Eu quero morrer estudando, porque eu isso eu entendo. O que é o conhecimento, o que é isso tudo pra minha vida. Mas eu não sei se eu.
. . Se eu tenho mais tempo para poder fazer um mestrado, fazer um doutorado, viajar para fora do exterior, fazer todos os sonhos que eu tenho, né?
Que for foram despertados aqui. Se eu tenho mais tempo para isso, porque esse tempo foi me roubado. Foi me roubado por um sistema excludente.
Foi me roubado por instituições que não estavam preparadas para lidar com pessoas diferentes, né? por um sistema a qual eu vivi dentro da minha casa, né? Que uma mulher negra, uma mulher, uma mulher ela estava ali para casar, não estava ali para estudar.
Para de “mimimi”, para de inventar. Você nasceu como mulher negra e mulher para casar. Não inventa de estudar.
Não quer lhe falar, meu grande amor Das coisas que aprendi nos discos. Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar.
Eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa. Por isso, cuidado, meu bem, há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens.
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua é que se fez o seu braço e o seu lábio e a sua voz. você me pergunta pela minha paixão. .
. Eu sou a Iramaia, mais conhecida como a Maia, faço curso de história na UFF e tenho 46 anos. Meu sobrinho, recém formado de uma universidade estadual - da UERJ - veio morar na minha casa.
Um professor recém formado e ele começou a conversar comigo nos poucos momentos que eu tinha, porque o tempo todo eu estava sempre focada em produzir mais, em produzir mais, porque eu era importante e a minha importância eu sabia que estava ligada a minha produção. Hoje eu enxergo com outros olhos essa importância. Hoje eu enxergo que dentro dos 40 vendedores eu era melhor.
Eu era aquela que fabricava o melhor lucro, né? Eu era aquela que é que “Ah, você é a melhor”, aquele incentivo, mas porque eu era uma mão de obra muito importante pra aquele sistema. Então era por isso que aquele sentimento de “Ah, é aqui que eu pertenço” estava dentro de mim.
Eu passei uma infância que eu não lembro de muito, de muitas fraturas, traumas, não. Eu tive uma infância feliz. Porém, quando eu lembro de mim no âmbito escolar, eu não tenho boas memórias, né?
Eu larguei o colégio com 15 anos, por aí, 14, 15 anos. Eu fiz até a antiga sexta série, sexta, sétima série, por ali. E eu era uma aluna muito repetente, uma aluna tida como indisciplinada.
Eu batia nos coleguinhas, e inundava o colégio, eu jogava papel higiênico no teto, eu não parava sentada na cadeira. Então eu era tida como uma aluna indisciplinada e conforme as minhas repetências, eu não me sentia bem naquele lugar. Eu não gostava de ir para o colégio e eu me sentia.
. . naquele momento eu não sabia o que sentia, só não queria estar naquele lugar.
Nessa fase, aos 38 anos, a gente estava passando no comércio por uma inserção muito grande de tecnologias, sabe? A loja na qual trabalhava de comércio estava estava sendo informatizada e nessa época eu ouvia muito falar assim: “Ah, quem não, quem não tiver o ensino médio vai ser mandado embora. ” Eram aqueles relatos muito comuns, né?
E aí eu fiquei um pouco preocupada e pensei em voltar a estudar, mas só a sensação de voltar para aquele lugar que me remetia a coisas tão ruins, tão. . .
tão. . .
Me remetia à pessoa ruim que eu era, à pessoa burra que eu era, aquela pessoa menor, né? Aquela pessoa que. .
. Eu não voltei. Eu não voltei, eu vou ser mandada embora, mas eu não vou voltar para o âmbito escolar.
E meu sobrinho trabalhando comigo falou: “Tia, vamos se matricular num Brisolão lá em Neves, que tem a EJA, que é uma educação para jovens e adultos. A senhora consegue fazer num tempo mais curto, tendo coisa que a senhora trabalha. Vamos?
” E aí ele foi comigo, me inscreveu nesse Brisolão lá em Neves, São Gonçalo. E aí eu comecei, né? Comecei pra ver qual é, né?
Sabendo que eu não ia conseguir, mas eu fui. Mas de por conta desse “passava, não passava” e trabalhava muito, né? E aí as apostilas, eu não conseguia ler as apostilas, mas eu consegui aprender um pouco.
E aí, lá dentro um. . .
eu não lembro se foi um professor ou se foi um coordenador falou pra mim: “por que você não faz um Encceja, que é mais fácil, você vai ter o certificado, vai ter a sua segurança perante o seu trabalho? no comércio, você não vai ser mandada embora. Faz o Encceja que é mais rápido, né?
” Aí eu fiquei feliz, como que ele me explicou: “São dois dias, um sábado, domingo você faz uma prova e sai com o certificado. ” Eu falei: “Que maravilhoso, né? ” E eu fui.
Meu sobrinho me inscreveu, porque nem me inscrever eu sabia, né? Ele me inscreveu e eu fiz essa prova de certificado, né? Em busca desse certificado.
E eu fiz a prova e eu passei em quase tudo. Eu só fiquei em uma disciplina, que se eu me lembro era química. Acho que era química.
E eu falei: “Nossa, talvez eu não seja burra, né? Eu passei nessa prova! Gente, eu tenho conhecimento do ensino médio, que lindo!
Eu sou. . .
Talvez eu não seja burra. ” E aí ele falou: “Tia, agora a senhora vai na EJA, onde a senhora estava fazendo, né? E a senhora.
. . Eu poderia abater essa disciplina, que ficou pendente na prova de certificado que eu fiz.
” Eu fui lá, fiz essa disciplina e com a ajuda de um professor muito bom eu consegui aprender. Hoje em dia eu tenho até ainda a fórmula, aquela formula de química na cabeça. O que eu consegui no.
. . na EJA, não na Encceja.
Então ali eu termino meu ensino médio, saio com certificado toda feliz e não tenho mais aquela insegurança de ser cuspida do comércio. E o meu sobrinho, como professor, falou: “Agora a gente vai continuar. ” Eu entrei em desespero.
eu falei: “Não, eu não vou, não vou pra universidade porque não tem capacidade, eu sou burra. ” Tudo aquilo que eu já falei, que foi implementado no meu subconsciente. E eu fiz o primeiro semestre, o meu.
. . o meu.
. . o meu sobrinho me ajudou, me deu a mão, me mostrou as ferramentas, me ajudou e eu passei com notas razoáveis.
Ele começou a colocar um pensamento crítico e ele falou para mim. Eu lembro da palavra que ele falou pra mim: resistir. Resistir e estudar é a única forma que você tem como lutar contra tudo o que você passou, tudo o que fizeram com você.
E aí, mesmo no meio daquele desespero e pânico, eu decidi, ali, continuar. “A importância da educação como espaço de luta no qual é possível propiciar a cada um e a todos as condições de conhecer as múltiplas possibilidades da vida e as suas potencialidades sufocadas ou mesmo desconhecidas, ou ainda, como diria Rancière, das muitas vidas que lhes são roubadas. Consideramos esse um dos elementos essenciais que deve orientar a formulação dos princípios e objetivos das propostas de formação dos educadores de jovens e adultos trabalhadores.
” Quando eu fiz o Encceja, né? Quando eu comecei na EJA, mas acabou que me mostraram os caminhos mais fáceis, né? E eu fiz o Encceja, eu não tive conteúdo, eu não aprendi nada, eu não aprendi nada no Encceja, né?
Eu apenas tive um certificado carimbado. Volta para o comércio. É isso que eu entendo.
É isso. . .
Eu não sei. . .
É. . .
assim, eu não sou uma especialista da EJA, eu não sou uma grande entendedora. Como eu falei no começo, eu estou aqui para dizer o que eu senti. Hoje em dia eu vejo que todas as dificuldades que eu tenho foi porque me deram o certificado sem eu ter preparo.
Não. . .
não. . .
não. . .
não me deram, não investiram em mim no processo ensino-aprendizagem. Eu não aprendi nada. Eu pulei da sexta, sétima série para dentro de uma faculdade particular.
Cadê o ensino? Cadê o. .
. . O desenvolver da aprendizagem?
Eu não tive. Eu fui lá, fiz uma prova, né? Eu entendo isso como sucateamento, né?
Como preparar indivíduos para aquela demanda daquela época, né? Porque a loja que eu trabalhava ia ser toda informatizada, então precisava de outros modelos de funcionários. O Enseja não foi agregador em nada para mim, em nada.
Ao contrário, me alienou mais ainda, porque eu saí de lá achando que eu sabia alguma coisa e quase me convenci disso. Só não fui. .
. Só não parei ali porque eu tinha um professor do meu lado. Eu tinha aquele indivíduo que luta pela ascensão dos seus alunos, das pessoas ao seu redor.
Eu tinha um militante, aquele que milita por um resgate dos menos favorecidos. “Um professor da EJA”. Professor da EJA.
Ele. . .
ele hoje é professor da EJA. Na época ele não era, hoje ele é. E ele.
. . Ele foi.
. . Eu cito ele em todos os meus memoriais, eu cito ele em todos os lugares, sabe?
E ele está nessa luta, né? Nas causas dos menos favorecidos, dos excluídos. E é nessa luta que eu quero estar.
Eu acredito muito nessa energia e é aqui que eu me acalmo quando eu estou no meio da turbilhão. . .
Turbilhão de coisas, do somatório de tarefas que é tanto delegada a nós que somos mulheres, né? E aí eu chego aqui na faculdade às vezes sem dormir, às vezes cansada, esgotada. E aí eu venho pra cá, pra minha terapia, pra minha cura.
Então eu gosto muito também da biblioteca e eu gosto muito também daquele espaçozinho que fica ali perto da Baía de Guanabara, que às vezes, entre o intervalo de uma aula e outra, eu fico ali pensando na minha vida, na. . .
Eu gosto muito de colocar uma música que quando eu estou ali perto do mar, remete muito a minha vida. Ah, eu não sei nem se eu lembro a letra direito, mas é uma música que remete muito a minha história, sabe? Foram tantos caminhos que foram ditados para mim, tantos.
. . tantos caminhos de fracasso, tantos caminhos de.
. . de “aqui não é o seu lugar”, de demarcação.
E eu fiz a minha história, eu refiz a minha história. Então isso daqui pra mim é. .
. É mais do que estar numa universidade, É uma questão de conseguir isso, é uma questão de dos caminhos que eu tracei. E é isso.
“Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei. As histórias, os caminhos, O destino que eu mudei. Cenas do meu filme em branco e preto, que o vento levou e o tempo traz.
Entre os amores e amigos de você me lembro mais. ” Como professor, ele me mostrou a importância de eu fazer uma universidade pública, que existe um diferencial na universidade pública, a qual eu precisava vivenciar, a qual eu precisava ver essa diferença. E o meu professor, o meu sobrinho, como ele era professor de português redação, ele me ajudou através da redação a tirar uma nota muito boa na redação.
Então eu consegui entrar na UFF. Na quinta chamada eu entrei. E entrei para um lugar que eu nunca pensei que eu pudesse chegar.
Ou melhor, eu fui convencida que eu nunca poderia chegar. E aqui dentro dessa universidade foi um divisor de águas. E eu posso comparar com a universidade particular, não tirando a importância dela na minha vida, mas foi um divisor de águas.
Eu aprendi a pensar, eu consegui pensar, eu consegui me libertar, eu consegui ter contato com tudo aquilo que eu nem sabia que existia. Porém, por conta de toda essa minha história de deficiência, eu, a minha luta é muito grande. Então quando eu passo por isso, eu fico um pouco revoltada, porque eu consigo entender o que todo esse sistema fez comigo.
Ele me roubou meu tempo, ele me roubou a mãe crítica que eu poderia ter sido. E hoje em dia os meus filhos não seriam pessoas alienadas como eles são. Porque quando eu fui me libertar os meus filhos já eram jovens, né?
E eles já não me ouviam tanto. Só que eles poderiam ter sido criados por uma mulher crítica se não fosse me tirado o direito de estudar, né? Porque eu era diferente, eu era tida como diferente.
Então, aqui na universidade, apesar de me sentir pertencente, apesar de ter vontade de morar nesse lugar, eu tenho muita dificuldade, muita dificuldade, que eu carreguei por conta dessa, desse meu histórico, desses meus relatos de vivência escolar, de evasão. Então, é como eu disse, eu me sinto muito triste quando eu descubro - aqui é um lugar de descoberta - quando eu descubro “meu Deus, eu passei por isso. ” Aquela mão boba na cintura do gerente, aquela mãozinha aqui, aquilo era uma agressão, era uma agressão simbólica, era tudo.
. . Todas agressões simbólicas que eu passei.
Meu Deus, como eu deixei? Como eu vivia nesse mundo de alienação, sendo que se não tivesse sido rompido o direito de estudar, eu não tinha passado por aquilo tudo e eu ainda tinha formado os meus filhos cidadãos com tudo que eles tem direito. Porém, eu tô pronta pra resistir, eu estou pronta pra continuar e eu estou pronta para me blindar cada vez mais de conhecimento e me formar como uma professora e ser a Maia crítica e que traz para aquele aluno esse olhar que eu não pude passar para os meus filhos.
Ser a Maia que eu queria ter encontrado com 15 anos e não encontrei. Uma Maia que me dissesse: “Não, não é por aí. .
. ” “Não é porque você é uma mulher negra, com dificuldades, que você tem que desistir. ” Essa Maia que eu quero ser.
Ele vivia, o que o autor vivia, né? De que o negro é incivilizado, de que o negro é burro, de que o negro não sabe. E aí ele mostra através das histórias em quadrinhos, né?
Que esse local, da onde ele vem, das suas origens, é ao contrário. É um lugar. .
. Teve uma edição dessa história em quadrinhos que ele chega na sua terra natal na. .
. em Wakanda e existe muita tecnologia, existem impérios. E aí, indo ao contrário de que tudo que foi falado “De modo geral, os filhos de classe média e alta estudam em escolas confessionais ou escolas privadas que têm uma mentalidade mercantil, mas pelo menos ainda oferecem o acesso à cultura e ao conhecimento.
Quem é mais atingido, sem dúvida, são as classes populares, porque quem educa as classes populares é a escola. Nós deseducamos os jovens para fazer uma educação do atalho, que é muitas vezes reducionista, tecnicista, adestradora. Só que esse jovem está despreparado para enfrentar o mundo da produção e da competição capitalista e também para entender-se como sujeito, como protagonista, para poder se organizar.
É uma dupla mutilação. O jovem não está atualizado em bases científicas e técnicas e é lesado na sua cidadania” “Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude. Está em casa, guardado por Deus contando vil metal.
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos Como os nossos pais. ” pais. Pode falar?
Ai, gente, tentei fazer de tudo para não ensaiar de novo. Richard já arrumou logo. .
. É minha revolta, é a minha vingança contra esse sistema, que isso possa romper barreiras e que possa. .
. inspirar muita gente a não passar por tudo o que eu passei.