Se o cliente não pode ressignificar a história dele, então como é que ele pode encontrar alívio? Foram muitos anos de consultório, sobretudo de uma prática na área jurídica para compreender isso melhor. Sabe uma coisa que o a minha experiência como criminóloga me mostrou que a dor de quem foi abusado é é bem intensa em relação aos fatos, em relação às circunstâncias, mas o motivo real do trauma não era o fato em si, mas como a pessoa que viveu o fato eh lidou com aquilo.
Então, quando a pessoa que viveu o fato, ela entra numa postura de inconformidade com a situação, com a vida dela, com tudo aquilo que aconteceu, essa pessoa se aprisiona. Quando essa pessoa então compreende, não, não tem mais como mudar. Foi assim, por diversas vezes no consultório, eu disse pro pro cliente assim, foi assim.
Essa é a sua história. Eu sei que é muito doída, mas essa é a sua história. Nada muda o que aconteceu no passado.
Geralmente quando você fala, é claro, gente, que essa fala ela precisa ser amorosa, ela precisa ser acolhedora. Nós precisamos, antes de chegar nessa fala, ajudar o cliente a compreender melhor tudo que aconteceu. Mas quando você eh entra nesse embate com o cliente de se posicionar e dizer: "Ou você vai aceitar que foi assim ou a gente não tem mais o que fazer, é como se a luta paraa transformação da história cessasse.
É como se aquela luta interna por um resultado diferente parasse. É claro que aqui eu tô falando de fatores inconscientes. Eu não preciso ficar repetindo isso ao longo de toda a formação.
Tudo aqui é inconsciente, mas é uma luta inconsciente para negar aquela história. É uma luta inconsciente para culpabilizar outras pessoas, porque na verdade a pessoa não dá conta de lidar com a culpa que ela mesmo se impõe. que claro que na maioria das vezes não é culpa dela, né?
Mas a pessoa não suporta aquilo e ela tende a se culpar. Então, compreenda enxergar a realidade do tipo. Chega.
Você não tem aqui uma cúmplice para lamentar, para questionar, para ficar eh arranjando culpados. Você tem aqui uma pessoa disposta a suportar a sua dor, a falar sobre ela, a reconhecer os sentimentos, a entender qual foi o padrão inconsciente estabelecidos nas suas relações depois disso. Por exemplo, uma pessoa que foi abusada sexualmente tem dificuldade de se entregar pros homens.
É muito comum que uma mulher abusada sexualmente, ela tenha dificuldades inclusive com o filho, quando o filho é um menino, né? Dificuldades sexuais, dificuldades com o feminino, dificuldade de entrega, dificuldade de confiar nas pessoas. Tudo isso vai favorecendo para um padrão inconsciente de comportamento.
Isso vai ficando cada vez mais eh rígido na vida dessa pessoa. Quando você se posiciona, acolhe, diz: "É isso mesmo, nada muda isso. " Mas essa história pode e deve ficar no passado exatamente do jeito que ela foi.
exatamente do jeito que ela foi. Só que isso pode ser percebido como problema e dor ou isso agora pode ser transformado em força e direção. Quando o profissional que tá conduzindo encontra dentro dele a paz em relação à sua própria história, em relação à sua própria dor, ele consegue suportar no sentido de dar suporte pro cliente também fazer isso.
quando ele não encontrou solução pra sua própria dor, ele vai ajudar o cliente a entender isso na mente, mas nem sempre transformar isso no coração. E uma das coisas que eu acho mais perigosa no processo terapêutico é quando uma pessoa entendeu a cura, mas não curou os sentimentos e as emoções, porque ela acredita que ela tá livre, ela acredita que ela evoluiu, ela acredita que tá bem, aí ela começa a achar que o problema é o outro e não ela. E aí ela cai na evolução dela.
Ela acha que ela tá evoluindo. Na verdade, ela tá mascarando a dor, ela tá tentando controlar a dor, ela tá tentando evitar a dor e nada disso é cura. Tá claro?
Então, cura na psicologia não é esquecer, assim como perdoar também não é esquecer. As dores mais difíceis e profundas que a gente vive, a gente não esquece. inclusive tem um efeito muito grande na nossa identidade, na nossa história, no nosso padrão, em tudo aquilo que a gente vive.
OK? Cura é aquilo controla mais. Perdão é: "Eu escolho deixar isso no passado do jeito que foi e te liberar para que você siga a sua vida.
E eu sigo a minha vida com essa história que é imutável. O que passou, a gente não consegue mais voltar atrás e fazer diferente. Mas a partir de hoje eu tenho uma nova escolha.
E a minha escolha é sim deixar isso no passado e escrever uma história organizada, reorganizada a partir do que eu aprendi aqui. Yeah.