Quem foi Sócrates? Sócrates, o pai da filosofia. Sócrates, o nome mais conhecido.
Vocês estão vendo ele aqui, desse meu lado: um busto de Sócrates. Todo professor de filosofia tem uma dívida de gratidão com Sócrates, e eu também. Hoje eu vou conversar com vocês a respeito de quem ele foi, quais são os registros mais confiáveis que nós temos sobre essa personalidade histórica e o que há de mítico, literário, poético e inventivo em torno da sua pessoa.
Me acompanhem. [Suspense musical] Sócrates foi um filósofo que viveu ali no século V antes de Cristo. Ele foi professor de Platão, que, por sua vez, foi professor de Aristóteles.
Mas Sócrates tem uma característica, um diferencial: ele se interessava pelos problemas humanos e voltou a especulação a respeito da realidade, que já era praticada pelos chamados físicos, os filósofos pré-socráticos. Na época, eles não tinham esse nome; eles se autodenominavam físicos. Por quê?
Porque eram estudiosos da natureza; queriam entender a essência da natureza, em que consistia a natureza. A especulação filosófica surge com esses homens, como Tales de Mileto, Anaxágoras, Anaxímenes, Heráclito e Parmênides. Eles dão um passo além, pois falam a respeito do ser.
Então, eles fundam a ontologia. Sócrates, na esteira desses homens com quem também aprendeu, volta-se para o seu interesse aos problemas eminentemente humanos. Então, em vez de olhar para a realidade exterior, ele olha para o nosso interior, e essa nossa percepção de que o ser humano tem uma vida interior — a chamada interioridade humana — é uma descoberta atribuída a Sócrates.
Bem, as duas fontes principais a respeito de Sócrates são as Apologias de Sócrates, escritas por Platão e por Xenofonte. A Apologia de Sócrates é muito conhecida como um diálogo de Platão, em que ele apresenta a personalidade de Sócrates, reconstituindo o discurso feito por Sócrates quando foi condenado à morte pelos atenienses. Por que condenado à morte?
Porque a atividade de professor, de formador, que tinha Sócrates em Atenas era análoga à dos sofistas. Quem eram os sofistas? Eram os professores de oratória, os professores de virtude, aqueles homens com múltiplos conhecimentos, que se propunham a ensinar os jovens herdeiros do poder político da cidade a serem bons líderes, a serem, digamos assim, homens de valor — homens de valor suficiente para conduzir a cidade, serem respeitados, terem liderança política, etc.
Bem, os mesmos garotos que se interessavam pelos sofistas, como Protágoras, Gorgias, Pródico e outros, passam a seguir também Sócrates. Contudo, Sócrates, embora atacasse os mesmos problemas que se ocupavam os sofistas, o faz de uma maneira completamente distinta. Os sofistas queriam ensinar alguém a ter excelência, a ser muito bom, a ser uma grande liderança.
Para o sofista, ser uma grande liderança significava dominar certas técnicas. Então, por exemplo, para Protágoras, ser uma grande liderança era ter um domínio absoluto do verbo; Gorgias também pensava assim: "Era dominar uma plateia, encantar uma audiência. " Portanto, a arte da oratória, a arte da retórica, era central na formação de um líder político, e era isso que ele dizia que era excelência.
Excelência era justamente você ter domínio da audiência. Mas Sócrates não; ele vai se perguntar: "O que é a excelência? O que é a virtude?
" Primeiro, eu preciso saber o que é virtude, depois eu vejo se é possível ensiná-la e, por último, eu passo a ensiná-la, se é que isso é possível. Então, Sócrates tinha uma abordagem filosófica da grande questão dos pedagogos gregos da sua época, que era preparar os homens para que fossem excelentes, exímios, tivessem virtude. O termo grego areté literalmente significa excelência, excelência no sentido de domínio máximo de uma habilidade.
Então, a virtude, quando traduzimos areté por virtude, evidentemente, pode ter esse significado, esse sinônimo de excelência, mas virtude, para nós, já tem uma conotação moral; a gente pensa nas virtudes. Por que essa conotação moral? Bem, porque justamente a excelência, em termos de realização humana, de ser uma boa pessoa, são as virtudes.
Então, você ser justo, ser corajoso, ser prudente, ser sábio, é justamente você ter uma habilidade máxima na questão do agir humano. Esse era o tópico, esses eram os componentes da educação, da pedagogia dos gregos, e Sócrates fazia isso filosoficamente, questionando sobre a definição das coisas. Mas o que é a virtude?
A virtude enquanto tal, como defini-la? E como é que ele fazia suas investigações? Interrogando todos aqueles homens da cidade que se consideravam os mais sábios.
Porque, a certa altura, um amigo de Sócrates, chamado Querofonte, vai até o oráculo e no oráculo de Delfos pergunta: "Quem é o mais sábio dos homens? " O oráculo diz para ele que é Sócrates. Sócrates passa a vida tentando entender o que o oráculo quis dizer com isso, porque ele próprio reconhece: "Tudo que eu sei é que eu nada sei.
A única coisa que eu sei é a extensão da minha ignorância. Então como é que eu posso ser o mais sábio dos homens? " Ele chega à conclusão — e isso a gente lê na Apologia de Sócrates de Platão — de que ele é mais sábio que os homens porque, pelo menos, tem consciência da própria ignorância, enquanto os outros homens são um bando de ignorantes que se acham os últimos biscoitos do pacote enquanto não sabem coisíssima nenhuma de nada.
Sócrates, pelo menos, dizia: "Eu tenho uma vantagem. Eu sei que eu sei; eu conheço a extensão da minha ignorância. " Então, é nesse sentido que Sócrates percebeu que era mais sábio que os demais homens.
A Apologia de Sócrates de Platão é um texto muito conhecido, mas a Apologia de Sócrates, escrita por Xenofonte, é um texto menos lido e que merece. . .
Leitura, porque na Apologia de Sócrates e Xenofonte, nós percebemos na de Platão que Sócrates mostra que ele estava sendo levado a julgamento pela cidade porque ele foi motivo de piada, em geral, dos comediógrafos gregos que olhavam com desconfiança a atividade dos sofistas. Ele foi, assim, motivo de piada dos comediógrafos gregos, em especial Aristófanes na peça "As Nuvens", mas também em outras peças ele fala de Sócrates. "As Nuvens" é a mais famosa a esse respeito.
E aí, Sócrates diz: "Olha, a antipatia contra mim vem de longe. " Então, é difícil aqui eu me defender desse processo específico, né? Porque faz tempo que as pessoas estão um pouco incomodadas com a minha atividade, que era interrogar os cidadãos a respeito das suas próprias técnicas para ver se eles realmente sabiam daquilo que falavam, ou pelo menos se sabiam aquilo que diziam saber.
E Sócrates vai chegando à conclusão que não; Sócrates irritou muita gente. Essa é a tópica principal da Apologia de Platão, mas a de Xenofonte tem um componente interessante também. Uma das acusações contra Sócrates é que ele ensinava os novos deuses, ele ensinava outros deuses.
Por quê? Porque Sócrates dizia que todos os raciocínios que ele encetava eram como que ditados por um "daimon". Um "daimon" é uma espécie de criatura intermediária entre os deuses e os homens; não dá pra gente traduzir "daimon", mas fica melhor quando a gente traduz como uma entidade divina, né?
Uma entidade divina ou, digamos assim, uma criatura espiritual que me assopra algumas pistas para que eu alcance a verdade. E aí, como Sócrates sempre evocava: "Ah, o daimon está me dizendo isso ou aquilo", ele foi acusado pelos seus inimigos de ser contra a religião da cidade. E Xenofonte procura mostrar, na sua Apologia, que Sócrates era muito atento a todas as regras das cidades, a todas as celebrações, a todas as cerimônias.
Para os gregos, e assim será para os romanos, você ser piedoso, ou seja, respeitar a religião, era algo obrigatório. Era um crime! A impiedade era um crime, um crime mesmo!
Tanto que muitos cristãos, que vão ser martirizados nos primeiros séculos, na cabeça dos romanos, estavam sendo martirizados porque não faziam libações para os deuses romanos. É óbvio que os cristãos não faziam, afinal, eles acreditavam no seu Deus, não nas divindades romanas. Mas, para os romanos, que só reconheciam a religião como libações para aqueles deuses, e que era algo público e que estava incluído como deveres de cidadania, os cristãos não fazerem isso era um problema enorme.
Essa era uma das razões principais do martírio! E, quando a gente investiga os documentos históricos, a gente percebe que era algo impensável para um romano uma prática da religião que não envolvesse o que a religião romana envolvia. E entre os gregos também você tinha essa prática das celebrações e essas práticas piedosas.
Xenofonte procura mostrar, na sua Apologia de Sócrates, o quão piedoso era Sócrates, porque ele participava dos rituais, que eram rituais públicos da religião dos antigos. Enfim, tudo isso que eu estou falando para vocês, evidentemente, vocês aprendem lendo tanto a Apologia de Sócrates quanto a Apologia de Xenofonte. Mas agora, a vídeo editorial lançou uma edição bem curtinha que, além de incluir as duas com uma nova tradução do professor Bernardo Lins Brandão, que é um professor que tem, além de um profundo conhecimento de Platão e da língua grega, um conhecimento muito profundo também de neoplatonismo.
Então, ele é um homem que tem uma vasta cultura sobre toda a antiguidade e um grande domínio do grego. Ele já traduziu o Banquete de Platão e aqui ele traduz a Apologia de Sócrates, a Apologia de Sócrates de Platão, a de Xenofonte, e nos brinda com um ensaio de abertura em que ele traz à tona a grande pergunta: será que o Sócrates descrito nas Apologias tem alguma coisa a ver com Sócrates, figura histórica, aquele homem que realmente viveu? E ele diz que o primeiro, ele compara as duas Apologias, mostra qual é a característica de cada uma.
Mas o que é mais interessante desse ensaio introdutório do professor Bernardo Lins Brandão é quando ele diz: "Olha, o Sócrates de Platão, dos diálogos platônicos, é realmente um personagem, e é um personagem que realmente serve bem ao novo projeto pedagógico de Platão, que é colocar a filosofia no centro da educação dos gregos, no lugar da poesia. Mas, para que Platão personifique o filosofar e a filosofia, como nada está no entendimento que antes não tenha estado na imaginação, ele precisa de um personagem de carne viva, né, que haja como se ele estivesse entre nós. Por isso que os diálogos platônicos são dramáticos, são peças de teatro.
Os diálogos platônicos, né? E o grande personagem de Platão, que é Sócrates, na verdade, é a personificação da filosofia. A filosofia que, evidentemente, Platão começa a aprender com Sócrates, mas ao domínio esse no qual ele alça um voo longo.
Platão tem uma importância absurda pra história da metafísica, que é, digamos assim, o componente central para a filosofia antiga e a filosofia perene, a filosofia, digamos assim, aberta a reformulações, correções, e sempre interessada em investigar as estruturas do real, as profundas estruturas do real que incluem o domínio da realidade, que é o domínio invisível. Então, Platão é um filósofo absolutamente fantástico, de modo que, quando Bernardo Lins Brandão defende que o Sócrates dos diálogos platônicos é um personagem para personificar a filosofia, a gente tem que compreender, e isso é verdade: além dos diálogos, nós percebemos que o Sócrates dos diálogos platônicos é muito mais variável e é uma personagem muito. .
. Mas versátil do que qualquer figura histórica poderia ser, tá? Por isso que é interessante a gente ler as duas apologias: a de Platão e a de Xenofonte.
Talvez a gente consiga, digamos assim, chegar ao mínimo denominador comum a respeito da figura de Sócrates, embora, como o próprio professor nos chama a atenção na sua introdução, essa história de escrever diálogos tendo Sócrates como grande personagem não foi algo que Platão inventou. Não foi algo que Platão fez; Xenofonte faz. Enfim, já era uma prática representar Sócrates como um personagem, um personagem que encarna essa nova atividade que é a atividade da filosofia, que já havia sido praticada por outros.
Evidentemente, nós temos em Platão um grande mestre do gênero, porque ele se notabilizou nesse gênero a tal ponto que é um dos poucos filósofos antigos cuja obra completa chegou até nós. A tal ponto que ele era amado; foi amado na antiguidade por ter alcançado a excelência nesse estilo. Então, eu vou deixar na descrição essa edição muito interessante, com uma introdução fantástica do professor Bernardo Lins Brandão, colocando em questão, né, fazendo a gente pensar sobre as relações entre o Sócrates histórico e o Sócrates de Platão, e mesmo Sócrates de Xenofonte e de outros textos socráticos.
E você que quiser ter alguma ideia do que é filosofia, comece por aqui. Comece tentando entender o que Sócrates significou para aqueles que com ele aprenderam a filosofar. O link está na descrição; é um livro curtinho.
Vou colocar um link para quem quiser comprar na Amazon e um link para quem preferir comprar na minha livraria com desconto especial, certo? Veja aí o que chega mais barato na sua casa, dependendo do lugar do Brasil que você estiver, porque a gente tem que considerar o frete, tá? Mas é um livro barato e valiosíssimo que todo mundo deveria ter na biblioteca.
Além do mais, você lê em uma tarde, e a introdução do professor Bernardo Luiz Brandão é o toque final de quem já conhece esses textos, mas tá sempre aberto a aprender algo novo a respeito da figura de Sócrates. Muito obrigada pela companhia e até o próximo vídeo!