Hoje, celebramos com alegria essa festa extraordinária da Imaculada Conceição de Maria Santíssima. Essa festa tem uma grande importância, justamente porque ela recava as suas raízes nos inícios da Sagrada Escritura. Nós lemos, na segunda leitura de hoje, o trecho do livro do Gênesis em que se relata o pecado original.
É muito interessante que, quando São Lucas escreveu o seu evangelho, de alguma maneira, ele teve presente a cena do pecado original, uma vez que o diálogo entre Eva e a serpente de alguma maneira é remetido pelo diálogo entre Maria Santíssima e o Arcanjo. No caso, um anjo caído versus um anjo de luz, diante de duas mulheres virgens e imaculadas, justamente porque Eva também foi criada sem pecado. Ora, quando o homem caiu, derrubou consigo toda a criação.
Depois do pecado de Adão, o universo de todos os males entrou na humanidade: a morte, o sofrimento, a tristeza. A própria criação ficou perturbada por causa do pecado; ou seja, o pecado foi a grande tragédia da humanidade. Porém, todos nós podemos nos perguntar: se o pecado é algo tão terrível, que causou tanto mal e, sobretudo, produz o pior de todos os males, que é a condenação eterna no inferno, por que Deus permitiu que o mal acontecesse?
Por que Ele permitiu que o homem pecasse? Ora, só pode haver uma resposta a essa pergunta: Deus permitiu que o homem pecasse e que, com o pecado, viessem todos os males, porque, diz São Tomás, é melhor tirar o bem do mal do que tirar o bem do bem. É mais perfeito, requer maior virtude; ou seja, Deus permitiu que a doença chamada pecado fosse inoculada em todos os seres humanos porque o antídoto é muito superior.
Daí pode Ele tirar um bem muito maior. E é exatamente por causa disso que nós lemos essas palavras do versículo 15 do capítulo 3 do livro do Gênesis, conhecidas na tradição da Igreja como protoevangelho, ou seja, o primeiro evangelho, a primeira boa notícia de toda a Sagrada Escritura. Deus olha para a serpente e diz: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar.
" É muito interessante porque Deus é quem coloca essa inimizade; Deus é que coloca essa discórdia. Ele diz: "Porei, pois, inimizade entre ti e a mulher. " Notem, no livro do Gênesis, até esta cena, Eva nunca é chamada pelo seu nome; por doze vezes é chamada de "mulher", exatamente por causa disso.
Por exemplo, São João, no seu evangelho, nunca chama Maria Santíssima pelo nome; chama-a de "mãe de Jesus", e Jesus, quando se refere a ela, diz: "Mulher, minha hora ainda não chegou. " Mulher, eis o teu filho. E, no Apocalipse, no capítulo 12, eis que apareceu um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol; ou seja, ela é chamada de mulher porque, já nesta página do livro do Gênesis, Deus revela: "Eu tenho um plano de salvação para a humanidade.
" Ou seja, a nossa salvação não foi improvisada. Antes que o homem pecasse, Deus já previra a sua salvação. Antes que o homem viesse a cair, Deus já havia providenciado o remédio.
Que remédio é esse? Uma mulher e o seu descendente. Isso significa, queridos irmãos, que Maria Santíssima não aparece no nosso plano de salvação por um acaso.
Eu já vi, por exemplo, pessoas erroneamente explicarem que o Anjo Gabriel saiu procurando para ver e encontrar, quem sabe, uma menina digna. Isso não está na Escritura. Na Escritura, está escrito que, ao sexto mês, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José; ele era descendente de Davi, e o nome da virgem era Maria.
Ou seja, ela está prevista desde antes da criação do mundo como remédio para o pecado. O seu filho, nosso Redentor, não se encarnaria de qualquer modo. É importante que nós pensemos essas coisas na perspectiva de Deus; ou seja, Deus poderia ter salvado o mundo de outros modos.
Poderia, mas Ele quis salvá-lo deste modo, encarnando no ventre de uma mulher. Portanto, ela foi criada para gerar Cristo. Ela foi criada para ser a nova Eva que deu à luz ao novo Adão.
É muito interessante que o movimento da criação é um movimento, como dizia São Tomás, de éxodo, de saída. E, no movimento de saída, a mulher procede do homem; mas, no movimento de rédito, ou no movimento de retorno, é o homem que procede da mulher. Primeiro vem Maria e, depois, Cristo.
E exatamente o mistério da Imaculada Conceição se entende por causa dessa relação única. Ela foi criada para ser a mãe do nosso Redentor. Ela foi criada para esta finalidade; estava prevista desde todos os séculos.
Nós podemos dizer que toda a criação foi projetada em função de Jesus e Maria. Toda a criação, a relação que ela tem com Cristo, é única e exclusiva. É muito interessante que alguns irmãos não compreendem isso e dizem que os católicos afirmam que Deus teve que fazer Maria imaculada porque Cristo não poderia herdar o pecado de Maria.
Mas dizem eles, procedendo assim, nós também teríamos que dizer que Santana foi feita imaculada para que Maria não se contaminasse com o pecado de Santana. O problema não é esse; não se coloca nesses termos, o problema é outro: somente Maria Santíssima foi criada para ser a mãe de Deus. Somente ela foi criada para ser a doadora da humanidade santíssima, assumida pelo Verbo Divino, que é o instrumento da nossa redenção: humanidade santíssima tirada exclusivamente dela, sem concurso de homem.
Ela foi filha de São Joaquim e Santana, e Deus interveio na sua concepção para imunizar seu Salvador pela via da preservação. Ela foi preservada do pecado, mas, justamente porque somente ela é a mãe de Deus, Deus tomou a humanidade exclusivamente dela. Portanto, não havia outro jeito.
Aquela que nos deu o cordeiro sem mancha não podia estar manchada. Ela é Imaculada; nela não há a mancha da culpa primeira. E, se o pecado trouxe todos os males, a preservação do pecado em Maria trouxe todos os bens: um dilúvio de graças.
A alma da Santíssima Virgem é um oceano de fé, esperança e caridade. Ela é a obra-prima da criação. Vejam, nós temos na segunda leitura algo extraordinário que São Paulo diz: em Cristo Ele nos escolheu antes da fundação do mundo para que sejamos santos e imaculados sob o seu olhar no amor.
Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão da sua vontade, para o louvor da sua glória e da graça com que Ele nos agraciou no seu bem-amado. Vejam, Ele nos escolheu antes da fundação do mundo para que fôssemos imaculados. Mas eu pergunto: algum de nós aqui pode se dizer verdadeiramente imaculado?
Não! Todos nós somos manchados pelo pecado, carregamos relíquias dos pecados, apego pelo pecado. Somos, pelos nossos vícios, todos nós carregamos em nossa alma todo tipo de sequela que o pecado trouxe; e a grande maioria de nós, se não for para o inferno, vai ter que pegar um bom purgatório para poder ir para o céu.
Esta é a realidade. Ora, se Ele nos predestinou para sermos imaculados, será que a redenção de Cristo seria tão baixa que não houvesse uma criatura, uma criatura apenas, uma que fosse totalmente perfeita, totalmente sem mancha, totalmente plena da vida de Deus, cheia de um amor incomensurável, sobrenatural? A obra do Calvário foi perfeita e ela manifesta toda a sua perfeição em Maria Santíssima.
Portanto, quando eu digo que Maria é Imaculada, eu não estou diminuindo a redenção de Cristo; pelo contrário, eu estou mostrando que a redenção realmente funcionou, porque há uma criatura que não é Deus, é uma mulher, é uma criatura humana. Há uma criatura que verdadeiramente recebeu toda a perfeição da obra redentora de Cristo. Eu, quando digo que Maria é Imaculada, estou elevando a redenção de Jesus Cristo.
E mais: quando digo que Maria é Imaculada, eu estou mostrando mais uma vez que Jesus Cristo só tem um pai, que é o Deus eterno, e só tem uma mãe, que é a Virgem Maria; e Ele não poderia ser filho de uma mulher que tivesse sido escrava de satanás, nem por um segundo, pela mancha do pecado original. Portanto, a Imaculada Conceição é uma exaltação de Cristo, da glória de Cristo, do poder de Cristo, da graça salvadora de Cristo. Não há nenhum tipo de feitura da divina graça que ultrapasse em grandeza e beleza a formosura da alma da Santíssima Virgem Maria.
E é por isso, queridos irmãos, que a Igreja olha para ela com toda a veneração, como mãe do Verbo encarnado. Se você não entende quem é Maria Santíssima, saiba: é porque você não entendeu quem é Cristo. Aqueles que têm dificuldade, que ficam imaginando: "Ah, mas Maria tira a glória de Cristo", não estão compreendendo o fato básico de que, quando nós a colocamos no seu lugar, a redenção de Jesus Cristo adquire toda a sua formosura, toda a sua perfeição, a sua máxima expressão.
Isso nos enche de esperança. Por quê? Aquele que fez maravilhas na alma dela quer fazer maravilhas em nossa alma.
Nós nunca seremos a mãe de Deus, mas nós podemos, de alguma maneira, participar dessa divina maternidade, como diz Santo Agostinho, quando cooperamos com o Espírito Santo para que Ele seja gerado, para que o Verbo seja gerado em nossa alma. Queridos irmãos, que nós possamos assim dar essa exaltação ao Senhor. Dizemos: "Cantai ao Senhor Deus um canto novo, porque Ele fez prodígios".
Esse prodígio é d’Ele, é obra d’Ele; e quando nós o enaltecemos, quando nós o engrandecemos, quando nós o exaltamos, é a Deus que nós estamos glorificando, porque foi Ele, pelos méritos de Cristo, que realizou essa obra transformante nele, para que ela pudesse, desde toda a eternidade, prevista e anunciada, ser a mãe do cordeiro imaculado. Que o nosso amor à Santíssima Virgem não seja obscurecido. Que a graça do Espírito Santo possa acender em nós um grande afeto para com ela, sabendo que ninguém a amou mais do que o próprio Jesus Cristo.
E, portanto, se nós a amamos e honramos a sua conceição imaculada, nós estamos imitando o seu Filho, que nos ordenou, através do seu apóstolo, a termos em nossos corações os seus mesmos sentimentos. Que ela nos arraste para uma vida mais santa e que interceda por nós para que sejamos também purificados dia após dia, recuperando ao menos em parte a candura, a candura de nossa veste batismal.