Vidas Secas romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 8 festa Fabiano sem a Vitória e os meninos iam à festa de Natal na cidade eram três horas fazia grande calor redemoinhos espalhavam por cima das Árvores amarelas nuvens de poeira e folhas secas tinham fechado a casa atravessado o pátio descido a ladeira e pezunhavam nos seixos como bois doentes dos cascos Fabiano apertado na roupa de brim Branco feita por sim a teta com chapéu de Baeta colarinho gravata botinas de vaqueta e elástico procurava erguer o espinhaço o que ordinariamente não fazia sim a
vitória enfranhada no vestido vermelho de ramagens equilibrava-se mal nos sapatos de salto enorme teimava em calçar-se como as moças da rua e dava topadas no caminho os meninos estreavam calça e paletó em casa sempre usavam camisinhas de Riscado ou andavam luz mas tinha comprado 10 varas de pano branco na loja e incumbir assim a teta de arranjar farpelas para ele e para os filhos sim até taxara pouca fazenda e Fabiano Se mostrara desentendido certo de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos em consequência as roupas tinham saído curtas estreitas e cheias de emendas Fabiano tentava
não perceber essas desvantagens achava direito a barriga para fora as costas aprumadas olhando a serra distante de ordinário olhava o chão evitando as pedras os tocos os buracos e as cobras a posição forçada cansou e ao pisar a areia do Rio notou que assim não poderia vencer as três Léguas que o separavam da cidade descalçou-se meteu as meias no bolso tirou o paletó a gravata e o colarinho Roncou aliviado sim a Vitória decidiu imitá-lo arrancou o sapatos e as meias que amarrou no lenço os meninos puseram as chinelinhas debaixo do braço e sentiram-se à vontade
a cachorra baleia que vinha atrás incorporou-se ao grupo se ela tivesse chegado antes provavelmente Fabiano a teria enxotado e baleia passaria a festa junto as cabras que sujavam o copiar mas com a gravata e o colarinho machucados no bolso o paletó no ombro e as botinas enfiadas no pau o vaqueiro achou-se perto dela e acolheu retomou a posição natural andou cambaio a cabeça inclinada sim a Vitória os dois meninos e baleia acompanharam a tarde foi comida facilmente e ao cair da noite estavam na beira do riacho a entrada da rua aí Fabiano parou sentou-se lavou
os pés duros procurando retirar das gretas fundas O Barro que ela havia sem se enxugar-se e foi uma dificuldade os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens sim a Vitória levantou a saia sentou-se no chão e limpou-se também os dois meninos entraram no riacho esfregaram os pés saíram calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais sim a Vitória aprontava-se mas Fabiano soprava ariado tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas a outra emperrava e ele com os dedos nas alças fazia
esforços inúteis sem a Vitória dava palpites que irritavam o marido não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão há um arranco mais forte a alça de trás arrebentou-se e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha energicamente nada conseguindo levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo cocheando uma perna mais comprida que a outra com raiva excessiva a que se misturava alguma esperança deu uma patada violenta no chão a carne comprimiu-se os ossos estalaram a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta Fabiano soltou um suspiro Largo
de satisfação e dor em seguida tentou prender o colarinho duro ao pescoço mas os dedos trêmulos não realizaram a tarefa sim a Vitória auxiliou o botão entrou na casa Estreita e a gravata amarrou-se as mãos sujas suadas deixaram no colarinho manchas escuras está certo Bruninho Fabiano atravessaram a Pinguela e alcançaram a rua sim a Vitória caminhava a os tombos por causa dos saltos dos sapatos e conservava o guarda-chuva suspenso com o Cascão para baixo e a biqueira para cima enrolada no lenço impossível dizer porque sim a Vitória levava o guarda-chuva com a biqueira para cima
e o Cascão para baixo ela própria não saberia explicar-se mas sempre vira as outras matutas procederem assim e adotava o costume Fabiano achava peso os dois meninos espiavam os lampiões e adivinhavam casos extraordinários não sentiam curiosidade sentiam medo e por isso pisavam devagar receando chamar a atenção das pessoas suponham que existiam mundos diferentes da Fazenda mundos maravilhosos na serra azulada aquilo porém era esquisito como podia haver tantas casas e tanta gente com certeza os homens iriam brigar seria que o povo Ali era brabo e não conseguia que eles andassem entre as barracas estavam acostumados a
aguentar cascudos e puxões de orelhas e o colarinho furava ali o pescoço as botinas e o colarinho era me dispensáveis não poderia assistir a novena Calçado em alpercatas a camisa de algodão aberta mostrando o peito cabeludo seria desrespeito como tinha religião entrava na igreja uma vez por ano e sempre vira desde que se entendera roupas de festa assim calça e paletó engomados botinas de elástico e gravata não se arriscaria a prejudicar a tradição embora sofresse com ela suponha cumprir Um dever tentava para o Márcio mas a disposição esmorecia o espinhaço vergava naturalmente os braços mexiam
se desengonçados comparando-se ao este tipos da cidade Fabiano reconhecia-se inferior por isso desconfiava que os outros mangavam dele fazia-se carrancudo e evitava conversas só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa os negociantes furtavam na medida no preço e na conta o patrão realizava com pena e Tinta cálculos incompreensíveis da última vez que se tinha me encontrado houver uma confusão de números e Fabiano com os miolos ardendo deixaram indignado o escritório do Branco certo de que foram enganado todos lhe davam prejuízo os caixeiros os Comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro e os que
não tinham um negócio com ele Riam vendo passar nas ruas tropeçando por isso Fabiano Se desviava daqueles viventes sabia que a roupa nova cortada e cozida por cima terta o colarinho a gravata as botinas e o chapéu de Baeta o tornavam ridículo mas não queria pensar nisso preguiçosos ladrões faladores morfinos estava convencido de que todos os habitantes da cidade eram ruins mordeu os beiços não poderia dizer semelhante coisa por falta menor aguentar a facão e Dormiram na cadeia ora o soldado Amarelo sacudiu a cabeça livrou-se da Recordação desagradável e procurou uma cara amiga na multidão
se encontrasse um conhecido iria chamá-lo para a calçada abraçá-lo sorrir bater palmas depois falaria sobre gado estremeceu tentou ver o cocó disse a Vitória precisava ter cuidado para não se distanciar da mulher e dos filhos aproximou-se deles alcançou-os no momento em que a igreja começava a esvaziar-se saíram a os desceram os degraus empurrado machucado Fabiano tornou a pensar no soldado amarelo no quadro ao passar pelo Jatobá virou o rosto sem motivo nenhum o desgraçado tinha ido provocá-lo pisar-lhe o pé ele se desviara com bons modos como o outro insistisse perderá a paciência tiveram rompante consequência
facão no lombo e uma noite de cadeia convidou a mulher e os filhos para os cavalinhos arrumou-os distraiu-se um pouco vendo os rodar em seguida encaminhou-os as barracas de jogo contou o dinheiro com a tentação de arriscado se fosse feliz poderia comprar a cama de couro cru o sonho de sim a Vitória foi beber cachaça numa tolda voltou pôs-se a rondar indeciso pedindo com os olhos a opinião da mulher sim a Vitória fez um gesto de reprovação e Fabiano retirou-se lembrando-se do jogo que tiver em casa de Seu Inácio com soldado Amarelo fora roubado Com
certeza foram roubado a vizinha ou se dá toda e bebeu mais cachaça Pouco a Pouco ficou sem vergonha festa é festa bebeu ainda uma vez e em perdigou-se Olhou as pessoas desafiando-as estava resolvido a fazer umasneira se topasse o soldado amarelo esbodegava-se com ele andou entre as barracas em proado atirando coices no chão insensível as esfoladoras dos pés queria era desgraçar-se dar um pano de amostra aquele safado não ligava a importância a mulher e a os filhos que seguiam apareça um homem berrou no barulho que enchia a praça ninguém notou a provocação e Fabiano foi
esconder-se por detrás das barracas para tabuleiros de doces estava disposto a esbagaçar-se mas havia nele um resto de prudência ali podia irritar-se dirigir ameaças e desaforos a inimigos invisíveis impelido por forças Opostas expunha-se a cautelava-se Sabia que aquela explosão era perigosa temia que o soldado amarelo surgisse de repente viesse plantar ali no pé arreiu una o soldado Amarelo falta de substância ganhava fumaça na companhia dos parceiros era bom evitá-lo mas a lembrança dele tornava-se às vezes horrível e Fabiano estava tirando uma desforra estimulado pela cachaça fortalecia-se Cadê o valente quem é que tem coragem de
dizer que eu sou feio apareça um homem lançava o desafio numa fala atrapalhada com o vago receio de ser ouvido ninguém apareceu e Fabiano Roncou o alto gritou que eram todos uns frouxos uns capados sim senhor depois de muitos berros suposto que havia ali perto homens com medo dele insultou-os cambada de parou agoniado suando frio a boca cheia de água sem atinar com a palavra cambada de que tinha o nome debaixo da língua e a língua engrossava a terra Fabiano cuspia fixava na mulher e nos filhos nos olhos vidrados recuou alguns passos entrou a engulhar
em seguida aproximou-se novamente das luzes capengando foi sentar-se na calçada de uma loja estava desanimado bambo o entusiasmo arrefeceira cambada de quê repetir a pergunta sem saber o que procurava olhou de perto a cara da mulher não conseguiu distinguir-lhe os traços sim a vitória perceberia atrapalhação dele havia ali outros matutos conversando e Fabiano enjoou-os Se não estivesse tão ansiado arrotando suando brigaria com eles a interrogação que ele aperreava o espírito confuso juntou-se a ideia de que aquelas pessoas não tinham o direito de sentar-se na calçada queria que o deixassem com a mulher os filhos e
a cachorrinha cambada de quê soltou um grito áspero bateu Palmas cambada de cachorros descoberta a expressão teimosa alegrou-se cambada de cachorros evidentemente os matutos como ele não passavam de cachorros procurou com as mãos a mulheres e os filhos certificou-se de que eles estavam acomodados uma contração violenta no pescoço entortou-lhe o rosto a boca encheu-se novamente de saliva fosse a cuspir Serenou respirou com força passou os dedos por um fio de baba que lhe pendia do beiço estava era tonto com uma zoada infeliz nos ouvidos e a jurar que mostrar a valentia e correr a perigo
achava ao mesmo tempo que havia cometido uma falta agora estava pesado e com sono enquanto Andara fazendo espalhafato a cabeça cheia de aguardente desprezar as esfoladoras dos pés Mas esfriava e as botinas de vaqueta magoavam no endemasia arrancou-as tirou as meias libertou-se do colarinho da gravata e do paletó Enrolou tudo fez um travesseiro estirou-se no cimento puxou para os olhos o chapéu de Baeta e adormeceu com o estômago embrulhado sim a vitória achava-se em dificuldade torcia-se para satisfazer uma precisão e não sabia como se desembaraçar podia esconder-se no fundo do quadro por detrás das barracas
para lá dos tamboretes das doceiras ergueu-se meio decidida tornou a acocorar-se abandonar os meninos o marido naquele estado apertou-se e observou os quatro cantos com desespero que a precisão era grande escapuliu-se disfarçadamente chegou à esquina da loja onde havia uma gote de mulheres agachadas e olhando as frontearias das casas e as lanternas de papel molhou o chão e os pés das outras matutas arrastou-se para junto da família tirou do bolso o cachimbo de Barro ator show acendeu largou algumas baforadas longas de satisfação livre da Necessidade viu com interesse o Formigueiro Que circulava na praça a
mesa do leilão as listas luminosas dos foguetes Realmente a vida não era má pensou com um arrepio na seca na viagem medonha que fizeram em caminhos abrasados vendo ossos e garranchos afastou a lembrança ruim atentou naquelas belezas o burburinho da multidão era doce o realejo fanhoso dos cavalinhos não descansava para a vida ser boa só faltava assim a Vitória cama igual a de seu Tomás da bolandeira suspirou pensando na cama de varas em que dormia Ficou ali de cócoras cachimbando os olhos e os ouvidos muito abertos para não perder a festa os meninos trocavam impressões
cochichando Aflitos como desaparecimento da cachorra puxar uma manga da mãe que fim teria levado baleia sim a Vitória levantou o braço num gesto mole e indicou vagamente dois pontos cardeais com o canudo do cachimbo Os Pequenos insistiram onde estaria a cachorrinha em diferentes a igreja as lanternas de papel a os bazares as mesas de jogo e a OAS foguetes só se importavam com as pernas dos transeuntes Coitadinha andava por aí perdida aguentando pontapés de repente baleia apareceu trepou-se na calçada mergulhou entre as saias das mulheres passou por cima de Fabiano e chegou-se a os amigos
manifestando com a língua e com o rabo um o contentamento o menino mais velho agarrou-a estava segura tentaram explicar-lhe que tinham tido susto enorme por causa dela mas baleia não ligou importância a explicação achava que perdia um tempo num lugar esquisito cheio de odores desconhecidos que latir expressar Oposição a tudo aquilo mas percebeu que não convenceria ninguém e encolheu-se baixou a cauda resignou-se ao Capricho dos seus donos a opinião dos meninos assemelhava-se a dela agora olhavam as lojas as todas a mesa do leilão e conferenciavam pasmados tinham percebido que havia muitas pessoas no mundo ocupavam-se
em descobrir uma enorme quantidade de objetos comunicaram baixinho um ao outro a surpresas que os enchiam impossível imaginar tantas Maravilhas juntas o menino mais novo teve uma dúvida e apresentou a timidamente ao irmão seria que aquilo tinha sido feito por gente o menino mais velho hesitou lojas as toldas iluminadas as moças bem vestidas encolheu os ombros talvez aquilo tivesse sido feito por gente nova dificuldade chegou-lhe ao Espírito soprou-a no ouvido do irmão provavelmente aquelas coisas tinham nomes o menino mais novo interrogou com os olhos sim com certeza as preciosidades que se exibiam nos Altares da
igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes puseram-se a discutir a questão entre cada como podíamos homens guardar tantas palavras era impossível ninguém conservaria tão grande só uma de conhecimentos livres dos nomes as coisas ficavam distantes misteriosas não tinham sido feitas por gente e os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência vistas de longe eram bonitas admirados e medrosos falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura baleia cochilava de quando em quando balançava a cabeça e franzia o focinho a cidade se enchera de suores que a desconcertavam sim a Vitória enxergava através das
barracas a cama de seu Tomás da bolandeira uma cama de verdade Fabiano roncava de papo para cima as abas do Chapéu cobrindo-lhe os olhos o quengo sobre as botinas de vaqueta sonhava agoniado e baleia percebia nele um cheiro que o tornavaí reconhecível Fabiano Se agitava soprando muitos soldados amarelos tinham Aparecido pisavam-lhe os pés com enormes reúnas e ameaçavam terríveis