A luta do Sul é fundamental, porque se a luta daqueles que foram colonizados, escravizados, daqueles que foram sujeitos à dominação imperial e têm sido a base da sociedade capitalista, quando seu mundo se revolta, quando seu mundo resiste, então o que temos é um abalo poderoso. A luta do Sul Global, não só hoje, mas já há séculos, e particularmente nos últimos séculos, trouxe para o mundo inteiro, para a cena, para a cena histórica, todo o mundo dos sujeitos sociais com quem nós aprendemos e que de fato foram os principais sujeitos afetados pela acumulação capitalista. Como Robin Kelley, o famoso historiador dos Estados Unidos apontou, as lutas anticoloniais das décadas de 1950, 1960 e além, descentralizaram, por exemplo, a ideia de quem foram os trabalhadores que produziram o capitalismo, que sustentaram a acumulação capitalista.
E quem tem, os trabalhadores, o povo, os sujeitos verdadeiramente revolucionários. Foi descentralizado no sentido de se afastar da centralização da exploração e da luta social da fábrica, do proletariado industrial, para toda a população de trabalhadores não assalariados, que, no entanto, foram extremamente essenciais para o desenvolvimento do capitalismo e para o processo de acumulação capitalista, o trabalho dos escravizados, dos colonizados. Assim, as lutas do Sul são realmente fundamentais porque a revolta dos colonizados, a revolta daqueles que foram obrigados a trabalhar sem uma cultura assalariada, fora de uma relação contratual, na condição, portanto, de uma exploração muito mais intensa, essas lutas realmente mudaram o panorama da esquerda, o panorama da luta revolucionária.
Em primeiro lugar, eles mostraram que o mundo do trabalho não remunerado é crucial para os fundamentos da acumulação capitalista, ou seja, mostraram que o trabalho não remunerado é um terreno central de luta. Por isso, não só tem de haver luta para o trabalho assalariado, no local de trabalho assalariado, mas deve haver luta também, e é particularmente ainda mais importante que haja, em todas as áreas do trabalho não remunerado. E posso dizer, por exemplo, que o desenvolvimento da luta anticolonial teve um impacto no movimento feminista.
Compreender o papel, por exemplo, da escravidão, compreender o papel da colonização e de todas as muitas, muitas formas de trabalho não remunerado que o capitalismo criou e que têm sido tão importantes para a vida do capital, como também para mostrar às mulheres “ahá! ”, as tarefas domésticas! Isso teve um impacto para nos fazer repensar o trabalho doméstico, para repensar o que são as tarefas domésticas.
Esses trabalhos costumavam ser considerados como algo natural, pelo menos em muitas obras e práticas da esquerda tradicional, eles nunca foram realmente vistos como um terreno de luta nunca foram vistos como um tipo de produção capitalista. Por isso, o impacto da luta do Sul Global, anticolonial, antirracista, já exerceu influência direta na abertura, na manifestação, na visibilização de terrenos de luta que antes nunca haviam sido considerados, a começar pela luta das mulheres. Então isso é muito importante porque nos mostra como o capitalismo realmente se configurou, o que é fundamental para entendermos como podemos subverter a lógica capitalista, a sociedade capitalista.
E também, a luta do Sul é fundamental porque se a luta daqueles que foram colonizados, escravizados, daqueles que foram sujeitos da dominação imperial e têm sido a base da sociedade capitalista, quando seu mundo se revolta, quando seu mundo resiste, então o que temos é um abalo poderoso na própria condição de existência da sociedade capitalista. Então, tanto em termos de tornar visíveis quais são os mecanismos que mantêm o capitalismo em funcionamento, incluindo a criação de um mundo racializado, incluindo a criação contínua de hierarquias, divisões, uma vez que entendemos esses mecanismos, é muito importante entender que tipo de luta precisamos travar. E também, no sentido de destruir os alicerces, a luta, de certa forma, destrói e desgasta um dos muitos mecanismos que o capitalismo tem para se reproduzir.
Então, direi que, para nós, a luta que, como mencionei antes, tem se desenvolvido em toda a África, Ásia, América Latina, contra o colonialismo, contra o imperialismo, e todas as formas de racialização e hierarquias que surgiram, tem sido a mais importante luta atualmente no mundo. Além disso, a luta no Sul trouxe para o primeiro plano a questão da terra porque muitas pessoas no Sul até recentemente trabalhavam, e muitas vezes eram exploradas, enquanto trabalhavam na terra. E a importância da terra, que muitas vezes se perdeu no Norte industrializado, em áreas onde existe cada vez mais uma tradição de indústria e de trabalho assalariado, essa importância da terra com frequência se perdeu, mas a questão da terra é fundamental para termos a luta no Sul e no Norte.
Se perdermos o contato com a terra, se perdermos o acesso à terra, será muito difícil obter qualquer forma de autonomia.