Sibéria. Imagine um frio tão agressivo que não é apenas uma temperatura, é uma presença física, um monstro invisível que tenta te matar a cada segundo que você está exposto a ele. A -60º, a física que você aprendeu na escola deixa de funcionar.
Se você jogar água fervendo para o alto, ela não cai como água. Ela explode instantaneamente em uma nuvem de cristais de gelo antes mesmo de tocar o chão. Se você tocar em metal sem luvas, sua pele não apenas gela, ela se funde ao aço.
Até o som aqui é diferente. Quando você insira, o vapor da sua respiração congela tão rápido que faz um barulho sutil, como arroz caindo no chão. Os nativos chamam isso de o sussurro das estrelas.
Bem-vindo a Yakutia, o lugar habitado mais frio, hostil e isolado da Terra. Enquanto o resto do mundo reclama quando o termômetro baixa de zero, aqui as crianças tomam sorvete a 40º negativos porque isso aquece o corpo. Mas como é possível?
Porque 300. 000 pessoas escolheram viver num lugar onde os motores dos carros nunca podem ser desligados, onde os mortos não podem ser enterrados porque o chão é mais duro que concreto? Neste documentário, nós não vamos apenas visitar a Sibéria, nós vamos tentar sobreviver a ela.
O canal Planeta Vivo lhe convida para entrar na geladeira do mundo. Aperte o casaco, vai esfriar. Para chegar ao coração desse inferno gelado, existe apenas um caminho, a R504, mais conhecida como a rodovia Colima.
Mas os locais não usam esse nome. Eles a chamam de A estrada dos ossos. E isso não é um apelido poético, é literal.
>> [música] >> Esta estrada de 2000 km foi construída durante a era mais sombria da União Soviética, sob as ordens de Stalin. Milhões de prisioneiros do Gulag, criminosos intelectuais e inimigos políticos, foram enviados para cá com picaretas manuais para quebrar o Permafrost. Eles trabalhavam sob temperaturas de 50 graus negativos, mal alimentados, vestidos com trapos.
A regra era brutal. Se você morresse durante o trabalho, não havia tempo para cavar uma cova no solo congelado. O corpo era simplesmente jogado na fundação da estrada e coberto com cascalho.
Enquanto viajamos por esta pista de gelo escorregadia, saiba disto. A cada metro que avançamos, estamos dirigindo sobre um cemitério não marcado. Hoje a estrada é a única artéria vital que conecta o mundo exterior a Yakutsk.
E a regra de ouro para quem dirige aqui é simples: nunca viaje sozinho. Se o seu carro quebrar nesta estrada e ninguém passar nas próximas 2 horas, você não vai apenas se atrasar, você vai morrer. O frio penetra na cabine em minutos, o vidro congela por dentro, o sangue engrossa.
O fim é silencioso e rápido. No final dessa estrada, chegamos a Yakutsk, a maior cidade construída sobre permafrost contínuo no mundo. A primeira coisa que você nota ao chegar não é o frio, é a cegueira.
A cidade passa boa parte do inverno coberta por um nevoeiro de gelo. Não é neblina comum, é a fumaça dos escapamentos, das fábricas e a própria respiração de milhares de pessoas que ficam presas, congeladas em suspensão no ar parado. Você caminha pelas ruas como um fantasma, vendo apenas vultos a 2 m de distância.
Mas se você acha que Yakutsk é o limite, você está enganado. Se dirigirmos mais dois dias para o interior, chegamos ao polo do frio, a vila de Oimiacon. Aqui o termômetro já registrou impressionantes 71.
2º negativos. é a temperatura mais baixa já registrada em um local permanentemente habitado. Para colocar em perspectiva, é mais frio do que a temperatura média em Marte.
Em Oimiacon, o frio dita cada aspecto da vida. A tinta das canetas congela, as baterias dos celulares morrem em segundos se expostas ao ar. Se você usa óculos de armação de metal, corre o risco deles queimarem sua pele pelo frio extremo, deixando marcas permanentes no seu rosto.
É um lugar onde a própria atmosfera parece tentar te expulsar e, no entanto, as escolas só fecham se a temperatura cair abaixo de 52ºC. Antes disso, é apenas mais um dia letivo normal. Enquanto nós humanos, precisamos nos esconder atrás de paredes triplas e queimar toneladas de carvão do lado de fora, a vida continua.
A Sibéria é o lar de criaturas que não apenas toleram o frio, elas foram forjadas por ele. [música] Esqueça os ursos polares. Aqui o rei da resistência é o cavalo Yakut.
Eles parecem pôneis dóceis, mas são tanques de guerra biológicos. Ao contrário de qualquer outro equino, eles não têm celeiros. Eles passam o inverno inteiro ao relento, a 60 graus negativos e móveis entrando num estado de animação suspensa para economizar energia.
O pelo deles é tão denso que a neve nas costas não derrete com o calor do corpo. Eles cavam a neve profunda com os cascos para achar um pedaço de grama seca, sobrevivendo onde nenhuma máquina funcionaria. Ao lado deles vagam as renas, as verdadeiras nômades da tundra, mas elas têm um super poder secreto.
Os cientistas descobriram que os olhos das renas do Ártico mudam de cor. No verão são dourados, no inverno ficam azul profundo. Essa mudança permite que elas vejam a luz ultravioleta refletida na neve, enxergando comida e predadores na escuridão eterna, onde nós ficaríamos cegos.
Mas onde há presas resistentes, há predadores impiedosos. O lobo siberiano não hiberna, ele patrulha. Com patas largas que funcionam como raquetes de neve naturais, eles correm sobre o gelo, onde outros afundariam.
Para eles, o inverno não é um obstáculo. É a estação da caça. Estas criaturas provam uma lei universal da natureza.
Ou você se adapta ou você desaparece. Como se alimenta um corpo humano que está queimando 6000 calorias por dia apenas para se manter aquecido? Esqueça saladas ou frutas frescas.
Aqui gordura é vida. Visitar o mercado central de Yakutsk é uma experiência surreal. É um mercado a céu aberto a menos 40º.
Os vendedores não usam freezers. A cidade é o freezer. Peixes gigantescos estão empilhados verticalmente como troncos de lenha.
Leite não é vendido em garrafas líquidas, mas em blocos sólidos de tijolos brancos. Que aqui a iguaria suprema não é cozida. Apresento a vocês a estroganina.
É um peixe de rio, geralmente o peixe branco ou esturjão, pescado sob o gelo. Ele congela instantaneamente ao sair da água. Para comer, os locais pegam o peixe cru, duro como pedra, e usam uma faca afiada para raspar fatias finíssimas, como cachos de madeira.
Você come essas raspas cruas e congeladas, mergulhadas apenas em sal e pimenta. Parece estranho, talvez. Mas ao colocar na boca, a gordura derrete, aquecendo o corpo de dentro para fora.
É pura energia. É a vitamina da sobrevivência em uma terra onde verduras não crescem. E não pense que essa comida fica guardada na cozinha.
Em Yakutsk, a lógica é invertida. Muitas vezes, a geladeira elétrica é usada para impedir que a comida congele demais. O verdadeiro freezer é a janela.
Basta pendurar um saco com carne de cavalo ou fígado do lado de fora e em minutos ele vira pedra. A própria atmosfera é um conservante estéreo, mantendo toneladas de suprimentos na varanda por meses a fio. Mas há um desafio ainda maior que a comida, a água.
Em muitas aldeias siberianas não há água encanada. Toda a tubulação de água corre acima de nossas cabeças, isolada, pois enterrá-la no permafrost, mas em vilarejos remotos nem isso existe. Então, como você consegue água para beber?
Você minera a água. Durante o inverno, os homens vão até os rios congelados e cortam blocos de gelo azul cristalino com serras elétricas. Esses blocos são empilhados entre nós e levados para fora das casas.
Sempre que você precisa de um copo d'água, você sai no frio, quebra um pedaço de [música] gelo e coloca num barril dentro de casa para derreter. A vida aqui é um ciclo constante de transformar sólido em líquido. E isso nos leva à parte mais desconfortável da conversa, o banheiro.
A maioria das casas em vilarejos, como Oimiacon, não tem banheiro interno. O esgoto não [música] pode ser drenado. Isso significa que mesmo a 50º negativos, se você precisar usar o banheiro [música] no meio da noite, você tem que sair de casa.
Você corre pela neve até uma pequena cabana de madeira [música] com um buraco no chão. O frio é tão intenso que é fisicamente perigoso ficar lá por mais de alguns minutos. É uma realidade brutal, sem glamur, que mostra que aqui o conforto moderno é um luxo distante.
Se a água é difícil, a moradia é um desafio de engenharia. Olhe para os prédios de Yakutsk. Você vai notar algo bizarro.
Nenhum deles toca o chão. Todos os grandes edifícios são erguidos sobre palafitas de concreto maciço, flutuando 2 m acima do solo. Por quê?
Por causa do permafrost. O solo aqui não é terra. É uma mistura de gelo e areia congelada há milhares de anos.
[música] Se você construísse uma casa diretamente no chão, o calor do edifício derreteria o gelo abaixo. A fundação viraria lama e o prédio afundaria e colapsaria. Além das fundações flutuantes, a arquitetura é uma fortaleza contra o ar externo.
Não existem janelas simples aqui. Cada abertura possui vidros triplos selados hermeticamente e as entradas funcionam como câmaras de descompressão. Você nunca entra da rua direto para a sala.
Você passa por uma porta pesada forrada de feltro, entra num pequeno vestíbulo de isolamento e só então abre a segunda porta. Mas o sistema é frágil. [música] Em cada casa, o aquecimento vem de centrais térmicas que bombeiam água quente 24 horas por dia.
Se o sistema falhar, os moradores têm um prazo mortal. Eles têm cerca de 3 a 5 horas para consertar a falha. Se a água parar de circular, ela congela, expande e estoura toda a tubulação da casa.
Se isso acontecer, a casa está morta. Ela se torna um bloco de gelo inabitável até a primavera. O medo de perder a casa é constante.
Mas afinal, quem são as pessoas que enfrentam esse desafio diário? Se a Sibéria fosse um país, seria o maior do mundo, superando o tamanho do Canadá ou dos Estados Unidos. No entanto, é um verdadeiro deserto humano.
Ela cobre 77% do território da Rússia, mas abriga apenas 33 milhões de pessoas. A densidade demográfica é tão baixa que você pode viajar dias sem ver outra alma viva. [risadas] A moeda oficial é o rublo, mas nas aldeias isoladas o dinheiro de papel perde o sentido.
Lá a economia volta ao primitivo. Combustível, peças mecânicas e carne valem mais que uma maleta de dinheiro. Então, por que ficar?
Porque a Sibéria é [música] o cofre da Rússia. É daqui que saem o gás natural, o petróleo e os diamantes, como os extraídos da gigantesca Minamir, um buraco tão profundo que cria correntes de ar capazes de sugar helicópteros. Para atrair mão de obra para este inferno gelado, o governo paga os chamados salários do norte.
Um motorista ou engenheiro aqui pode ganhar o triplo do que ganharia em Moscou. É tentador, mas é uma armadilha matemática. Você ganha como um rei, mas gasta tudo apenas para sobreviver.
Quase tudo o que se consome aqui precisa ser trazido de avião ou por perigosas estradas de gelo temporárias. O custo do frete é repassado para a prateleira. Uma simples maçã importada ou vegetais frescos custam uma pequena fortuna.
As pessoas vivem em gaiolas de ouro, acumulam rublos, mas vivem com uma escassez de confortos básicos. É uma terra rica que cobra um aluguel mortal de quem ousa explorá-la. Até agora falamos exaustivamente sobre como o frio ataca a pele e congela os ossos.
Mas o verdadeiro assassino na Sibéria pode ser silencioso, invisível e agir de dentro para fora. O inverno aqui traz um fenômeno que testa os limites da sanidade humana, a noite polar. Dependendo da latitude onde você vive, o sol simplesmente não nasce por semanas ou até meses a fio.
O dia é reduzido a um crepúsculo cinza. curto e melancólico. O corpo humano privado de luz solar direta, para de produzir serotonina e vitamina D.
O relógio biológico quebra completamente. A depressão sazonal atinge níveis epidêmicos. Muitos moradores admitem que o combate mental é muito mais difícil que o físico.
O alcoolismo se torna um problema social grave, usado por muitos como uma fuga líquida barata da escuridão e do tédio absoluto do confinamento. Mas curiosamente é nesse ambiente hostil que a humanidade brilha mais forte. A regra social número um na Sibéria é a solidariedade incondicional.
Na estrada, se um carro parar no acostamento, o próximo motorista tem a obrigação moral de parar e oferecer ajuda. Ninguém deixa ninguém para trás. O frio extremo elimina o egoísmo, porque se você for arrogante ou individualista aqui, você morre sozinho.
A sobrevivência na Sibéria é obrigatoriamente um esporte coletivo. A Sibéria não é um destino para qualquer um. Ela não perdoa erros e exige um tributo diário de respeito, medo e preparação.
Mas para os iakuts, os russos e os povos nativos que chamam este deserto de gelo de lar, o frio não é visto como sofrimento, é identidade. Visitar a Sibéria a 60º negativos muda você para sempre. faz você perceber quão incrivelmente frágil é o corpo humano diante da natureza, mas ao mesmo tempo quão infinitamente adaptável é o espírito humano.
Aqui no fim do mundo, contra todas as probabilidades biológicas, a vida encontra um jeito e ela é teimosa, bela e gelada. Se você sentiu o frio na espinha e quer continuar explorando os limites extremos do nosso planeta, dos vulcões mais ativos aos abismos oceânicos mais profundos, a sua jornada está apenas começando. O mundo é vasto e cheio de perigos fascinantes.
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