olá pessoal Hoje nós vamos falar sobre psicanálise e eutanásia [Música] [Aplausos] [Música] Pessoal um paciente me recomendou um texto que mexeu muito comigo numa das sessões Ele tava dizendo sobre as dores de envelhecer e leu esse texto né ficou muito mexido com ele Queria compartilhá-lo com vocês É um texto que se chama Why I Hope to Die at 75 do Ezekiel Emmanuel É um médico famoso oncologista nos Estados Unidos e ele tá tentando explicar pra gente porque ele quer morrer ao 75 Vou deixar o link do Google Docs onde eu transcrevi esse texto Texto foi
publicado na revista The Atlantic em outubro de 2014 É um texto super interessante que vai fazer a gente pensar não exatamente no tema da eutanásia que eu vou explorar também nesse vídeo aqui mas em algo que tá sem dúvida nenhuma correlato né aparecendo passo a passo com o tema da eutanásia pro Ezequiel Emanuel né a ideia do Emanuel aqui é: olha se eu começar a ficar muito adoecido a partir de 75 anos de idade eu não vou querer mais fazer meus tratamentos não vou ficar prolongando a vida para ser isso que tá aparecendo nos Estados
Unidos é onde ele se situa que são os imortais por assim dizer né as pessoas que querem viver eternamente eles ficam prolongando a velice de maneira geral produzindo muito sofrimento com as demências as artrites né a fraqueza no corpo enfim vários sofrimentos que a velice traz e que os avanços da medicina moderna têm feito que a vida se prolongue muito muitíssimo né até os 90 95 anos de idade e geralmente não acompanhados com saúde com vitalidade né um sofrimento bastante acentuado Então o Ezequiel Emanuel ele vai argumentar principalmente com relação a isso Olha eu não
tô defendendo a eutanásia o suicídio de forma alguma Eu só tô ouvindo meu corpo Eu quero morrer na medida em que esse corpo também tá me dizendo: "Olha chegou o limite a gente viveu a vida no seu melhor né e agora a gente cede aquilo que a experiência mesmo de est vivo também produz que é morrer Então a ideia me pareceu muito bonita e ele é um médico fiz uma pesquisa rápida na internet né ser um médico que tá ligado ao campo da oncologia né tratamento de câncer enfim um médico que tá efetivamente nos cuidados
paliativos acompanhando esses pacientes também né a ideia então do texto dele quero passar aqui bem rapidamente por esses argumentos porque eles vão nos levar a pensar na eutanase E logo em seguida passo ao caso do Antônio Cícero que é um dos poetas mais importantes do Brasil que deixou uma carta muito emocionante pros amigos pra família dizendo que iria procurar a eutanásia na Suíça porque ele foi diagnosticado com Alzheimer e nos primeiros sinais de que estava esquecendo dos amigos já não podia escrever um ensaio de filosofia ou de poesia como ele tanto gostava ele preferiu morrer
Ele preferiu não viver sem dignidade A vida sem dignidade era uma escolha impossível pro Antônio Cícero Então a gente vai ler essa carta juntos também Também vai est aqui na descrição desse vídeo Mas vamos voltar pro texto do Emanuel A ideia aqui é que a vida tá sendo observada né pelo Emanuel como aquilo que vale a pena viver no seu máximo né ali a vida é algo que deve ser experimentada naquilo que a gente define efetivamente como saúde como tá experimentando melhor do que é tá vivo Isso é um argumento forte do autor contra essa
ideia de prolongamento da vida apesar da dor apesar do sofrimento né como que esse prolongamento no sentido de uma busca cada vez maior né do alongamento da vida produz também muita dor e a gente não tá observando né os efeitos psíquicos e físicos né desse prolongamento que a medicina contemporânea tem fornecido pros humanos Como eu disse né ele é um médico que tá se contrapondo a eutanásia a ideia de que pode haver uma morte assistida ele se contraponha a isso nas suas posições públicas pelo que eu pesquisei de fato o que ele tá dizendo é
só que num determinado momento é diferente né você observar o seu corpo ver que você não quer mais buscar tratamento e se deixar morrer a partir desse momento Então é diferente da eutanásia no sentido de procurar um método para efetivamente morrer É diferente de bom eu vou obedecer aqui até o limite da dor A única coisa que ele argumenta aqui é que ele vai tomar remédio pra dor né para suportar caso essas condições né que venham a matá-lo produza muita dor A única coisa que ele quer de suplemento aqui é são remédios contra dor para
não ser esse processo também de uma morte muito muito dolorosa Mas no geral é se aparecer o câncer eu não vou me matar Se aparecer o Alzheimer uma demência né eu não vou procurar enfim a eutanásia eu vou viver isso até o fim mas também não vou exercer nenhum tipo de tratamento Eu vou deixar a vida seguir o curso em direção à morte sem acelerá-lo né sem enfim me intrometer aqui no sentido de interromper esse fluxo né retardar esse fluxo de forma alguma por deixá-lo correr O autor argumenta que a passagem do 75 de maneira
geral traz muita dor e o aumento de doenças como as demências E ele se pergunta constantemente ao longo do texto: "Será que vale a pena será que vale a pena né viver essa imortalidade pagando esse preço que vai ser o preço da maioria?" Porque esses super idosos né que ainda são ativos sem dor né que fazem esporte etc será que eles vão ser a maioria ou vai ser uma minoria as pesquisas têm mostrado que eles ainda são uma minoria A gente pode claro apostar que a medicina também vai avançar nesse sentido de que há uma
velice mais forte que os corpos permaneçam então na sua vitalidade na sua força e na sua saúde tanto mental no sentido da saúde cerebral quanto da saúde física também e que a vida possa ser aproveitada por pessoas além dos 75 anos de idade A questão é que os números de hoje parecem mostrar que essa engrenagem do corpo não funciona pra maioria depois de 75 Dores demências quebras de ossos enfim dificuldades em todos os níveis né da vida de maneira geral O Emanuel ainda traz um argumento interessante que muitos de nós estão vivendo uma geração sanduíche
A gente tem que dar conta dos filhos pequenos e tem que dar conta dos pais mais velhos Eu também vejo isso muito no consultório não sei a experiência de vocês que o adulto né geralmente 40 50 anos de idade tá vivendo esse emparedamento aqui né de um lado cuidado com os filhos que exige muito Do outro cuidado com os mais velhos que também vai começar a exigir muito depois dos 70 80 anos de idade e não sei a experiência de vocês na clínica na família e enfim exemplos que vocês veem na vida mas a sensação
né de peso com relação aos mais velhos e uma impossibilidade mesmo de se dedicar durante muito tempo né ao cuidado né dos pais dos avós a falta né gente assim de políticas públicas de instituições né que a gente possa confiar os mais velhos Ainda a gente tá parece engateando curiosamente né aqui no Brasil aqui em Belo Horizonte pelo menos a sensação é essa A gente não tem instituições muito boas para endereçar os mais velhos como para fazer a comparação aqui as crechinhas que a gente tem para endereçar as crianças né pro cuidado ali do dia
a dia das crianças Então é uma forma de cuidado que também o autor tá colocando que se a gente vai incumprir dano a vida de maneira geral a maioria vai precisar de cuidados Quem vai cuidar em quais termos quanto de dinheiro né é necessário para cuidar dos mais velhos de tempo né quais vão ser essas pessoas quais vão ser esses valores de onde que isso vai vir quais vão ser as políticas públicas então a gente tá envelhecendo no sentido de agradar um desejo narcísico da imortalidade mas ao mesmo tempo a gente não tá pensando nas
consequências econômicas pragmáticas e psíquicas emocionais que essa escolha tá também produzindo Então é um argumento interessante do autor aqui pra gente pensar Enfim o Ezequiel Emanuel conclui o texto dizendo que a gente obviamente precisa de mais pesquisa sobre as demências sobre o Alzheimer sobre o envelhecer Ele não tá de jeito nenhum dizendo que a gente tem que morrer ao 75 né que esse é o ponto final De forma alguma Ele só tá dizendo que acha absurdo ficar prolongando a vida simplesmente pelo desejo de prolongar a vida E isso acho que coloca uma questão paraa clínica
quando na clínica psicanalítica a gente vai encontrar casos como do Antônio Cícero que de repente se vê com o Alzheimer e e aí a vida vale a pena ser vivida custe o que custar Então recomendo a leitura desse texto tá aqui na descrição do vídeo A gente vai passar agora ao caso do Antônio Cícero para comentar e aí a gente passa numa terceira parte ao comentário mais amplo do que é a morte para psicanálise o que que a gente pode pensar a partir disso em especial a partir da obra do Freud Então vamos passar pro
Antônio Cícero Mas antes disso queria pedir para vocês curtirem aí o vídeo comentarem aí o que que vocês acharam já da ideia né do Emanuel comentarem e compartilharem com colegas pessoas que possam se interessar com essa clínica né a clínica do envelhecimento da eutanásia a psicanálise no hospital né vamos conversar um pouquinho sobre isso Então recomendem compartilhem curtam e se inscrevam no canal importante A gente tá num projeto de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais uma universidade pública gratuita e laica de qualidade de todos nós Eu espero que vocês gostem desse projeto Continuem com
a gente Vamos pro Antônio Cícero O Antônio Cícero como vocês sabem é um dos poetas mais importantes do país né um professor também de filosofia literatura ensaios incríveis né que articulam poesia e filosofia Recomendo muito a obra dele Vocês sabem ele é irmão mais velho da Marina Lima né a Marina aquela cantora espetacular que cantou né musicou muitos dos poemas do Antônio Cícero Recomendo muitíssimo a obra dela né enfim uma poesia de altíssima qualidade O Antônio Cícero então né a partir de um determinado momento quando descobriu que tava com Alzheimer escreveu a seguinte carta cujo
link eu vou deixar também aqui na descrição desse vídeo Ele diz: "Queridos amigos encontram-me na Suíça prestes a praticar eutanásia O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável Estou sofrendo de Alzheimer Assim não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto mas mesmo de coisas que ocorreram ontem exceto os amigos mais íntimos como vocês Não mais reconheço muitas pessoas que encontram na rua e com as quais já convivi Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia Não consigo me concentrar nem mesmo para ler o que
era coisa de que eu mais gostava no mundo Apesar de tudo isso ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação A convivência com vocês meus amigos era uma das coisas senão a coisa mais importante da minha vida Hoje do jeito em que me encontro fico até com vergonha de reencontrá-los Pois bem como sou ateu desde a adolescência tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços É
muito emocionante ler uma carta dessa né gente assim é muito impactante Eu fico imaginando o que que é ser analista psicoterapeuta de um paciente que escreve essa carta e nos convoca enquanto analistas enquanto psicoterapeutas a dizer: "E aí você vai me ajudar a morrer você tá de acordo com isso terapeuticamente isso é um bom caminho isso tá correto?" né e a minha resposta aqui é muito ambivalente né queria desde já deixar a minha opinião sobre isso Queria ouvir a de vocês também por favor escrevam aí É ambivalente porque de um lado né enquanto psicólogo enquanto
psicanalista a gente é regido por um princípio ético basicamente irrecusável né insuperável inflexível A vida vale a pena A gente tem que viver até o fim A gente tem que viver o máximo possível E sempre sempre vai existir formas de simbolizar as nossas dores que não seja a morte A gente precisa encontrar com o outro em nós mesmos maneiras de simbolizar o que nos faz sofrer o que produz dor a mais intensa possível a perda de um filho a perda dos pais a separação a perda de bens materiais que antes davam sentido pra nossa existência
coisas assim que sempre sempre vão poder ser metabolizados traduzidos interpretados de outra forma de tal maneira a dizer sim à vida de novo Então por um lado eu assino esse pacto A gente tem assinado esse pacto desde o início da psicologia clínica desde o início da psicanálise Uma das questões fundamentais né no consultório é não se mate não vamos em direção ao suicídio não vamos em direção à eutanásia a gente vai junto até que o corpo diga: "Bom deu acabou" Então por um lado assina o pacto totalmente Por outro ainda não tive esse caso no
consultório tá gente assim tô pensando quando isso aparecer eu acho que isso vai aparecer com mais frequência dado o envelhecimento da nossa população Acho que a gente vai viver casos assim cada vez mais né e dadas as possibilidades agora legais médicas né de por exemplo ir paraa eutanásia na Suíça em outros países civilizados que estão instituindo esse método como um morrer digno né o morrer bem acompanhado e obviamente juridicamente filosoficamente pensado junto a uma comunidade moral Então por outro lado eu vejo vislumbro que é possível do ponto de vista clínico auxiliar um paciente ruma a
eutanásia Acho que isso faz sentido do ponto de vista psicanalítico quando a gente pensa em teorias como a de Winicot e a diferen sobre o que é o suicídio Então vou falar rapidamente aqui sobre essas duas teorias pra gente entender que essa carta do Antônio Cícero faz todo sentido principalmente grifando o termo dignidade que ele traz aí com ênfase nessa carta Sobre o fereng e o suicídio eu vou ler o último parágrafo do texto Reflexões sobre o trauma mas esse vídeo vai ser exclusivo pros assinantes do canal É um dos parágrafos mais lindos da história
da psicanálise Eu garanto Leia lá reflexões sobre o trauma O último parágrafo A ideia central aqui do Ferenx é que há uma fragmentação absurda uma fragmentação a partir do trauma E essa fragmentação é o que torna possível a vida diante da dor psíquica por exemplo de sujeitos muito traumatizados Quando um desses fragmentos não consegue mais cuidar do outro fragmento que é o resto do que sobrou do eu não consegue mais cuidar e ele é continuamente traumatizado ele tenta ainda se proteger ele tenta cuidar daquele resto Quando isso não é mais possível o suicídio aparece Então
essa é a tese bem resumida do Ferenx Eu vou ler esse trecho e comentar no vídeo exclusivo pros assinantes comentando a carta do Antônio Cício A teoria do Winicot a meu ver segue passo a passo a teoria do Ferenx nesse texto sobre as reflexões sobre o trauma Quero grifar aqui em particular um trecho do texto sobre o falso selfie do Winigot No texto Distorão do Ego em termos de self verdadeiro e falso self publicado nesse livro aqui processo de amadurecimento e ambiente facilitador o Wincot vai fazer uma notinha muito importante na página 181 quando fala
do falso self Vamos ler esse parágrafo Mais próximo da normalidade o falso self tem como interesse principal a procura de condições que viabilizem a independência do self verdadeiro Se essas condições não podem ser encontradas então novas defesas têm de ser reorganizadas contra a espoliação do self verdadeiro E se houver dúvida o resultado clínico é o suicídio suicídio nesse contexto é a destruição do self total para evitar a aniquilação do self verdadeiro Quando o suicídio é a única defesa que resta contra a traição do self verdadeiro então se torna a tarefa do falso self organizar o
suicídio Vocês vão ver para quem for ver lá no vídeo extra da teoria do fereng é basicamente a mesma teoria mas o fereng é bem interessante Vale a pena dar uma olhada nesse último parágrafo e eu vou comentar passo a passo Vocês estão vendo aqui a teoria do Inicot eu sofri o trauma tive que desenvolver um falso selfie Mesmo assim a vida ainda me submete me sujeita A vida faz eu perder a dignidade Para tomar o termo importantíssimo do Antônio Cícero que vai aparecer aqui no Inicoto sinal de saúde psíquica a defesa da dignidade daquilo
que eu acho que é digno daquilo que eu acho que é valoroso valioso para mim e condição cinequan para tá vivo O que que é tá vivo o que que eu tenho que ter quais são as condições básicas para continuar vivo se eu não tenho isso o falso self continua a tentar e a tentar fazer com que essa vida vale a pena mas chega um limite eu só tô assjeitado só tô submisso O suicídio aparece então como a única alternativa para de alguma maneira me afastar da dor me afastar daquilo que é a submissão de
uma vida indigna Vejam o que o Inicot tá propondo é que de forma alguma a gente vai pensar nisso como uma solução clínica Insisto a gente vai sempre convidar o paciente para simbolizar elaborar tentar pensar na dor de outras formas até o limite Então o Winicot assim como o Ferenx tão pensando no suicídio como resposta muito radical onde tudo tudo falhou Todas essas tentativas de simbolização cicatrização e simbolização junto com o outro falharam Tudo isso falhou Então a gente tá aqui no extremo queria insistir nesse ponto com vocês Essa teoria do Winicot sobre o suicídio
como um certo fracasso né de manejar a dor né de manejar as invasões ambientais por assim dizer tem muito a ver com uma das teses sobre o suicídio que vai est vislumbrada num dos textos de Freud chamado Sobre a transitoriedade texto lindíssimo cuja leitura eu recomendo enfaticamente para todo mundo que clinica No terço sobre a transitoriedade o Freud argumenta que o luto é indispensável pra gente ir manejando essas perdas que vão acontecendo ao longo da vida envelhecer a guerra e a destruição das coisas que a gente ama a perda dos parentes dos pais dos filhos
enfim a possível morte das pessoas que a gente ama muito Tudo isso marca aquilo que o Freud vai chamar de transitoriedade Ora a transitoriedade ela exige um trabalho de luto constante permanente é a tentativa de refazer os vínculos a ideia de que esses vínculos perdidos podem se desfazer mas se refazerem de outra forma com outros objetos Freud nesse texto vai dizer claramente tem algumas pessoas que não conseguem fazer essa capacidade de luto esse trabalho de luto e caem melancólicos muitas vezes levados ao suicídio Leiam esse texto vale a pena assim como claro o texto luto
e melancolia também indispensável como vocês sabem na clínica psicanalítica Então essa tese permanente aqui no Ferenx Freud Winicot né de que é preciso um trabalho de simbolização para dar conta das perdas do envelhecimento das rupturas narcísicas vamos chamar assim Então essa coisa que o Emanuel tá apresentando lá no texto dele Tô rompendo né as minhas tescituras narcísicas Já não dou conta de correr não dou conta de escalar de nadar não dou conta de o Antônio Cícero tá dizendo não dou conta de lembrar das coisas escrever poesia escrever filosofia não lembro mais os meus amigos Tudo
isso tem a ver com esses ataques ao nosso narcisismo que são ataques brutais o narcisismo que é o investimento da libido da nossa energia psíquica no nosso eu O narcisismo que tem a ver com aquilo que a gente idealiza com relação a nós mesmos Eu quero correr sempre escalar nadar tá lendo conversando lembrar das pessoas E a gente idealiza esse tipo de coisa A gente não quer perder essas coisas Muitas vezes a psicanálise vai traduzir isso como angústia de castração porque todas essas coisas que vão compondo o narcisismo são insígnias fálicas são sinais fálicos de
que eu sou eu posso eu dou conta E quando isso falha eu me sinto castrado por conta claro do nosso código machista né que descreve um ser que é bom e completo e ideal como fálico e um ser que tá falho que é agora frágil que é quebradiço que é transitório como castrado Então peço muita atenção nessa interpretação muito rápida ou nesse código muito rápido entre fálico e castrado para dizer da nossa finitude e da nossa idealização onipotente Eu prefiro usar outros termos que não fálico e castrado sempre denunciando essa tradução generificada né de coisas
muito muito importantes e como o Inicot vai mostrar coisas muito anteriores ao Édipo do que essa história fálico e castrado A gente tá falando de onipotência narcísica de se sentir acolhido amado integrado íntegro digno Isso é muito anterior ao Édipo muito anterior Do outro lado é o assujeitamento é a desintegração a ideia de que nós não somos acolhidos não temos lugar no mundo não temos estados tranquilos possíveis a continuidade do ser toda interrompida Isso não é castração gente Castração é uma metáfora para isso mas assim é muito pobre muito perigoso também traduzir isso aqui como
castração Então muito cuidado com isso porque a gente tá falando de coisas muito muito préedípicas anteriores aos códigos de sexação que vão enfim tentar fazer coincidir né esses dois estados com fálico e castrado né a idealização narcísica de um lado o desamparo do outro tá então cuidado com isso Mas eu acho importante lembrar que isso faz parte da história da psicanálise A gente vai usar muito muito esses termos nesse sentido tá mas que vai aparecer na teoria lacaniana em especial com grande força afinitude contato com a morte sempre como castração Então peço cuidado com essa
interpretação Ela é muito rápida e deixa de fora elementos pré-edípicos précódigos genericados que a gente precisa levar em consideração No capítulo 5 de Além do Princípio do Prazer o livro no qual Freud vai apresentar a pulsão de morte um dos conceitos mais problemáticos da obra fradiana né e aqui eu acompanho integralmente Jean Laplanch na crítica muito pesada a esse conceito Nesse texto em especial no capítulo 5 o Freud vai falar uma coisa que eu acho super interessante e que vale a pena a gente destacar As pulsões de alguma maneira quando ele propõe a pulsão de
morte protegem a vida Quando a gente pensa na pulsão de vida de um lado é aquilo que liga é aquilo que vai integrar o sujeito em componentes da vida Mas por outro lado as pulsões como o Freud vai propor também são pulsões mortíferas que levam o sujeito de volta ou tendem a levá-lo de volta ao estado inorgânico ao estado anterior à própria vida E o Freud tem uma passagem aqui no capítulo 5 que eu acho bem bonita e que eu queria reinterpretar totalmente fora do contexto tá gente o contexto dessa passagem aqui é o outro
muito específico muito instintivista né que eu não gosto desses aspectos da obra do Freud eu criticaria pesadamente esse livro aqui em outro momento tá mas a passagem é o seguinte que quando a gente fala das pulsões né desse jogo entre a pulsão de morte e a pulsão de vida ele diz o seguinte que o que nos resta é o fato de que o organismo deseja morrer apenas do seu próprio modo Originalmente esses guardiães da vida as pulsões eram também os lacaios da morte Queria só pegar essa frase totalmente aqui descontextualizada pra gente pensar no que
que é morrer a sua própria maneira né o organismo morrer do seu próprio modo morrer a própria maneira e dessa forma né pensar nas pulsões como guardiões da vida e ao mesmo tempo lacaios da morte serviçais da morte Ora como pensar nisso a partir do Laplanche a partir de teorias contemporâneas que criticam né esse biologicismo de Freud Queria pensar com vocês sem entrar em detalhes na teoria laplanchana que as pulsões elas são forças que na verdade apontam para de um lado aquilo que integra a vida aquilo que protege a vida Então a gente vai ver
no tema que a gente tá discutindo um apego à vida muito maior do que a vida mesma Como que isso acontece eu quero por exemplo entrar numa cápsula criogênica e me manter vivo por 1000 anos até que a medicina tenha aí as tecnologias para que eu nunca morra Gente a gente não tá mais falando da vida humana a gente tá falando de sonhos idealizações de onipotência narcísica máxima Então de um lado pulsão sexual de vida que vai instituir essa vida de maneira infinita idealizadíssima Eu não aceito nada da minha morte Eu não aceito nada da
minha transitoriedade nada da minha falibilidade nada nada Eu não aceito nada Eu tenho que ser perfeito infalível imortal Então isso já não é mais a vida é o investimento da pulsão sexual de vida Por outro lado na pulsão sexual de morte a gente vê esses casos de suicídio de autolesão de abandono da existência também morrer a própria maneira de alguma maneira tem a ver com isso que o Emanuel tá dizendo o Antônio Cícero tá dizendo e que muitos pacientes também vão dizer pra gente: "Eu não quero viver se eu não viver com essa dignidade básica
mínima Eu também posso morrer à minha maneira do meu jeito Então eu acho que isso abre um precedente ético ético de pensar na liberdade humana nos limites da dor nos limites do sofrimento pro próprio sujeito e pra família Quero lembrar aqui entre parênteses né a experiência que muitas vezes colegas da psicologia hospitalar me trazem Um trabalho enorme que o psicólogo tem né o psicanalista no hospital de convencer muitas vezes uma família a desligar os aparelhos de um paciente que já morreu já teve morte cerebral atestada por todos os médicos que o examinaram E o trabalho
que o analista tem ali no hospital para dizer: "Esa família deixa seu pai partir" Deixa sua avó aí Sua mãe já cumpriu a vida dela e a família agarrada agarrada aquele corpo agarrada aquele resto que já não é mais vida já passou Mas a família na dor dessa família que a gente entende que a gente acolhe que a gente tenta simbolizar a família agarrada a isso a essa idealização da vida não deixa o outro partir Quer se agarrar isso de toda maneira Quantos quantas vezes a gente já viveu isso gente na nossa história familiar né
dos mais velhos que demoram a partir né parece que tem uma força psíquica né que invade coloniza o corpo porque esses mais velhos demoram a partir demoram a morrer porque tão com medo porque também não querem deixar os seus filhos não querem deixar a vida não querem partir de fato e demoram E muitas vezes né como que uma conversa com esses mais velhos né dizer que faz parte de que a gente pode estar vivo ao morrer né uma frase linda do Winicot né eu quero estar muito vivo quando eu morrer Acho que faz parte dessa
experiência também Growing downwards crescer para baixo né crescer em direção à morte ir em direção a ela quando ela chegar encontrar esse momento também que faz parte A transitoriedade faz parte da vida Como isso é difícil porque é pulsional né num dos textos do Freud mais bonitos que existem que é reflexões para os tempos de guerra e morte texto lindíssimo vou comentá-lo ainda espero em outros vídeos O Freud vai brincar com uma frase super famosa se vis passen parabelum né se vocês querem preservar a paz preparem-se pra guerra Uma frase sempre importante na política Se
vocês querem paz então fiquem sempre bem armados porque é isso que mantém a paz E o Freud brinca com essa frase dizendo o seguinte: se vês vitam para mortam se você quer suportar a vida você tem que se preparar pra morte Você tem que aceitar a morte também faz parte faz parte do jogo Olha o Freud conclui o texto dele esse texto lindo reflexões sobre a guerra e a morte Pensando nisso olha a gente tá sendo hipócrita de novo assim como é com relação à sexualidade assim como é com relação ao dinheiro de maneira geral
A gente é hipócrita e civilizado demais quando fala da morte A gente recalca muito quando fala da morte É preciso dizer com todas as letras o eu se acha imortal porque ele tá hiper investido desse narcisismo onipotente que o protegeu durante a vida inteira Ele pode dar conta de tudo ele dá conta de tudo não vai ter falha nenhuma Isso é narcisismo É um narcisismo quase doento que vai fazer com que as pessoas tomem remédio façam cirurgias plásticas e vão tomar uma série de atitudes absurdas para rejuvenecer o tempo todo e nunca nunca envelhecer nunca
colher algo da sua transitoriedade que é muito duro Sim é muito muito duro perder o que a gente tem perder a nossa própria vida principalmente quando a gente assina o pacto da vida É duro mesmo né faz parte mas faz parte Então eu queria colocar isso em discussão aqui pra gente ver o que que vocês acham até aqui pra gente conversar então sobre essa postura Eticamente sim a gente vai convidar o paciente em primeiríssimo lugar para a vida né mas existem condições clínicas a partir das quais a gente vai ter que acolher o paciente também
para a morte Claro a gente vai ter que discutir isso juridicamente aqui no Brasil com o Conselho Federal de Psicologia né com a medicina o Conselho Federal de Medicina Discussão seríssima que a gente tem aqui A gente sabe que a eutanásia no Brasil ela não existe mas existe na prática mas a gente precisa conversar sobre isso cada vez mais de forma civilizada de forma aberta e franca Quais são as diferenças entre eutanás e suicídio é absurdo que a gente confunda essas coisas Não é a mesma coisa Não é a mesma coisa a gente tá falando
da eutanásia né de um paciente que tá com 80 anos 85 anos e que se descobriu com uma doença com a qual ele não quer conviver 80 85 Quais são os seus limites disso a discussão tá aberta não tem resposta óbvio né gente não tem uma resposta universal aqui Ah temos que matar os mais velhos com 85 anos e Alzheimer porque isso vai ser pesado demais caro demais vai gastar muito dinheiro Você sabe que o capitalista muitas vezes vão estar muito interessados né em matar logo os mais velhos inclusive capitalizar a morte porque uma cápsula
de eutanásia na Suíça quanto que deve custar isso né em breve o capitalismo também vai colonizar esse tipo de morrer né certamente já colonizou custeando por assim dizer cobrando efetivamente para morrer as pessoas mais ricas e morrer de forma tranquila coisas que os mais pobres também não vão conseguir Enfim vejam como que essa discussão é ampla aberta difícil Então clinicamente é o convite que eu quero deixar para vocês a partir dessa carta linda do Antônio Cícero desse texto muito potente do Emanuel textos que vocês podem ler a partir dos links na descrição do vídeo E
fica aqui meu convite conversem vamos compartilhar isso Como é que isso aparece na clínica de vocês né eu acho que clinicamente é muito difícil acompanhar um paciente para morte mesmo que seja um caso né que a gente tá acompanhando ali sei lá de câncer e o câncer não tem mais cura não tem mais químio possível Como acompanhar esse caso como tornar esse caso menos doloroso para aqueles que acompanham o paciente pra gente na contrat pro paciente para aceitar isso Todos nós já vamos ter se não já não teve vamos ter casos assim na clínica como
a colher um pouco dessa ideia de que nós não somos imortais Lembrem-se lá do conto maravilhoso do Jorge Luiz Borges o imortal A gente vira um troglodita uma metáfora muito engraçada do Borges né se você bebe desse rio que vai te tornar imortal você acaba virando um troglodita alguém que também não tem mais sentido para quem a vida perde o sentido Leiam leiam esse conto do Borges o imortal Essa é a ideia gente Assim a morte faz parte E o Freud vai argumentar isso na transitoriedade porque de alguma maneira é isso que faz aumentar também
a beleza de estar vivo a potência de estar vivo porque a vida é transitória porque a vida não pode ser controlada a vida tá para além do reinado do ego dos poderes do ego A gente tá atravessado pelo acaso do início ao fim O Freud também era ateu Eu queria lembrar isso Isso é muito importante né né o Freud era um ateu e talvez isso também participe daquilo que ele tá pensando sobre a morte Gente era isso Não percam a leitura comentada desse último parágrafo ferên Vocês não vão se arrepender É um texto maravilhoso Vamos
ler passo a passo pra gente entender o que que o Ferên está pensando sobre o suicídio e como que isso ajuda a gente a discutir e a pensar nessa conversa aqui que a gente teve a partir desses textos do Emanuel e do Antônio Cício Muito obrigado por vocês que acompanharam até aqui Curtam compartilhem conversem Eu espero vocês até a próxima Até lá [Música] M