[música] A gente tem um vício, muito antigo e muito forte, que é de tirar a água da frente. Numa cidade, a gente enterra os rios porque eles estão poluídos, estão incomodando de alguma forma. A gente pensa nas águas de chuva, os piscinões são sempre enterrados e eles tiram a água da nossa frente o mais rápido possível.
Em São Paulo, tem três mil quilômetros de rios e córregos tamponados. Então, o que a gente chama de galeria pluvial, na verdade, a maior parte, são rios. São pequenos córregos que estão aqui, só que estão entubados.
O grande início do problema veio nessa interpretação de que a água e cidades são como elementos incompatíveis. A gente pode viver numa cidade como São Paulo e ter água como uma aliada da gente, não como antagonismo. Não ver a água como alguma coisa que você tem que eliminar da paisagem.
[música] Pela estrutura do relevo que a cidade comporta, nós estamos sempre em um lugar em que as águas estão caindo, gerando escoamento e se acomodando em outros lugares mais baixos. Como, onde cai a chuva? Como que a gente escoa essas águas pela cidade?
Como a gente coleta essas águas? Como a gente reaproveita essas águas? E, parte desse segredo, é simplesmente observar como que na natureza isso acontecia, antes da gente ocupar o lugar, e ver como que a gente pode aproveitar isso de novo.
[música] A Capela, eu brinco, que ela tem dois grandes piscinões, que é a Guarapiranga e a Billings. Tem um ponto que não é a água que desce, de toda essa parte alta, acumula aqui e cria transbordamento. De vez em quando para tudo.
Um pouco à direita, aqui, tem uma área da Imae que sofreu assoreamento. Então, os tubos estão afogados. A água vem e não consegue dar vazão.
Realmente, leva à inundação. Jardins de chuva, ou jardins alagados, são, basicamente, como canteiros rebaixados. Então, eles têm a função, eles captam águas da superfície, pode ser do solo, de telhados, acumulam e vão infiltrando no solo.
Voltam a infiltrar a água da chuva nos solos. Deteriorada. Estava muito ruim.
Porque as pessoas descartavam o lixo nos lugares. Tinham bichos rasteiros, ratos, um monte de coisas. Aí, eu conversei com a comunidade.
Falei, a gente pode colocar cores. Colocar borboletas. [música] Os jardins de chuva estão captando a água que vem aqui pela rua, que escoa pela sarjeta.
Então, a gente faz essas aberturas nas guias, e a gente coloca essas pedras na entrada para diminuir a velocidade da água e para reter um pouco da sujeira. Aqui, a água continua descendo. Como a declividade é alta, tiveram algumas contenções, também, que a gente fez no meio dos jardins.
Aqui em pedra. Então, criam como pequenas bacias, e a água vai passando de uma para outra, retendo um pouco aqui, segurando um pouco a sujeira, a parte orgânica e o excesso do que entra, sai aqui pela parte mais baixa, e contina o percurso. A importância, aqui, foi muito grande.
É impressionante o que uma pequena intervenção, da forma como nós fizemos, um dia nós viemos aqui e plantamos. Cavamos e plantamos. Mas, para esta comunidade, foi essencial.
Trouxemos uma mangueira, e tem uma pessoa que vem regar aqui todos os dias. E as crianças começaram a se apropriar do espaço. E as pessoas também.
E eles se sentem muito valorizados. Disseminando esse projeto pela região, nós esperamos que, parte da água que iria contribuir para o alagamento, vá ficar retida, temporariamente, nesses rebaixos de nível, que permitem a contenção da água. E, com isso, acreditamos que, a médio prazo, não tão rápido, precisamos fazer muito mais, essa água fique acumulada, e reduza, mitigue ou elimine totalmente o problema das inundações.
[música] Aqui no Largo da Batata, se não me engano, foi um dos primeiros jardins que a gente fez. Aqui, a praça tem dois jardins de chuva principais. Esse aqui é um jardim chuva um pouco menor e que acolhe só água que está caindo em cima dele e a água que está escoando do entorno.
Se reparar, o piso é um pouco mais alto, então, ela escoa para cá. Então, a água quando cai aqui vai infiltrando. Se a gente tem uma chuva muito forte, ela consegue transbordar, tem essa estrutura que é um vertedouro pequeno, a água transborda por aqui, entra nessa tubulação, e daqui ela vai correr para o outro lado do jardim.
Ela vem correndo aqui por baixo. Vem correndo por aqui e deságua aqui na frente. A tubulação está saindo daqui debaixo.
Mas, a entrada do lado de lá, recebe água da sarjeta. Esse é o lance que eu falei, de ter um espaço de acolhimento da água. Porque é muita água produzida na rua.
E aqui, a água tem uma oportunidade, tem esse espaço, para poder se espraiar, para acalmar a velocidade dela. Ela vai ocupando todos esses trechos, ora mais largo, ora um pouco mais estreito. E aí, a gente tem a saída da boca de lobo.
Então, aqui só vai sair água na hora que essa praça estiver, realmente, muito cheia. E é muito raro acontecer isso, de você ter um volume de chuva tão enorme, que ele transborda todo esse espaço, e aí, seguiria para a boca de lobo, que seria o caminho convencional. [música] Então, a ideia em Carapicuíba era plantar em uma área de conservação que estava sendo criada lá.
Quando a gente foi fazer a visita, a gente percebeu uma nascente saindo quase que de dentro da casa de um dos moradores, bem pertinho, essa água escorria pela sarjeta e era descartada em uma boca de lobo. Construir ali uma pequena praça, que a gente chamou de rotatória. No fim, o apelido virou a "aquatória", porque a água foi desviada, entra nessa rotatória, forma ali um pequeno lago.
Então, a água vem lá da encosta, vai cair no cano, vem canalizada e deságua aqui dentro, alimentando todo esse tanque. Ela drena e cai nessa valetinha de drenagem. Então, o volume de água da chuva, que antes era um problemão, que invadia os prédios, comércio, as casas, hoje não tem esse problema.
Porque a água já é direcionada, diretamente, aqui nesse rego de acesso, que a gente deixou para a água da chuva, entrar na lagoa e sair pelo dreno, lá na frente. Está muito divertido porque a gente tem feito na unha. Tem cavado na unha muitos jardins.
A gente já passou dos 25 jardins feitos na cidade. Mas, se for ver como um plano de manejo das águas urbanas, a gente está engatinhando. A gente não tem nenhum plano sério desenvolvido pela prefeitura, pelos gestores públicos, em relação ao jardim de chuva, de forma estruturada e massiva, o que traria um benefício gigantesco para a cidade.
Se a gente for comparar com Nova Iorque, por exemplo, que acabou de lançar um plano de fazer nove mil jardins pelas calçadas da cidade, a gente está muito, mas muito aquém desse panorama. [música] Não dá para a gente desenhar uma cidade saudável se a gente não se propor a colocar a água como elemento principal, elemento central de planejamento. Se a gente diz que a água é fonte de vida, se a gente não se dá o trabalho de planejar o espaço urbano para que a água esteja bem, como é que a gente vai ter qualidade de vida?