Olá, meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs, bem-vindos mais uma vez ao nosso programa Testemunho de Fé, aqui é o Padre Paulo Ricardo e quero acolher você, com grande alegria estar nesse nosso programa, iniciando esse tempo fantástico, um tempo de grande crescimento espiritual e de luta, é claro, o tempo da Quaresma. Como em todo primeiro domingo da Quaresma, a Igreja reflete a respeito da tentação de Jesus, mais do que a respeito do Evangelho da tentação de Cristo, a Igreja reflete sobre o mistério da tentação de Cristo, claro, existem vários relatos da tentação de Cristo, esse ano nós lemos o Evangelho de São Lucas, no capítulo 4, versículos de 1 a 13, só que o que vemos aqui é esse grande mistério de duas realidades: 1º, Jesus fez penitência, isso é uma coisa fantástica, isso é uma coisa quase que inacreditável, Jesus fez penitência. Você já parou para pensar nisso?
O Inocente, o Santo dos Santos, o Homem perfeito, fez penitência e fez penitencia por quê? Porque todos nós precisamos fazer penitência, Ele não, mas nós precisamos fazer penitência e, ao fazer penitência, Ele, cabeça deste Corpo que é a Igreja, se uniu a nós, é por isso que a Igreja promove períodos de penitência como a Quaresma, porque todo mundo precisa fazer penitência, mas a Igreja quer que nós, como um todo, membros do Corpo de Cristo, façamos penitência juntos. A Igreja podia dizer assim: "Cada um faça a penitência que quiser, na hora que quiser e acabou", mas não, nós somos membros do mesmo Corpo, a Igreja quis também proporcionar esse tempo comum, para penitência comum, para penitência do corpo inteiro, unido à sua cabeça que é o Cristo.
É isso o que admite a Igreja no cânon 1249, que é da parte do Direito Canônico que fala dos dias de penitência, olha só o cânon, porque o cânon é inspirador, é desses cânones mais teológicos do que de preceito, de lei, ele explica a razão da lei, ele diz assim: "Todos os fiéis, cada qual a seu modo, são obrigados por lei divina a fazer penitência", vejam esse princípio, ele não para pra pensar, o Corpo de Cristo, nós aqui que somos Igreja Militante aqui na terra, cada um tem s sua vocação, uns são monges, outros são leigos, uns são padres, outros são religiosos, uns são casados, outros são celibatários e, no entanto, todos, conforme o seu estado de vida, todos, absolutamente todos, estão obrigados por lei divina, não por lei da Igreja, não é uma "invenção" da Igreja, todos são obrigados por lei divina a fazer penitência. Só de colocar esse princípio, você já vê que aqui tem uma certa mudança no nosso pensamento, ou seja, a maior parte das pessoas acha que a penitência é opcional, é uma coisa que se pode fazer ou não, não, a penitencia não é uma coisa opcional, a lei divina estabelece que todos os cristãos, todos os "Christi fidelis", todos aqueles que são fiéis a Cristo devem fazer penitência e Ele que é a nossa cabeça, o Inocente e o Santíssimo, fez penitência, fez 40 dias de penitência no deserto, além da sua vida de penitência na carpintaria de Nazaré, além da sua vida de penitência pregando o Evangelho, não tendo onde reclinar a cabeça, padecendo calor, frio, fome, cansaço, perseguições, injúrias, além da grande e suprema penitência que foi a sua Paixão e Morte na Cruz. Ora, todos devemos fazer penitência e você diz assim: "Mas, padre, de onde o Código de Direito Canônico tira essa loucura de que todos são obrigados a fazer penitência, mas que maluquice?
", mas parece que você não lê o Evangelho, "se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo todos os dias, tome a sua cruz e me siga", se alguém quiser me seguir, se alguém quiser ser membro do meu corpo, se alguém quiser chegar na glória da pátria no Céu, renuncie a si mesmo e tome a sua cruz. Tomar a cruz o que é? É a penitência do dia a dia.
Então, cada um a seu modo, claro, a penitência de um monge cartuxo não é a penitência de um pai de família, mas, cada um ao seu modo. Aí continua o cânon dizendo o seguinte: "Para que todos estejam unidos mediante certa observância comum da penitência, são dias penitenciais em que os fiéis se dediquem de modo especial à oração, façam obras de piedade e de caridade, renunciem a si mesmos, cumprindo ainda mais fielmente as próprias obrigações e observando principalmente o jejum e a abstinência de acordo com os cânones que seguem". Vamos um pouco olhar para essa realidade: "todos estejam unidos mediante certa observância comum da penitência", então esse é o tempo da Quaresma, tempo que vai desde a quarta-feira de Cinzas, contando 40 dias iremos chegar até o Domingo de Ramos, mas a quaresma ainda se estende pelo tempo da Semana Santa, da segunda-feira, terça-feira, quarta-feira da Semana Santa até a manhã da quinta-feira da Semana Santa, para então iniciar um tempo diferente, que é o tempo do Tríduo Pascal com a noite da quinta-feira.
Então, esse é o tempo da Quaresma, esse é o tempo penitencial por excelência, da Igreja, então nós entramos nesse tempo. É importante, então, você como um bom cristão, um católico, recordar e se lembrar que a quaresma não existe na hora que você entra na Igreja e vê que o padre está de roxo, a Quaresma existe no seu dia a dia, ou seja, alguma coisa tem que mudar na sua vida, no seu jeito de ser por estar na Quaresma, isso é muito importante porque aqui na Quaresma nós somos revigorados pela grande consolação de saber que eu não estou fazendo penitência sozinho. Misticamente Cristo, nossa cabeça, fez penitência conosco quando foi ao deserto e, no mistério da penitência de Cristo nesses 40 dias, nós também fazemos com Ele e, ao vencer as seduções dos inimigos da alma, a carne, o mundo e Satanás, Jesus nos dá a vitória.
Essa consolação de que o Cristo nos precedeu e está unido a nós em cada penitência nossa, aumenta ao sabermos que os mais diversos fiéis, espalhados pelo mundo inteiro, se unem a nós em penitência. Que grande consolação saber que nesse momento em que eu faço a minha pobre penitência existe alguém mais santo, alguém mais virtuoso, alguém mais generoso do que eu que faz penitência também. Saber que nos cárceres da China, dos cristãos perseguidos e martirizados pelos comunistas na China, aquelas pessoas santas fazem a penitência suprema e nós estamos unidos a eles.
É grande consolação saber que somos um só corpo, nós fazemos penitência por eles e eles fazem também por nós e o bem comum de toda Igreja, existem monges, grandes ascetas que, neste momento, estão fazendo penitência e fazem penitência conosco, não estamos sozinhos, por isto a Igreja nesse tempo de penitência, quer que nós, fiéis, nos dediquemos de modo especial, aqui vem, olha só, a programa da quaresma está aqui no cânon: "se dediquem de modo especial à oração, façam obras de piedade e caridade, renunciem a si mesmos", então, a quaresma é também um tempo de oração, pouca gente se dá conta disso, que a oração e a penitência estão intimamente ligados, porque as coisas vão juntas, então é muito importante nós nos darmos conta disso, de que, por exemplo, o jejum, o jejum está intimamente ligado à oração, não é que um coisa é independente da outra, estão juntos e, aliás, o jejum potência a oração. Nesse tempo de quaresma, você pode fazer jejum generosamente, não é mais necessário seguir o jejum da Igreja durante os 40 dias, como era prescrito antigamente, durante todo o tempo da Quaresma você faz uma única refeição por dia e depois os dois lanchinhos, aquele jejum eclesiástico durava 40 dias, agora não é mais necessário, mas você pode livremente, generosamente, por sua espontânea vontade, escolher pequenos dias de jejum, especialmente às sextas-feiras da Quaresma e, sobretudo, se dedicar à oração, porque a oração tem o seu admirável complemento no jejum. A grande finalidade da oração não é transformar a vontade de Deus, mas é nos transformar, então, se a oração tem por finalidade me transformar ao fazer um jejum, uma penitência, alguma coisa diferente, você está ali de alguma forma lutando, com aquelas seduções dos inimigos da alma, vamos recordar quem são os 03 inimigos da alma que nós estamos combatendo a nossa vida inteira, mas que devemos combater de forma especialíssima nesse tempo da Quaresma.
Os 03 inimigos da alma são, número 01, o diabo e aqui nós vemos um mistério maravilhoso no Evangelho desse domingo, o mistério da tentação de Cristo, não só o mistério de que Cristo faz penitência, mas também o mistério de que, terminados os 40 dias de seu jejum, no deserto, Jesus foi tentado por Satanás, interessante nós nos darmos conta que Jesus não podia cair na tentação, é impossível, Ele é Deus que se fez homem, mas Jesus quis ser tentado para que, na sua vitória sobre Satanás, você vencesse. A vitória de Jesus é a nossa vitória, portanto, quando você é tentado, não está sozinho, esse é o primeiro inimigo, o inimigo original dos seres humanos porque antes de Adão e Eva pecarem, Satanás já tinha pecado. Nós temos que nos lembrar que o pecado é uma invenção angélica, foram os anjos que inventaram o pecado, os anjos decaídos, os demônios e é por isso que nós, seres humanos, nunca entendemos plenamente o que é o pecado se não nos for concedida uma graça divina, os santos, os grandes santos tiveram a experiência do que é o pecado, você vê, por exemplo, quantos santos tiveram revelações pessoais, etc.
, de encontrar-se diante de uma alma em estado de pecado mortal e ver como aquela alma está apodrecida, como aquilo exalava um cheiro insuportável, eis aí o terror que é o pecado. Mas nós, seres humanos, temos uma certa tendência de tratar o pecado com uma certa leveza, uma certa leviandade, um certo relaxamento, porque, claro, para você enxergar verdadeiramente, enxergar e ver com profundidade o que é o pecado, você precisaria ver as coisas de forma espiritual. O segundo inimigo da nossa alma é o mundo, vejam, o que é o mundo?
Jesus sai e vai para o deserto, por que Jesus foi para o deserto? Porque é necessário fazer deserto no nosso coração se nós não queremos ser a todo momento arrastados pelas seduções do mundo. Boa coisa nesse tempo de Quaresma é você fazer um certo deserto de WhatsApp, de Facebook, de banalidades, de dispersões, coisas que já viraram um verdadeiro vício, porque, na verdade, são janelas abertas para o mundo, uma visão carnal da vida, uma vida sem sentido, uma vida absurda que vai correndo atrás dos prazeres, correndo atrás de uma realização mundana que nós sabemos, não vai existir, não vai acontecer, não vai dar certo, então, um certo recolhimento, recolhimento das influências do mundo, o que é mundo?
Mundo aqui é o sistema pecaminoso que foi formado pela sedução de Satanás e pelos nossos pecados. E o 3º inimigo da alma é a carne, quem é a carne? A carne somos nós nas nossas fraquezas, ou seja, nas desordens, a desordem que nós herdamos dos nossos primeiros pais, porque uma vez que a nossa vontade, o nosso coração não está fixado em Deus, tudo fica desordenado, Deus é como que o eixo que põe em ordem.
Submetidos a Deus, a nossa alma é capaz de submeter o corpo, ou seja, a nossa inteligência submete a vontade, a vontade submete as paixões, os sentidos e tudo fica em ordem, tudo fica em paz. Quando a gente usa a palavra "submete", algumas pessoas acham que é com violência, não é com violência, é com o suave ordenamento de saber que as coisas estão no seu lugar, mas, infelizmente, nós mesmo somos desordenados, isso é a carne, é a desordem que está dentro de nós, seja porque herdamos de nossos primeiros pais, seja porque os próprios pecados que nós cometemos em nossas vidas nos predispõe a outros pecados. Pois bem, juntamente com Jesus, os santos, os nossos anjos da guarda, mas, sobretudo, com os nossos irmãos aqui na terra, entramos nesse tempo de penitência e a prova maior de que a Quaresma é realmente uma coisa muito boa, é a quantidade de tentações que aumentam durante a Quaresma.
Durante a Quaresma, a gente que passa horas no confessionário atendendo as pessoas, a gente vê claramente: as pessoas são mais tentadas, aí alguém pode dizer assim, de forma iludida: "Ah, padre, então se a Quaresma aumenta as tentações, por que a Igreja não acaba com a Quaresma, por que aí acabava a ocasião de tentação? ", acontece o seguinte, todas as vezes que você faz uma coisa muito boa, as tentações aumentam, só tem um jeito de você não ser tentado: é você se entregar de vez a Satanás, aí não tem mais tentação, ele já venceu, não precisa mais tentar, ele já sentou em você. Então, se nós não queremos ser vencidos por Satanás e ir para o inferno, nós temos que entrar na luta, "é uma luta a vida do homem sobre a terra", então assim, nós viveremos esse tempo, agora, de Quaresma, com a Igreja, entrando com Jesus no deserto.
No entanto, para concluir a nossa homilia, recordar uma coisa de São João da Cruz para ajudar a sua Quaresma, com uma dica espiritual para viver a Quaresma: São João da Cruz, nos seus Ditames Espirituais e no Ditame número 05 ele diz o seguinte: "Olha, você pode combater o pecado mortal, os vícios fazendo o seguinte: você vai e promove as virtudes contrárias, você é tentado de luxúria, então promove a pureza, você reflete sobre a pureza de São José, sobre a pureza de Jesus, decide que não vai fazer nada contra sua esposa, contra sua família, etc. , etc. , através dessa pureza você vai fazendo as suas reflexões, vai alimentando a virtude da pureza que vai combater a luxúria.
Se o seu problema é a ira, você vai então promover a virtude da mansidão, ver como você pode ser manso, humilde nas mãos de Deus. Se o seu problema é a impaciência, vai combater com a virtude da paciência, se você é avarento, vai combater com a virtude da generosidade, assim por diante. Mas São João da Cruz sugere uma forma superior de combate, é como se São João da Cruz estivesse lendo o último versículo do capítulo 12, da 1ª Coríntios: "Mostrar-vos-ei um caminho superior", "hodos hyperbolen", um caminho superior, o caminho da caridade, depois diz assim: "A melhor maneira de combater os vícios são atos anagógicos e amorosos", desculpe o palavreado difícil, mas eu vou explicar o que é "anagógico", pedagógico é o que conduz crianças, "paidós" é criança, "ogogen" é conduzir, pedagogia é conduzir crianças, anagogia é conduzir para cima, "aná" é para cima em grego.
Um ato anagógico quer dizer você levar a sua alma a Deus, um ato anagógico e amoroso é quando você está sendo tentado e diz: "Jesus, Senhor, vós estais aqui, vós me amais, eu quero vos amar também". Esse ato de elevar, um ato de devoção, de amor a Jesus, em que você une a sua alma a Deus, é claro que os santos mais elevados, quando realizam esses atos anagógicos, de elevar a alma a Deus num ato de amor, eles vencem completamente o diabo, porque é como se o diabo atacasse o santo, mas ele não está mais aqui, subiu, subiu de andar, atacou o corpo do santo, mas o corpo subiu para o andar espiritual, ele deu uma flechada, mas o santo não está mais lá. Mas nós que não somos tão santos, ainda temos que promover as virtudes, mas podemos desde já, nessa Quaresma, ir praticando esses atos de amor, esses atos de fé, uma fé incendida, cheia de amor, onde nós elevamos a nossa alma a Jesus o tempo todo, várias vezes por dia, aproveite, portanto, nessa Quaresma, para elevar a sua alma a Jesus, em atos de amor, em flechadas de amor e cada vez mais esses atos de amor e cada vez mais esses atos de amor vão sendo incendidos, mais ardorosos, mais cheios de fervor e é Ele quem será o vencedor, não você, é Ele quem vai vencer Satanás e não nós.
Então vamos lá, é tempo de Quaresma, elevemos a nossa alma a Deus, corações ao alto, diz a Igreja, "sursum corda", vamos, em atos anagógicos e de amor, entremos na Igreja, com a Igreja, nesse tempo de penitência, mas também um tempo especialíssimo de amor e de elevação de nossas almas a Deus. Deus abençoe você. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Amém.