Clima. Justiça. Duas palavras ouvidas com mais frequência.
Duas palavras que poderiam definir o século. Mas o que exatamente mudanças climáticas têm a ver com justiça? Não estamos nisso juntos?
Para entender o conceito de justiça climática, precisamos entender a injustiça: quem causa o problema e a quem ele mais afeta. Vamos primeiro ver quem são os responsáveis por poluir a atmosfera com CO2 e esquentar o planeta. Imagine que esse grão de arroz é uma tonelada de dióxido de carbono.
Em média, uma pessoa na Nigéria emite menos de um grão na atmosfera. Na Índia, 2 grãos. China, 7 grãos.
Alemanha, 10 grãos. E nos Estados Unidos, 17 grãos. Em um ano, um americano polui quase 20 vezes mais que alguém na Nigéria.
Mas o problema com o carbono é que ele fica preso na atmosfera por séculos. Ou seja, não estamos falando de quanto adicionamos a cada ano. Estamos falando de um acúmulo ao longo do tempo.
Desde 1850, a soma é de mil e quinhentas gigatoneladas. Queríamos colocar vários sacos de arroz na mesa para mostrar o tamanho do estrago, só que percebemos que precisaríamos de 3 milhões deles. O histórico das emissões conta por que países estão discutindo quanto tempo terão para cortar os níveis de poluição a zero.
Grandes poluidores, como China, Índia e Brasil parecem menos culpados quando consideramos que apenas recentemente se tornaram parte do problema. Prakash Kashwan é um cientista político que estuda a justiça climática. Ele diz que países ricos não aceitaram quão injustas são as mudanças climáticas.
Em 2020, pesquisadores calcularam a responsabilidade de cada país no aumento dos níveis de CO2 para além dos limites seguros ultrapassados em 1990. O estudo levou em consideração a população e a quantidade de emissões ao longo da história, incluindo aquelas que cruzaram as fronteiras em forma de bens comercializados. A pesquisa mostrou que os países ricos emitiram mais do que deveriam.
O Hemisfério Norte foi responsável por 92% das emissões de CO2 que levaram o planeta a superar os níveis seguros de dióxido de carbono. Ásia, África, Oriente Médio e América Latina emitiram 8%. Mesmo um grande emissor, como a China, está somente agora cruzando os limites.
Se você vive em um país movido a combustível fóssil não significa que as mudanças climáticas são necessariamente sua culpa. Mas algumas escolhas podem fazer a diferença. Não se trata apenas de onde você mora, mas de quanto você emite.
Os 1% mais ricos do mundo emitem quase o mesmo que os 50% mais pobres. E essas elites vivem em diferentes locais. Emissões desiguais estão entre as razões que levam ativistas e clamar por justiça climática.
Mas espera aí. O CO2 aquece o planeta na mesma proporção, independentemente de onde vem. .
. se da Alemanha, ou do Quênia. A geografia não importa.
Na verdade, importa sim. A segunda parte da injustiça climática é que, embora os países mais pobres tenham sido os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, eles são os mais prejudicados. As ondas de calor estão se tornando mais insuportáveis em toda a África, onde as secas têm afetado mais as colheitas.
Também há as tempestades. Ar quente significa que furacões e tufões ficam mais poderosos e liberam mais chuva e ventos fortes nos trópicos. Em 2050, o nível do mar terá subido tanto que inundações que costumavam ocorrer somente uma vez no século vão atingir várias cidades costeiras anualmente.
As desigualdades das mudanças climáticas são vistas com mais intensidade em um país como a Índia. Embora a população mal tenha contribuído para o aquecimento global, está entre as mais vulneráveis. As cidades indianas costeiras sofrem com inundações sem precedentes enquanto seus rios secam, deixando agricultores numa luta para cultivar alimentos básicos, como arroz e trigo.
Payal Parekh é uma cientista climática que faz campanha em tempo integral por justiça. Essa desigualdade também é vista em países ricos. Pessoas negras e pardas em nações como Estados Unidos e Reino Unidos são geralmente mais pobres que as brancas.
Isso significa que elas têm menos dinheiro para gastar com ar-condicionado para se adaptarem às ondas de calor. . .
ou seguro contra inundações para a reconstrução após tempestades. Como tornar isso mais justo Bom, os países poluidores podem primeiro fechar a torneira do CO2 e começar a remover a poluição da atmosfera. Poderiam pagar reparações pelo uso a mais de sua cota justa de emissões.
Alguns países e empresas já estão fazendo algo semelhante, pagando aos mais pobres para não derrubar florestas e, em vez disso, plantar árvores. Mas, ao contrário de usar esse carbono de forma econômica para quitar suas dívidas climáticas, eles estão usando como desculpa para continuar poluindo. Este é Keston Perry, um economista político que estuda justiça climática.
Ele diz que reparações são necessárias para equilibrar a balança, mas não serão suficientes. Reparações podem parecer radicais, mas países ricos já concordaram em pagar aos mais pobres para se adaptarem às mudanças climáticas. Imagine que cada uma dessas ervilhas seja US$ 1 bilhão.
Os países ricos prometeram 100 bilhões por ano no financiamento do clima até 2020. Em 2018, eles deram 80 bilhões, mas a maior parte foram empréstimos, não doações. A organização beneficente Oxfam, sediada no Reino Unido, estima que a ajuda real foi de cerca de 20 bilhões.
Outra abordagem leva a justiça climática ao pé da letra: pede a responsabilização dos poluidores em tribunal. Depois que incêndios violentos devastaram Portugal em 2017, seis jovens ativistas levaram 33 países industrializados ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos por não conseguirem reduzir suas emissões rapidamente. Eles argumentaram que os países estão discriminando os jovens, que terão que viver com as consequências.
O veredito ainda está pendente. Na Alemanha e na Holanda, juízes ordenaram que os governos ampliem metas para redução de emissões. Ativistas também ganharam um processo contra a Royal Dutch Shell, forçando a empresa a pagar pela poluição do petróleo.
Agora, eles estão exigindo fundos verdes de investimento. Os réus argumentam que os tribunais nacionais não têm o direito de decidir sobre o clima, porque as emissões e seus impactos são globais. Mas uma nova geração de ativistas está lutando para que eles acabem responsabilizados – e que a justiça climática seja feita.
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