Quando Lucas me convidou para ajudá-lo com sua nova oficina, imaginei que seria uma tarde normal de trabalho pesado. Eu não tinha ideia de que aquele dia marcaria uma virada tão inesperada na minha vida. Lucas havia se mudado recentemente para uma casa simples, mas charmosa, em um bairro tranquilo.
Sua vizinha da casa ao lado, dona Clara, era uma mulher que emanava uma presença impossível de ignorar. Aos 64 anos, ela tinha uma elegância natural que parecia transcender o tempo, como se cada ruga em seu rosto contasse uma história. Eu a tinha visto apenas de relance nas poucas vezes em que visitei Lucas.
Ela sempre usava vestidos leves, o tipo que balança com o vento e parece pertencer a uma tarde de primavera eterna. Quando Lucas mencionou casualmente que Clara às vezes usava da oficina para restaurar móveis antigos, achei curioso, mas não pensei muito a respeito até aquele dia. Era uma tarde quente de verão.
O sol brilhava intensamente e o ar estava carregado do cheiro de madeira cerrada e tinta fresca. Lucas estava ocupado, ajustando as ferramentas quando Clara apareceu na porta da oficina. Boa tarde, meninos", disse ela com um sorriso que parecia iluminar o espaço pequeno e abafado.
"Oi, Clara, precisa de algo? ", Lucas perguntou, enxugando o suor da testa. "Na verdade, sim", respondeu ela, olhando brevemente para mim antes de voltar sua atenção para Lucas.
"Estou trabalhando naquele armário antigo que mencionei. Preciso de ajuda para movê-lo. " Lucas hesitou.
Pode esperar um pouco? Estou ajustando a serra agora. Clara acenou levemente com a cabeça e então seus olhos pousaram em mim.
E você está livre? Não sei porquê, mas senti meu rosto esquentar sobre o peso de seu olhar. Claro, posso ajudar, respondi tentando soar casual.
Ela me guiou até sua casa, que era exatamente como eu imaginava. aconchegante, cheia de livros e móveis que exalavam uma mistura de charme vintage e história. O armário estava no fundo da sala, um pedaço robusto de madeira escura que parecia ter décadas, senão séculos.
"Aqui está", disse ela, colocando a mão na superfície do móvel, como se estivesse acariciando algo precioso. "Quer que eu mova para onde? ", perguntei, tentando ignorar a tensão inexplicável no ar para o quarto lá em cima, mas antes queria sua opinião sobre algo.
Clara se aproximou, seus dedos longos e delicados, apontando para uma rachadura na lateral do armário. Você acha que isso pode ser reparado ou está muito comprometido? A proximidade dela era desconcertante.
O perfume floral suave que ela usava parecia envolver o espaço entre nós, e a maneira como seus olhos fixavam os meus, com uma mistura de curiosidade e algo mais fazia meu coração bater mais rápido do que eu gostaria de admitir. Um, eu acho que dá para consertar. Murmurei, passando a mão pela rachadura, como se aquilo fosse o foco da minha atenção.
Mas, na verdade, tudo o que eu conseguia sentir era a presença dela. Cada movimento pequeno e controlado, cada gesto que parecia carregado de significado. "Você entende de restauração?
", perguntou ela, inclinando a cabeça levemente. "Um pouco", respondi. Lucas me ensinou algumas coisas.
"Interessante", disse Clara, seu tom baixo e quase musical. "Você parece ser um homem que sabe usar as mãos". Eu congelei por um momento, não sabendo como interpretar suas palavras.
Clara me observava com um leve sorriso nos lábios, como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Clara afastou-se do armário, deixando suas palavras ecoarem no espaço silencioso. Eu me senti desorientado, quase fora do meu próprio corpo.
É melhor começar a mover o armário antes que fique mais pesado, só de olhar. Brinquei, tentando dissipar atenção, mas Clara apenas sorriu, um sorriso que parecia saber algo que eu não sabia. Comecei a levantar um dos lados do móvel.
Ele era mais pesado do que parecia e o suor começou a se acumular em minha testa. "Segure firme, não queremos que ele desabe. " Clara disse, posicionando-se ao lado oposto para ajudar.
A maneira como ela se movia, com uma elegância quase casual, tornava impossível não observá-la. Seus braços eram fortes, mas delicados. Suas mãos hábeis guiavam o peso do armário com destreza.
Subimos as escadas lentamente e cada passo parecia pontuado pela presença dela. Quando finalmente colocamos o armário no lugar no quarto dela, percebi pela primeira vez o quão pessoal e íntimo o espaço era. A luz do sol passava pelas cortinas semiabertas, iluminando o ambiente com uma suavidade dourada.
Uma estante abarrotada de livros ocupava uma parede inteira e havia pequenos toques de personalidade por toda parte. Uma colxa de retalhos feita à mão, um vaso com flores frescas, uma fotografia antiga em uma moldura ornamentada. Obrigada, disse Clara, seu tom, mas firme.
Ela me observava com uma intensidade que me fazia sentir vulnerável, como se pudesse enxergar algo dentro de mim que nem eu mesmo sabia que existia. "Você é forte", acrescentou seu olhar descendo brevemente para os meus braços antes de voltar para meus olhos. eh, o esforço coletivo", respondi tentando soar descontraído, mas havia algo na forma como ela me olhava, que me fazia sentir que qualquer tentativa de leveza seria inútil.
O quarto parecia muito menor com nós dois lá dentro, a distância entre nós se tornando quase palpável. "Você gostaria de um copo d'água? Parece que trabalhou duro.
Clara ofereceu, movendo-se em direção à porta. Ou talvez algo mais forte. Tenho vinho.
Água está ótimo. Obrigado. Respondi rapidamente, mas percebi, pelo jeito que ela hesitou que essa não era a resposta que ela esperava.
Clara saiu e eu fiquei ali observando o armário como se fosse uma obra de arte. Era uma peça impressionante, mas não era o móvel que ocupava minha mente. Cada detalhe daquela interação me deixava inquieto, como se algo estivesse sendo dito sem palavras, algo que eu não sabia como processar.
Quando Clara voltou, trouxe dois copos, um com água e outro com vinho. "Eu decidi que um pouco de vinho não faz mal para mim", disse ela, oferecendo-me o copo de água com um sorriso. Sentou-se na beira da cama um gesto casual, mas que carregava uma sensação de proximidade que era difícil ignorar.
"Você restaura móveis como um hobby? ", perguntei, tentando manter a conversa em terreno seguro. A última coisa que queria era reconhecer o que parecia ser uma corrente invisível de tensão entre nós.
"Algo assim", respondeu ela, girando o copo de vinho em sua mão. "Gosto de trazer coisas antigas de volta à vida. É como se cada peça tivesse uma história esperando para ser ouvida.
" Seus olhos encontraram os meus e, por um momento, parecia que ela não estava falando apenas sobre móveis. Houve um silêncio, não um silêncio desconfortável, mas algo mais denso, carregado de possibilidades. Eu tomei um gole de água, tentando preencher o vazio com um gesto mundano, mas isso só fez com que a atmosfera se tornasse mais intensa.
Clara colocou o copo de vinho na mesa de cabeceira e inclinou-se ligeiramente para a frente. Você sabe, começou ela, sua voz mais baixa. A maioria das pessoas acha que quando você chega a uma certa idade, essas coisas, as emoções, os desejos, tudo isso desaparece.
Eu nunca pensei muito sobre isso. Admiti. Minha voz quase um sussurro.
Talvez devesse disse Clara com um leve sorriso nos lábios. Porque vou te contar um segredo. Elas não desaparecem.
Elas apenas evoluem. Eu não sabia o que dizer. Clara estava tão perto agora que eu podia ver os detalhes minuciosos de seus olhos, a maneira como a luz capturava os pequenos traços de dourado em suas íris.
Eu estava consciente de cada movimento, cada respiração dela, como se o tempo tivesse desacelerado ao nosso redor. Você acredita que as pessoas podem se conectar, não importa a idade? as circunstâncias?
", perguntou ela, sua voz suave, mas cheia de intenção. "Sim", eu disse sem pensar, porque era verdade, mesmo que eu não tivesse considerado isso profundamente até aquele momento. Clara inclinou a cabeça, como se estivesse avaliando minha resposta.
Bom", disse ela, se levantando lentamente. "Ajuda-a a ter mente aberta, especialmente para o inesperado. " Ela parou ao meu lado, tão perto que eu podia sentir o calor de sua presença.
Seus dedos roçaram o meu braço, um toque tão leve que poderia ter sido acidental, mas o olhar que ela me deu dizia outra coisa. A vida é curta", disse ela, quase em um sussurro antes de se afastar para pegar o copo de vinho novamente e cheia de surpresas. Eu não sabia se estava lendo demais em tudo aquilo, mas havia algo innegável na forma como ela me olhava, como se estivesse esperando que eu fizesse algo, dissesse algo, mas eu não fiz.
Não naquele momento. O tempo parecia se prolongar. como uma corda esticada ao máximo, pronta para estalar.
"Eu tenho mais trabalho a fazer no armário", Clara disse finalmente, sua voz de volta ao tom casual. "Mas obrigada por sua ajuda hoje. Você é realmente muito atencioso.
" "De nada", respondi, minha voz um pouco trêmula. Clara me acompanhou até a porta e quando saí sentia como se algo entre nós tivesse mudado, algo que não poderia ser desfeito. Era como estar à beira de um precipício, consciente do abismo, mas incapaz de dar um passo para trás.
Nos dias que se seguiram, eu não conseguia tirar clara da cabeça a maneira como ela falava, como se cada palavra tivesse sido cuidadosamente escolhida, a forma como seus olhos pareciam olhar para além do óbvio. Havia algo nela que era ao mesmo tempo, desconcertante e cativ, uma mistura de confiança e mistério que me deixava inquieto. Lucas, como sempre, estava imerso em sua oficina e não parecia perceber o que se passava, ou talvez ele percebesse, mas não dava importância.
Uma tarde, enquanto ajustávamos as prateleiras da oficina, Clara apareceu novamente. Dessa vez, ela estava usando um vestido azul que parecia capturar a luz de forma única, como se tivesse sido feito para ela. "Lucas, posso roubar seu amigo por um momento?
", perguntou ela com um sorriso que parecia inocente, mas carregava algo mais. Lucas olhou para mim e deu de ombros. Claro, parece que você tem um novo ajudante.
Clara riu suavemente, mas havia algo em seu riso que parecia privado, quase íntimo. "Venha comigo", disse ela, acenando para que eu a seguisse. Desta vez, ela me levou para o jardim atrás de sua casa.
Era um espaço encantador, com arbustos de flores vibrantes e uma pequena mesa de ferro forjado sob uma pérgula coberta de videiras. Ela se sentou em uma das cadeiras, gesticulando para que eu ocupasse a outra. Na mesa havia uma caixa de ferramentas e um pequeno relógio antigo com os ponteiros parados.
"Eu estava tentando restaurar isso", disse ela, apontando para o relógio. "Mas parece que falta algo. Pensei que talvez você pudesse me ajudar".
Eu me inclinei para examinar o relógio, consciente do olhar de Clara sobre mim. Parece que a mola principal está desgastada. Isso acontece com o tempo.
Com o tempo, repetiu ela, como se as palavras tivessem um significado especial. Sim, o tempo tem esse efeito nas coisas e nas pessoas também. Eu olhei para ela tentando decifrar o que exatamente ela estava tentando dizer, mas Clara apenas me observava com uma expressão tranquila, como se estivesse satisfeita em me deixar adivinhar.
"Acha que pode consertar? ", perguntou finalmente. Com as ferramentas certas, provavelmente, respondi.
Vai levar um pouco de tempo. Ah, sim, o tempo novamente, disse ela, sorrindo levemente. Então, você vai trabalhar com isso aqui comigo?
Claro, respondi, embora soubesse que a tarefa não exigia minha presença constante. Havia algo na maneira como Clara fazia as perguntas que tornava impossível dizer não. Comecei a desmontar o relógio, concentrando-me nos pequenos componentes, enquanto Clara permanecia em silêncio, observando.
O silêncio entre nós era confortável, mas havia uma tensão subjacente que eu não conseguia ignorar. Era como se cada movimento meu estivesse sendo analisado, como se cada palavra tivesse um peso maior do que o normal. "Você tem muita paciência", disse ela depois de um tempo.
"Iso é raro. Eu riavemente, sem levantar os olhos do relógio. Nem sempre, mas gosto de consertar coisas.
Dá uma sensação de realização. " "Iso é admirável", disse ela, sua voz mais baixa agora. Muitos homens da sua idade não têm esse tipo de dedicação.
Eles estão sempre com pressa, sempre procurando pela próxima coisa. Mas você parece diferente. Eu olhei para cima, encontrando o seu olhar.
Havia algo nos olhos dela, uma suavidade misturada com uma curiosidade quase provocadora. Acho que gosto de aproveitar o processo", disse eu, sem saber exatamente por estava sendo tão honesto. "Isso é uma qualidade rara", disse Clara, inclinando-se um pouco mais na cadeira.
Saber apreciar o processo, especialmente em um mundo onde tudo é tão rápido e superficial. Por um momento, ficamos em silêncio novamente, mas o peso do que não estava sendo dito era quase esmagador. Eu podia sentir meu coração acelerando, como se algo estivesse prestes a acontecer, mas não sabia exatamente o quê.
"Você acha que pode consertar mais do que coisas? ", perguntou ela finalmente. Sua voz era tão baixa que eu quase não consegui ouvir.
"Como assim? ", Perguntei minha mente tentando acompanhar. Quero dizer, você acha que pode consertar pessoas ou conexões, algo que parecia quebrado além do reparo?
Eu não sabia como responder. Parte de mim queria dizer que sim, que tudo podia ser consertado com tempo e esforço, mas outra parte sabia que algumas coisas eram irreparáveis. Eu acho que depende", disse finalmente.
"Depende do que foi quebrado. " Clara a sentiu lentamente, como se estivesse considerando minha resposta. "Você é interessante", disse ela, quase como um pensamento em voz alta.
Antes que eu pudesse responder, ela se levantou. "Vou buscar algo para nós bebermos. Continue com o relógio.
" E com isso ela desapareceu na casa. Fiquei ali sentado com o relógio em uma mão e a mente a miu. Não havia como negar o que estava acontecendo.
Clara estava me testando, me empurrando para um lugar que eu não tinha certeza se estava pronto para ir. E, no entanto, eu não conseguia encontrar em mim mesmo a vontade de recuar. Quando ela voltou, trouxe dois copos de limonada.
"Você está fazendo progresso? ", perguntou, entregando-me um dos copos. Um pouco, respondi, embora minha mente estivesse em qualquer lugar, menos no relógio.
Ótimo, disse ela, sentando-se novamente. Eu gosto de ver alguém focado em algo. Há algo muito atraente nisso.
Houve uma pausa e então Clara sorriu. Espero que você entenda o quanto valorizo sua ajuda, disse ela. Não apenas com o relógio, mas com tudo.
É raro encontrar alguém tão atencioso. É um prazer ajudar, respondi, embora soubesse que o significado por trás de suas palavras era muito mais profundo. Clara inclinou-se novamente, seus olhos prendendo os meus.
Às vezes, coisas inesperadas podem ser as mais valiosas, disse ela, sua voz mal passando de um sussurro. Eu queria dizer algo, mas as palavras não vinham. Era como se a distância entre nós estivesse se dissolvendo, e tudo o que eu podia fazer era esperar para ver o que aconteceria a seguir.
Enquanto Clara continuava a me observar, o mundo ao nosso redor parecia se contrair. Cada pequeno movimento, cada gesto dela parecia carregado de uma intensidade que eu não sabia como processar. Ela segurava o copo de limonada com as duas mãos, girando o líquido suavemente, mas seus olhos não se desviavam dos meus.
Era como se estivesse esperando, me testando ou talvez apenas me convidando a quebrar o silêncio. Você pensa muito, não é? Clara finalmente disse.
Sua voz baixa, quase como um sussurro. É, acho que sim", respondi sem saber exatamente onde ela queria chegar. "Iso é bom pensar antes de agir, mas às vezes", ela disse, inclinando-se ligeiramente para a frente.
"Pensar demais pode impedir que façamos o que realmente queremos". Eu senti minha respiração prender. As palavras dela pareciam ter um peso adicional, como se cada uma fosse escolhida com precisão para me desarmar.
E de certa forma funcionou. O ar entre nós estava pesado com algo que eu não conseguia nomear, mas que era inegavelmente real. "Você acredita nisso?
", perguntei, tentando recuperar algum controle na conversa. Eu acredito", disse Clara sorrindo levemente. "Há momentos em que pensar não resolve nada, em que você precisa apenas sentir e agir.
" Seus olhos brilhavam enquanto ela dizia isso, como se estivesse me desafiando a responder de alguma forma. Eu abaixei o olhar para o relógio na minha mão, usando-o como uma distração. Bom, pelo menos o relógio não pensa, só faz o que foi feito para fazer.
Clara riu suavemente. É verdade. Talvez por isso as máquinas sejam tão fascinantes.
Elas não complicam as coisas como nós fazemos. O silêncio voltou, mas dessa vez parecia mais denso, mais elétrico. Eu estava consciente de cada detalhe.
O som distante de um pássaro cantando, o cheiro sutil das flores ao nosso redor, o calor do sol em minha pele e, acima de tudo, o olhar de clara que parecia atravessar todas as minhas defesas. "Você sabe? " Ela começou novamente.
Quando meu marido era vivo, ele sempre dizia que eu tinha o dom de fazer as pessoas se sentirem especiais. Eu nunca entendi bem o que ele queria dizer com isso, mas acho que agora estou começando a entender. Eu levantei os olhos, encontrando-os dela.
Por quê? Porque é isso que você está fazendo agora", disse ela com uma sinceridade que me pegou de surpresa. "Você me faz sentir como se eu ainda tivesse algo para oferecer.
Como se eu ainda fosse interessante. " "Você é interessante? ", eu disse sem pensar.
As palavras saíram antes que eu pudesse processá-las, mas ao vê-la sorrir, percebi que eram verdadeiras. Lara inclinou a cabeça como se estivesse estudando minha reação. "Obrigado", disse ela, sua voz suave.
"É bom ouvir isso de alguém como você". Eu queria perguntar o que ela queria dizer com aquilo, mas algo me impediu. Talvez fosse o tom dela, ou talvez fosse o fato de que, no fundo, eu sabia exatamente o que ela queria dizer.
Clara se levantou então, levando o copo de volta para a mesa. Bom, acho que você já fez bastante progresso por hoje. Talvez possamos continuar amanhã.
Claro, respondi, embora soubesse que o relógio era apenas uma desculpa. Clara não precisava da minha ajuda técnica. O que ela parecia buscar era algo muito mais profundo, algo que eu ainda não tinha certeza se estava pronto para oferecer.
Quando saí do jardim e voltei para a oficina de Lucas, senti como se tivesse cruzado uma linha invisível. Não era algo tangível, mas estava lá, como uma corrente que nos conectava, mesmo quando estávamos separados. Lucas me olhou de relance, mas não perguntou nada.
Eu estava grato por isso, porque sinceramente não sabia o que poderia dizer. Nas semanas seguintes, Clara encontrou mais desculpas para que eu a ajudasse. Um móvel que precisava de uma nova camada de tinta, uma cadeira que rangeu.
Cada tarefa era simples, quase mundana, mas cada momento que passávamos juntos parecia carregado de algo que eu não conseguia ignorar. Havia uma intensidade em seus olhares, em seus gestos, que me deixava inquieto e, ao mesmo tempo, me atraía. Uma tarde, ela apareceu na oficina com um sorriso mais amplo do que o habitual.
"Lucas, preciso de você para algo", disse ela. "Mas acho que seu amigo pode me ajudar melhor. " Lucas riu.
"Estou começando a achar que você está roubando meu ajudante. " "Eu não roubo", disse Clara piscando para mim. Eu convido.
Eu segui Clara de volta para sua casa, sentindo que algo era diferente naquele dia. Ela estava mais relaxada, mais aberta, quase como se tivesse decidido que não havia mais espaço para a hesitação. Ela me levou para a sala, onde um pequeno sofá antigo estava encostado na parede.
"Eu estava pensando em restofar isso", disse ela, passando a mão pelo tecido desbotado. mas não tenho certeza se vale a pena. Eu me ajoelhei para examinar o móvel, mas minha atenção estava dividida.
Clara estava tão perto que eu podia sentir o calor dela e a maneira como ela olhava para mim fazia meu coração bater mais rápido. "A estrutura parece boa", eu disse, tentando me concentrar, "Mas o tecido vai precisar de uma substituição completa. " "Você acha que pode me ajudar com isso?
", perguntou ela, sua voz suave, mas cheia de algo que parecia mais do que uma simples pergunta. "Eu acho que sim", respondi, minha voz um pouco mais baixa do que o normal. Houve um momento de silêncio e então Clara se ajoelhou ao meu lado.
"Você sabe", disse ela. "Há algo em você que me intriga, algo que me faz querer arriscar". Eu virei a cabeça para olhá-la e nossos rostos estavam tão próximos que eu podia ver cada detalhe de seus olhos.
Eu não sabia o que dizer. Tudo o que sabia era que o mundo parecia ter parado ao nosso redor. "Você acha que vale a pena correr riscos?
", ela perguntou, sua voz quase um sussurro. Às vezes, eu disse, meu coração disparado. Se parece certo.
Clara sorriu e, por um momento, parecia que ela ia dizer algo, mas em vez disso, ela apenas colocou a mão na minha. O toque dela era quente, firme, e eu senti como se uma corrente passasse por mim. Então, talvez devêsemos descobrir", disse ela, inclinando-se ligeiramente para mais perto.
O momento parecia esticar-se, o arreo, com uma mistura de expectativa e incerteza. Clara estava tão perto que eu podia ver cada pequeno detalhe de seu rosto, as linhas suaves que marcavam os cantos de seus olhos, a curva delicada de seus lábios. Eu não sabia o que dizer, não sabia como agir, mas parecia que cada fibra do meu ser estava me empurrando para ela.
"Você está hesitando", ela disse suavemente, quase como se estivesse lendo minha mente. "Por quê? " "Porque eu não sei onde isso vai nos levar", admiti, minha voz mal passando de um sussurro.
Às vezes não saber é a melhor parte", respondeu ela com um leve sorriso. "Você já considerou que algumas coisas simplesmente acontecem? " Antes que eu pudesse responder, ela moveu a mão que estava sobre a minha, seus dedos roçando os meus.
Foi um toque tão leve, mas que enviou uma onda de calor por todo o meu corpo. E então, sem aviso, Clara se inclinou e pressionou seus lábios nos meus. O beijo foi suave no início, hesitante, quase como se ela estivesse testando as águas.
Mas quando eu correspondi, senti a intensidade aumentar, uma urgência que parecia consumir ambos. Minhas mãos se moveram quase por instinto, segurando seus braços, puxando-a para mais perto. Ela respondeu com a mesma intensidade, suas mãos encontrando meu rosto, seus dedos deslizando pela minha pele.
O mundo ao nosso redor desapareceu. Não havia mais sala, nem móveis antigos, nem relógios quebrados. Era apenas Clara e eu, envolvidos em um momento que parecia tão inevitável quanto respirar.
Seu perfume floral preenchia meus sentidos e a suavidade de seus lábios era como algo que eu nunca tinha experimentado antes. Cada movimento dela era uma mistura de controle e abandono, como se ela soubesse exatamente o que queria, mas estivesse se permitindo ser levada pela emoção. Quando finalmente nos separamos, ambos estávamos respirando com dificuldade.
Clara manteve os olhos fixos nos meus, seu rosto a apenas alguns centímetros de distância. "Você sente isso também, não sente? ", ela perguntou, sua voz rouca, carregada de emoção.
"Sim", respondi sem hesitar, porque era verdade. Eu sentia e era algo que não podia mais negar. Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas cheio de significado.
"Eu sabia que você entenderia. Clara se levantou, pegando minha mão e me puxando com ela. Ela me guiou pela casa, seus passos firmes, mas sem pressa.
Quando chegamos ao quarto, o mesmo onde havíamos colocado o armário semanas antes, ela parou e se virou para mim. "Você tem certeza? ", perguntou sua expressão séria agora.
"Porque depois disso não há como voltar atrás. " Eu a olhei nos olhos, vendo a mistura de vulnerabilidade e força neles. "Eu tenho", disse minha voz firme.
"Eu nunca tive tanta certeza de algo. " Ela sorriu novamente, mas desta vez havia algo mais profundo em sua expressão, uma aceitação completa do que estávamos prestes a fazer. E então, sem mais palavras, ela me puxou para si.
O que aconteceu a seguir foi uma tempestade de emoções e sensações. Cada toque, cada beijo, era como descobrir algo novo, algo que eu não sabia que estava perdido até aquele momento. Clara era ao mesmo tempo apaixonada e gentil, suas mãos explorando cada parte de mim com uma intensidade que me deixou sem fôlego.
Eu respondi da mesma forma, querendo dar a ela tudo o que eu podia. querendo que ela soubesse o quanto aquilo significava para mim. O tempo perdeu o significado.
Poderiam ter sido minutos ou horas. Eu não sabia e não importava. Tudo o que importava era clara.
a maneira como ela fazia eu me sentir vivo, completo. Quando finalmente nos deitamos juntos, nossos corpos entrelaçados senti uma paz que nunca havia experimentado antes. "Eu não sei o que isso significa para nós", disse eu, quebrando o meu silêncio que se seguiu.
"Nem eu,", admitiu ela com um leve sorriso. "Mas não precisamos saber agora. Às vezes só precisamos viver o momento.
E era verdade. Pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti pensar no futuro, não me preocupar com as consequências, porque naquele momento tudo estava exatamente ondeia estar. Nos dias que se seguiram, as coisas mudaram entre nós.
Não era algo que podíamos ignorar, nem algo que queríamos. Clara e eu começamos a passar mais tempo juntos, nossas interações se tornando cada vez mais naturais, mais íntimas. Havia uma conexão entre nós que era difícil de explicar, mas impossível de negar.
Lucas, talvez percebendo a mudança, nunca disse nada. Talvez ele soubesse, talvez não. Mas no final isso não importava.
Clara eu, havíamos cruzado uma linha que não podia ser desfeita, mas nenhum de nós queria voltar atrás. Estávamos juntos nisso, prontos para enfrentar o que viesse. E enquanto eu olhava para Clara, sentada no jardim em uma tarde ensolarada, com o mesmo sorriso que me cativou desde o início, soube que, independentemente do que o futuro nos reservasse, não me arrependia de nada.
M.