No capítulo final do décimo livro da "República", Sócrates narra o "Mito de Er". Este mito representa como a alma originária do mundo inteligível retorna ao mundo sensível por meio de uma espécie de reencarnação. Er regressou à vida após a sua morte e ele foi escolhido pelos juízes da alma para contar aos vivos sobre o além.
Em um relato é dito que quando as almas se apresentam para uma nova vida aqui na terra, uma espécie de divindade as coloca em ordem. Apresentando as almas, há três entidades: Láquesis, Cloto e Átropos, também conhecidas como "As Moiras", consideradas as tecedores do fio do destino das pessoas. Cloto tece o fio da vida, Láquesis cuida da sua extensão e caminho e Átropos corta o fio da vida.
Láquesis, então, anuncia os lotes e os diversos modelos de vida para as almas que irão renascer na condição de mortais. Ela avisa que será realizada uma espécie de sorteio: o primeiro que a sorte couber, deverá escolher uma vida a qual ficará ligado. Assim, extraímos que a ordem de preferência, na opção de vida, se dá por sorteio.
Mas é dito também, que alma tem parte nessa escolha, pois, nesse sorteio o número de vidas a serem sorteadas é maior do que o número de almas existentes para reencarnarem naquele momento. Sendo assim, é possível que todas escolham aderir a uma vida virtuosa. Portanto, depois do acaso, existe liberdade para a alma escolher ou não atender em sua vida aos princípios da virtude.
É dito que a virtude não tem senhor, sendo a responsabilidade de quem escolhe. Platão é contra a ideia de que os deuses definem o destino das pessoas. Para ele, somos nós quem escolhemos a vida que temos.
As palavras de Sócrates: "Cada um terá a virtude em maior e menor grau conforme a honrar ou a desonrar. A responsabilidade é de quem escolhe. Os deuses são isentos de culpa.
" No mito, é dito que as mais diversas vidas eram possíveis e estavam disponíveis. Longo ou breve, obscuro ou ilustre, vidas de tiranos que enriqueciam até a morte, outras interrompidas na meia idade, outras diversas culminando em pobreza. Algumas de exilados, fugitivos, pessoas famosas e dos mais diversos tipos.
Havia também, as vidas obscuras sobre todos os aspectos. Vidas confusas, medíocres, insignificantes e muitas outras. Mas, em nenhuma delas as disposições do caráter estavam determinadas e por ser muito difícil que o caráter mude conforme a vida que escolhemos, deveria-se buscar através dessa escolha atingir a uma vida virtuosa e boa e, conhecendo a si mesmo poderia ser feito uma escolha sábia.
Em outras palavras, não é somente a vida que nos acontece, também nós fazemos acontecer na vida, mas se todos os demais elementos da condição de vida escolhida estavam misturados a riqueza, pobreza, a saúde e a doença, democracia ou tirania, a facilidade ou dificuldade em aprender, o que poderia nos dar a capacidade de escolher uma vida honesta e virtuosa tanto quanto possível? Para Platão, é fundamental que aprendamos a prever o bem ou mal que produz a mistura das características citadas acima e, como determinada disposição da alma produz as consequências. Ele chama de "má vida" a que resulta no final do processo em tornar a alma mais injusta, e "boa" aquela que torna a alma melhor, aproximando-a do mundo inteligível.
Sobre a alma de Ulisses, herói da guerra de Tróia, é dito que a sorte reservou-lhe ser a última pessoa a escolher e feliz por ter encontrado uma vida simples,. Alheio a complicações, disse que teria feito a mesma escolha se a sorte tivesse designado a ser o primeiro a escolher. E no fim, é explicado o fato de não nos lembrarmos de termos escolhido por nossas vidas.
Isso acontece porque antes de reencarnarmos, bebemos da água do Rio do Esquecimento. Platão busca mostrar que a concepção fatalista e determinista do destino está errada, não importando o tipo de vida que escolhemos e que levamos.