Olá, professor Cobori. Me chamo Michel e moro em Mogidas Cruzes, São Paulo. Professor, os Estados Unidos eles precisam cada vez mais de recursos naturais para se abastecerem e se manterem no poder.
Sempre foi assim com o petróleo e agora com as terras raras. Minha pergunta é o seguinte: caso o Lula ganhe eleição, e aí eu coloco o Lula, porque a gente sabe que a extrema direita daria isso de mão beijada, provavelmente, mas caso o Lula ganhe eleição, o senhor acha que os Estados Unidos fariam bons acordos com o Brasil, transferindo tecnologia para que esses materiais fossem extraídos, refinados aqui? Pelo menos esse é o desejo do presidente Lula.
Mas me parece que esse tipo de troca nunca foi muito interessante paraos Estados Unidos, pelo menos historicamente falando. Mas na opinião do senhor, o que o senhor acha que poderia acontecer com com o nosso país, tá, tanto no âmbito político militar, caso a gente não fechase um acordo viável dentro dos modelos americanos, senhor acha que de repente um brick militar se faria possível aí, né, ou necessário ou o senhor acha que o Brasil estaria mais alinhado aos interesses americanos? Obrigado, professor.
>> Michel de Mogi das Cruzes, minha cidade natal, tá? Eu sou nascido aqui em Mogim das Cruzes, São Paulo, né, Michel? Vamos lá.
Eh, legal sua pergunta, até complementando, né, a nossa a minha última resposta. Eh, existe também esse problema da cadeia de suprimentos do esforço de guerra, é as terras raras, né? As terras raras são essenciais paraa produção de míssil, que é o que vai começar a faltar pros Estados Unidos e paraa Israel, tá?
E que já tá faltando lá na Ucrânia, né? Os Estados Unidos tá tentando remanejar, né? O que ele tem tentando até trazer da Coreia do Sul, porque eles não têm, né?
Apesar dele ter falado que é ilimitado, não é, senão ele não estaria remanejando. É. Eh, e as terras raras é essencial paraa produção de míssil.
E se vocês se lembram, né, na no primeiro ataque que o Donald Trump fez, logo que ele assumiu, a primeira coisa que a China cortou foi a terra rara, né? Foi o fornecimento de terras raras. Então, você vê que os chineses já já tava olhando lá no longo prazo, né?
Então, a terras raras é essencial para produção de armamentos, tá? E os Estados Unidos e e a China produz, né, processa 90%, apesar de ter eh estoque de terras raras em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, né, segundo é o segundo maior. Eh, só a China tem tecnologia de ponta para processar isso, né?
90% das terras raras são processadas na China. Eh, e os Estados Unidos, óbvio, tá tá óbvio, tá de olho nisso. E o Brasil tem as terras raras, mas no processo.
Você ver como o Brasil comete vários erros. estratégios ao longo do tempo, né? A gente na realidade nem deveria ter se desindustrializado, né?
Na década de 80, se a gente não tivesse parado a nossa industrialização, a gente estaria hoje, na realidade concorrendo, né, com essas grandes potências em capacidade industrial. E a gente simplesmente fez o inverso, né? dotou a cartilha neoliberal do concelho de Washington, a gente desindustrializou o país.
Eh, senão a gente hoje teria não só uma uma indústria de defesa avançada que a gente tinha na década de 80, né, a Inesa, eh estamos aqui agora com esse problema com a Vibraz, né, também um erro estratégico tremendo. Eh, aderimos, né, ao tratado de não planiferação de armas nucleares. Eu acho que novamente o Brasil deveria ter um armamento nuclear, tem tecnologia para isso, tá?
Para ter desenvolvido isso. Então a gente fez tudo errado, né? Então, o Brasil hoje não tem uma digamos uma soberania plena.
Eu chamo de soberania plena. O poder global, o poder, né, de você se fazer respeitar, o poder de você ter eh um poder de dissuação, ou seja, de que ninguém mexa com você e você faça tudo que te interessa, né, que interessa ao país, sem precisar se curvar a ameaça dos outros. Eh, o poder, ele tem três variáveis que você precisa ter para exercer esse poder.
É a soberania monetária, soberania fiscal e soberania militar. Só com essas três você consegue ter essa capacidade de fazer valer a sua estratégia, aquilo que você quer pro seu país. Como a gente não tem, a gente, Michel, a gente fica meio que eh, digamos assim, pisando em ovos, né, quando a gente quer fazer alguma coisa por conta própria.
Uma delas é isso que você falou. Não, eu quero processar as terras raras e vou negociar com quem eu quiser, que é o que a China faz, né? Eu tenho soberania para isso.
Eh, então é é complicado porque o Brasil vai ser assediado, obviamente, pelos Estados Unidos e também pela China. Só que o Brasil precisa olhar o interesse dele. Tem muita gente fala: "Ah, você defende".
Não, eu olho o exemplo chinês, olho o que eles têm de bom, mas eu sou brasileiro, eu quero que o Brasil seja soberano, né? inclusive com a China para negociar sempre os melhores acordos com a China também, né? E com os Estados Unidos.
Nada impede da gente negociar com os Estados Unidos e com a China, desde que a gente faça negócios bons para o Brasil. Eh, e o Brasil não tem. Brasil soberania monetária tem sobre o ponto de vista de que a gente emite a nossa própria moeda, mas a gente não tem uma soberania na política monetária, né?
Porque a nossa política monetária depende da política monetária do Fed, então a gente não tem uma soberania monetária plena, tá? Gente, não tem soberania fiscal. Tudo que a gente escuta falar na imprensa é o fiscal, que o fiscal, que o fiscal, que meta fiscal, que acabou fiscal, até de gasto, né?
Que não sei que, não sei que o fiscal e o fiscal é uma soberania que o país tem que ter. Por que que a Europa é esse continente agora vassalo dos Estados Unidos e que parou o seu desenvolvimento econômico? Primeiro que eles depois da Segunda Guerra virou um protetorado militar dos Estados Unidos.
Então eles eles não tinham nem tem ainda soberania militar e não tem soberania fiscal, porque quando eles criaram o euro, eles criaram uma moeda única, mas a a política fiscal de todos os países continuou eh soberana de cada país. Por isso que eles têm o teve a crise do euro, né? Eles não os países não emitem a moeda, mas pode emitir dívida.
É óbvio que vai dar problema, né? Eh, o ativo livre de risco desses países, que é a dívida pública deles, não é livre de risco, né? deveria ser livre de risco porque eles não emitem a própria moeda.
Então eles não têm soberania fiscal e nem monetária também e nem monetária sobre o ponto de vista que tem uma moeda única, mas não tem a soberania militar. E o Brasil não tem a soberania fis tem uma soberania monetária, né? porque emite a própria moeda, mas não tem a soberania da política monetária, não tem soberania fiscal, que a gente tá sobre essas amarras aí do consenso de Washington, da austeridade fiscal, que é o poder que o estado tem, né, de emitir a sua própria dívida para promover o desenvolvimento da sua economia.
A gente não tem, cai nesse discurso reducionista que a gente tá vendo aí, né, no Congresso, na imprensa, na Faria Lima, o mercado financeiro. Ah, o governo pode gastar, não, já falei, o governo não pode gastar mal, mas ele pode gastar, né? O que a gente não deveria era gastar mal.
Eh, e aí sobre o ponto de vista da elite econômica, eh, gastar mal é gastar com o pobre, gastar com programa social, gastar com a educação, gastar com saúde para eles é gastar mal, né? Gastar bem é gastar com eles, com os privilégios deles, né? Com as isenções fiscais, com os benefícios fiscais.
Isso aí eh o gasto para eles é OK. E aí esse discurso de menos estado é menos estado também pros outros, né? O estado para eles é sempre máximo, pros pobres, né?
Pra sociedade como todo, tem que ser um estado mínimo. Por quê? Porque eles capturaram o estado, eles querem o estado para eles.
Eles querem que o estado recolha tributos, que é o que a gente faz no Brasil, recolha tributos de toda a sociedade, isente a as elites econômicas da maior parte desse tributo. Então, recolhe rem aí na classe média, né, que eu já falei aqui. Eh, e a maior parte desse tributo que é recolhido vai como fluxo de renda para eles.
Então, a gente precisa entender um pouquinho mais de como funciona, né, eh, o sistema. E, obviamente, a gente não tem soberania militar. Então, a gente tá numa posição muito frágil para defender os nossos interesses.
Muito frágil para defender os nossos interesses. Eu acho, sobre meu ponto de vista, que esses conflitos que estão surgindo pelo mundo, mesmo que estore que a gente não quer uma terceira guerra mundial, eu acho que o Brasil tá numa posição privilegiada. Esse é o meu ponto de vista.
Obviamente, a gente precisa ter um líder no país e a gente precisa ter políticos no país, eh, lideranças no país que consigam enxergar essa oportunidade e colher frutos dessa oportunidade, né? E não continue fazendo as mesmas besteiras que a gente faz o a vida toda. O que que eu acho que a gente vai ter uma grande oportunidade?
Primeiro que a gente não tá no centro de conflito nenhum. A gente não tá no conflito na Europa, na Eurásia como um todo, né? Esse na Europa, no Oriente Médio, conflitos na África, a gente não tá, o continente sul noro-americano não tem conflito.
Então a gente não tá teoricamente próximo das regiões de conflito no mundo. Se tornar uma terceira guerra mundial, a gente pode até ser envolvido, mas assim como na Segunda Guerra Mundial, a gente ainda tá longe, né? Não, isso não tá no nosso território.
E as grandes potências numa eventual guerra, as potências vão focar no nos conflitos que eles estão envolvidos. Eles vão se focar nesse esforço de guerra e vão se focar economicamente nisso. E eu acho que esse essa seria uma oportunidade do Brasil se afirmar como uma potência e se desenvolver durante esse período.
Porque imagine se estó uma Segunda Guerra, uma terceira guerra mundial, como foi a segunda, como foi a segunda, por que que o Brasil se industrializou rapidamente depois da Segunda Guerra Mundial? Porque o Getúlio Vargas soube aproveitar a oportunidade e e tornar o Brasil uma potência industrial do do pós-guerra para cá. Então eu não que eu esteja desejando, tá?
Já tô analisando num eventual cenário, seria uma oportunidade aí do Brasil afirmar a sua soberania, se livrar dessas amarras neoliberais da nossa economia, utilizar fortemente o estado, cortar privilégio, então não é vai gastar mais, não cortar todos os privilégios, né, desses políticos, do judiciário, dos legislativos, eh, dos militares, cortar privilégios que ninguém na sociedade tem, só eles tem que cortar. Isso aí já é um um grande passo, ter essa soberania fiscal de utilizar o Estado fortemente para desenvolver a economia, eh colocar o Brasil em outro patamar de industrialização, de investimento em ciência e tecnologia, de no caso da sua pergunta, processamento de minerais críticos, terras raras, levar o Brasil paraa fronteira tecnológica, investir em defesa. Aproveita que o mundo tá brigando, né, no popular.
Aproveita que o mundo tá aí brigando. Tá todo mundo preocupado, cada um com a sua guerra, cada um preocupado aí em investir esforç de guerra, seus recursos. Vamos ficar aqui, né, no popular aqui, vamos dar uma o Brasil inteiro, vamos dar uma de mineirinha aqui, vamos ficar aqui comer quietinho aqui, vamos, né, desenvolver o nosso país e vamos fazer, porque aí lá na frente, obviamente, nesse cenário que eu tô traçando, aí o Brasil, né, pode emergir de uma situação dessa, de um pós-guerra desse de novo, eh, aí com a potência a se fazer respeitar tanto economicamente, eh, politicamente e se investir em defesa, né, com capacidade militar também.
O Brasil é um país continental também, assim como o Irã tá se provando, é um país que você fala: "Ah, vou invadir o Brasil". Não é, não é tão simples assim para fazer o máximo que eles estão fazendo, bombardear, tal, para invadir o Brasil, um Brasil, um país continental quanto esse. Vocês sabem que o maior exército de selva que existe é o do Brasil, né?
O maior que eu falo, o melhor em qualidade, né? Em em técnicas, né? são os sigs aqui do exército brasileiro.
Então eles não venceram a guerra lá no no Vietnã, né? Você acha que vai eles vão se enfiar aqui no Brasil, vão vencer uma guerra? Não sou meu ponto de vista não, né?
Então, eh, o Brasil talvez, né, possa aproveitar essa situação que se evoluir uma por uma situação de um conflito cada vez maior, eh, o Brasil possa se aproveitar dessa oportunidade para se afirmar com uma potência e aí sentar na mesa de igual para igual com as grandes potências para negociar sempre o que é melhor pro povo brasileiro, tá OK? E aí eu falo povo brasileiro é toda a sociedade, tá? Não é pra elite do povo brasileiro, que é outra coisa que a gente tem que resolver, né?
Nós não temos uma burguesia nacional. A gente não tem uma elite brasileira. Nossa elite é toda vendida.
Como você perguntou. Se você perguntar pra elite aqui que que devia fazer, vai virar tudo cachorrinho dos Estados Unidos. Vai tudo.
Já são, né? Só passeia lá, só vai para Miami, só vai pra Disney, né? Então, eh, a gente precisa de uma elite nacional, de uma elite que pense o país, de uma elite realmente uma burguesia nacional, que a gente destruiu o que a gente tinha justamente quando a gente desindustrializou o Brasil.
E aí tem que citar aqui de novo, né, Cels Furtado, Maria da Conceição Tavares, eh, nas obras do Céus Furtado, que ele fala justamente isso, né? Nossa elite é uma elite de um capitalismo periférico que se aproveita das benesses, né, do capitalismo central quando utiliza o Brasil como capitalismo periférico, porque ele se utiliza, né, dessas benéces de ficar sendo periferia do capitalismo, desde que eles sejam ricos, né? Eh, então eles não têm esse interesse do ketchup, né, da gente realmente se se afirmar como uma potência industrial, porque não sendo eles continuam rico, né?
Na situação atual, 1% da população tá tá rico. Para que que eu vou criar confusão, né? Para que que eu vou lutar pelo pelo país todo, pela nação toda, se eu tô bem?
Então, a gente precisa realmente de uma elite eh intelectual e econômica que pense muito mais no nosso país. Essa era a minha visão. Talvez eu me alonguei demais novamente.