Vidas Secas romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 9 baleia a cachorra baleia estava Para Morrer tinha emagrecido o pelo cair ali em vários pontos as costelas a voltavam num fundo rosa onde manchas escuras supuravam e sangravam cobertas de moscas as Chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia E amarrar ali no pescoço um Rosário de sabugos de milho Queimados mas baleia sempre de mal a pior roçava-se nas Estacas do Curral ou metia-se no mato
em paciente enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas agitando a cauda pelada e curta grossa na base cheia de roscas semelhante a uma cauda de Cascavel então Fabiano resolveu matá-la foi buscar a espingarda de pederneira lixoa limpou-a com saca-rapo e fez tensão de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito sem a Vitória fechou-se na camarinha rebocando os meninos assustados que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta vão bulir com a baleia tinham visto o chumbeiro e o povarinho os modos de Fabiano afligiam-nos davam-lhes a suspeita de Que baleia corria perigo
ela era como uma pessoa da família brincavam juntos os três para bem dizer não se diferenciavam rebolavam na areia do Rio e no estrume fofo que ia subindo ameaçava cobrir o chiqueiro das Cabras quiseram mexer na caramela e abrir a porta mas sim a Vitória levou-os para a cama de varas deitou-os e esforçou-se por tapazes os ouvidos prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo como os pequenos resistissem aperreou-se tratou de subjugá-los resmungando com energia ela também tinha o coração pesado mas resignava-se naturalmente a decisão de
Fabiano era necessária e justa pobre da baleia escutou ouviu o rumor do Chumbo que se derramava no cano da arma as pancadas surdas da vareta na bucha suspirou coitadinha da baleia os meninos começaram a gritar e a espernear e como sim a Vitória tinha relaxado os músculos deixou escapar o mais paludo e soltou uma praga capetas comungado na luta que travou para assegurar de novo o filho rebelde zangou-se de verdade safadinho atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens pouco a pouco a cólera diminuiu e sim a Vitória embalando
as crianças enjoou-se da cadela achacada gargarejou murchos e nomes feios bicho nojento babão inconveniência deixar cachorro doido solto em casa mas compreendia que estava sendo Severa demais achava difícil baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável nesse momento Fabiano andava no copiar batendo castanholas com os dedos sim a Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros as orelhas como isto era impossível levantou os braços e sem largar o filho conseguiu ocultar um pedaço da cabeça Fabiano percorreu Alpendre olhando a Baraúna e
as Porteiras assolando um cão Invisível contra animais invisíveis [Música] entrou na sala atravessou o corredor e chegou a janela baixa da cozinha examinou O terreiro viu baleia coçando-se a esfregar as peladas no pé de turco levou a espingarda ao rosto a cachorra espiou o dono desconfiada enroscou-se no tronco e foi se desviando até ficar no outro lado da árvore agachada e arisca mostrando apenas as pupilas negras aborrecido com esta manobra Fabiano saltou a janela esguerou-se ao longo da cerca do Curral deteve-se no Mourão do Canto e levou de novo a arma o rosto como o
animal estivesse de frente não apresentasse bom alvo adiantou-se mais alguns passos ao chegar às catingueiras modificou a pontaria e puxou o gatilho a carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de baleia que se pôs a latir desesperadamente ouvindo tiro e os latidos sim a Vitória pegou-se a Virgem Maria e os meninos rolaram na cama chorando alto Fabiano recolheu-se recolheu-se e baleia fugiu precipitada rodeou o Barreiro entrou no quintalzinho da esquerda passou rente ao as craveiros e as panelas de losna meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio correndo em três pés
dirigiu-se ao copiar mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das Cabras Demorou se aí um instante meio desorientada saiu depois sem destino a os puros defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira e perdendo muito sangue andou como gente em dois pés arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo quis recuar e esconder-se debaixo do carro mas teve medo da roda encaminhou-se a os juazeiros sob a raiz de um deles havia uma Barroca macia e funda gostava de espojar-se ali cobria-se de poeira evitava as moscas e os mosquitos e quando se levantava
tinha folhas secas e gravetos colados as feridas eram um bicho diferente dos outros caiu antes de alcançar essa cova arredada tentou erguer-se em direito a cabeça e estirou as pernas dianteiras mas o resto do corpo ficou deitado de banda nesta posição torcida mexeu-se a custo ralando as patas cravando as unhas no chão agarrando-se no seixos Miúdos Afinal esmoreceu e aquietou-se junto as pedras onde os meninos jogavam cobras mortas uma sede horrível queimava ali a garganta procurou ver as pernas e não as distinguiu um nevoeiro impedia-lhe a visão Poxa latir e seja o morder Fabiano realmente
não latia uivava baixinho e os uivos iam diminuindo tornavam-se quase imperceptíveis como o sol a incandeasse conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra olhou-se de novo aflita queria estaria acontecendo o nevoeiro engrossava e aproximava-se sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes parecia que o morro se tinha distanciado muito arregaçou o focinho aspirou o ar lentamente com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás que pulavam e corriam em liberdade perseguir os preás que
pulavam e corriam em liberdade começou a arquejar penosamente fingindo ladrar passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer o olfato cada vez mais se botava certamente os preá tinham fugido esquecemos e de novo lhe veio desejo de morder Fabiano que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados com um objeto esquisito na mão e fim dos cochilos numerosos preás corriam e saltavam um formigueiro de preáz invadir a cozinha a tremura subia deixava a barriga e chegava ao peito de baleia do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento mas o resto do corpo
se arrepiava espinhos de Mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra a pedra estava fria certamente sem a Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo baleia queria dormir acordaria feliz no mundo cheio de preás e lamberia as mãos de Fabiano um Fabiano enorme as crianças se esponjariam com ela rolariam com ela num pátio enorme não chiqueiro enorme o mundo ficaria todo cheio de preás gordos enormes