Aqueles que têm nos acompanhado já perceberam que o livro é uma aventura. Cada frase, cada palavra, cada expressão contém ali uma tonelada de significados. É um livro que ele gostava muito da filosofia, então ele usa muito o apoio da filosofia.
Então é um casamento muito perfeito, que aliás eu gosto de reiterar com vocês. Não é que Gibran tenha casado a poesia com a filosofia, é que a poesia em si já tem filosofia lá dentro, porque senão de onde ela tiraria o seu conteúdo? uma poesia que tem, a poesia fundamentalmente tem que ter algo a dizer e saber dizê-lo de forma bela.
Então, é quase que inconcebível um grande poeta que não tem algo de filósofo. Eu particularmente não conheço nenhum. Tenho a minha listinha, gosto muito de poesia, tenho a minha listinha dos meus poetas prediletos e todos eles têm muito de filósofos, né?
Então ele faz esse casamento muito bem feito, tem um conteúdo muito interessante. Nós falamos sempre muito brevemente sobre a vida dele, todo mundo já conhece um pouquinho, que Gibran Caliil, na verdade seu nome original, Gibran Caliil. Gibran, é um libanês, tá?
Que nasce em 1883 numa cidadezinha chamada de Charrê, no Líbano, que foi para onde ele foi levado depois que morreu ao seu próprio pedido. E morre aos 47 anos nos Estados Unidos, em Nova York. muito jovem ainda, mas como eu sempre gosto de reiterar com vocês, se vocês considerarem um homem como o Gibran, com toda a obra que ele deixou, nós podemos dizer que viveu pouco.
Eu acho interessante essa colocação para que a gente perceba que o tempo tem mais a ver com intensidade do que com extensão. Às vezes as pessoas vivem até uma idade muito avançada e não necessariamente podemos dizer que viveu muito. tempo, ele tem também uma dimensão vertical e não apenas horizontal de duração.
Isso é muito interessante. Então, para mim, um homem que viveu muito de uma certa maneira ainda está vivo e nós temos revivido ele muitas vezes aqui juntos, né? Lembro a vocês que uma coisa que complementa bastante pra compreensão de Calian é o livro das cartas que ele troca com Mary Heskel.
Falo isso porque às vezes vocês devem perguntar de onde é que ela tá tirando tanta informação se ele não falou nada sobre o profeta? falou assim: "Nesse livro vocês veem o profeta nascendo do diálogo entre os dois". Então, muitas colocações que eu faço para vocês aqui vem de colocações dele mesmo.
Algumas são interpretações de mim, evidentemente, paralelos com a filosofia, mas algumas coisas são dele mesmo, que ele coloca muito claramente nessas cartas que ele troca com Mary Hkel, onde eles vão construindo juntos o profeta. É uma relação maravilhosa. Eu gosto de dizer que para mim é um dos exemplos mais claros de almas gêmeas que eu conheço na história dentro daquilo que Platão concebia como almas gêmeas, né?
Então o profeta é um livro que já foi traduzido em mais de 40 idiomas. Como eu falei para vocês, se tratando de um livro de poesia, é um sucesso muito grande. Agora ainda há muita gente que não conhece Gibrão, conhece muito superficialmente.
Daí a nossa intenção de divulgar um pouco mais essa obra e entendê-la, né? mastigar e perceber quanta coisa ela tem para nos oferecer. Falava para vocês também, coisa importante de sempre estarmos relembrando um pouco do roteiro básico do livro.
O profeta do título se chama Al Mustafá e é um homem que vai até a cidade de Orfalese. Obviamente esse nome não vem do nada. Gibran se inspira nos mistérios órficos em Orfeu para criar essa orfalese.
Então a Mustafar é um sábio que vai pra cidade de Orfalese, sai da ilha onde ele vivia. ou seja, de um certo isolamento onde ele vivia para comunicar a sua sabedoria ao mundo. Fica 12 anos nessa cidade, ninguém lhe dá a mínima atenção.
E aí depois de 12 anos, ele resolve aproveitar que um barco da sua terra estava vindo e voltar para casa. E as pessoas, ao perceberem que iam perdê-lo, entram todas em pânico, resolvem cercá-lo e fazer perguntas sobre tudo. Cada pergunta um capítulo e cada pessoa que pergunta tem muito a ver com a pergunta que é feita.
Evidentemente, esse é o teor da história que eu sempre resumo para vocês. Importante entendermos também que se trata de um mito. Ou seja, o profeta de Calian, como todos os mitos, todos os personagens são internos, estão dentro do próprio homem.
Eu recordo a vocês sempre aquela passagem da arte poética de Aristóteles, porque isso era uma coisa tão óbvia na antiguidade, pra gente hoje já não é. Eu acho que Aristóteles até se sentiam um pouco redundante de falar disso, porque todo mundo sabia que os mitos não eram muitos personagens, era um só, era o ser humano. E os personagens secundários eram fatores psicológicos, fatores físicos, fatores espirituais que a vida projetava fora porque ele não conseguia ver dentro.
E o costumava dizer que é a mesma coisa que acontece com os sonhos. Então o mito era uma criação alegórica que se fazia projetando fora aquilo que o homem não queria ver dentro. Então, não tem muitas pessoas nessa história.
É só ele que no final de um ciclo de vida, que é o número 12, um ciclo zodiacal, resolve se reunir com todos os núcleos da sua consciência, reunidos em torno da sabedoria, em torno de um centro, para fazer um balanço de tudo que ele aprendeu na vida. Tanto que eu sempre comento com vocês que quando ele vai entrar no seu barco para ir embora, ele se despede da cidade de Ofalésia como se estivesse morrendo, tá? e anunciando que um dia voltará, porque a crença de Calios de Branha, ele acreditava na reencarnação.
Então ele avisa, um dia voltarei tá, mas é claro que ele tá se referindo ao mito, a uma vida inteira, um ciclo de vida inteira. É essa passagem que a gente passa por ela meio rapidinho, né? Mas eu sempre gosto de ler porque eu acho muito bonito.
Ele vira para trás quando vai pisar no seu barco e fala: "Fica sabendo, portanto, que ei de voltar do silêncio maior. Não esqueças que voltarei para ti, para a cidade de Orfalese, um pouco de tempo, um momento de repouso sobre o vento e uma outra mulher me dará a luz". Ou seja, ele anuncia que aquilo ali é um encerramento de uma vida, mas não encerramento da sua caminhada de evolução.
Ele ainda volta, né? Então isso apenas para que vocês percebam que não é uma interpretação pessoal minha. A intenção de Gibran era essa mesma, que isso fosse um mito, um diálogo interno do centro, da sabedoria que o homem atingiu, que tá sempre representado pelo centro, com todos os múltiplos pequenos eus que vivem nele, reunidos à sua volta, harmonizados à sua volta.
Isso é aquilo que Platão chamava do indivíduo, que harmoniza tudo à volta de um centro. Atinge esse centro de sabedoria, de consciência, de maturidade e organiza sua vida em torno disso, tá? Então hoje ele vai falar a respeito de um tema que, como falamos de início, parece bem prosaico e até engraçado a gente falar filosoficamente de um tema desses, né?
Mas de Bran consegue e faz bem e explora isso com muita propriedade sobre o comer e o beber. É muito importante que vocês considerem que hoje quando a gente fala do homem, nós temos uma tendência, um foco de consciência muito materialista. Então, quando nós pensamos no comer e no beber, pensamos no corpo físico se alimentando.
Um homem como Gibran, ele jamais pensava só no plano físico. Eu até comentava com vocês que às vezes, mesmo quando queremos ter alguma iniciativa um pouco mais espiritualista, o vocabulário nos pega, né? Porque a gente diz: "Eu tenho uma alma".
Quem é o eu? O corpo. Não é isso?
Se a tua identidade estivesse em algo mais sutil, você diria: "Eu tenho um corpo. O corpo é o adereço, não sou o". Então, na verdade, a nossa identidade muito materialista faz com que a gente, comida e bebida só pense nisso.
Natureza morta, ou seja, alimentos físicos e bebida física. Aquela existe uma música de jovem, inclusive, que uma música que fez sucesso h algum tempo atrás, me desculpe, não entendo muito disso, nem sei de quem é, mas eu me lembro que ela dizia: "Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?
" Porque temos muitas fomes e muitas sedes. E a nossa falta de autoconhecimento faz com que às vezes a gente não saiba nem o que é que preencheria essa fome e essa sede e saia correndo atrás de coisas periféricas que não atendem a nossa real fome e a nossa real sede por falta de autoconhecimento. Então ele vai enveredar muito por esse elemento sutil da alimentação do homem se você considerar o que é realmente um homem com todas as possibilidades internas que ele tem, tá?
Como ele sempre faz. Então, um velho estalajadeiro disse: "Fala-nos do comer e do beber". Percebam que é perfeito.
Um velho estalajadeiro, um cidadão, um ancião. Ele passou toda a sua vida alimentando a fome e a sede física das pessoas. E agora é uma pessoa muito idosa.
É lógico que ele está ajustando as contas com a sua consciência. E de repente ele olha para trás e fica pensando, será que o que eu fiz foi bom? Será que eu poderia ter dado mais para as pessoas do que comida e bebida física?
Ele necessita ampliar a sua visão do que realmente alimenta o homem. E ele vem com esse questionamento para alma Mustafá: "Fala-nos da comida e da bebida. Eu não fiz outra coisa na vida.
Não sei atender a fome e a sede do corpo humano. Que mais eu poderia ter feito? De que outras sedes e fomes padece o homem?
" Tá? É basicamente como se ele estivesse perguntando isso. E exatamente pelo fato de que nesse momento em que a consciência se aproxima do desenlace da vida, por contraste ela quer avaliar o que foi válido na vida, tá?
quer saber o que realmente fez diferença. E ele vai começar a responder. E ele respondeu: "Pudéssemis viver do perfume da terra e como uma planta nutrir-vos da luz.
" Ou seja, quem dera vocês precisassem apenas de comidas mais sutis. Mas percebam que Gibran, como dizia a minha avó muito sabiamente, não dá ponto sem nó. Eu nunca entendi muito bem o que que era essa expressão, mas eu acho ela interessante.
Ele não dá ponto sem nó. Ou seja, pudesse viver do perfume da terra. O perfume é captado pelo olfato, é ar, e pudesses viver como uma planta, nutrir-vos da luz.
A luz é visão, tá? Ou seja, na verdade, o que ele vai colocar, a luz que você capta através da visão, que é o fogo, e o ar que você capta, o perfume que você capta através do ar, que é o olfato, ele tá relacionando bem claramente com outras duas potas que o ser humano tem, pela qual ele recebe alimento, tá? E ele fala muito claramente disso.
Não sei se vocês já ouviram falar, mas existia uma tradição na história que, por sinal, Jung gostava muito deles, fala muito deles, que são os alquimistas da Idade Média. Eles tinham o hábito de relacionar, gente, o nosso corpo físico com o elemento terra. Já ouviram falar dessa teoria dos quatro elementos?
Eles diziam: "Vocês têm um corpo energético que está associado ao elemento água. A água correndo sugere energia, não é isso? Dá impressão de energia.
Vocês têm um elemento emocional que está associado ao ar". Já pararam para ver como é que são as nossas emoções, os nossos sentimentos? Quando elas estão suaves e doces, é uma brisa que toca o teu rosto e uma fúria, uma cólera.
é um torvelinho em torno de uma ideia obsessiva, né? Joga tudo pro alto, é um tufão, é um tornado, né? Então o ar está associado ao emocional e o fogo que tem muita relação com a luz, porque através do fogo que surge a luz está associada ao plano mental.
Então, como ele se dissesse, bom, como se ele dissesse, perdão, vocês também poderiam se alimentar de aromas agradáveis, ou seja, vocês poderiam se alimentar de sentimentos elevados ou de luz, ou seja, de pensamentos luminosos. Isso é tão interessante que se diz que a sensibilidade do homem nesse plano do do dos aromas, você sabe que já existiu no passado uma ciência que se chamava aromaterapia, que diz que às vezes somos tão sensíveis nesse plano que um ambiente que esteja com um astral muito carregado, a gente pode confundir com o mau odor. Já passaram por isso?
O mau odor que só você sente ou o contrário, um bom odor que só você sente. Quando existem emoções muito pesadas no ambiente, às vezes você confunde com um cheiro desagradável. pelo parentesco que esse plano emocional tem com o odor, com o olfato.
Então, é como se ele dissesse: "Não é só o teu corpo físico que se alimenta, vocês poderiam se alimentar também de sentimentos elevados no plano emocional e de ideias luminosas no plano mental, tá? Porque nós nos alimentamos nesses planos, saibamos ou não, mas como não selecionamos os alimentos, devemos nos alimentar de péssimos odores e às vezes de coisas muito obscuras no plano mental. E como existe um paralelismo claro que todas as tradições filosóficas da humanidade falam, você não vai dizer que o corpo físico é idêntico ao corpo emocional ou corpo mental, mas é similar, porque todos eles são matéria, mais sutil ou mais densa, mas é matéria.
Então imaginem vocês se você não selecionasse nada dos seus alimentos, comesse qualquer coisa que se deparasse com você, como estaria o teu corpo físico? Mas nós não fazemos isso nas emoções. Não saímos assimilando qualquer emoção que despejam sobre nós na mídia, nas nossas convivências ou qualquer pensamento que nos é sugerido, a gente não toma como nosso.
Vocês acham que não existe indigestão mental ou emocional? Existe. E não existem limitações que são geradas nesse plano, que nem o teu estômago estaria limitado se você saísse comendo qualquer bobagem agressiva ou contaminada.
Então é uma relação muito clara, esses planos também se alimentam. Então vocês poderiam também ou talvez até dar prioridade a isso, ao invés de começar de baixo para cima, como começa, certo? Ou seja, começar se preocupando com uma alimentação mais sutil, que também dá resultados muito concretos pra saúde do homem.
Aliás, hoje, isso já é até científico, porque na verdade a medicina fala muito das doenças psicossomáticas. uma pessoa que absorve emoções muito negativas, mas cedo ou mais tarde isso vai concretizar numa doença física, não é? Ideias muito obsessivas, vai concretizar numa doença física.
A medicina chinesa, por exemplo, costuma dizer que hoje nunca tivemos tantos problemas do coração como temos hoje. E que os problemas do coração, o coração é um órgão de impacto, sabe do quê? Do ódio, da revolta.
Aham. O egoísmo, vocês acham que vai gerar que tipo de impacto no corpo físico? Parem para pensar.
O que é o egoísmo? Não é um ser humano começar a se comportar de maneira totalmente anômala, desconsiderando a humanidade. Joga isso dentro do corpo físico e imagina uma célula fazendo isso.
Dá nascimento a quê? Com certeza, né? Então, essas relações são muitos muito citadas ao longo da filosofia, tanto no ocidente, embora não saibamos, quanto na medicina oriental, que essa já é mais famosa entre nós atualmente.
E aí ele dá segmento, mas já que deveis matar para comer e roubar do recém-nascido leite de sua mãe para saciar vossa sede, fazei disso um ato de adoração, porque necessariamente a vida vai se alimentar de vida. Não tem jeito. Ah, eu, bom, eu respeito quem não queira comer carne, não tenho problema com isso.
Mas alguma coisa ele vai continuar matando para viver, porque os vegetais também vivem. Hoje há uma seita, por exemplo, na Índia que eles andam, vocês já devem ter visto, com com um vézinho diante do nariz para que na sua respiração não absorvam microrganismos que estão em suspensão no ar e não matem. Bom, é um pouco estranho, né?
Porque a todo momento você tá matando as tuas próprias células. A todo momento vida se alimenta de vida. Agora, é um processo natural que eu me alimente de vida, mas que essa vida que se sacrificou por mim, que é o que ele vai falar, não morra em vão, que a minha vida aporte mais pra terra, pra humanidade do que essa outra portaria, porque senão era preferível que ela ficasse e fosse eu, entende?
Então ele vai dizer: "Faça com respeito, com dignidade. Quando você usa vida para gerar vida, porque isso é necessário, não tem como escapar, faça com dignidade e com respeito. Não maneja as coisas como se fossem coisas, os seres como se fossem nada, como se existisse única e exclusivamente em função de te alimentar.
O respeito, a dignidade, considerar que se alguém se sacrificou por mim, a minha vida tem que valer a pena para que isso seja válido, tá? E é mais ou menos por essa linha que ele vai continuar. E que vossa mesa seja um altar onde os puros e inocentes da floresta e da planície são sacrificados aquilo que ainda é mais puro e inocente no homem.
Então você pega um animal ou uma planta que é não ser absolutamente puro e inocente em interação com a natureza. Eu sacrifico essa vida em nome da minha vida. E a minha vida tá em interação com a natureza?
Ela soma, ela faz diferença, ela respeita os protocolos da natureza, os cânones da vida. Porque se eu não sacrifico inocência em nome de inocência, pureza em nome de pureza, era melhor que vivesse o animal do que viver eu. Entendem?
O sacrifício da vida é um contínuo que não tem como ser detido. Se você vai numa floresta, você vai ver isso acontecendo o tempo todo. É a cadeia alimentar que não foi criada por nós, foi criada pela própria natureza, tá?
Mas no nosso caso, como seres conscientes, devemos fazer com que esse sacrifício da natureza fosse válido, com que toda essa vida se potencializasse em nós e voltasse como benefícios paraa natureza e não como mais prejuízos. Ou seja, percebam um elemento básico do bom senso que todo ser humano tem. Nós achamos que todas as coisas devem servir, não é assim?
E isso é certo. Imagina se você tiver um objeto dentro de casa que não serve para absolutamente nada, passa anos e aquilo não tem nenhuma serventia, nem estética, nem utilitária, nem nada. Por bom senso, a gente colocaria aquilo ali no lixo.
Agora, o homem acha que ele não tem que servir, que ele nasceu para ser servido e que a natureza não vai também depositá-lo num grande lixão cósmico, onde se coloca as coisas inúteis, né? Nós achamos que não temos um serviço a prestar à natureza, que o investimento de vida que foi feito em nós não tem que redundar em vida em quantidade ainda maior e em qualidade ainda maior, como se os seres não fizessem mais do que sua obrigação em nos alimentar. Como se nós tivesse, não tivéssemos uma dívida de toda essa vida que foi investida em nós para nos trazer esse ponto de gerar mais vida ainda e de melhor qualidade, porque é assim que a natureza anda, tá?
As coisas se sacrificam por coisas mais elevadas e não, não é válido, é antinatural. Quando matardes um animal, dizei-lhe de todo o vosso coração, ainda que diga em sentimento, em pensamento, tá? Não é necessário se fazer todo uma um estardalhaço em torno disso, mas dizer do fundo do seu coração, pelo mesmo poder que te imola, eu também serei imolado e eu também servirei de alimento para outros.
Entende? Eu me comprometo. Eu não vou viver em vão para justificar o teu sacrifício.
Eu vou fazer diferença como você tá fazendo para mim. Você tá me dando vida, eu também vou dar vida. Eu também serei imolado um dia, mas a minha vida vai somar para gerar mais vida para outros que virão.
Tá? Não será perdida. É aquela velha história que eu falo para vocês de quando chegarmos aquele momento final da vida, olharmos para trás e termos certeza de que fizemos diferença.
Somamos. A nossa vida nos fez crescer e ajudou as pessoas à nossa volta a crescerem, ou seja, deixou exemplos e deixou transformação de seres humanos. Ou seja, a minha vida gerou vida.
Eu vou ser imolado um dia também, como você tá sendo, tá? Mas pode ter certeza que a tua energia não foi em vão, porque vai se converter na minha e vai se transformar em algo maior que vai continuar gerando vida, tá? Então, como se fosse um espírito de oferenda, de gratidão, tá?
Não é só você que tá sendo embolado. Toda a vida é assim, ela se qualifica e se oferece. Esse é o ciclo da vida e eu não vou fugir dele.
Comigo vai ser assim também. Uma pessoa que tem esse espírito deve, que realmente tem esse espírito, deve ser capaz de confrontar a morte com muita tranquilidade, né? Bom, agora é o meu momento de ser imolado e eu fiz a minha oferenda.
Minha vida não foi em vão. Pois a lei que te entregou as minhas mãos me entregará a mãos mais poderosas. Teu sangue, meu sangue nada serão senão seiva que nutre a árvore do céu.
Ou seja, a vida que tá entregando você para mim num determinado momento, vai me entregar em mãos maiores ainda. A árvore da vida, a árvore do céu que ele fala, eu já falei para vocês dela, lembram? Essa árvore é típica que em muitas tradições falam dela, ela tem as suas raízes no céu.
Ela ramifica no mundo. Porque se vocês pararem para imaginar de onde vem a seiva que alimenta a vida, não vem da terra, vem do céu. É do céu que vem a essência de tantas, de todas as coisas que t forma no mundo.
Tanto que quando os seres morrem, os corpos perdem a forma. Você tirou esse elemento espiritual, essa seiva, essas raízes, os corpos perdem a forma. Não é assim?
Quando corta o vínculo com o espiritual, as coisas se decompõem, tá? Porque a vida tá vindo, na verdade, de cima e não de baixo. Então, existe essa terra celeste, digamos assim, essa terra que nós vamos alimentar com o nosso sangue para que ela dê mais frutos no mundo.
Ahamé, o meu sangue e o teu sangue vão servir para irrigar essa terra celeste e ela vai trazer mais frutos ao mundo, mais virtudes, mais valores, mais sabedoria. Nossa vida vai ser geradora de vida. Entendem como é bonita essa ideia?
Então, essa árvore do céu, todos nós procuraremos usar a nossa vida para irrigá-la, para que os frutos do mundo sejam cada vez mais numerosos, porque vem daí os frutos do mundo, que sejam cada vez mais completos. Ou seja, que a nossa vida foi um sacro ofício, não sacrifício naquele sentido negativo e decadente que vemos às vezes em religiões quando chega um ciclo de decadência, mas como sacro ofício, ofício sagrado de usar a tua vida para qualificar o mundo, tá? Usar a tua vida como um tributo aos interesses da natureza e não apenas aos teus interesses egoístas.
Ou seja, não viver em vão, tá? Eu me alimento e eu alimento. Isso é natural, tá?
Uma coisa complementa a outra. né? Eu me alimento de algo e eu alimento outros seres também.
Eu não vim aqui apenas para consumir, eu vim aqui para também oferendar, também ser um gerador de vida. E quando mordees uma maçã, dizei-lhe no vosso coração. Ou seja, qualquer coisa na natureza que você altera, você pode dizer neurótico, até morder uma maçã.
Vocês têm que perceber que nas civilizações antigas eles tinham um cuidado e um requinte, um respeito tão grande. Claro que nem sempre, porque elas tiveram ciclos, né? Mas já houve momentos, por exemplo, que os pá ter famílias em Roma para construir uma casa, eles faziam cerimonial para pedir licença à natureza para alterá-la, porque sabiam que aquilo ali tem dono.
A natureza não é aleatória, não é de quem chegar primeiro. Ela já chegou primeiro. Vocês não acham que se a gente pudesse imaginar a natureza como um ser consciente, ela deve achar muito engraçado quanto nós, seres que vivem 70, 80 anos, cercam um pedacinho de terra e dizem: "Isso é meu".
Ela deve achar isso o máximo de engraçado. Eu tô aqui desde que no início dos tempos e estaria até o final. Você ser de um dia, acha que é dono de mim?
Daqui a pouco eu vou te engolir. Você vai estar debaixo de mim. Ou seja, um espírito de que tem muito a ver com aquele princípio platônico que muitas vezes já falei para vocês, o limear do amor humano, né?
Quando você para de olhar pras coisas e pergunta para que que elas me servem. Quando começa a olhar pras coisas e imaginar como eu posso servi-las, né? Então, existe um protocolo da vida, uma lei da natureza, um cânone sagrado, como diziam os cultos de Apolo na Grécia.
E eu sirvo a isso. E o cânone sagrado é vida gera vida cada vez em maior qualidade, táé? E o meu sacrifício é sacralizar a minha vida para que eu também possa obedecer essa lei da natureza.
Então, até mesmo a maçã, quando morderdes uma maçã, dizei-lhe no vosso coração: "Tuas sementes viverão no meu corpo e os brotos de teus amanhãs florescerão no meu coração e teu perfume será meu hálito. Juntos regozijarnos emos em todas as estações. " Ou seja, eu engulo tuas sementes, eu te privo de dar frutos, mas pode ficar tranquila que os meus frutos também serão teus.
Embutidos nos meus frutos estarão as tuas sementes. Embutido na minha vida, estará a tua. Você somou para minha vida e agora é minha vez de somar para outras que talvez eu não conheça, que talvez ainda venham.
Assim como você gerou esses frutos para alguém que você nem conhecia, tá? E gerou generosamente, tá? Para que esse ser tivesse vida.
Então, nos meus frutos estarão embutidos os teus. Não se preocupe. Quando eu frutificar, você vai cair dentro também.
Uhum. E aquilo que eu conquistar será também teu. Todo o sacrifício que eu me trouxe a esse ponto não é só meu, mas de todos aqueles que se sacrificaram para me dar vida.
Assim como eu estarei no futuro com todas as vidas que nascerão das sementes que eu deixarei. Eu estarei no futuro. E nós estamos aqui com as sementes de Gibrã, com as sementes de Platão, com as sementes de tantos outros que a gente cita, né, da alquimia medieval.
Elas estão aqui nos frutos que a gente tá gerando nesse momento. Essa é verdade. A vida gera vida.
Esse é o protocolo. E no outono, quando colherdes a uva de vossos vinhedos para o lagar, dizei-lhe no vosso coração, ou seja, no outono da vida, porque nós também daremos frutos, vai chegar um determinado momento, distrair a essência deles, que, aliás, é exatamente o que a Mustafá tá fazendo aqui. É como se ele tivesse apertando as uvas da sua vida para extrair a sua essência, o aprendizado, sumo da vida que ele viveu.
Então, quando fores colher a uva, dizeis no vosso coração: Eu também sou um vinhedo, e minha fruta será recolhida no lagar, e, como um vinho novo, serei guardado em vasos eternos. Vocês lembram daquele filme? Eu acho bonito, é muito raro que tenha filmes que tem alguma coisa mais filosófica, mais profunda.
Um filme chamado Gladiador, que quando esse guerreiro romano ia à guerra, ele dizia: "O que fazemos em vida ecoa na eternidade". Lembram disso? Eu acho muito bonito aquilo.
O que fazemos em vida ecoa na eternidade. Se eu a minha essência vai alimentar vidas futuras, em todas essas vidas que virão, haverá algo de meu. Uhumé.
dentro desse ciclo da vida, eu estarei eternamente presente. E eu sou capaz de considerar o futuro como meu filho, me sentir responsável por ele, coisa que quando somos muito egoístas e imediatistas não conseguimos pensar. É uma das coisas mais complicadas do nosso momento histórico.
Quando você diz para uma pessoa a maneira como você interage com a natureza daqui a 10 anos, 20 anos, 30 anos, sei lá, inviabiliza a vida no planeta Terra. Problema de quem vem depois. Eu não estarei aqui daqui a 30 anos, não é isso?
Ou seja, vai deixando terra arrasada o egoísmo, essa mediocridade de pensar apenas em si próprio, tá? Isso faz com que nós consideramos muito pouco além de nós mesmos e temos uma um rastro no mundo que é terra arrasada. Ao invés de gerarmos vida, geramos morte.
Isso é a quebra fundamental do protocolo da vida. É o desajuste que os orientais chamavam da quebra do dharma. Ao invés de deixarmos um rastro de vida, deixamos um rastro de morte.
pelas vossas obras vos conhecerei. A gente poderia dizer, pelo vosso rastro vos conhecerei. Então, no futuro, aqueles que consumirem dessa essência, eu reuni toda a minha vida, todo o meu esforço para deixar uma essência e presenteio generosamente para esses filhos que eu terei no futuro.
E quando eles se alimentarem dela, eu estarei na sua alegria, eu estarei nessa vida. o nosso compromisso com o futuro, da mesma maneira que recebemos tanto do passado, né? E no inverno, quando beberdes o vinho, que haja no vosso coração uma canção para cada taça e que haja na canção pensamento para os dias de outono, para o vinhedo e para o lagar.
Ou seja, que essa essência que tanta vida do passado nos presenteou quando nós trazemos para dentro de nós, que é muito importante que vocês percebam que um gibran não fala, já falamos sobre isso, né? Nada em vão. Então, quando ele fala de outono, de inverno, o momento da colheita é maturidade.
Os alquimistas medievais chamavam isso de obra em amarelo. É a maturidade. E o inverno é um momento da vida interior, onde tudo isso que foi essência da vida, você recolhe dentro de você.
Trabalhe essas essências que você conquistou. Como eu falei para vocês, o que Almostafá está fazendo aí é saborear a essência da sua vida, o vinho que ele recolheu de todas as uvas que frutificaram de tudo aquilo que ele plantou na vida. Então, na verdade, quando ele fala de saborear esse vinho, na verdade ele tá falando de vida interior, da maturidade e dessa vida interior que nós reunimos como fruto da vida, que a vida externa se vai.
Essa a vida interior é a nossa. São as sementes de vida que guardamos em nós para um outro plantio, quem sabe no futuro. É a síntese da nossa vida, tá?
Aquele que não planta e não colhe generosamente não extrai nenhum sumo e sai da vida tão sedento quanto chegou. Entendem? Tão sedento de alma quanto chegou.
Alimenta o seu corpo e não a sua alma. Então ela morre de inanição, como dizia esse mesmo filme gladiador. Todos os homens morrem, mas nem todos vivem.
Alguns só sobrevivem. né? Porque não soubemos gerar os frutos que alimentassem a nossa alma, nem muito menos deixar uma herança que alimentasse as almas do futuro.
Nem nos sentimos obrigados a isso, né? Então, na verdade, vocês vão ver que o que ele diz não se refere a criticar a alimentação física. Nem ele perderia tempo com isso.
Mas o que ele tá querendo dizer é que o homem se preocupa demais e alimentar apenas parte de si mesmo, como se o homem fosse um estranho para si próprio, né? É interessante como percebemos o fenômeno da solidão, que eu tanto já falei para vocês, exatamente como demonstração disso, do homem que tem medo de se virar para dentro e encontrar uma alma faminta e sedenta, que ele não sabe como alimentar, então foge de si mesmo, faz da vida um grande entretenimento, onde ele vive fugindo de si mesmo. A solidão não é estar descompanhado do outro, é estar descompanhado de si mesmo.
É não querer confrontar essa alma faminta e sedenta. Platão e muitos outros filósofos vão dizer que existe um momento crucial onde o peso dos apelos da alma se torna mais ruidoso do que o peso dos apelos do corpo, de tal maneira que não dá mais para você ignorar. Aí você tem que parar e ouvir e buscar alimento.
Esse momento eu lhe diz, é o momento que o homem começa a ter como necessidade de sobrevivência a busca da sabedoria. Ele se torna um filósofo. Necessariamente a caminhada humana é sair da ignorância e ir paraa sabedoria.
Acho que ninguém tem dúvida disso, né? caminhar e ajudar os demais demais a caminharem através do próprio exemplo, porque o verdadeiro ensinamento se dá através do exemplo. E quando ele caminha e deixa esse rastro, ele começa a viver uma vida verdadeiramente humana, começa a fazer diferença e começa a atender esses apelos da sua alma.
E ele diz que o nascimento dessa busca, porque amar a sabedoria é filosofos, filosofia, tá? O nascimento dessa busca é o nascimento da consciência humana. Aí começamos a nos incorporar nos protocolos da vida, que a vida espera que os vinhos deem uva, que as maciras deem maçã e que o homem dê sabedoria.
A vida precisa que aportemos isso e o fruto que ela espera de nós é isso, tá? Que nos alimentemos de todos aqueles que deixaram sabedoria e que também saibamos deixar os nossos frutos pro futuro, né? que não esqueçamos quem somos e não deixemos que aquilo que temos de mais precioso morra de inanição.
Como dizia Yung mesmo que falava, bom, o homem que tanto fala de economia, na verdade é um grande esbanjador. Esban mais precioso que é a alma. Uhum.
Espanjo o quê? Esbanjo mais precioso que é a alma. Tanto fala de economia, esbanja aquilo que ele tem de mais valioso, né?
Então, basicamente é o que ele tá falando. Essa é a nossa última tela. Como eu falei para vocês, é um são capítulos muito curtos, né?
Portanto, são palestras pequenas, mas a ideia é mastigarmos cada pedacinho. E aí eu abro para pergunta se houver alguma dúvida da parte de vocês, alguma coisa que gostariam de comentar. Hoje é um capítulo realmente pequeno, por isso foi muito mais rápidos, tá?
Em geral, Gibran não passa de duas páginas em cada capítulo. Então, imaginem vocês o que é falar do amor em duas páginas, o poder de síntese que tem que haver aqui. Eu até já comentei com vocês uma outra vez.
Aliás, essa moça que está aí sentada, ela uma vez já fez essa árvore da vida pra gente. Ela é designer, ela fez do Natal pra gente. Pessoal ficou um pouco perplexo, né, Bia?
Mas depois entenderam. Ela tem as raízes no céu e as ramificações na terra. Dizem que os as bolas da árvore de Natal são os planetas, são ramificações da vida no plano material.
Mas que as raízes estão lá em cima. De onde você tira a seiva da vida? É do plano material ou é do plano espiritual?
Pare para pensar os momentos mais sagrados, mais vivos que você teve. Você não estavam relacionados com amor, com justiça, com bondade, com fraternidade. De onde veio a seiva dos momentos que você tinha mais vida?
Da terra ou do céu? Percebe? Seiva da vida humana vem do céu.
Então é lógico que você queira que a tua vida alimente irrigue essa terra pela que gere mais frutos e gere mais vida para aqueles que virão. Então a árvore da vida tradicionalmente é uma árvore invertida. O universo manifestado são as suas múltiplas ramificações e as raízes são invisíveis aos olhos.
Estão mergulhadas no plano espiritual. Mas é de lá que vem toda a ceiva da verdadeira vida humana, né? Como eu falei para vocês, se vocês forem catalogar o que vocês têm de melhor na vida, vão perceber que vem dessas raízes, né?
O que tivemos de melhor, o que marcou realmente a nossa vida, que foi fundamental, se não foi um momento de paz, de serenidade, de fraternidade, foi o quê? De amor. O que foi?
Percebam que um alimento que mais nos saciou não veio da terra. O alimento que mais matou a nossa fome e a nossa sede não veio da terra. E por que não teríamos que participar na geração desses alimentos, nos tornarmos também agricultores, né?
também ajudarmos a cultivar esse tipo de alimento.