A equipe do Repórter Eco viajou ao interior do Maranhão para conhecer um exemplo de comércio justo e solidário a partir do uso sustentável do Babaçu, espécie nativa da família das palmeiras. A coleta da castanha e a extração do óleo são fontes de renda de uma comunidade liderada por mulheres. As quebradeiras de coco ficaram famosas pela conquista da Lei do Babaçu Livre, que garante o livre acesso às plantações.
Elas ganharam um importante aliado: uma grande empresa de cosméticos naturais compra o óleo para fabricar produtos para o mercado internacional. Na imensidão da paisagem, sob o céu azul do interior do Maranhão, se avista uma dossel de palmeiras. Dizem que no passado havia muito mais babaçu.
Espécie nativa do norte do Brasil, ela ocorre na chamada Mata dos Cocais, área de transição onde caatinga, cerrado e Amazônia se encontram. Esta palmeira pode chegar a trinta metros de altura e produzir em média, ao ano, de três a cinco cachos com centenas de cocos. Tudo nesta palmeira é aproveitado: A folha seca, por exemplo, cobre telhados e pode ser usada em cestarias.
O tronco, aproveitado em construções rústicas. O fruto do babaçu pode conter até 6 castanhas como esta, de onde se retira principalmente o óleo para a indústria cosmética, mas, também, azeite e leite que são muito utilizados na culinária local. Desta parte mais esbranquiçada, o mesocarpo, se faz uma farinha nutritiva, que é misturada a bolos e mingaus, e da casca se faz carvão.
Da palmeira, não se perde nada. E depois de décadas, quando cansada de produzir, ela cai, vira adubo orgânico para a terra. Na região central do Maranhão, no médio Mearim, a semente do babaçu sempre foi garantia de sobrevivência de várias famílias.
No povoado de São Manoel, no município de Lago do Junco, a gente conhece a dona Ivete, que criou a família com os frutos da palmeira. Pode entrar? Pode sim.
Dá licença. Eu aprendi com meus pais, né? Com minha mãe, que eu nasci e me criei com 7 anos de idade vendo a minha mãe fazendo essa atividade.
Ai, com isso, eu fui aprender também, né, a quebrar coco. E a senhora cresceu, se casou, teve filhos? Foi, foi.
Ai com 17 anos de idade foi que eu me casei, ai morei 2 anos fora aqui da comunidade. Ai como meu marido era da comunidade aqui São Manoel, ai nós voltamos pra cá, né, pra comunidade. Quantos filhos a senhora teve?
Sete. A história desta mulher é também a de tantas outras que se organizaram num movimento social que ganhou força a partir da década de setenta. As quebradeiras de coco babaçu enfrentaram o conflito agrário para garantir o acesso à palmeira, que de uma hora para outra passou a ter dono.
Grileiros se apossaram de terras devolutas, áreas públicas que não poderiam ser consideradas patrimônio de ninguém. Dora tem quarenta e seis anos, e vai para o campo com os pais desde que era criança. Hoje, ela é uma das lideranças entre as quebradeiras.
E se lembra muito bem da época difícil, quando os babaçuais foram cercados, e as famílias proibidas de coletar o coco. Foi alguém chegando, e se achando como dono, foi cercando, e às vezes, foi até mesmo adquirindo documentação, outras não, mas foi cercando e ali ele se sentia como dono. E depois que ele se sentia como dono, teve uma etapa que a gente não podia mais entrar.
E não entrava porque ele não deixava, ele tinha um vaqueiro e aí esse vaqueiro, ele passava os direitos pra esse vaqueiro juntar todo o babaçu, e se alguém fosse quebrar era meia. E aí a questão da necessidade foi que fez a gente lutar por esse babaçu livre, pelas áreas conquistadas que hoje a gente tem. E foi assim.
As pastagens começaram a competir com as palmeiras, os frutos do babaçu são muito apreciados por grandes roedores, que também se encarregam de semear a espécie. Mas a poda frequente das novas mudas de babaçu, chamadas aqui de Pindova, feitas pelos pecuaristas interrompe o ciclo natural de reprodução da planta. Pra crescer assim, você tem que deixar.
Então, isso é o manejo. Tem a adulta como essa aqui, que está produzindo há muitos anos, mas você vê que daqui a pouco ela vai parar. Então, essa surgiu e foi preservada e daqui a pouco ela também está produzindo.
Quando esta deixar de produzir, essa daqui já começou a produzir. Então, o babaçu vai continuar, né, com essa renovação. É como eu.
Eu produzi minha família, daqui a pouco são meus filhos que vão produzir. Então, a palmeira é da mesma forma como um ser humano. A luta das mulheres pela preservação da palmeira e pelo direito à atividade extrativista começou a gerar frutos, com a publicação da Lei do Babaçu Livre, em 1997.
O município Lago do Junco foi o primeiro do estado do Maranhão a aprovar uma lei que garante o livre acesso das quebradeiras aos babaçuais. Mesmo aqueles que ficam dentro de fazendas e sítios. Além do aspecto social, a lei tem também o lado ambiental porque passou a proibir os proprietários de terra de usarem agrotóxicos, e de derrubarem, de cortarem as palmeiras sem a autorização do IBAMA.
O que é que mudou com a Lei do Babaçu Livre? Ah, hoje a gente entra em qualquer área, de qualquer proprietário e de pequenos produtores. Você entra em qualquer área que você queira entrar e coletar o babaçu.
Antes de nós criar a lei, nós fizemos a lei mesmo valer, sem ser no papel. Ai, depois, com o apoio de uma vereadora que nós elegemos, que era mulher, ai nós conseguimos criar a lei. Ai a lei só veio nos ajudar mais, fortalecer mesmo a nossa luta né?
O babaçu é de vocês? O babaçu é nosso.