[Acorde de violão] [Buzina de carro] Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Olá! Seja bem-vindo ao Inédita Pamonha, nosso podcast semanal de toda a quinta-feira.
Estamos com patrocínio dos amigos da Eastman Chemical do Brasil. Do BNP Paribas Asset Management. E da Profuse Aché.
Amigos que estão nos apoiando nessa empreitada de propor uma reflexão por semana sobre temas da vida. [Fundo musical] Haverá quem sugira o fim do desejo. Haverá quem diga que a vida boa não tem a menor chance de triunfar se continuarmos desejando o tempo inteiro.
Vamos atrás daquilo que nos falta e quando não nos falta mais, resta passar a desejar outra coisa e assim, claro, ficamos na frustração que não acaba. Nessa espécie de lacuna permanente, de carência eterna. Sem o desejo, nenhum problema desse tipo nos aborreceria, sem o desejo haveria saciedade, satisfação, plenitude.
Sem o desejo não daríamos conta da falta e, pelo contrário, nos encantaríamos com a presença, em plena reconciliação com o mundo. Sem o desejo não haveria inclinação para o mundo e permaneceremos verticais, 90 graus em relação ao solo. Só sem o desejo estaríamos equilibrados, sem a angulação para frente, de quem busca no mundo, ou a angulação para trás, de quem foge dele.
Por isso vamos atrás de uma vida sem desejo. Será possível? Será vivível?
Será até cogitável uma vida onde o desejo não integre o tempo inteiro, não acompanhe o tempo inteiro cada passo existência? Os gregos falavam em "ataraxia", hora uma vida boa exigiria esta couraça diante do mundo. Tendência a não se deixar abalar.
assim Assim, não nos abalamos nem com o que é devastador, mas também tão pouco com o que é euforizante. Veja só, alguém chega para você desesperado e diz: tua casa pegou fogo, a família pereceu queimada, você não tem mais nada, todos os seus entes queridos morreram. Ora, equilíbrio, ataraxia, couraça, proteção diante do mundo.
Nada me abala, pode continuar, pode continuar, eu estou protegido contra qualquer notícia, qualquer ocorrência, qualquer fato, por mais aparentemente devastador que seja. Claro que se chegar alguém dizendo: olha você conseguiu aquele posto na empresa que tanto queria, seu salário multiplicou por 10, você ganhou na loteria, seu time será campeão até você morrer e tantas outras coisas, como por exemplo aquela mulher amada que nunca te deu bola agora rastejar aos teus pés. Pois muito bem, saiba, isso também não fará a ataraxia mover 1 cm de onde está, e você permanecerá vertical, inabalável sem se deixar contagiar para o bem ou para o mal, você fica onde está, reconciliado com o mundo.
[Fundo musical] Ora, eu espero que você esteja me ouvindo, prestando atenção e se lembrando da própria vida. Talvez se estivermos eu e você bem da cabeça, certamente nos damos conta das nossas fragilidades, e certamente nos desesperaremos com cada uma dessas notícias devastadoras, e certamente gritaremos de júbilo ante cada boa-nova que nos chegar. Se os nossos filhos estiverem ameaçados, nos desesperaremos.
Se nossos esposos correrem perigo, nos entristeceremos ou nos angustiaremos. E até o patrimônio, aparentemente tão menos relevante, pode levar muita gente a se atirar de onde está quando ameaçado. Veja que interessante, não é só uma questão de sofrimento inexorável, de alma devastada.
Se a vida boa requer uma blindagem, uma espécie de imunidade, talvez pudéssemos imaginar que boa parte dos grandes gestos, dos grandes movimentos da história, levados a cabo por grandes homens que se tornaram heróis. Talvez nenhum deles tivesse acontecido, ou pelo menos, acontecido como aconteceu. Talvez, só o homem turbinado por desejo ardentes, amores enlouquecidos ou enormes temores possa ter agido ou reagido de maneira tão sublime, de maneira a transformar o mundo de forma tão decisiva.
Parece até que os grandes gestos de coragem, na contramão das probabilidades de vitória, na invertida até mesmo das possibilidades de sucesso, só poderiam ser possíveis em desejos inebriantes, em gestos tomados de um arrobo que nada tem a ver com o equilíbrio impassível. Então, aí ficamos na mão. E eu te diria mais, eu agora vou te dizer uma coisa que gosto de repetir e que eu acredito muito.
Não conhecemos verdadeiramente uma pessoa até o momento em que a flagramos fora de sí. É no destempero, é no desequilíbrio mais radical, é na quase loucura, é no momento inopinado de desvario que poderemos ter uma noção de quem temos pela frente. De com quem nos relacionamos, quem é que tá ali, verdadeiramente.
É o desvario que permite o desnudar mais genuíno, sabe por quê? Porque no equilíbrio mais tradicional daquele cotidiano todo ele enrijecido, onde as pessoas se deslocam em seus cabides, posando para serem observadas, falando para serem ouvidas, desfilando para serem contempladas, o que temos aí é gente encenando, é gente longe de si mesmo, é gente distante do que tem de mais genuíno. É por isso que eu acredito que só quando mandamos às favas os observadores, quando mandamos para o inferno aqueles que nos julgam a cada olhar e a cada instante.
Quando damos uma banana para o mundo que nos cerca, que temos alguma chance de revelar quem verdadeiramente somos. Portanto, penso eu, e aqui é Clóvis falando, que a ataraxia poderá até proteger alguma vida boa, mas será vida boa toda ela amarrada pelos controles de uma consciência toda ela trancada, uma consciência toda ela armada para não deixar escapar, não deixar escapar tudo aquilo que temos de mais original, de mais fundamental, de mais essencialmente nosso. [Fundo muscial] Essa tal de ataraxia que os gregos tanto falam também nos levaria a um certo destemor, afinal de contas trata-se de uma competência de não se deixar abater ante nenhum mundo, inclusive aqueles apenas imaginados.
Eita! Claro uai. .
. Você não se deixa abater diante das ocorrências percebidas com os olhos e com os ouvidos, mas também não se deixa desequilibrar ante as suas próprias cogitações, por isso quem está em ataraxia não teme, não tem receio, não tem medo de nada. Nem do professor que perturba na hora da prova, tão pouco do chefe que costuma humilhar.
Muito menos da traição do ente querido, do marido amado, na ataxia desdenhamos até da morte. Não passa pela nossa cabeça, nada nos desequilibra, medo nem pensar. [Fundo musical] Nossa, tudo isso é tão distante da vida.
Pelo menos da minha, eu não sei você meu querido ouvinte desse podcast. Eu não sei você, mas eu tenho medo quase o tempo inteiro. Tenho medo do que possa acontecer à aqueles que eu amo, tenho medo do que possa acontecer a mim mesmo, tenho medo de não poder mais estender a mão aos que contam comigo.
Tenho medo é verdade de decepcionar, tenho medo do olhar daqueles que me julgam, sim eu tenho. "Professora não esperava isso do senhor", pois é, está aqui um gesto genuíno da minha parte. Claro que tenho medo daqueles que me julgam, evidentemente que tenho.
Tenho receio daqueles que assumem a posição de superiores hierárquicos em relação a mim e que se desgostarem do meu gesto poderão me punir, causando estragos na minha vida. Estragos que quando materiais me aborrecem menos, mas que podem ser simbólicos, que podem ser de reputação, que podem ser de notoriedade. E tudo isso machuca muito a nós mesmos e à aqueles que nos amam.
Claro que eu tenho medo e eu não estou sozinho nessa. Você sabe, você acorda apavorado, você não quer que os teus entes queridos morram, você não quer que os teus entes queridos sofram, e você também, porque se ama bastante, também não quer sofrer. O medo tá aí à espreita o tempo inteiro.
Se a tal da ataraxia elimina o medo, posso lhes garantir, não sei do que se trata. Que venham os gregos me ensinar a buscar lá, porque talvez nunca tenha vivido nela. E acredite, penso não estar sozinho.
O grande Drmmond em poesia de título "O Medo" também se solidariza comigo. Quem sabe até conosco. A impossibilidade da leitura me fez tentar memorizar, Ronaldo ao meu lado acaba de ler o poema.
Como a memória é fraca, vão só os dois primeiros versus: "Em verdade temos medo, nascemos escuro, as existências são poucas, carteiro, ditador, soldado. Nosso destino incompleto. E fomos educados para o medo, cheiramos flores de medo, vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadeamos". Como eu gostaria de ter decorado o resto, mas esse trechinho basta para perceber o quanto o temor desequilibrado, naquela potência despencante pelo mundo que cogitamos e que nos devasta, o quanto isso faz parte da nossa vida, azeda o nosso dia a dia, amarga a existência e tem tudo para continuar enquanto vida houver. Quanto a plenitude, essa plenitude da mente cheia que afasta qualquer divagação, essa plenitude da existência tão completa que a mente não encontra um milímetro para vaguear pelo passado nostálgico ou pelo futuro benfazejo, por vidas paralelas, essa plenitude, mas é tão rara, tão rara, que eu fico esperando o próximo filme argentino, quem sabe a próxima novela de ética e de época, para poder sentir outra vez.
[Fundo musical] Fica bem. Essa foi mais uma das intervenções que eu chamo aqui de Inédita Pamonha, podcast que nos une toda quinta-feria e que eu espero te faça bem. Se gostou, ouve de novo, e se discordar me dá muita honra.
Estamos com o patrocínio dos amigos da Eastman Chemical do Brasil. Do BNP Paribas Asset Management e da Profuse Aché. Até!
Valeu. [Fundo musical] Você ouviu o Inédita Pamonha, por Clóvis de Barros Filho, trazido até você pela revista INSPIRE-C. Acesse: www.
revistainspirec. com. br E nos siga nas redes sociais!
Este podcast foi editado por Rádiofobia - Podcast e Multimídia.