamente um comprimido, esmaguei e misturei no chá. Minhas mãos tremiam tanto que eu quase derrubei a xícara. Quando ele voltou, eu entreguei a bebida, só que dessa vez ele não sabia que tinha uma medicação no chá e ele tomou tudo sem desconfiar. 20 minutinhos depois, ele já roncava. E
aí eu enviei apenas uma mensagem. Pode vir. Lucas chegou em menos de 15 minutos e quando entrou pela porta da cozinha ainda perguntou: "Tem certeza?" Olhei para o corredor, tudo estava em silêncio, e respondi: "Ele não vai acordar." E aquela frase ainda e essa frase ainda ecoa na minha cabeça, porque eu disse aquilo com uma confiança que hoje me assusta. Na manhã seguinte, Antônio acordou dizendo: "Nossa, fazia tempo que eu não dormia tão bem sem um remédio". E aí eu sorri, mas por dentro senti um alívio absurdo e aquilo deu uma falsa sensação de segurança.
Eu comecei a acreditar que eu tinha descoberto uma maneira de viver os dois mundos, eh, de viver, né, os dois mundos. esposa durante o dia, amante durante a noite, sem que ninguém sofresse, sem que ninguém descobrisse. Só que era uma mentira e toda mentira cobra um preço. As visitas de Lucas passaram a acontecer sempre do mesmo jeito. Eu esperava, né, Antônio pedir o chá. Eu preparava o chá com o medicamento, né, quando ele estava distraído. Então, sem perceber, eu colocava um comprimido escondido e aí depois enviava uma única mensagem. Pode vir. Às vezes Lucas permanecia
apenas uma hora, às vezes duas, mas antes de amanhecer ele ia embora. Hoje eu não me recordo bem quais eram as desculpas que ele inventava paraa namorada, mas dava certo. Ela nunca desconfiou e Antônio muito menos. E isso era o que mais doía, porque ele continuava sendo exatamente o mesmo homem de sempre. Carinhoso, educado, generoso. Às vezes comprava flores para mim sem motivo. Perguntava se eu estava cansada, preparava café nos domingos. Mas para mim isso não tava bom. E enquanto isso eu o traía dentro da própria casa. Hoje eu penso que se ele tivesse sido
um marido cruel, talvez a minha culpa fosse menor. Mas não. Antônio era um homem bom e foi justamente por isso que o peso da minha consciência nunca diminuiu. Quase dois anos se passaram dessa forma. Até que eu comecei a sentir enjoos todas as manhãs. Achei até que fosse uma virose, mas depois veio o atraso. Comprei um teste de farmácia escondida e esperei Antônio sair para o trabalho. Tranquei a porta do banheiro e alguns minutos depois as duas linhas apareceram. Eu estava grávida. >> [roncando] >> Na mesma hora, as minhas pernas perderam a força. Sentei no
chão frio do banheiro e fiz as contas uma, duas, 10 vezes. Não havia dúvida. Aquela criança não podia ser de Antônio, era de Lucas. E foi naquele instante que eu entendi que todas as mentiras que eu vinha contando estavam prestes a desabar de uma vez. E eu sabia que ia desabar tudo sobre mim. Capítulo 4, A noite em que tudo mudou. Depois que eu ouvi o resultado do teste, eu fiquei sentada, né, no chão do banheiro por quase meia hora. Eu olhava para aquelas duas linhas vermelhas e esperava que elas desaparecessem, mas não desapareceram. Naquela
manhã, Antônio saiu para trabalhar sem perceber que eu havia chorado eh na manhã seguinte, né? Antônio saiu para trabalhar sem perceber que eu havia chorado a noite inteira. Antes de fechar a porta, ele ainda voltou para me dar um beijo na testa. E aí ele disse: "Você tá pálida? Tem certeza que tá bem?" Eu forcei um sorriso e respondi: "Não, meu tô. Acho que é só uma gripe". Ele passou a mão no meu rosto e disse: "Quando eu voltar, eu passo na farmácia e compro alguma coisa para você, tá?" E aí eu fiquei observando o
carro dele desaparecer lá no fim da rua. E aí eu comecei a chorar novamente. Não era apenas culpa, era medo. Um medo que parecia sufocar. Eu passei o dia inteiro tentando criar coragem para contar a verdade a Lucas. E quando eu finalmente liguei, minha voz mal saía. E aí eu disse: "A gente precisa conversar". Ele percebeu imediatamente pela minha voz que havia algo errado. O que que aconteceu? Não, não pode ser por telefone, tem que ser pessoalmente. Então, nós marcamos de nos encontrar naquela mesma noite. Eu passei as horas seguintes andando pela casa como uma
pessoa perdida. Enquanto preparava o jantar, Antônio falava sobre planos para o futuro, comentava que queria reformar a varanda, falava em viajar e perguntava se eu achava que estava na hora de comprarmos um carro novo. E cada palavra dele era como uma facada, porque ele sonhava com um futuro que eu já havia destruído. Naquela noite eu esperei Antônio dormir, né, com um medicamento. É, mas antes eu disse que iria até a casa de uma vizinha, porém eu encontrei Lucas dentro do carro dele estacionado numa estrada de terra. Assim que eu entrei, ele percebeu, né, que eu
estava chorando e perguntou o que havia acontecido. Eu não consegui responder imediatamente. Peguei o teste de gravidez que estava dentro da bolsa e entreguei a ele. Lucas ficou olhando por alguns segundos, depois levantou os olhos para mim e perguntou se era meu, né, assim, tipo, é meu? E eu disse que sim. O silêncio que veio em seguida foi pior do que qualquer grito. Eu esperei que ele me abraçasse, que dissesse que encontraríamos uma solução, que prometesse ficar ao meu lado. Mas ele apenas passou as mãos pelos meus cabelos e começou a ficar olhando de um
lado pro outro e começou a repetir: "Isso não podia ter acontecido. Isso não podia ter acontecido. Eu senti o meu peito apertar e fiquei falando que eu sabia que não poderia, né, ter acontecido. E foi aí que ele disse: "Você precisa resolver isso". Na mesma hora eu franzi a testa e disse: "Como assim eu preciso resolver?" Ele demorou alguns segundos para responder e quando respondeu, eu senti o meu mundo desmoronar. Ele simplesmente disse: "Sozinha, você precisa resolver isso sozinha". E foi aí que eu falei: "Olha, o filho também é seu". Nisso, ele respirou fundo e
disse: "Eu acho que você tá esquecendo uma coisa. Você é casada com meu pai. O que que eu posso fazer?" E aí as lágrimas voltaram. E foi aí que eu disse: "Então você vai mesmo fingir que nunca aconteceu?" E ele não respondeu nada, apenas abaixou a cabeça. E naquele momento eu compreendi, né, eh, eu compreendi uma verdade cruel. Enquanto eu imaginava que vivíamos uma grande história de amor, Lucas enxergava apenas um relacionamento impossível. Eu era um problema e aquele bebê era um problema ainda maior. Eu voltei para casa completamente destruída e passei o caminho inteiro
pensando no que fazer. contaria a verdade para Antônio, inventaria que o bebê era dele, fugiria, só que nenhuma opção parecia impossível. Eu passei a noite inteira em claro e no dia seguinte Antônio perguntou como a minha amiga estava. Eu até demorei alguns segundos para entender do que que ele tava falando, mas aí eu lembrei, né, da mentira que eu havia inventado para poder sair de casa. E aí eu só respondi: "Ah, melhorou, ela tá bem. Ele se levantou, veio até mim, passou o braço pelos meus ombros e disse: "Olha, amanhã eu vou eu vou precisar
sair mais cedo que hoje, então eu preciso que você passe o café mais cedo." Então, eu acho que à noite eu vou tomar aquele remédio para dormir, porque eu preciso dormir mais cedo para poder acordar cedo. E faz dias, né, que eu não descanso tão bem, não sei o que tá acontecendo. Ali, eu comecei a juntar uma coisa na outra. Eu pensei que talvez o medicamento estivesse ficando fraco, mas quero que eh mas quero ressaltar que em momento algum eu pensei em aumentar a dose. Eu só pensei que se o remédio estivesse ficando fraco, isso
estava acontecendo no momento certo, porque eu não pretendia mais me encontrar com Lucas. E aí eu fiquei pensando, já pensou se eu saio para me encontrar com ele ou ele vem para cá e simplesmente Antônio acorda porque o remédio não está sendo o suficiente? Mas enfim, voltando pra história, eh eu olhei pra gaveta, onde ficava a cartela, e meu coração acelerou, mas eu não sabia porquê. Hoje eu acredito que talvez o meu espírito já estivesse prevendo a desgraça que viria a seguir. Mas enfim, o dia se passou, eu ficava chorando pelos cantos, aproveitando que estava
sozinha e pensando o que eu ia fazer. A noite chegou, então eu fui até a cozinha preparar o chá que Antônio havia pedido, né, pois ele queria dormir mais cedo naquela noite. E era quase automático. Peguei a chaleira, esquentei a água, coloquei o sachê, depois abri a gaveta onde eu guardava o remédio. Minha cabeça estava completamente longe dali e eu só conseguia ouvir aquelas palavras do Lucas, né? Você precisa resolver isso sozinha. Então eu peguei um comprimido, eh, esmaguei e coloquei dentro do chá. Só que aí o que que acontece? Como era algo tão automático,
eu esqueci que o Antônio já ia tomar o medicamento porque ele queria dormir mais cedo. Então, aí eu fiquei ali mexendo, né, a colher dentro da xícara e o meu telefone vibrou. Era uma mensagem do Lucas dizendo: "Me desculpa pelo jeito que eu falei com você ontem". E aí eu comecei a responder, né? Comecei a escrever, mas aí eu apaguei a mensagem, depois escrevi de novo, apaguei outra vez. A minha atenção estava totalmente no celular e naquela história. Então nem passou pela minha cabeça que o Antônio ia tomar um medicamento. E aí, beleza, terminei de
misturar ali no chá rapidinho e levei o chá para ele tomar. E acredito eu que neste momento ele já tinha tomado o primeiro comprimido. Ele só não me comunicou porque era algo corriqueiro. Eu também não tinha porque ele me comunicar, já que ele já tinha falado que ia tomar o remédio. Ele agradeceu, tomou tudo, conversamos por alguns minutos e menos de meia hora depois ele já estava dormindo profundamente. Foi então que eu fui guardar a cartela do remédio. Quando eu olhei pra cartela ali, meu sangue gelou. Vou explicar o contexto para que todos entendam e
não fique nenhuma dúvida. Nós tínhamos acabado de comprar essa caixa, ou seja, ela estava a a cartela estava completa. Quando eu peguei o primeiro comprimido, eh, quando eu peguei, né, o comprimido e amassei para colocar no chá, eu não percebi que já estava faltando um comprimido. E aí depois, né, quando eu fui ali no balcão da pia pr poder guardar, foi quando eu percebi que ao invés de estar faltando um comprimido, que foi o que eu esmaguei e coloquei no chá, faltavam dois. Eu fiquei paralisada porque aí eu lembrei que ele disse que ia tomar
um comprimido. Minha primeira reação foi correr até o quarto, só que chegando lá eu percebi que ele dormia profundamente. Balancei seu ombro de leve. Ele resmungou alguma coisa, mas não acordou. Eu pensei em chamar ambulância para, sei lá, fazer uma lavagem estomacal. Pensei em contar tudo. Pensei em levá-lo para o hospital. Mas aí surgiu uma voz dentro da minha cabeça. Ah, ele já tomou esse remédio tantas vezes e ele já tava reclamando que tava fraco. Então ele vai apenas dormir mais pesado. E foi essa mentira que eu contei para mim mesma. Então eu apaguei as
luzes da casa e deitei ao lado dele por alguns minutos, mas não conseguia fechar os olhos. Até que Lucas me ligou. Então eu levantei, nós ficamos conversando, discutimos mais do que conversamos. Eu fiquei a madrugada inteira acordada, remoendo todas as atrocidades que Lucas havia falado ao telefone comigo. Bom, e assim foi a noite toda, até que em algum momento vencida pelo cansaço, eu acabei eh eu acabei adormecendo no sofá da sala. Não sei ao certo quanto tempo passou, porque eu não vi a hora, né, que eu havia adormecido ali. Eu só sei que quando eu
acordei foi por causa da claridade entrando pela janela da sala. Só que eu estranhei o silêncio, pois Antônio deveria ter levantado cedo nesse dia. E pela forma como a luz entrava ali pela janela, eu sabia que isso era por volta de umas 6 da manhã. Eu olhei para o lado e a casa estava normal. Ele não não levantou, não mexeu nas coisas dele. Então eu fui rapidamente ao quarto. Quando eu cheguei lá, ele estava exatamente na mesma posição em que havia adormecido. E aí eu sorri aliviada, mas ao mesmo tempo me deu um estalo de
tipo, ele não tinha que acordar mais cedo. Então eu comecei a tocar nele, né? Tipo assim, ou acorda, você perdeu a hora, enfim, você vai chegar atrasado. Só que ele não respondeu. Eu comecei a balançar o ombro dele e nada. Eu sorri de novo, tentando convencer a mim mesma de que ele apenas estava em um sono profundo. Comecei a gritar: "Antônio, acorda! Anda, Antônio, acorda, Antônio!" E eu lembro que a minha voz ia saindo cada vez mais alta. Nenhuma resposta. E quando eu segurei sua mão, ela estava fria. E foi nesse momento que eu percebi
que ele não estava respirando. Nesse instante eu senti um medo que eu jamais conseguirei descrever. Eu sacudia ele com muita força. Eu gritava o nome dele. Eu chorava, eu implorava para que ele acordasse. Mas Antônio nunca mais abriu os olhos. >> [roncando] >> Naquele momento, sem que mais ninguém soubesse, eu já entendia que a minha vida jamais voltaria a ser a mesma. Capítulo 5. O segredo que eu levarei para o túmulo. Eu não sei dizer quanto tempo eu fiquei gritando ao lado da cama. Lembro apenas de correr até a casa da vizinha. Batia no portão
sem parar. Ela abriu assustada e quando viu meu estado, entrou correndo comigo e foi ela quem chamou o Samu. Os socorristas chegaram rapidamente e eu ainda tinha esperanças de que Antônio apenas estivesse desacordado. Mas bastou um deles olhar para mim para que eu entendesse. Não havia mais nada a fazer. >> [roncando] >> Um dos paramédicos segurou o meu ombro e disse com toda a delicadeza do mundo: "Olha, minha senhora, sinto muito. Acredito que o senhora tenha sido por respeito, pois eu era bem jovem ainda na época que isso aconteceu. E aquelas duas palavras ecoam na
minha na minha cabeça até hoje. O velório foi um borrão e eu chorava o tempo inteiro. As pessoas me abraçavam e dizia que Antônio havia sido um homem exemplar, que Deus sabia o que fazia e que eu precisava ser forte. Ninguém imaginava o verdadeiro motivo das minhas lágrimas. Eu não chorava apenas porque havia perdido o meu marido. Eu chorava porque sabia que de alguma forma eu tinha participado daquilo mesmo sem querer, mesmo sem imaginar que aquilo pudesse acontecer. Alguns dias depois, eu fui chamada para prestar esclarecimentos. Eh, e como Antônio havia morrido durante o sono,
né, e havia um medicamento envolvido, os médicos precisavam entender o que havia acontecido. E eu contei exatamente o que todos já sabiam, que ele sofria de insônia e que às vezes tomava um calmante receitado e que naquela noite eh eu acreditava que ele tivesse tomado dois comprimidos, porque eu dei falta de dois comprimidos na cartela, mas que eu não sabia o porquê. Mas disse que achava que era porque um comprimido não estava sendo suficiente, mas não era toda a verdade, né? E os exames mostraram que Antônio tinha uma doença cardíaca silenciosa, um problema que nunca
havia sido diagnosticado, até porque ele não fazia muitos exames. E aí o médico explicou que algumas medicações sedativas podem reduzir a frequência respiratória e alterar, né, o funcionamento do coração em pessoas eh prédispostas. Segundo ele, aquela condição cardíaca desconhecida provavelmente contribuiu para que Antônio não resistisse durante o sono. E como o medicamento havia sido prescrito e fazia parte, né, da rotina dele, o caso foi registrado como uma morte acidental, então não houve investigação criminal e ninguém desconfiou que eu havia colocado o comprimido no chá e ninguém jamais imaginou que naquela noite eu tinha eh que
naquela noite, né, eu tinha cometido um erro ao dar uma quantidade maior do que pretendia. quando eu saí do hospital, eh, né, enfim, naquela, naquele fatídico dia, eu percebi que provavelmente eu escaparia da justiça, porque o que foi falado para mim, né, em questão do médico, foi antes de eu ser interrogada, né, entre aspas, mas eu sabia que eu nunca escaparia da minha consciência. Dois meses depois, a gravidei seguia normalmente e eu pensei em contar tudo para o Lucas, a questão dos medicamentos. Eu achei que a morte do pai faria com que ele mudasse, que
sentiria remorço, que assumiria a responsabilidade. Eu liguei para ele, ele aceitou me encontrar, cheguei ao local segurando os exames da gravidez, mas ele nem quis olhar e foi direto ao assunto. Olha, ninguém pode sonhar em saber da gente. Quando eu ouvi essas palavras, eu senti um frio percorrer meu corpo. E aí eu respondi: "Eu estou esperando um filho seu, Lucas". Ele respirou fundo e disse: "Eu sei disso." E aí, né, eu retruquei. Então, o que que nós vamos fazer? Ele ficou em silêncio por alguns segundos e disse: "Eu não posso acabar com a minha vida
também." E aquela frase foi pior do que um tapa, tipo, também. E aí ele fechou os olhos e continuou: "Meu pai morreu. Você acha que eu consigo viver sabendo sabendo de tudo isso?" E ali foi a primeira vez que eu percebi que ele também carregava a culpa. Mas a diferença entre nós era enorme. Eu escolhi enfrentar a minha. Ele escolheu fugir. Naquele dia, ele entrou no carro e foi embora. E nunca mais me procurou. Nunca perguntou se o bebê nasceu, nunca quis saber se era menina ou menino, nunca pediu uma foto e nunca mandou um
presente, nunca fez absolutamente nada. Minha filha nasceu saudável e no momento em que a colocaram nos meus braços, eu senti um amor que jamais imaginei existir. Mas junto com esse amor veio outro sentimento, o medo. Porque no instante em que eu olhei para o rostinho dela, eu enxerguei Lucas, os mesmos olhos, o mesmo formato da boca, o mesmo sorriso que anos antes havia destruído a minha vida. E aí as pessoas até comentavam: "Engraçado, né? Ela não parece nem um pouco com Antônio, parece mais com um filho. E eu apenas sorria. Dizia que deve ter puxado
ele, né, parente, né, enfim, é meio irmão. E mudava de assunto. Os anos passaram, Lucas se mudou para outro estado e ele terminou com aquela namorada da época, né, e conheceu uma outra mulher, se casou com ela e teve dois filhos. Ele construiu exatamente a família que disse não poder construir comigo. Às vezes eu o vejo nas redes sociais, ele sorri em fotografias de férias, comemora aniversários, posta mensagens falando sobre o amor pelos filhos. E sempre que eu vejo essas imagens, eu sinto duas coisas ao mesmo tempo. Raiva e pena. Raiva porque ele abandonou a
própria filha e pena porque eu sei que ele também terá de conviver para sempre com o que aconteceu. Minha filha já tem idade suficiente para fazer perguntas difíceis e há alguns meses, enquanto olhava um álbum eh um álbum antigo, ela pegou uma fotografia de Antônimo e sorriu e depois perguntou: "Né, mãe, esse é o meu pai?" E aí meu coração quase parou. Eu olhei para aquela fotografia por um longo tempo. Antônio aparecia sorrindo, segurando uma vara de pescar, a mesma expressão tranquila de sempre. E aí eu respirei fundo e respondi que sim e disse que
foi o homem que mais eh que foi o homem que mais cuidou de nós. Ela sorriu e beijou a fotografia. E ela disse uma frase que eu nunca vou esquecer. Nossa, eu queria tanto ter conhecido ele. Lógico, Li, que ela falou assim com aquelas palavrinhas de criança, aprendendo a falar. E naquele momento eu tive certeza, né, de que Antônio teria amado aquela menina como se fosse sua, até porque se ele tivesse vivo, eu iria falar que a filha era dele. Mas enfim, sem fazer perguntas, sem exigir explicações, eu sei que ele teria sido um pai
melhor do que o verdadeiro jamais conseguiu ser. Foi então que eu compreendi o tamanho da injustiça que a vida fez com ele e o tamanho da injustiça que eu fiz. Hoje eu escrevo este relato porque a minha saúde não é mais a mesma. Os médicos dizem que o meu coração está fraco. Ironia não é justamente o coração. E às vezes eu penso que quando eu morrer, talvez eu encontre Antônio novamente. Eu passei anos imaginando o que diria se isso acontecesse, se eu pediria perdão, se eu explicaria tudo ou se eu diria que eu nunca quis
machucá-lo. A verdade é que nenhuma palavra seria suficiente. Existem erros que não podem ser desfeito e desfeitos, né? Existem escolhas que continuam matando a gente muito tempo depois de terem sido feitas. E eu nunca mais fui fui a mesma. Eh, eu não fui presa, eu não fui julgada por um tribunal e nunca aparecia em um jornal, né? Eh, para o mundo, eu continuo sendo apenas a viúva de um homem que morreu enquanto dormia, mas dentro de mim a sentença foi dada há muitos anos. Todos os dias, quando eu deito a minha cabeça no travesseiro, eu
revivo aquela noite. Vejo a colher mexendo o chá e ouço o barulho dos comprimidos. Lembro da cartela nas minhas mãos e penso na única decisão que poderia ter mudado tudo. Se eu tivesse chamado uma ambulância assim que eu percebi o erro, talvez Antônio tivesse sobrevivido. Talvez a minha filha tivesse crescido cercada pelo homem mais bondoso que eu já conheci. Talvez eu não precisasse esconder da minha própria filha quem é o pai dela. E se existe uma razão para eu contar essa história agora, é que eu aprendi tarde demais que nenhuma paixão vale o peso de
uma mentira. As mentiras elas crescem, elas criam raízes e quando finalmente dão frutos, quase sempre alguém inocente é quem paga o preço. Minha filha nunca soube nem nunca vai saber quem realmente é seu pai. Hoje ela já tem, hoje ela já tem 18 anos. Lucas nunca teve coragem de assumir quem realmente era. E eu, eu acordo todos os dias olhando para o teto, esperando que um dia a minha consciência faça faça aquilo que a justiça nunca fez. eh me condenar ao silêncio eterno. E aí o relato acaba por aqui e eu acho que eu li
alguma coisa ali em cima errado na hora que ela falou da filha que tipo eh ela está naquela fase, eu acho que ela quis dizer que quando a filha estava naquela fase de fazer perguntas, ela perguntou quem era o pai. E gente, que loucura, né? Tô passada. Mas enfim, ó, um beijo, tá? muito obrigada por compartilhar com a gente o relato. E assim, gente, eu vou ser bem sincera, eu não sei nem o que falar desse relato porque eh enfim, embaixo ela me mandou eh umas fotos, né? Mas é óbvio que eu não posso mostrar
a vocês. E gente, que loucura, que loucura. E eu acho que isso que ela falou no final é uma coisa muito certa, né, dessa questão das mentiras, enfim, das raízes. E sempre uma pessoa que às vezes não tem culpa, uma pessoa inocente, vai acabar saindo machucada, né, da história. No caso Antônio, no caso a filha, né, que cresce achando que o pai é uma pessoa e depois é outra. E às vezes eu fico pensando também que talvez o Lucas, né, da história, ele talvez não quis assumir tudo isso por egoísmo, né? A o pai dele,
né, o Antônio, ele era uma pessoa que tinha dinheiro. Então para alguém esse dinheiro ficou, entendeu? Então se passou como se a menina fosse filha dele, né, vocês devem ter ficado com alguma parte, ele também. Então, é bem possível que ele tenha ficado com medo dele perder a herança, enfim, sei lá, da família, fazer alguma coisa eh diante da situação e não deixar nem ele, nem você também ficar com dinheiro, né? Foi assim o que me passou pela cabeça. Às vezes ele foi eh sabe, olho grande, meio que egoísta esse ponto, né? Foi, sei lá,
uma teoria que eu criei aqui enquanto eu lia. E gente, que loucura, né? Uma coisa que eu fiquei pensando muito é que assim, é, se você parar para analisar, enfim, foi ele que foi atrás dela, né? Então, é ele que ficou jogando as cantadinhas, fazendo um negócio aqui, outro ali. Aí quando o negócio pegou mesmo, ele deu no pé, né? ele vazou fora. Então, gente, tenham muito cuidado com isso. Eh, às vezes, tipo, a pessoa que quer conquistar, que quer fazer a outra cometer ali o erro, ela percebe, tipo, ela fica de fora olhando o
relacionamento e ela percebe aonde tem falhas e tudo mais. E é ali que a pessoa age, entendeu? E foi exatamente o que ele fez. Então, eh, enfim, eu acho que ele ajude muito a Mafé. Não tô passando pano para ela, não, tá? Foi só uma coisa que eu percebi assim. que como ele foi indo de pouquinho em pouquinho, aí quando, né, o negócio estourou, quando deu errado, deu ruim, que ela apareceu grávida, ele simplesmente sumiu, deu no pé. E ai gente, ó, juro, eu não sei nem o que dizer. Realmente é um relato que eu
eu não sei nem o que dizer. E não é nem porque eu tô com medo, sei lá, de falar alguma coisa e vocês interpretarem errado, não. É, realmente eu não sei o que dizer porque são tipo muitas camadas, eh, enfim, muitas camadas mesmo. Então, não vou dar muitos pitacos porque eu realmente não sei o que dizer. A única coisa que eu peço é que peguem leve nos comentários. Eh, até falei sobre isso mais cedo num vídeo que provavelmente já foi ao ar a que, enfim, querem, vocês querem comentar alguma coisa, comenta, mas assim, comenta com
um certo respeito. Ai gente, não sei o que dizer porque realmente é um relato bem complicado, é um relato bem, nossa, é um relato muito muito muito complicado, mas eu acredito que num relato igual a esse, eu acredito que a pessoa que enviou ela já tem um pouco de noção dos comentários que vão vi [suspirando] a respeito dela. Enfim, então assim, eh, foi só aquilo que eu falei mais cedo num vídeo que já foi ao ar. Eh, enfim, peguem leve nos comentários para as pessoas continuarem mandando relatos assim. E só para reforçar uma coisa que
eu falei no início do vídeo, vou finalizar. Meu trabalho aqui é ler o relato, tá? Ela já até mandou num e-mail que ela já especificou que ela criou só para isso. Eh, eu não sou a polícia, eh, eu também tenho a minha vida pessoal, minha vida particular. Eu sento aqui, leio os relatos, mas quando eu desligo a câmera, que eu levanto daqui, que eu saio aqui desse quarto onde eu gravo, eu tenho a minha vida pessoal lá fora, eh meus problemas pessoais para resolver. Então assim, gente, sem chance alguma, sei lá, ficar indo atrás ou
enfim, acho que vocês entenderam o que eu quis dizer. E lembrando também que nenhum de vocês aqui é é FBI, eu também não sou. Então, aprendam a escutar o relato e vida que segue. Eh, outra coisa também já aconteceu de quando tem relatos assim, ficarem tentando invadir o e-mail que eu recebo o relato, tá? Porque o e-mail, né, vocês já sabem qual que é para enviar os relatos e fica aparecendo lá que tem alguém tentando recuperar a senha. E eu entendo mais ou menos porque que as pessoas fazem isso para ver se vê as fotos
e tudo mais. Mas gente, não adianta vocês ficarem fazendo isso, porque quando são relatos assim, eu excluo, tá bom? Eh, então, enfim, mas por favor, né, peço encarecidamente que parem com isso, aprendam eh a escutar o relato, né, a ouvir, a assistir e vida que segue eh sejam adultos, tá bom? Então é isso, tá? Eh, só lembrando, para quem fica tentando invadir meu e-mail quando tem relatos assim, quando tem relatos pesados eu excluo, tá? Eh, então, mesmo que alguém consiga invadir, vocês nunca vão descobrir da onde que são esses relatos, quem enviou porque eu excluo,
tá? Ah, Leandra, mas aí depois se a pessoa enviar de novo, quando são relatos assim, gente, são relatos que marcam, sabe? Então é impossível eu esquecer, mas eu excluo. Então é isso, gente. Espero que vocês tenham gostado tanto quanto eu gostei de estar aqui contando a história para você. Então, ó, um grande beijo a todos. Tchau, tchau. Eu vejo vocês no próximo vídeo, nos próximos relatos. Yeah.