Sejam bem-vindos, amantes do terror. Eu sou o Caos e esse é meu canal. Olá, meu nome é Henrique e o que vou contar aqui não é fácil de admitir nem de lembrar.
Tudo começou numa fase que eu não desejo para ninguém. Eu era novo, sem experiência de nada, morando num bairro simples e enfrentando uma pobreza que machucava. Minha mulher estava grávida do nosso primeiro filho.
Cada vez que eu olhava pra barriga dela crescendo, misturava alegria com medo. Ela sentia desejo de comer umas coisas e eu não tinha nenhum trocado para comprar. Já chorei escondido no banheiro, ouvindo ela fungar no quarto, tentando disfarçar que tava com vontade de comer algo diferente.
Não era luxo, era um pedaço de melancia, um danone, um salgado da padaria. E eu ali de mãos atadas, coloquei currículo em tudo quanto é lugar, mercado, loja de roupa, oficina, até em cidade vizinha eu fui a pé entregar papel. Não recebi uma ligação sequer.
Era como se eu fosse invisível. Eu estava secando por dentro e por fora. A geladeira vazia, as contas empilhando, minha mulher emagrecendo no lugar de engordar na gravidez.
Teve um dia que eu decidi engolir meu orgulho e ir na igreja evangélica que eu frequentava quando era adolescente. Eu conhecia o pastor de Vista. Ele morava num bairro bom da cidade, sempre de carro novo.
Esperei ele terminar de falar com umas pessoas e fui até ele. Falei baixo com vergonha: "Pastor, desculpa incomodar, mas minha mulher tá grávida e a gente tá passando necessidade. Se a igreja puder ajudar com alguma coisa, uma cesta, qualquer coisa mesmo.
" Ele me olhou dos pés à cabeça, deu um sorrisinho torto e soltou. Você sumiu da igreja, não ajudava com nada e agora quer ajuda. Jovem, Deus ajuda quem trabalha.
Ficar esperando tudo cair do céu é coisa de preguiçoso. Aquilo me cortou por dentro. Eu abaixei a cabeça, agradeci mesmo sem ele dar nada, e saí com a cara quente de vergonha.
Me senti um lixo, um nada. Naquela noite, voltando paraa casa da minha mãe, onde eu estava morando, passei na frente da casa de um senhor que morava na mesma rua há anos. Ele sempre foi meio estranho, falava sozinho, usava umas roupas antigas e era cheio de livros e velas na varanda.
Quando eu era pequeno, ouvia ele contar pra criançada que tinha feito pacto com o diabo, que por isso tinha carro, casa boa e dinheiro guardado. Na hora, aquilo me veio na cabeça como se fosse uma luz torta. Voltei, bati no portão dele.
Ele apareceu meio desconfiado. Eu fui direto. Seu Raimundo, o senhor já disse uma vez que tinha feito um pacto.
Aquilo era verdade? Ele soltou uma risada forçada. Ah, menino, isso era para assustar criança.
Que conversa é essa? Eu insisti, segurei o choro. Não tá dando mais.
Eu não tenho mais o que fazer. Minha mulher tá esperando nosso filho e a gente tá passando fome. O senhor pode me ajudar?
Ele me olhou com uma expressão que eu nunca vou esquecer. Não era pena, era tipo um aviso. Mas mesmo assim ele abriu o portão e mandou eu entrar.
Me mandou sentar na sala e esperou uns minutos. Voltou com um livro velho, com a capa toda rasgada, cheiro forte de mofo. Abriu numa página marcada com um pedaço de pano e disse: "Se é isso que você quer, tá aqui o que precisa.
Mas saiba que não tem volta, não tem desculpa, não tem arrependimento. Fez, é para sempre. Ele me entregou o livro e falou para eu devolver até segunda-feira.
Fiquei com aquilo nas mãos, tremendo, sem saber se agradecia ou chorava. Voltei para casa com o coração disparado, o livro escondido dentro da blusa. Cheguei no meu quarto com o coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca.
Sentei na beira da cama com aquele livro pesado nas mãos enquanto minha esposa dormia. Ela respirava tranquila, abraçada à barriga. A luz fraca do poste da rua passava pela cortina fina e desenhava uma sombra no rosto dela.
Era bonita, mesmo com o rosto cansado. Eu encarei aquilo por uns bons minutos, tentando entender como a gente tinha chegado naquele ponto. Era para ser uma das fases mais felizes da nossa vida, mas tudo estava desmoronando.
Eu abri o livro com cuidado, como se ele fosse frágil ou perigoso demais, para ser manuseado sem atenção. As páginas estavam amareladas, tinha um cheiro estranho de guardado misturado com algo que eu não sabia identificar. Havia rabiscos nas margens, palavras riscadas, desenhos que pareciam símbolos, uns tão feios que eu nem conseguia olhar por muito tempo.
Pareciam olhos, bocas, criaturas. Uma parte me chamou atenção. Era um trecho separado com uma linha preta traçada à mão.
Tinha um título em letras esquisitas, quase apagadas, e embaixo começava uma sequência de instruções. Era um ritual, claramente. Não tinha outro nome para aquilo.
Fiquei lendo de novo e de novo, tentando entender cada passo. As palavras pareciam ter vida própria. Vela preta, espelho, sal grosso, sangue.
O meu sangue parecia absurdo, mas eu não conseguia parar de pensar que talvez fosse a única saída. Eu não queria ser rico. Eu só queria dar o básico paraa minha esposa e pro nosso filho, que nem tinha nascido ainda.
Guardei o livro debaixo do colchão e fiquei dois dias em silêncio. Eu olhava para ele como quem esconde uma arma. Tinha medo de abrir, mas mais medo ainda de continuar daquele jeito.
Minha mulher começou a sentir mais fraqueza. Teve uma noite que ela passou mal. acordou dizendo que tava tonta, com fome, tremendo.
Fui na cozinha e não tinha nada, nada, nem bolacha velha, nem arroz cru. Juntei moedas até completar R$ 2 e fui na padaria comprar dois pães duros. Ela comeu chorando.
Aquilo me destruiu por dentro. Foi ali que eu decidi eu ia fazer. Esperei até todo mundo dormir.
Eram quase 3 da manhã quando fui pro fundo do quintal. Peguei uma vela preta que comprei numa loja de artigos religiosos, um punhado de sal grosso que catei da dispensa da minha mãe, um espelho rachado que achei no lixo uns dias antes e uma faca de cozinha. O chão estava gelado e a noite estava estranha, silenciosa demais.
Desenhei um círculo no chão, como mandava o livro. Coloquei o espelho no centro, a vela acesa do lado, o sal ao redor e me ajoelhei. Minhas mãos tremiam, mas eu continuei.
Cortei a palma da mão com a faca. Doeu. O sangue começou a pingar no centro.
Eu falei as palavras do jeito que estavam escritas, mesmo tropeçando em algumas. Parecia um idioma antigo, embolado, mas era como se eu soubesse o que estava dizendo. Mesmo sem entender, o ar ao meu redor começou a pesar.
A temperatura mudou, o vento parou, a vela começou a estalar como se tivesse alguém soprando. E aí eu ouvi. Não foi com os ouvidos, foi dentro da cabeça.
Uma voz profunda, grossa, sem emoção. Não parecia voz de homem. Nem de bicho.
Henrique, quase caí para trás. Congelei. Eu sei o que você quer.
Minha boca tava seca, mas eu consegui responder quase sussurrando: "Quero mudar de vida. E o que você me oferece? " Fiquei em silêncio.
O medo me travou, mas depois de uns segundos respondi: "Tudo o que você quiser. Só me tira disso. Quero sua lealdade total, nada mais".
Eu fechei os olhos. Pensei na minha mulher, no nosso filho, na vida que a gente estava levando e respondi sem pensar muito: "Tá feito. " No mesmo instante, a vela se apagou sozinha.
O espelho trincou mais uma vez. O círculo começou a sumir do chão como se nunca tivesse estado ali. O ar voltou ao normal.
O silêncio continuava, mas não era mais o mesmo silêncio. Voltei pro quarto com as mãos sujas, de sangue seco e o livro debaixo do braço. Deitei ao lado da minha mulher e fiquei olhando pro teto com o coração ainda acelerado.
No fundo, eu sabia que alguma coisa tinha mudado e não tinha mais volta. Acordei depois de umas poucas horas de sono, ainda com a cabeça pesada. Minha mão estava latejando por causa do corte e eu precisei enrolar ela num pano velho antes que minha esposa visse.
Ela acordou meio desanimada, mas parecia um pouco melhor. O estranho foi que mesmo depois da noite que eu tive, não senti medo. Era como se não sei explicar, como se algo tivesse mudado dentro de mim.
Naquele mesmo dia, meu celular tocou pela primeira vez em semanas, número desconhecido. Atendi no susto. Henrique, aqui é da empresa de vigilância Delta.
Seu currículo ainda tá disponível. Precisamos de alguém com urgência para início imediato. Fiquei sem palavras por alguns segundos.
Nem lembrava mais onde tinha deixado o currículo ali. Só consegui responder que sim, que podia começar quando quisessem. O cara falou que o turno era noturno e que o uniforme já estava separado.
Eu aceitei na hora, desliguei com a mão tremendo. No mesmo dia à tarde, outro número ligou. Dessa vez era uma mecânica que eu tinha ido meses atrás.
O gerente perguntou se eu ainda estava disponível para trabalhar como auxiliar. Era meio período, mas o salário era justo. Topei também.
Minha mulher achou aquilo tudo estranho, mas ficou tão feliz que chorou. Ela se emocionou quando eu apareci em casa com um saco cheio de mantimentos, leite, pão fresco, carne, bolacha recheada, refrigerante. Comprei tudo com o adiantamento do primeiro emprego.
Foi uma das primeiras vezes que vi ela sorrindo de verdade na gravidez. Aquilo me deu uma sensação estranha, um tipo de alívio, mas misturado com um peso que eu fingia que não estava sentindo. Na semana seguinte, ela foi chamada para uma entrevista online.
Uma empresa que trabalhava com atendimento remoto, coisa que ela sempre quis. Fez tudo do celular, sentada na sala. Dois dias depois, mandaram o contrato por e-mail, aceitaram ela.
A gente chorou junto no sofá quando ela leu em voz alta. Foi muita coisa em pouco tempo. Os dias começaram a passar rápido.
Era como se tudo tivesse engrenado de um jeito que eu nunca tinha vivido antes. As contas começaram a ser pagas, a geladeira estava sempre cheia e até nossos vizinhos comentavam que a gente parecia abençoado. A barriga dela crescia e com ela minha sensação de que eu tinha feito a coisa certa.
Pelo menos era o que eu dizia para mim mesmo. Depois de uns dois meses, resolvemos sair do aluguel e tentar abrir um negócio. Pegamos um empréstimo com um conhecido dela e montamos uma pequena loja de artigos para casa.
Em menos de 4 meses, a loja já estava se pagando e sobrava. Era surreal. E eu comecei a me acostumar com aquela nova realidade.
Até que um dia do nada bateram na porta da loja. Era o pastor da igreja, o mesmo que me mandou embora com piadinha de preguiçoso. Veio de terno, bíblia na mão, sorriso forçado no rosto.
Henrique, que bênção ver como Deus está te levantando, meu filho. Senti sua falta na igreja. Deus colocou no meu coração para vir aqui te chamar de volta.
Fiquei olhando pra cara dele sem saber se ria ou mandava ele embora. Ele seguiu como se não lembrasse do que fez comigo. E se puder, né, ajudar com um valor pro dízimo, paraa obra do Senhor continuar sendo feita, eu não aguentei.
Dei uma risada seca e respondi: "Você tem certeza que quer ajuda de um filho do diabo? Porque caso não saiba, foi ele quem me deu tudo isso. Foi depois do pacto que eu fiz.
Lembra daquele dia na sua igreja que você disse que eu era preguiçoso? O rosto dele empalideceu na hora, ficou parado com a boca entreaberta, nem tentou rebater. Só fechou a Bíblia devagar, virou as costas e entrou no carro sem dizer nada.
Eu fiquei ali parado, observando ele ir embora, sentindo uma mistura de alívio e raiva. Foi a primeira vez que eu falei em voz alta sobre o pacto e mesmo assim não senti medo. Só que depois desse dia as coisas começaram a ficar diferentes.
Foi só depois daquele dia com o pastor que comecei a perceber algumas coisas estranhas, nada gritante, nada que me fizesse surtar, mas era como se o ar em volta de mim tivesse mudado. No começo, pensei que era só impressão, tensão, talvez. Mas aí começaram os vultos.
O primeiro foi na cozinha, tava de madrugada. Eu tinha acabado de chegar do turno da vigilância e fui pegar água. A luz da cozinha estava apagada, só tinha a claridade da geladeira aberta.
Foi quando vi pelo canto do olho uma sombra passando rápido perto da porta. Me virei na hora, mas não tinha ninguém. Fiquei parado ali no escuro, com o copo na mão, escutando o som do motor da geladeira, tentando entender o que foi aquilo.
Não escutei passos, nenhum barulho. Só a sensação de que alguém ou alguma coisa tinha passado por ali. Na noite seguinte, no banheiro, aconteceu de novo.
Eu estava escovando os dentes, olhando pro espelho e juro que vi algo parado atrás de mim por um segundo. Só que quando virei não tinha nada. Era como uma sombra humana parada no canto, mas sem rosto, sem forma definida.
Um frio subiu pela minha espinha. Fui dormir com a luz acesa. Comecei a ver essas coisas com mais frequência, algumas vezes no trabalho, outras dentro de casa.
Mas o mais esquisito é que eu não sentia ameaça. O medo vinha mais pela surpresa, não pela presença em si. Parecia que aquelas presenças, sei lá, estavam só observando.
Não se aproximavam, só estavam ali silenciosas. Minha esposa não via nada, nem meu filho, que já tinha nascido e dormia feito um anjo. E era por causa deles que eu engolia esse desconforto e seguia.
Fingia que era cansaço, que era coisa da minha cabeça, só que no fundo eu sabia que não era. Teve uma madrugada que acordei sem motivo. O relógio marcava 3:11.
A casa estava no mais absoluto silêncio. Me levantei para ir ao banheiro e quando passei pela sala vi alguém sentado no sofá. Travei.
Era uma figura escura, só que dessa vez eu conseguia sentir um tipo de presença, mesmo forte, fria. Pisquei e a figura não estava mais lá. Nenhum som, nenhum movimento.
Fiquei parado, olhando o sofá vazio por uns bons minutos, tentando entender se eu tava ficando louco. Voltei pro quarto sem falar nada. Me deitei e fiquei de olhos abertos até amanhecer.
No dia seguinte, sentei com o seu Raimundo, o velho, que me emprestou o livro. Eu não falava com ele desde que devolvi. Encontrei ele varrendo a calçada, parei do lado e falei: "Tá acontecendo umas coisas esquisitas".
Ele olhou de lado, continuou varrendo e soltou. Você invocou? Não invocou?
Então agora aguenta. Fiquei calado por uns segundos e depois perguntei: "Essas coisas que eu tô vendo é normal? " Ele parou a vassoura, apoiou as mãos no cabo e respondeu: "Normal para quem se abriu pro outro lado.
Depois do que você fez, o véu que separa os mundos se rasgou. Você agora enxerga o que os outros não vem. Não adianta rezar, não adianta fugir.
Vai conviver com isso até o último dia da sua vida. " A forma como ele disse aquilo, sem nenhuma emoção, me deu um calafrio. Eu voltei para casa meio anestesiado.
Aquilo ficou martelando na minha cabeça por dias. Não falei nada paraa minha esposa. Ela já estava preocupada com o bebê, com o trabalho, com tudo.
Eu não podia carregar ela para esse mundo também. Com o tempo comecei a aceitar. As presenças continuavam aparecendo.
Algumas vezes eram só sombras, outras dava para ver formas humanas, mas não falavam, não mexiam em nada, só estavam ali. Tinha noite que eu acordava e via alguém parado no canto do quarto. Eu já nem me assustava mais.
Às vezes só fechava os olhos e voltava a dormir. Era como ter visitas silenciosas o tempo todo. A vida seguia, a empresa cresceu, contratamos mais duas pessoas, mudamos para uma casa maior.
A sensação de que eu estava sendo protegido crescia junto e, por mais estranho que pareça, comecei a me acostumar com aquilo, aquela convivência, aqueles olhares invisíveis, aquela sensação constante de que eu não estava sozinho. Com o tempo, aquilo que no começo me causava calafrio, passou a fazer parte da minha rotina. Era estranho aceitar isso, mas de algum jeito eu sentia que aquelas presenças me protegiam.
Não sei explicar. Era como se eu tivesse ganhado um tipo de guarda-costas do outro lado. Invisíveis, silenciosos, mas sempre por perto.
Às vezes, no meio de uma conversa, eu sentia que tinha alguém escutando. E não era paranoia, era real. Eu sabia.
Teve uma vez que tentei contar paraa minha esposa. A gente estava tomando café, ela mexendo no celular e o bebê dormindo. Eu disse meio rindo: "Você já sentiu como se tivesse mais alguém aqui em casa além da gente?
" Ela me olhou estranho. Hein? Como assim, Henrique?
Eu desconversei, falei que era besteira, coisa de quem trabalha de madrugada e dorme pouco. Mas na real eu sabia que não dava para dividir isso com ela. Era meu e só meu.
Numa dessas noites, eu estava sozinho na sala, passando os olhos num caderno de anotações da empresa, quando senti um arrepio que começou na nuca e desceu pelas costas. Eu já reconhecia aquele tipo de arrepio. Era como um aviso.
Olhei pro canto da parede e vi nitidamente uma figura escura parada ali. Parecia um homem, mas sem rosto, sem nada, só a silhueta. Fiquei olhando uns segundos e aí, pela primeira vez, a coisa se moveu.
Não para mim, mas atravessou a parede como se nem estivesse ali de verdade. Fiquei ali sentado, sem saber se tremia. ou se ria.
Aquilo era o tipo de coisa que se eu contasse iam me chamar de louco. Mas eu já tinha passado da fase do medo. Aquilo virou meu novo normal, trabalhar, cuidar do meu filho, fazer crescer a empresa e à noite dividir o espaço com o que quer que fossem aquelas coisas.
Teve um outro episódio que até hoje eu não sei bem o que foi. A gente tinha acabado de fechar uma parceria importante com uma distribuidora grande. Era um passo gigante pro nosso negócio.
No dia seguinte, a gerente da loja, uma moça nova que a gente contratou há pouco, ligou, dizendo que tinha gente rondando o depósito. Cheguei lá à tarde e vi a porta lateral com marcas de pé, como se tivessem tentado arrombar. No dia seguinte, um dos caras que costuma fazer entrega pra gente apareceu com o braço enfaixado.
Disse que foi tentar pular o muro à noite só para ver o que tinha lá dentro e que caiu de cima de uma forma estranha. Ele jurava que foi puxado por alguma coisa. Disse que sentiu como se uma mão segurasse o tornozelo no ar antes de jogar ele no chão.
Depois disso, nunca mais apareceu na loja. pediu desligamento no mesmo dia. Eu nem fiquei surpreso.
Era como se alguém ou algo estivesse cuidando do que era meu. Ninguém precisava saber como, mas eu sabia de onde vinha essa proteção. Com os meses passando, minha relação com tudo aquilo mudou.
Eu parei de ver as presenças como coisa ruim. Comecei a sentir até uma certa confiança. E por mais bizarro que pareça, em algumas noites eu até conversava em voz baixa, não esperando resposta, só falando mesmo, contando as coisas que aconteceram no dia.
Às vezes eu sentia como se tivesse uma troca, como se no silêncio alguma coisa me ouvisse e entendesse, mas nem tudo era tranquilo. De vez em quando eu tinha uns sonhos esquisitos. Não eram pesadelos comuns.
Era sempre o mesmo lugar, um quarto escuro com uma cadeira no meio e uma voz que me fazia perguntas. Não dava para ver quem falava, mas a voz estava sempre lá, grossa, lenta, calma demais. Me perguntava coisas que pareciam bobas, mas que mexiam comigo.
Você ainda é meu. Você continua fiel? Até onde você iria por isso tudo?
Eu acordava suando com o coração acelerado, nunca respondia no sonho. Mas no fundo eu sabia que aquelas perguntas não eram só sonhos. Esses sonhos começaram a se repetir com mais frequência.
E a sensação que eu tinha era que a cada vez a voz chegava mais perto. Antes era só uma presença distante, agora parecia estar do meu lado, me perguntando de novo e de novo se eu ainda era leal, se eu continuava firme no que aceitei. Nunca tive coragem de responder, nem no sonho, nem acordado.
Mas no fundo, eu sabia que o silêncio também era uma resposta. Mesmo com tudo isso, a vida continuava indo bem. A loja estava crescendo mais do que eu esperava.
Tinha mês que o lucro dava para pagar as contas, reinvestir e ainda sobrar para guardar. Minha mulher, mesmo sem entender como tudo aquilo estava acontecendo tão rápido, agradecia a Deus todos os dias. Às vezes isso me dava um nó na garganta, porque eu sabia exatamente de onde vinha a bênção que ela tanto falava.
Eu evitava entrar em qualquer igreja, mesmo que fosse só para um velório ou casamento. Não era nem por medo, era porque eu sentia uma repulsa forte no peito, como se algo dentro de mim dissesse: "Aqui não é mais o seu lugar". E eu respeitava.
Cruzava a rua se visse algum culto acontecendo. Mudava de canal quando aparecia pastor na televisão. Minha conexão era com outro lado agora.
E isso ficou claro para mim quando um amigo antigo apareceu pedindo ajuda. Era um cara que estudou comigo na época da escola. Nunca fomos muito próximos, mas ele sabia da minha situação de antes.
Sabia que eu era quebrado, que vivia pedindo ajuda. E quando ele viu como minha vida tinha mudado, veio atrás, me mandou mensagem pedindo para conversar. Marcamos de se encontrar na loja depois do expediente.
Ele chegou, sentou, olhou em volta e disse: "Cara, na moral, o que foi que você fez? Porque eu lembro de você [ __ ] e agora tá tudo dando certo. Tem como me ajudar?
Fiquei olhando para ele. Por um instante pensei em falar, mas segurei. Em vez disso, só perguntei: "Você tá disposto a tudo?
" Ele riu, achando que eu tava brincando, disposto até a vender a alma, se for para sair do buraco. A risada dele morreu quando viu minha cara séria. Eu não ria.
Eu não fazia piada com isso. Tem um jeito, mas não tem volta. Ele ficou quieto, mudou de expressão, perguntou se era sério mesmo.
Eu balancei a cabeça e, antes que ele falasse qualquer coisa, dei o endereço do seu Raimundo. Fala com ele, mas só se você tiver certeza. Não falei mais nada.
Ele agradeceu meio sem graça, e foi embora. Nunca mais me procurou. Soube depois que ele foi até lá, mas voltou correndo pálido.
Disse para um conhecido que o velho falou umas coisas que deixaram ele arrepiado, que não conseguia dormir depois da conversa. A verdade é que não é todo mundo que aguenta. Eu mesmo não sei como tô levando isso.
Só sei que desde aquela noite no quintal eu nunca mais fui o mesmo. Na semana seguinte, minha esposa teve um sonho estranho. Ela me contou enquanto tomava café.
Sonhei com uma sombra parada na porta do nosso quarto. Não falava nada, só ficava olhando pra gente. Não era assustador, mas era estranho.
Fingi que era besteira. Brinquei dizendo que era coisa da cabeça dela, talvez cansaço. Mas por dentro eu sabia que aquilo não era só um sonho.
Ela nunca tinha visto nada antes. Talvez o véu estivesse se abrindo para ela também. Aos poucos, comecei a perceber que minha ligação com aquele outro lado estava se aprofundando.
Não era só ver sombras ou sentir presenças. Eu comecei a perceber coisas antes delas acontecerem, tipo uma intuição muito forte. Sabia quando alguém ia ligar, sentia quando algo ruim estava prestes a acontecer.
E o pior, comecei a ter sensações estranhas perto de algumas pessoas, como se eu pudesse sentir a energia delas. Umas me deixavam enjoado, outras com dor de cabeça. Era como se eu conseguisse ler o que vinha de dentro sem elas precisarem falar nada.
Comecei a evitar aglomerações, parentes, amigos, até vizinhos. Eu preferia ficar na minha sozinho em silêncio. O único lugar onde eu me sentia bem de verdade era dentro da loja ou em casa, quando tudo estava escuro e quieto.
Nessas horas eu sentia que estava sendo vigiado e, por mais bizarro que pareça, isso me confortava. Foi nessa fase que minha mulher começou a mudar o jeito de agir. Aos poucos, ela começou a ficar mais distante de mim, mais pensativa.
Achei que fosse o cansaço do trabalho e do bebê, mas depois percebi que não era isso. Ela tinha voltado a frequentar a igreja, mas não a evangélica que a gente conhecia de antes, aquela do pastor que me humilhou. era a Igreja Católica do bairro Vizinho.
Começou indo só aos domingos paraa missa das 9. Depois passou a ir toda terça-feira à noite rezar o terço com um grupo de mulheres da rua. No começo não liguei.
Achei até que ia ser bom pra cabeça dela, um tempo só para ela, longe da correria. Mas logo ficou claro que não era só isso. Ela voltou diferente dessas idas, mais calada, mais observadora.
Começou a perguntar mais sobre meus horários, onde eu ia, se eu ainda estava rezando como antes. E aí começaram os desentendimentos. Teve uma noite que ela chegou da igreja e me viu mexendo em umas anotações da loja.
sentou na mesa da cozinha e falou: "Henrique, por que você não vai comigo domingo que vem? Vai te fazer bem. É uma hora só.
Eu nem olhei para ela. " Disse seco, "Você sabe que eu não entro mais em igreja. " Ela ficou em silêncio por uns segundos, depois falou mais baixo.
Mas isso não é normal. Um pai de família não querer ir rezar com a esposa, com o filho. Você mudou muito, Henrique.
Na hora eu levantei da cadeira. O jeito como ela falou aquilo me irritou mais do que devia. Mudei porque a vida mudou, porque alguém teve que botar comida nessa casa enquanto você estava rezando.
Deus não estava com a gente quando a gente passava fome. Quem me ouviu não foi ele. Ela baixou os olhos, mas deu para ver que ficou magoada.
Não respondeu, só levantou e foi pro quarto. Dormiu virada pro lado de lá. A gente não se tocou aquela noite.
Com o tempo, isso começou a virar rotina. Ela insistia para eu ir. Dizia que as outras mulheres levavam os maridos, que o padre era bom, que a comunidade era acolhedora.
Mas eu não queria nem ouvir. Me dava um embrulho só de imaginar entrar naquele lugar. E eu via que aquilo machucava ela, porque para ela aquilo era fé, era esperança, mas para mim era só um lembrete de tudo que me foi negado.
As rezas dela começaram a incomodar. Toda terça ela colocava o terço em cima do criado mudo. Fazia questão de rezar em voz alta quando voltava da capela.
Eu ficava quieto, deitado, fingindo que dormia, mas aquilo me dava uma sensação estranha. Era como se aquele som afastasse algo dentro de mim, como se bloqueasse alguma coisa que já fazia parte de mim. A tensão foi aumentando.
Não tinha briga feia, gritaria, nada disso. Era aquele tipo de silêncio que pesa, aquela distância que cresce devagar, dia após dia. Comecei a sair mais de casa.
Dizia que era coisa do trabalho, mas muitas vezes era só para não ficar perto dela rezando. Eu não queria ouvir aquelas palavras, não queria sentir aquele incômodo que elas me causavam. Uma noite, ela deixou escapar.
Henrique, eu rezo por você toda vez. Peço para Deus te trazer de volta. Você não percebe, mas tá cada vez mais longe de tudo que te fazia bem.
Eu respirei fundo, tentei manter a calma, mas não consegui. Levantei da cama e respondi olhando para ela: "Talvez o que me fazia bem nunca foi real. E talvez se eu tivesse esperado por Deus, hoje você estava enterrando o nosso filho.
Ela chorou naquela noite, quietinha, deitada no travesseiro, e aquilo me destruiu por dentro, porque por mais que eu tentasse esconder, eu sabia que estava me afastando de tudo, inclusive dela. Depois daquela conversa, minha mulher nunca mais insistiu para eu ir na igreja com ela. continuou indo todo domingo, toda terça, mas não tocava mais no assunto.
Só que junto com esse silêncio vieram outras mudanças. Mudanças que no começo, passaram despercebidas, mas com o tempo foram ficando claras demais para ignorar. Ela começou a sair mais.
Primeiro foi com o papo de que precisava fazer algo por ela, cuidar da autoestima. disse que tinha se matriculado na academia nova que abriu perto de casa. A mensalidade era cara, mas eu não disse nada.
Achei que talvez fosse bom. A gente estava bem financeiramente, dava para bancar. E ela sempre foi de se cuidar, mesmo nos tempos difíceis.
Depois disso, começou a ir no salão do shopping, aquele mais caro, onde só entra gente com dinheiro. Toda sexta ela marcava a hora lá, passava o dia inteiro fazendo unha, cabelo, sobrancelha, massagem e sempre voltava com sacola de loja. Roupas novas, perfumes caros, maquiagem que eu nem sabia que existia.
No começo, ela mostrava as coisas para mim como se pedisse aprovação. Depois só chegava e guardava no guarda-roupa sem falar nada, tudo no meu cartão. As compras começaram a ficar mais frequentes, coisa que ela nunca fazia.
Teve mês que eu olhei a fatura e quase deixei o celular cair da mão. Era roupa de marca, sapato caro, produto importado, até comida de delivery de restaurante fino que a gente nunca pisou, nem quando começou a ganhar bem. Falei com ela sobre isso num sábado à noite.
Estávamos na sala, o bebê dormindo no berço e eu com o notebook na mão vendo os gastos da semana. Você viu quanto tá gastando? ", perguntei, tentando manter o tom calmo.
Ela nem tirou o olho da novela. "Tô cuidando de mim. A gente tem condições, não tem?
", respondeu seca. "Tem, mas tem limite, né? Nunca vi você assim.
Você tá diferente. " Ela olhou para mim de lado e respondeu sem piscar. E você acha que tá igual ao homem que eu casei?
Aquilo me travou. Fiquei sem reação por uns segundos. Fechei o notebook e fui pro quarto.
Não queria discutir, mas a verdade é que ela estava certa em partes. Eu não era mais o mesmo, mas ela também não era. E essa distância entre a gente só crescia.
Comecei a perceber que ela estava cada vez mais preocupada com a aparência. tirava mais foto do que antes. Passava horas no celular conversando com quem eu não sei.
Às vezes, quando eu chegava perto, ela virava o celular com a tela para baixo. Não era mais aquela mulher simples que chorava porque queria um iogurte e a gente não tinha dinheiro para comprar. Ela tinha se transformado.
E não só por fora, por dentro também. Ficava mais fria comigo, evitava conversa séria, dizia que estava cansada. que eu vivia de cara fechada, que minha energia tava pesada.
Comecei a me perguntar se tudo aquilo tava mesmo valendo a pena. Teve um dia que cheguei mais cedo do trabalho e encontrei ela rindo alto no telefone. Quando me viu, desligou na hora e fingiu que estava vendo o vídeo.
Perguntei quem era. Ela disse que era amiga da academia. Fingi que acreditei, mas no fundo algo me incomodou.
Não era ciúmes, era um tipo de alerta que batia lá dentro, como se algo tivesse saindo do controle. Eu sabia que o pacto tinha um preço, mas não achei que ele fosse cobrar assim aos poucos, mexendo com o que eu tinha de mais valioso, minha família. Numa dessas noites, o sono veio pesado.
Eu tinha trabalhado o dia inteiro. Cheguei cansado, deitei sem nem jantar. Acordei no meio da madrugada suando frio.
Não era só um pesadelo comum, foi diferente. Tão real que eu fiquei com o corpo tremendo por uns minutos depois de abrir os olhos. No sonho, eu tava num lugar escuro, sem paredes, sem teto, só uma escuridão densa.
A única coisa que dava para ver era uma cadeira no centro, igual à aquela que aparecia nos sonhos antigos. Mas dessa vez ninguém me fazia perguntas. Era só uma voz firme, baixa, não parecia ameaçadora, mas também não era tranquila.
"Abre os olhos, Henrique. Ela não é quem parece ser. " A voz repetia isso três vezes.
A mesma frase com um tom que ia ficando mais sério a cada repetição. "Abra os olhos, Henrique. Ela não é quem parece ser.
" Acordei assustado, coração disparado. O quarto estava gelado. Minha mulher dormia ao lado, serena, como se nada tivesse acontecido.
Mas aquele sonho ficou martelando na minha cabeça o resto da semana. Nos dias seguintes, comecei a observar mais. os horários dela, as mensagens no celular, as saídas frequentes.
Ela dizia que estava indo rezar o terço ou encontrar as amigas da academia, mas alguma coisa dentro de mim gritava que tinha algo errado. E não era só desconfiança boba. Era como se aquele aviso no sonho tivesse sido uma chave virando.
Num sábado à tarde, ela disse que ia ao shopping com uma amiga, pediu meu cartão como sempre e saiu bem arrumada. Roupa nova, maquiagem impecável, perfume forte. Tive um estalo e resolvi seguir.
Peguei o carro e fui atrás, mantendo distância. Ela não foi pro shopping, estacionou numa rua paralela à da Igreja Católica e entrou no salão da comunidade paroquial. Fiquei observando de longe.
Uns 20 minutos depois, ela saiu acompanhada de um homem alto, camisa social, bem arrumado. Caminhavam lado a lado, rindo. Ele colocou a mão nas costas dela enquanto falavam.
Depois entraram num carro e saíram juntos. Fiquei parado dentro do carro, mãos suando no volante. Um tipo de raiva que eu nunca tinha sentido começou a crescer dentro de mim.
Mas não era só ódio, era traição misturada com vergonha, porque eu sabia que estava sendo feito de trouxa. E o mais cruel era o detalhe. Ele era um dos frequentadores da igreja.
Ouvi dizer depois que ajudava nas missas, fazia parte do grupo de oração. Eles se conheceram lá nas rezas das terças. Tudo começou a fazer sentido.
As mudanças dela, a frieza, as desculpas, o distanciamento. Enquanto eu convivia com as sombras, ela se encantava pela luz. Só que aquela luz era falsa.
O sujeito que se dizia cheio de fé estava de olho na mulher dos outros. E ela, ela não hesitou em me apunhalar. Voltei para casa mais cedo, com o estômago revirado.
Entrei mudo, não falei nada. Passei o resto do dia como se nada tivesse acontecido. Ela chegou horas depois, com sacolas na mão, me deu um beijo no rosto e foi direto pro quarto.
Fingiu uma naturalidade que me deu nojo. Fiquei pensando em tudo que eu passei por ela, de onde eu vim, o que eu fiz, o quanto sacrifiquei, tudo o que conquistei teve o nome dela envolvido. E agora ela estava me trocando por um cara de igreja, um cara que chegou depois sem saber de nada, mas que agora estava levando tudo.
Naquela noite fui dormir com o coração amarrado, mas não era tristeza, era outra coisa. Um tipo de ódio silencioso, não de gritar, nem de bater, mas de pensar, de planejar. Depois que eu soube de tudo, não falei nada, não bati boca, não confrontei, só fiquei em silêncio, observando.
Deixei ela continuar no papel de esposa dedicada, enquanto eu já traçava o que faria. E eu não ia resolver do jeito que um homem comum resolveria. Eu tinha um acordo e sabia que se pedisse seria atendido.
Naquela mesma semana fiz o que nunca tinha feito desde o ritual no quintal. Chamei ele de novo. Não precisei de livro, nem de círculo.
Só fechei os olhos. Fiquei em pé no escuro da sala e disse em voz baixa: "Quero que você afaste aquele homem da minha mulher. Separa os dois.
Faça ela perder tudo que ela acha que ganhou com ele. Eu sei que você escuta e sei que pode. " Foi só isso.
Nada mais. E eu senti um arrepio forte, um estalo na lâmpada da cozinha. A energia da casa mudou.
Não tinha resposta, mas eu soube que o recado foi recebido. Dois dias depois, tudo começou a acontecer. Ela chegou em casa estranha, com o rosto pálido.
Tinha chorado, dava para ver. sentou no sofá e ficou em silêncio, mexendo no celular, como se estivesse esperando algo. Quando fui pra cozinha, ouvi ela dizendo num tom seco: "Filho da puta".
Fingiu que era com alguma amiga, mas eu sabia o que era. Eu já sabia que o amante tinha dado um fim na palhaçada. Naquela noite, esperei o bebê dormir e chamei ela na sala.
Sentei na poltrona e falei com calma, olhando direto nos olhos dela. Eu sei de tudo. Ela ficou sem reação.
Travou, ficou me encarando por uns segundos, depois tentou rir como se não soubesse do que eu estava falando. Do que você tá falando, Henrique? Tô falando do cara da igreja, do bem vestido, do sorriso bonito, do que você conheceu rezando o terço enquanto fingia rezar por mim.
Acha que eu sou idiota? Ela gelou, tentou negar, mas não durou muito. A expressão no rosto dela desmanchou.
Sabia que tinha sido pega. E aí, quando viu que não adiantava mentir, começou a chorar. Me perdoa, foi um erro.
Eu eu estava me sentindo sozinha. Levantei sem pressa, caminhei até a porta e apontei: "Pega suas coisas e vai embora hoje, agora. Leva o que é seu e sai da minha casa.
Você não merece mais nada daqui. " Ela caiu de joelhos, literalmente implorando. Chorava tanto que mal conseguia falar.
Dizia que se arrependeu, que foi fraca, que aquele cara não significava nada. pedia uma segunda chance, dizia que pensava na nossa família, que queria consertar. Eu fiquei parado, em silêncio, olhando para aquilo.
A mulher que um dia eu jurei proteger, ajoelhada no chão, implorando para ficar, depois de me trair, depois de rir pelas costas, enquanto usava o meu dinheiro, meu nome, minha confiança. Ela disse que o amante terminou tudo, que mandou mensagem dizendo que não queria mais nada com ela, que tinha se arrependido, que Deus tinha tocado no coração dele. Eu quase ri, mas segurei porque eu sabia quem tinha tocado no coração dele.
No fim, deixei ela sair com uma mala pequena, os olhos vermelhos e o orgulho destruído. Fui até o quarto, abracei meu filho, que dormia e senti, pela primeira vez em meses, uma paz estranha. Não era leve nem boa, mas era uma paz, como se o equilíbrio tivesse voltado.
Ela voltou semanas depois, magra, abatida, com o rosto inchado de tanto chorar. bateu na minha porta e caiu de joelhos de novo. Pediu perdão.
Disse que faria qualquer coisa para recomeçar, que não aguentava mais a dor, que só agora entendia o que tinha feito. Eu deixei ela ali ajoelhada, sem dizer nada por alguns minutos. Depois fechei a porta devagar.
Ela voltou para casa e eu deixei pela criança, pela história, por tudo que a gente viveu. Mas nunca mais foi igual. O que eu sentia por ela morreu no dia que descobri a traição.
Enterrei aquele amor lá mesmo, no chão da sala, onde ela se ajoelhou. Ela voltou tentando ser a esposa perfeita. Fazia tudo certo, cuidava da casa, do filho, de mim.
Não reclamava de nada. Mas eu via nos olhos dela o medo. Medo de que eu jogasse tudo na cara dela de novo.
Medo de que eu mandasse ela embora de vez. E eu nunca falei mais nada. Nunca cobrei, nunca relembrei.
Só deixei ela viver com o peso da culpa. Com o tempo comecei a sair mais. Dizia que era coisa do trabalho, que precisava resolver umas pendências, mas não era isso.
Eu tinha outras mulheres e não escondia. chegava tarde com cheiro de perfume diferente. Trocava mensagens sem apagar, fazia questão de deixar pistas.
Não era por vingança, era porque, sinceramente, eu já não ligava mais. Ela sabia, mas nunca falou nada. Engolia tudo em silêncio, o mesmo silêncio que um dia ela me deu.
Agora era ela quem olhava o celular escondida, quem me esperava no sofá e ouvia o chuveiro ligado, sem coragem de perguntar nada. E eu eu seguia rindo com outras, saindo com mulheres que nunca me perguntaram onde eu estava indo, que não rezavam por mim, que não tentavam me mudar. mulheres que sabiam exatamente o que eu era e ainda assim ficavam.
Porque hoje eu sou um homem que impõe respeito, que tem tudo, que mete medo sem levantar a voz. Nunca mais precisei pedir nada. As coisas acontecem para mim como se já estivessem programadas.
Negócios fecham, portas se abrem, inimigos somem, tudo flui, tudo cai no meu colo. E eu sei de onde vem isso. Eu sei quem caminha comigo.
Sou grato às trevas. Elas nunca me abandonaram. Me protegeram quando ninguém mais me estendeu a mão, quando o pastor me humilhou, quando minha mulher me traiu, quando eu estava na lama.
Foram elas que me ergueram. Foram elas que colocaram esse olhar nos meus olhos. O olhar de quem não deve mais nada para ninguém.
Hoje eu vivo bem. Meu filho tem tudo do bom e do melhor. A empresa prospera.
Minha casa é grande, confortável. E mesmo convivendo com as sombras, com as presenças, com os sonhos estranhos, eu prefiro isso, porque nesse lado não tem falsidade, só entrega, só pacto. Não sou mais o Henrique de antes.
Não acredito mais no bem, nem em promessas bonitas de igreja. Eu acredito no que vi, no que vivi, no que fiz e faria tudo de novo. Porque no fim das contas o diabo nunca mentiu para mim.
Ele me deu exatamente o que prometeu.