Olá, meu nome é Mônica Teixeira e esse é o podcast Segredos de Família, produzido pelo Canal Genoma. Aqui os segredos são aqueles que estão nos genes que pais e mães transmitem à filhas e filhos e que levam famílias a buscar o apoio de geneticistas, para tomar decisões importantes sobre a prole. Comigo no podcast estão Rodrigo Mendes, professor de biologia do ensino médio e Regina Mingroni, do Instituto de biociências da USP e uma das cientistas do Centro de Estudos do Genoma Humano e células-tronco.
Na edição de hoje vamos conversar sobre o dilema de Ingrid, que buscou aconselhamento genético. O nome é fictício mas a base da história é verdadeira. Rodrigo vai falar sobre ela.
Olá pessoal, tudo bem? Eu vou contar para vocês um caso de aconselhamento genético que envolve uma mulher: a Ingrid, uma advogada de 35 anos que está interessada em ter filhos. E ela procura o serviço de aconselhamento genético porque ela cresceu ao lado de um pai com hemofilia.
Ela acompanhou a vida toda o sofrimento desse pai, por conta das dores que ele tinha nas articulações e da necessidade de transfusão de sangue constante, já que essa é uma doença relacionada a coagulação sanguínea. A Ingrid procura o serviço de aconselhamento genético para saber quais são as chances dela vir a ter uma criança com essa doença. Isso porque a hemofilia é uma doença hereditária; ela é determinada por um gene localizado no cromossomo X.
E esse é um dos cromossomos que participam da determinação do sexo do feto. Para o feto ter o sexo feminino ele tem que herdar um cromossomo X da sua mãe e um cromossomo X do seu pai. Se o pai da menina for hemofílico a menina herda dele o gene alterado.
No entanto, ela fica protegida da doença porque ela tem uma outra cópia do mesmo gene sem alteração, que foi herdado da mãe. A Ingrid não é hemofílica, ainda assim ela está preocupada, pois ela tem o gene alterado no cromossomo X que recebeu do pai dela. Ela é então portadora do gene alterado, mas ela não tem a doença, porque o cromossomo X que ela herdou da mãe dela tem a versão normal do gene da coagulação, que o fabricar o que precisa para não sangrar toda hora.
Se a Ingrid vier a ter uma criança do sexo masculino vai existir uma chance dela ser hemofílica, porque pra ser do sexo masculino o feto precisa ter um cromossomo Y. Esse cromossomo é herdado do pai da criança, no caso o marido da Ingrid. Ela tem apenas cromossomos do tipo X (a Ingrid, né?
). . .
tem apenas cromossomos do tipo X. E se ela transmitir o X com o gene alterado, é certeza que o menino terá dificuldade de coagulação. Diferente de uma criança do sexo feminino, ele não tem outra cópia desse gene em outro cromossomo X, que vai produzir o que é necessário para a coagulação.
Muita gente acha que a hemofilia não afeta as mulheres. Contudo, pode acontecer de uma menina herdar o gene alterado do pai e também da mãe dela. Mas isso é muito mais difícil, porque a hemofilia é uma doença muito rara na população.
Então a chance desses dois eventos acontecerem: receber um X alterado da mãe e um X alterado do pai, é muito menor do que a dos meninos, que só tem que receber o X alterado da mãe, já que o Y não afeta nessa doença. Então por isso é muito mais comum a gente encontrar meninos hemofílicos. Mas também encontramos meninas hemofílicas, mas com uma frequência muito menor.
Em um caso como este, o quê pode acontecer em um aconselhamento, Regina? Em um primeiro momento, o geneticista vai explicar para a Ingrid o mecanismo de transmissão da hemofilia, que é uma doença recessiva ligada ao cromossomo X, e é decorrente de alteração em gene que codifica fatores de coagulação. Daí a gente encontrar muito mais pacientes, de hemofilia do sexo masculino.
Todo mundo acha que é por ter uma característica no cromossomo Y, que só o homem tem, mas não. É na verdade por ele tem um cromossomo X só, enquanto a mulher tem dois. O outro cromossomo tem a receita para essa característica funcionando e acaba dando conta da produção da proteína normalmente.
Mas quer dizer então que todas as mulheres filhas de pai hemofílico serão portadoras do gene alterado, que vai produzir hemofilia, mas não nelas? Sim, em teoria sim. Essa seria a primeira informação que a Ingrid vai receber em uma sessão de aconselhamento genético.
Aí, se for uma menina, a chance dela herdar o cromossomo X com alteração é 50% e a chance dela manifestar alguma complicação é muito pequena. No entanto dos meninos que Ingrid vier a ter, metade pode herdar o cromossomo X, o mesmo do pai dela que contém o gene alterado que determina a hemofilia, e metade dos meninos não herdaria esta alteração. Então ela tem dois cromossomos X: um que ela herdou do papai dela, e o outro que ela herdou da mamãe dela.
Então no global da prole, o risco, a probabilidade de ter uma criança com hemofilia, fica na casa de um quarto, de 25%. Então é essa informação que a Ingrid deve ter recebido no serviço de aconselhamento genético. Aí ela ainda não está grávida.
Então ela não sabe se vai ter meninos ou meninas. Que condutas podem existir, Regina? Se a Ingrid discutir com o geneticista que ela de modo algum quer gerar uma criança com hemofilia, um menino com hemofilia.
. . a ela podem ser oferecidos dois caminhos.
Caminho número um seria ela engravidar, conceber uma criança naturalmente. E aí lá pela 12ª semana de gestação, eventualmente ela colher um exame, um diagnóstico pré-natal, uma biópsia de vilosidade coriônica, por exemplo, e fazer um exame do DNA do feto. E nesse exame ela já saberia tanto o sexo, se é menino ou menina, e se herdou ou se não herdou a cópia do gene mutado que confere hemofilia.
Aí nós temos algumas complicações. O outro caminho que o geneticista pode oferecer à Ingrid é o que a gente chama de diagnóstico pré-implantação, que seria um diagnóstico feito nos embriões gerados pela Ingrid, pelo casal, a Ingrid e seu marido, para determinar o sexo e ou também eventualmente, se o embrião carrega ou não alteração genética que confere hemofilia. Nesse caso ela estaria em fertilização assistida?
Sim, nesse caso ela estaria em fertilização assistida, então isso tem que ser muito bem planejado. Só é possível com uma gestação planejada. Obviamente isso tem inconvenientes, a fertilização assistida apesar de muito bem padronizada, muito difundida, é um procedimento chato, a mulher é submetida a tratamentos hormonais.
E obviamente, em alguns países isto pode ser muito caro. Por exemplo, no nosso país isso é muito caro, pouco serviços ofereceriam uma coisa dessa gratuita. Mas Regina, você deixou em aberto aí a questão de sem ser.
. . por meios artificiais digamos assim, quer dizer, sem ser naturalmente.
E aí chegar o momento em que quando ela faz esse diagnóstico do DNA, tem uma criança, descobre que a criança é menino e está entre a metade dos meninos que terá hemofilia. No Brasil, o que essa mulher pode fazer? Ela não pode abortar esse filho, pode?
Esse é o grande complicante de uma situação similar a essa no Brasil. Há muitos países em que a interrupção da gestação é legalizada de um modo amplo. Há países em que a interrupção da gestação é permitida e legalizada em casos de doença genética, como é este.
E há países como o nosso, em que a interrupção de gestação é considerada um crime nessa situação. A gente tem pouquíssimas situações no país em que a interrupção de gestação, o aborto, é considerado admissível e não considerado uma situação de crime. Então, no Brasil.
. . eu não sei onde se passou a história da Ingrid, mas no Brasil tem que ser dito claramente para a consulente que a interrupção de gestação é considerada ilegal, que se por ventura for essa a opção da família, a família tem que ter plena consciência de que isso é na verdade uma contravenção legal.
Isso é um desafio do nosso país, que não é um problema grande em uma série de outros países. Então a Ingrid, se fosse uma moça brasileira, e advogada ainda, ela tem que estar alertada; e ela deve saber talvez até melhor do que nós, que isso não é permitido no nosso país, e que isso ocorre infelizmente no nosso país por meios para a gente consideraria ilícitos. En†ão é um desafio.
Dois pontos que você traz Regina, que mostram como as pessoas não podem escolher da mesma forma. Então aqui se a gente fizer um recorte social, as pessoas poderiam procurar uma clínica de reprodução assistida e não correr esse risco. Mas aí tem o recorte social: quem tem acesso a uma clínica de reprodução assistida?
E agora quando você traz essa questão da interrupção da gravidez, mesmo fazendo diferença de um país para o outro, aqui no Brasil se a pessoa tem acesso a estrutura hospitalar, ela vai conseguir encontrar, mesmo sendo ilegal, formas de interromper a gravidez com mais suporte. Ainda é uma situação arriscada e clandestina, mas de maior suporte. E uma outra fatia da população, da maior parte da população não, corre muito mais risco em tomar essa decisão, fazer essa escolha.
Então é interessante a gente pensar que essas escolhas, não são iguais para todo mundo. Dependendo do recorte social as opções são muito maiores ou muito menores, né? Rodrigo, com certeza.
E essa estratificação, não está presente somente na questão da reprodução assistida ou do diagnóstico pré-natal. A gente aqui, estamos em um centro universitário, algumas vezes a gente apoiou famílias com alto risco genético, no sentido até de ter conseguido serviços que tivessem feito exames gratuitamente pra essa famílias. Obviamente são famílias privilegiadas, que caíram num serviço universitário, onde esses serviços eram disponíveis.
Mas com certeza é uma exceção. E de um modo geral existe sim essa estratificação, Rodrigo. Mas eu vou ser mais ampla nessa questão: a gente tem um Brasilzão enorme com pouquíssimos serviços de genética e nesse país afora tem um monte de crianças com doenças genéticas, e que precisariam de exames básicos de genética, desde um Cariótipo, um Array, para fazer algum diagnóstico cromossômico, ou um teste de uma doença genética e isso não é disponível infelizmente no nosso país todo.
A gente ainda tem muito a caminhar. Então essa estratificação não é só no que diz respeito a esse tipo de acompanhamento especializado, mas já começa até as vezes na dificuldade em acessar um serviço de genética, e ter um diagnóstico preciso e conseguir ter uma assessoria genética, um aconselhamento genético adequado com um profissional devidamente treinado. Então essa estratificação, ela é generalizada.
Estamos caminhando muito devagar. A gente tem um rumo em que no país, lenta e gradualmente, o número de serviços de genética em hospitais-escola ou mesmo no setor privado, esse número está aumentando lenta e gradualmente, mas longe de estar disponível, estar acessível para todo mundo da nossa população que tem esse tipo de doença. Agora Regina, as pessoas não estariam obrigadas a aceitar um filho ou uma filha tal como eles foram concebidos?
Olha, o princípio que norteia o aconselhamento genético, é que ele deve ser um processo em que se apresentam informações, em que se apresentam orientações para uma família, e a família faz escolhas com base nas informações que são oferecidas. Então se diz, de um modo geral, que o aconselhamento genético se caracteriza por ser não-diretivo. Ao contrário de muitas práticas médicas e da tradição médica, os serviços de aconselhamento genético nasceram mais em serviços universitários, em que os profissionais tinham uma visão um pouco diferente até dessa questão da relação consulente/profissional, de modo que a gente conversa com as famílias e oferece todas as possibilidades e discute com a família as possibilidades em virtude das suas convicções morais, religiosas, etc e tal.
Então assim, eu dei umas respostas possíveis de diagnóstico pré-natal, de diagnóstico implantatório, mas eu tenho certeza que tem muita gente nos ouvindo que são pessoas religiosas, cujas religiões não concordam com esses procedimentos ou que considerariam absolutamente inadequado, errado, chegar a cogitar uma interrupção de gestação. Então faz parte do processo de aconselhamento genético um levantamento dos valores, das opiniões da família, a colocação de alternativas e obviamente a liberdade da família de tomar qualquer tipo de decisão, que é inclusive "Olha eu vou arriscar, vou gerar uma criança e vou lidar com as dificuldades de ter uma criança com a doença genética. ".
Nesse caso especial da hemofilia, cabe um debate considerável a respeito de se uma gestação, de um concepto, como ele futuramente vai ter hemofilia, se é ou não caso de interromper a gestação. Isso é muito variável, de pessoa pra pessoa, de família para família. Antes da gente falar da hemofilia em particular Regina, eu queria fazer uma outra pergunta.
Quando você estava falando das alternativas que podem ser oferecidas à Ingrid ou à outras mulheres com as características dela, você disse que se ela tiver acesso a fertilização assistida, ela pode gerar embriões em laboratório e escolher o sexo da criança, de tal forma que ela não vá ter meninos. No caso específico da hemofilia é onde estaria o o risco de 50% de ter a doença. Mas como é.
. . Escolher o sexo de uma criança artificialmente, não é contra também as convicções de uma parte das pessoas?
Como essa questão é discutida entre profissionais de saúde, Regina? Para algumas pessoas pode parecer. .
. para alguns dos consulentes pode parecer muito esquisito escolher um embrião em função do seu sexo. Dizer "Ah, eu quero as meninas, não quero os meninos.
". Pra outras pessoas pode parecer mais difícil ainda pensar em escolher embriões em virtude das suas características genéticas. De falar "Olha eu estou escolhendo crianças sem doença e não com doença.
". Daí essa importância dos valores, da discussão disto com a família. De um modo geral, o que a prática da genética tem nos contado das últimas décadas, a grande maioria dos geneticistas acha que usar um exame destes simplesmente para escolher o sexo em uma situação que não há doença, é considerado um luxo absolutamente desnecessário e uma prática que não precisa acontecer.
Fazer um exame que pode até ser (agora é mais fácil, faz no sangue mas. . .
), fazer um exame invasivo para saber o sexo de um bebê só pelo luxo de escolher qual sexo vai ser, isso não é considerado uma prática aceitável pela maior parte dos geneticistas. Mas desde o fim da década de 80 e 90 isso tem sido um recurso para atender especificamente esse grupo de doenças ligadas aos cromossomos sexuais, em que um sexo pode ser acometido pela doença e o outro não. Então a escolha do sexo é considerada aceitável pelos geneticistas nessa situação.
Mas Mônica, você colocou muito bem, pode ser que para algumas famílias não. Então se a família tem algum tipo de resistência de seleção do embrião por conta do sexo ou por conta da doença, então essa família vai escolher uma outra alternativa e não vai lançar mão dessa possibilidade. Regina, tem um critério que você traz que é esse da doença, né?
Ter a doença seria um passe livre para poder escolher o sexo. É lógico você também traz essa importância de ser uma doença relacionada a cromossomos sexuais. Mas é interessante a gente pensar em outras características que eram consideradas doenças.
E que informação é essa de ter uma criança com essa doença nos traria? Então será que ela teria um tratamento que pudesse melhorar a qualidade de vida, sabendo disso logo na gestação? Ou não, é uma doença incurável.
Ou não é uma doença, é só uma condição. Me vem muito à cabeça a questão da pseudo-acondroplasia, que eu quando menor estudava como doença. Hoje eu vejo que as pessoas podem ter uma qualidade de vida muito grande se o ambiente for ajustado para essa pessoa.
Mas eu poderia chamar o nanismo de uma doença e falar "Olha, talvez eu não quisesse ter um filho doente. ". E não, na verdade a nossa concepção de doença foi mudando ao longo do tempo quanto a esta condição, por exemplo.
A percepção da doença e da sua gravidade, é muito pessoal. Na situação de aconselhamento genético, a gente percebe que isso tem muito a ver com o fato da família ou do indivíduo ter convivido ou não com a pessoa com essa característica genética. Então vou dar um exemplo.
Eu já trabalhei com famílias com surdez genética e existe uma percepção para muitas das famílias de que isso não é doença no sentido. É uma característica. E que a gente tem um monte de coisas para fazer para ajustar e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.
A percepção do risco está psicologicamente associada à percepção do que é doença e à percepção do que é a gravidade da doença. E isso muda com o tempo. A hemofilia é um exemplo excelente para isso, porque a gente vivenciou na década de 80 e 90 uma quantidade enorme de hemofilicos que vieram a morrer por causa do HIV, que eles contraíram por meio das repetidas transfusões de sangue.
Hoje os produtos hemoderivados que são usados no tratamento da hemofilia passam por processos ultra rigorosos, de purificação e testagem, para que não haja a transmissão do HIV e de outros vírus. Esses produtos hoje são de muito melhor qualidade do que eles eram há 20 anos atrás. Tem medicações hoje que ajudam a aumentar a quantidade de.
. . .
. . ou a melhorar a eficácia da coagulação da pessoa.
Então a o que era doença hemofilia há duas décadas e meia atrás, não é mais a mesma coisa do que a doença hemofilia nos dias de hoje. Então se é assim Regina, se está ao alcance de quem é hemofílico hoje, tratamentos melhores (que você podia talvez contar um pouco), é o caso de pensar em não ter um filho hemofílico? Ou de evitar ter um filho hemofílico?
Para você por exemplo, se você estivesse na frente da Ingrid e descobrisse que ela. . .
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vamos dizer que ela já engravidou e ela tem um filho homem, está gerando um bebê homem. O que você falaria para ela sobre a perspectiva da vida de um menino hemofílico hoje? Seria o caso de chegar a pensar que seria necessário, que valeria a pena, ou que valeria o risco, valeria a dor de interromper a gravidez?
Então, um geneticista não pode dizer para a Ingrid o que vale a pena ou o que não vale a pena. Um geneticista tem que fazer o que eu fiz agora: apresentar todo o quadro de como é a vida de um hemofílico nos dias de hoje e dizer pra Ingrid "E aí Ingrid, agora você precisa decidir se você vai arriscar ou não vai arriscar, ou se vai levar essa gestação a frente ou não. ".
Então é esse o papel. . .
Esse é o papel do geneticista, né? Não dizer para a Ingrid se vale a pena ou não vale a pena. Quem vai saber o que vale a pena para ela é a Ingrid.
A Ingrid tem a percepção dela do que é conviver com uma pessoa com hemofilia na casa dela. Então ela pode reagir de um jeito, ela pode dizer assim "Ah, passamos por isso com papai e estamos aqui, então para mim não parece ser uma coisa impossível de conviver. ".
Uma outra Ingrid pode chegar e dizer assim "Não, não, pelo amor de Deus, eu não quero jamais ver um filho meu passar nem perto daquilo que o meu pai passou. ". E é esse o processo de aconselhamento genético.
Esse processo de apresentação de situações e essa reflexão junto com a Ingrid ou com outras pessoas que venham. E elas que vão avaliar aquilo que vale a pena ou não vale a pena. Vale a pena arriscar, vale a pena engravidar naturalmente, vale a pena optar por um procedimento de diagnóstico pré-natal, ou alguma coisa assim.
Rodrigo o que a Ingrid fez? O que aconteceu com a Ingrid? A Ingrid estava grávida mesmo de um menino e foi fazer o exame.
E no exame os geneticistas descobriram que na verdade a criança não tinha risco algum de ter hemofilia, porque identificaram no material genético da Ingrid um cromossomo X diferente daquele que o pai tinha. Quando compararam o cromossomo X dela com o do pai, viram que não era o mesmo. Ou seja, a Ingrid não é filha desse homem hemofílico, filha biológica desse homem hemofílico, com quem ela conviveu.
E aí, isso traz uma questão bem grave pra gente. Tendo posse dessa informação, Regina, o que um geneticista faria? Porque a preocupação dela era "Tem risco de eu ter um filho hemofílico?
". Ela está grávida de um menino e agora a gente descobre que não, não tem. A gente deveria contar para ela que ela não é filha do pai dela?
Ou só responder que não, não tem chance dela ter uma menino hemofílico? Então, agora a história ficou um pouco mais complicada. O que deve ter acontecido com a Ingrid, é que ela foi a um serviço de genética, talvez já grávida, e no serviço de genética deve ter sido inicialmente apresentado a ela que ela deveria ser uma portadora da alteração genética, como a gente já comentou no começo.
De que ela tem que ter dado um cromossomo X do seu pai hemofílico. No entanto, provavelmente o serviço de genética fez uma análise molecular do gene relacionado a hemofilia, para buscar qual era a alteração genética específica presente naquela família, provavelmente para se preparar para oferecer alternativas de diagnóstico pré-natal da hemofilia, caso a Ingrid viesse a optar por fazer diagnóstico pré-natal. Fazer uma análise do material genético do feto.
E aí é que deve ter surgido a surpresa. Ou seja, uma mulher que em teoria deveria ter herdado cromossomo X do seu pai com alteração genética, não herdou. Normalmente, não herdou, uma hipótese mais plausível é a não-paternidade.
Então que eu queria colocar aqui é que normalmente quando os geneticistas estão analisando uma família para uma doença, não ficam sistematicamente procurando por paternidade. O que pode acontecer é uma inconsistência desse tipo que obriga o geneticista a considerar a hipótese de não paternidade. Que no caso da Ingrid o Rodrigo está dizendo que realmente parece que é essa a explicação: a Ingrid não é filha biológica do pai hemofílico do qual ela estava supondo ser filha.
Porque aí cria uma complicação. Porque se Ingrid tem alteração genética, e ela quiser realmente não ter de modo algum uma criança com hemofilia, ela teria que se submeter a um procedimento, por exemplo uma coleta de vilosidade coriônica para extrair o DNA do feto. Fazer um diagnóstico molecular desse feto, para saber se é um feto que tem ou não tem.
Fazer um pessoa passar por tudo isso, que tem custos não só financeiros, mas eu acho que tem um custo psicológico enorme de submeter uma gestante no começo da sua gestação a um exame; todo o suspense de esperar o resultado, o medo, o receio de ter um resultado desfavorável. . .
Fazer uma pessoa passar por tudo isso sem que isso de fato seja necessário, porque simplesmente ela não herdou a alteração genética, é uma tremenda confusão aí para uma situação para o geneticista resolver como ele vai conduzir esse caso. Se fosse você como é que você faria? Se fosse eu, com base em casos similares, até que já ocorreu coisa parecida com a gente aqui no centro.
Tendo em vista esse cenário, o que eu faria seria conversar com a mãe da Ingrid em separado (separado da Ingrid, separado do pai da Ingrid) e colocar talvez pra mãe da Ingrid esse dilema. De dizer "Olha, se ela continuar pensando que fulano é o pai biológico dela, nós vamos ter que fazer ela passar por um exame assim, assim, assim, por esse custo, por esse stress, por essa ansiedade de achar que ela tem um risco genético, quando ela não tem. ".
Eu colocaria isso para mãe dela e diria "Olha a gente tá vendo uma inconsistência. E a inconsistência seria explicada se fulano não é o pai biológico. É isso mesmo, confirma que fulano não é o pai biológico?
". Sendo, como é que a gente faz? A gente procede com todo esse diagnóstico, essa complicação toda e finge que não sabe disso, ou a gente alivia o fardo da Ingrid, dando a ela uma informação que pode ser sofrida, do ponto de vista familiar, que é saber que o suposto pai não é o pai mas por outro lado que pode até dar um alívio enorme para ela, de saber que não é portadora de uma alteração genética que confere um risco alto de ter criança com a doença.
Eu assinei o que eu jogaria um pouco o peso da decisão em cima da mãe da Ingrid, no sentido de "Olha, confirma, é isso mesmo, não é filha biológica e o que é que nós vamos fazer nessa situação? ". E isso é comum Regina, as famílias descobrirem questões de paternidade quando vão procurar outras coisas?
Olha, é frequente. Mas na grande maioria dos casos se o geneticista tropeçar por acaso com essa informação, veja bem que a maior parte dos testes genéticos não vai investigar essa questão diretamente, mas a gente tropeçar com isso, na nossa análise, na grande maioria dos casos, felizmente, a paternidade não é relevante para a resolução do problema clínico genético. Então se ela não é relevante a gente nunca vai dizer a família que sabe dessa não paternidade.
A gente acha que a pessoa procurou a gente. . .
"Olha, me procurou por distrofia muscular de cinturas, não veio buscar um teste de paternidade. ". Então essa pessoa quer uma resposta sobre distrofia de cinturas.
E na grande maioria das situações que nos apresentam, a gente oculta essa informação da não-paternidade se ela não for crucial na resolução clínica do caso. O exemplo da Ingrid é dos mais complexos, porque a gente tem uma pessoa passando por procedimentos chatos, invasivos, estressantes e que talvez não seriam necessários. Acho que o caso da Ingrid é meio icônico, então é um exemplo dos mais complicados realmente de lidar.
Bom, acho que nós dissecamos esse caso já, digamos assim, Mas a gente poderá discutir em um próximo podcast, em um próximo encontro nosso, situações por exemplo da distrofia muscular que foi a que a Regina citou, em que a questão é bem mais grave do que ter um filho hemofílico. Ter um filho com distrofia é uma coisa mais complicada. Então a gente poderá discutir em uma próxima vez um caso mais complicado do que o da Ingrid, embora de alguma maneira parecido com ele.
Essa foi uma edição de Segredos de Familia, o podcast do projeto de divulgação científica do Genoma USP. O podcast é coordenado por Eliana Dessen, com projeto audiovisual de Diana Zatz Mussi, edicao e mixagem de audio de Gil Fuser, layout e finalizacao de Daniel Cotrim. Até a próxima edição.