Capítulo 11 do livro dos Gênesis, que encerra, por assim dizer, a primeira parte desse livro. Nós, na próxima semana, já começaremos outra leitura: a leitura do livro do Eclesiástico. A primeira parte do livro do Gênesis se encerra com esse episódio que ficou conhecido como a Torre de Babel, embora na narrativa não apareça em nenhum momento essa expressão "Torre de Babel", mas assim ela ficou conhecida.
Ora, para nós entendermos um pouco este texto, nós temos que considerar diversas informações. A primeira: toda a terra tinha uma só linguagem e servia-se das mesmas palavras. Toda a terra tinha uma só linguagem.
Quando ele diz "toda a terra", aqui, obviamente, ele não está falando nem apenas da terra de Judá, nem apenas da terra de Israel, e nem tampouco do mundo todo, porque não havia essa compreensão de mundo naquela época. Estou falando basicamente de toda aquela área geográfica conhecida, que era, por assim dizer, a terra da Bíblia, a terra santa. Então, o autor começa dizendo que todos tinham uma só linguagem; todos se valiam das mesmas palavras.
Aconteceu que, partindo do oriente, os homens acharam uma planície na terra de Senar e ali se estabeleceram. Os comentadores dizem que essa terra de Senar é basicamente a terra da Mesopotâmia, porque o relato todo, de alguma maneira, vai falar sobre aquela terra de onde depois surgirá a grande nação babilônica. E ali se estabeleceram e disseram uns aos outros: "Vamos, façamos tijolos e queimemos-no ao fogo.
" Usaram tijolos em vez de pedra e betume em lugar de argamassa. E disseram: "Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja o céu. Assim, ficaremos famosos e não seremos dispersos por toda a face da terra.
" Essa pretensão só tem sentido naquela cosmovisão primitiva. Eles acreditavam que havia uma cúpula de ferro sobre a qual estavam as águas primordiais, embaixo de cuja terra estavam também as águas primordiais. E, na mentalidade daqueles povos, os deuses eram exatamente como seres humanos, só que estavam acima dessa raquia, como se diz em hebraico, essa cúpula.
Viviam lá, assim como embaixo da terra, no "xol", também havia deuses. Então, a ideia de construir uma torre que chega até o alto da cúpula, nessa cosmovisão, faz sentido; na nossa, não tem sentido nenhum. Porque, quanto mais você vai para cima, não tem nada, né?
Mas, da cosmovisão dos povos antigos, tinha algum sentido. O raciocínio é um raciocínio muito estranho, porque eles dizem: "Vamos fazer uma torre cujo cimo atinge o céu. Assim, ficaremos famosos e não seremos dispersos por toda a face da terra.
" Como assim? Quer dizer, nós vamos ficar famosos porque fizemos uma torre que toca na cúpula do céu? Tá, digamos que sim.
E não seremos dispersos por toda a face da terra. Por quê? Porque vão estar trepados na torre, aí ninguém vai conseguir subir para tirar vocês de lá.
Ou seja, vão estar numa situação de controle. Dá essa impressão. Então, eles dizem: "Vamos fazer uma torre cujo cimo atinge o céu.
" Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. A imagem é muito interessante: eles estão subindo para achar; Elohim desceu. E tá todo mundo lá em cima, tá todo mundo preocupado em subir para fazer uma torre e achar Elohim, mas Elohim desceu.
E o Senhor disse: "Eis que eles são um só povo e falam uma só língua, e isto é apenas o começo de seus empreendimentos. Agora nada os impedirá de fazer o que se propuserem. Desçamos e confundamos a sua língua de modo que não se entendam uns aos outros.
" Na leitura alegórica, a igreja entende esse plural majestático como uma revelação implícita da Trindade: "Desçamos e confundamos a sua língua de modo que não se entendam uns aos outros. " E o Senhor os dispersou daquele lugar por toda a superfície da terra, e eles cessaram de construir a cidade. Por isso, foi chamada Babel, que significa confusão, porque foi lá que o Senhor confundiu a linguagem de todo o mundo e de lá dispersou os homens por toda a terra.
Ou seja, a narrativa parece que tenta explicar o fato de que, apesar de todo ser humano, na narração bíblica, ser oriundo de Adão e Eva, você tem tantos idiomas, tantos povos dispersos. Você tem tantas guerras, tantos conflitos de interesse que, no mundo antigo, eram muito maiores. O mundo antigo era um mundo muito incerto.
Então, é como se a Escritura estivesse aqui querendo nos trazer uma espécie de pecado original social: o homem quis se erguer até Deus, mas acabou produzindo efeito oposto. Ou seja, aí foram confundidos, aí se dispersaram, aí eles não conseguiram alcançar o seu intento. Tudo isso nos faz pensar.
Há um versículo no livro de Provérbios, capítulo 16, que diz: "O homem faz muitos planos, mas a resposta vem do Senhor. Todos os caminhos parecem puros ao homem, mas é o Senhor que pesa os espíritos. " Ou seja, nós precisamos aprender a viver numa perspectiva de dependência, de obediência, de humildade, pedindo a Deus que, pelo seu espírito, ele nos revele o seu querer.
As nossas boas ideias servem para a vida sobrenatural, enquanto as pessoas que têm uma mente fértil, inclusive pensamentos acelerados que as fazem o tempo todo excogitar ideias, projetos. . .
nada disso serve. Não adianta eu querer subir quando Deus quer descer. Não adianta!
E aqui há uma grande ironia no texto: nós fazemos a religião do homem que tenta subir a Deus, quando Deus já se encarnou e veio ao nosso encontro, sendo ignorado por todos os homens, morreu na cruz para nos salvar. E, graças ao seu sacrifício, nós podemos ser perdoados e, pela sua ressurreição, como ele vive, sermos justificados. Não adianta nós querermos buscar a nós mesmos.
Nós vivemos em dias nos quais há tantas ofertas religiosas. Para agradar o homem hoje, que são consideradas mega, que têm milhares e milhares e milhares de membros. De que adianta ter uma grande torre, achando que nós vamos tocar o céu, quando na verdade Deus já veio, Ele já se encarnou, Ele já morreu em nosso lugar?
Ele nos deixou a Sua presença real através de um gesto tão simples como aquele realizado em cada Santa Missa, sem estrondo, sem barulho. O homem se pressiona com as torres de Babel, porque chega no lugar e vê toda a tecnologia, toda a beleza, todo o som, todo o aparato artístico; ele se sente deslumbrado. E aí Deus diz: "Desçamos e confundamos a sua língua", porque Deus não se impressiona com nada disso.
O homem querer impressionar Deus é uma pretensão estúpida. Não, não existe nenhuma construção humana que possa impressionar o Senhor, e Deus é especialista em desmanchar torres que tentam alcançar o céu; torres de impérios humanos que um dia pareciam indestrutíveis. Como diz o salmista: "Quando eu fui ímpio, parecia um cedro exuberante"; e quando eu voltei, ele estava caído como uma árvore que foi derrubada.
É o que acontece com todos os impérios ao longo da história: nada fica em pé quando Deus bota a mão para derrubar. Vamos pedir ao Senhor, queridos irmãos, que nós sejamos servos humildes, que dependamos inteiramente Dele; nosso coração viva em temor, em reverência, em respeito, em total disponibilidade para as inspirações do Espírito Santo. E assim nós não seremos confundidos.
Esse é o único modo de falar a mesma língua de Deus: é ser conduzido pelo Seu Espírito. Que isso seja a nossa maior segurança e, portanto, o nosso tesouro mais precioso.