O pior momento pra mim, assim, pra família que o neurocirurgião chamou todos os filhos e a gente reuniu em volta dela, assim, na sala de urgência. Ele falou: "Pode se despedir da mãe de vocês que pela ciência, não tem nada a fazer. Eu não sei se ela vai durar uma hora, se vai ser duas.
. . mas acabou.
Pode se despedir". Então, começou com ela vomitando, passando mal. .
. eu peguei e falei assim: "Mãe, o que tá acontecendo? A senhora vai.
. . tá infartando".
Ela falou: "Não, tô não. Foi uma feijoada que eu comi no dia anterior". Ela tinha saído e tal, tinha tomado uma cerveja.
Aí pegou, ela passou muito mal e minha irmã foi chamar ela pra poder tomar café. Era o horário. .
. umas três horas. Ela não acordou.
Ela já estava já com a boca serrada, ela já estava em coma já. A minha irmã levou ela pro Pronto Socorro, ela ficou na sala, na urgência e fizeram a tomografia e foi detectado um AVC de tronco, que é um AVC dos mais graves que tem, sabe. E desde esse dia ela não acordou, não abriu os olhos, ela não.
. . ela não mexia, ela não correspondia com nada.
Ele chegou a falar, igual no dia que a minha mãe saiu do CTI, ele pegou e falou assim. . .
Eu fui e perguntei: "Não, doutor, e quando ela for pra casa? Com traqueostomia, né. .
. com todo. .
. aquelas coisas" Ele pegou e falou assim: "Você acha que sua mãe vai pra casa? " Vamos esperar um pouquinho, ele falou assim.
Porque eles não tinham expectativa que minha mãe fosse sobreviver, sabe. Só que os planos de Deus foi outro. Minha mãe tá aí, tem seis anos e cuidada com muito carinho, com muito amor, sabe.
O melhor que a gente pode fazer, é feito pra ela todo dia. E aquilo era o diagnóstico dela. Que ela não ia mexer, que ia ficar só no oxigênio, sabe.
E depois desses dois meses, ela veio pra casa. Foi, assim, muito diferente também. Porque ela saiu de um jeito e voltou de outro, sabe.
Voltou na ambulância, voltou assim. . .
completamente diferente. Com traqueostomia, com sonda, com todo. .
. tudo diferente. Então aquilo era novo pra todo mundo, sabe.
Os filhos, os netos. . .
todo mundo estava esperando. . .
Igual os meninos, os netos, estavam esperando ela de um jeito e veio de outro. Então, aquilo mexeu bastante com todo mundo. Ai como ela ficou esses dois meses internada, eu fiz o meu curso de enfermagem ali.
Porque eu fui perguntando, fui aprendendo, sabe. No dia a dia eu vou ter que aprender porque ela vai pra casa. Então, quem tem que cuidar é a gente mesmo.
Que vai cuidar e com carinho e com amor. A gente é oito filhos e eu sou o do meio. A minha mãe, pra mim, sempre foi assim.
. . tudo, sabe.
E depois, pós AVC, aí que ficou ainda mais grudado mesmo. Essa dependência dela, de precisar de cuidado agora 24h. Ter que dar banho, ter que cuidar.
. . Eu assumi essa responsabilidade, então acaba que eu fiquei mais assim.
. . grudado com ela dia e noite.
Eu não consigo, não. No primeiro mês que ela já estava em casa, ela começou a fazer assim, movimentar os dedos, você encostava nela, pedia beijo, ela beijava. Então, aquilo ali mexeu um pouco comigo.
Que eu falei: Opa, e se o diagnóstico não for esse? Se tiver alguma coisa pra fazer? Aí eu marquei uma ressonância pra ela numa cidade vizinha aqui.
Marquei um outro neurologista, aí eu levei, levei ressonância, levei ela nesse neurologista. Nesse mesmo dia, na hora que ele olhou assim o exame e olhou pra ela, ele falou: "Não dá pra acreditar que essa pessoa é a do exame. Porque pelo AVC que minha mãe deu, era pra ela estar realmente só na cama, só no oxigênio, sem manifestar nada.
Aí, eu peguei e falei: "Mãe, a senhora quer ir embora pra casa? " Ela balança a cabeça, né, quando a gente pergunta. Ela balançou que não.
"Mãe, coloca a língua pra fora" ela colocou, sabe. Então, tipo assim, ele ficou até emocionado, ele tirou os óculos. Aí eu perguntei pra ele o que a gente podia fazer, se tinha algo para ser feito.
Ele falou que não, que era só voltar pra casa e continuar dando muito amor pra ela. Que esse era o remédio. E é impressionante porque você pergunta assim.
. . Ela tá nessa situação e você fala assim: "Mãe, a senhora gosta de viver?
" Ela balança a cabeça, que gosta, sabe. Então, independente disso, que ela tá passando. .
. que pra gente, assim, é sofrido. Mas pra ela é muito mais.
Ela ainda gosta de viver. Você pergunta, ela balança a cabeça, que gosta. Eu pinto cabelo, eu aprendi por causa da pandemia, ela pintava.
. . sempre pintou.
Ela sempre foi muito vaidosa. Então, sempre vinha, a cabelereira vinha, pintava o cabelo dela. Só que por causa da pandemia ela falou: "Oh, é melhor não ir".
Aí ela me ensinou, ela me deu a tinta, me explicou como que pintava e eu aprendi a pintar o cabelo. E de lá pra cá, eu pinto todo mês. Pinto o cabelo, às vezes passo um esmalte também que eu aprendi.
Então, assim. . .
essas coisas básicas eu aprendi a fazer tudo. Inclusive, eu tenho uns cadernos que desde o primeiro dia dela em casa, eu anoto. Desde o primeiro dia.
Eu anoto, assim, a pressão, anoto as coisas clínicas dela todo dia. Eu tenho a data ali que ela mexeu a mão, que eu anotei. Eu anoto tudo.
Isso pra mim é uma lembrança. Vai ficar. Eu tenho um monte de caderno.
Uma altura assim, uns seis ou sete. Tem seis anos já. No próprio meio da saúde mesmo, na área da saúde, que a primeira coisa que eles perguntam é: "Você não tem irmã?
" Todo mundo pergunta. "Ela não tem filha? Vocês são em quantos?
" Sempre perguntam isso. Então, isso acaba que. .
. A gente, assim, eu já acostumei. Então, não me sinto ofendido por isso mais.
Mas acaba, assim, é ruim. . .
porque ficou assim uma coisa. . .
É cultural isso, né. Que só a mulher tem que cuidar. Mas na verdade, não.
É o filho, a filha. . .
é quem tem amor que cuida. Não tem sexo pra cuidar de uma mãe ou um pai, não. Eu nunca senti.
. . Igual, na questão de dar banho, pintar um cabelo.
. . Essas coisas que eu faço com muito orgulho, com muito carinho mesmo e não tem vergonha, não.
Eu faço mesmo. Muitas vezes eu sou julgado por algumas pessoas porque "Ah, você é jovem, você tá perdendo sua vida. Vai pra um barzinho.
Vai aproveitar! " Mas as pessoas não entendem. .
. Ninguém pergunta pra mim: "Você tá feliz assim cuidando dela? " Porque pra mim, eu tô!
Então, o novo formato, assim, primeiro foi um baque porque minha mãe é uma pessoa que dançava, que saía muito. Que estava curtindo. .
. estava na melhor fase da vida dela. Porque os filhos todos criados, então ela estava vivendo pra ela só.
Então, assim, foi a coisa que mais me deixou chateado, foi isso. Que ela estava vivendo pra ela, não precisava se preocupar com a gente. E quando de repente, ela volta pra casa de uma outra maneira.
Isso aí pesou bastante. Porque assim, não era aquela mãe mais que podia sair, que podia dançar, que fazia um barulho todinho na casa quando acordava, sabe. Então, isso aí faz muita diferença.
Faz falta até hoje. Eu sinto falta de quando ela levantava, fazia um café, alguma coisa assim porque parecia que a casa estava caindo. Mas não.
. . hoje em dia, não.
Aí você chega ali, ela tá em silêncio. Tudo assim, é diferente. Uma das lembranças que eu mais gosto que eu tenho dela, assim, é na cozinha.
Ela fazendo a janta, fazendo almoço. Eu sempre sentava com ela, ia descascando o alho, ia ajudando, e conversando as coisas. Ia contando coisa do dia a dia, como foi o dia no serviço, o que a gente estava planejando.
É uma das primeiras coisas que eu faço, eu venho, tomo meu banho, vou lá, beijo, abraço muito. Pergunto como ela está porque na hora que eu saio dá um aperto no peito de sair e ela ficar, sabe. De meia em meia hora minha irmã me xinga porque eu mando mensagem pra saber como a mãe tá.
Tá lá, música tá tocando. Tem música tocando pra ela ouvir, eu chego, eu converso, eu brinco. Todo momento, assim, tem uma interação.
Porque a pessoa não morreu, é igual a gente falou, ela tá ali. Tem uma vida ali. Ela só tá um pouco diferente.
Porque todo mundo fala assim: "Eu queria ter cinco minutos com alguém" Quando perde alguém. E eu tive isso. Eu tive essa segunda chance com minha mãe a partir do momento que o médico falou que a gente podia despedir dela.
Então, a partir dali foi um start porque eu falo isso pros meus irmãos "Aproveita a mãe porque você já tá tendo uma segunda chance. Nem todo mundo tem". A partir do momento que eu não tiver, eu não sei como vai ser.
Eu não quero pensar nisso, não. Eu quero aproveitar ela, aproveitar esse momento e essa felicidade que ela tá aqui. A partir disso, depois a gente vê o que a gente faz.
Eu estou feliz. Porque ela pra mim, é a minha felicidade. Então, essa é a minha mãe, ela chama Maria de Fátima.
Ela tem 67 anos. Tá acamada tem seis. E é isso aí, a luta é.
. . luta diária.
Mas com muito carinho, muito amor e é o que vale a pena. Ela estar aqui é o mais importante. Hm.
. . me dá um beijo.
Me dá um beijão. (estalinho) Até estrala! Dos meus irmãos não estrala, não.
E eles ficam com ciúmes, né mãe?