com meus 4 anos, eu tive que ter uma coragem muito grande de sair de casa no dia que eu tava vendendo bala, como se eu tivesse só indo mais um dia. E naquele dia eu pensei, falei assim: "Não, hoje hoje eu não vou voltar para casa". Tipo, a minha mãe sim, ela era envolvida com drogas e outras coisas, né?
Prostituição, ela foi internada e aí a única coisa que eu ouvia dos meus parentes era que ela tinha ficado doida. E aí eu fui morar com meus avós, então eu só tinha intimidade com a minha avó praticamente, porque o meu vô ele era bem ruim assim, ele maltratava. E naquela época eu com meus 4 anos e meus tios todos envolvidos com droga.
E aí eu saía todos os dias, eu ia pro calçadão de Campo Grande vender bala. Teve um certo dia que a minha mãe, ela voltou para casa e ela tava muito muito agressiva, muito doida. E aí meus avós prenderam ela numa cadeira e ela só gritava, gritava, gritava.
E se eu me lembro na época a minha mãe, acho que ela tinha uns 17 anos. Depois disso, passou pouco tempo assim, aí eu recebi a notícia, vieram avisar para mim que ela tinha falecido. E aí eu perguntei pro pra minha avó, perguntei pra minha avó, falei: "Vó, que que faleceu?
" Que não sei que faleceu, não sabia o que que era. Sempre que acontecia alguma coisa lá em casa, que que eu ficava com medo do meu avô, eu ia para uma igreja que tinha atrás da minha casa. Tinha uma igreja lá que tinha aula de balé.
E aí acho que morava umas 11 pessoas dentro de casa. Quando eu passava da sala para pra cozinha, eles ficavam chamando, querendo passar a mão, encostar e aquilo me incomodava assim. E aí eu o que eu fazia era sair de casa e e sempre tentar ir para essa igreja.
Assim, é muito traumático você lembrar que que você tinham pessoas dentro da sua casa que que abusavam de você e ninguém podia fazer nada. E aí, por isso que que depois que minha avó morreu, que era a única pessoa que que praticamente me defendia lá dentro, né? Aí eu eu não quis ficar mais naquela situação, né?
Então eu tive que ter uma coragem muito grande de sair de casa no dia que eu tava vendendo bala, como se eu tivesse só indo mais um dia. E naquele dia eu pensei, falei assim: "Não, hoje, hoje eu não vou voltar pra casa". Tipo, eu não voltei.
Aí nisso eu peguei um ônibus, aí eu fui para essa praia e fiquei na areia, tipo, por um tempão assim. Aí quando começou a escurecer, vieram dois uns guardinhas assim e falei que eu não queria voltar para casa, que eu não queria voltar para casa, que meu vou ia me bater, eu só falava isso. E aí eles ligaram o conselho lá, tiraram finalmente a guarda do meu voo e me levaram com abrigo depois disso, né?
Então aí eu já tinha meus seis, quase 7 anos. É o processo de adoção tardia, né? Porque é muito difícil você adotar criança mais velha, negra, principalmente.
Geralmente as famílias querem bebês ou crianças mais novas, até três, quatro. E aí um dia me falaram que eh tava indo uma família me buscar. Ah, eu acho que que a chave virou.
Quando eles falaram mesmo, tipo, meu pai, ele falou que que não, eh, você agora vai ser minha filha. E aí eu falei: "Como assim? " Tipo, ele é porque a gente tá te levando para você morar com a gente.
Aí, ó, mas de verdade, ele é de verdade. Só que ainda assim depois a criança, ela morre de medo de de ser devolvida. Eu tinha muito medo de pedir as coisas.
Eu tinha medo de falar o que eu gostava, o que eu não gostava, porque eu não queria passar esse incômodo, então não pedia nada. Então, depois de anos que eu fui falar assim: "Nossa, mãe, eu queria muito ter feito aula de dança, nossa, queria tanto ter visitado tal lugar". Aí ela falou: "Nossa, por que você nunca falou essas coisas?
" Tipo, aí eu eu sempre cresci com esse medo de incomodar. Só que são coisas que você não cura fácil, né? Até eu tive muitos anos problemas com com toque masculino, porque eu tinha medo, eu tinha trauma e aí o meu pai, ele era uma pessoa muito amorosa, com todo mundo assim que conhece ele vai ouvir falar do meu pai, ele era um super pai.
Então, desde novo ele iniciou a gente na música. Ele eh comprou umas flautas doces, colocou eu e meus irmãos para tocar, porque ele tocava violão. Aí ele ia tocar em asilo, ia tocar em abrigo, ia tocar nesses lugares assim e levava a gente para tocar com ele, né?
E aí ele falou agora se não precisar escolher um instrumento. Aí iniciou a gente no chelo, no piano, no violino, em tudo, até a gente gostar de algum, né? Aí acabei me identificando com a viola, que é o instrumento que eu gosto.
E aí no final de 2018, né, meu primeiro concerto com a orquestra jovem lá em Barramança. E aí, tipo, eu tava todo num preparo assim para ele ver minha, ia ser minha primeira apresentação de balé também, que aí eu finalmente tomei coragem, né, para para fazer minhas aulas de dança. E aí ele assisti meu primeiro espetáculo de balé e assistir meu primeiro concerto da orquestra.
Ele não chegou a assistir, tipo, em setembro foi foi muito triste assim porque tava tudo bem, né? E aí meu pai ele tinha mania de ir dormir na sala porque ele ficava assistindo coisas até tarde. Aí como eu sempre tive insônia, eu acordava de madrugada, ele tava assim deitado assim, aí eu levantava ele e ele ia pra cama.
E aí nesse dia, tipo, ele tava assim e ele tava sentado assim no sofá com cabeça para trás, normal, como se tivesse dormido. E aí eu fui acordar ele para ele deitar. Eu tinha prova no outro dia na escola assim e aí ele não acordou, tipo, eu tentando acordar, ele não acordou.
Aí minha mãe foi lá assim, tentou de todo jeito. Aí ela já começou a ficar desesperada assim. Aí a gente desceu, chamou a vizinha que tava embaixo, aí a vizinha subiu, ela olhou na hora, falou: "Augusto não tá vivo".
Daí ali eu pensei: "Nossa, tipo, depois que que passou umas semanas assim, eu fiquei perguntando por que que eu vou continuar tocando, né? Sendo que meu pai ele era uma inspiração muito grande. Aí sua inspiração não tá ali, você não quer continuar".
Mas aí depois eu vi que, nossa, realmente é isso que eu quero fazer. Voltei pros ensaios da orquestra, meus amigos me apoiaram assim. Eu lembro que tinha um amigo do meu pai que me deu um cartãozinho assim da sala São Paulo e aí eu fiquei visturada na sala São Paulo.
Eu falei: "Eu vou chegar lá, vou chegar na sala São Paulo, você tem que fazer participar de uma seleção. " E já era o segundo ano que eu tentava, né? O primeiro ano eu não passei a prova prática, você tem que vir e tocar.
E aí vem várias pessoas e uma delas só que vai passar, sabe? É, é muito competido assim. muito muito competida.
Essa orquestra em específico, ela é orquestra jovem do estado de São Paulo. Aí por fim passei, passei na orquestra. O meu pai ele era ele era uma pessoa muito sábia, né?
Muito estudioso e tal. E geralmente quando eu tô tocando, quando eu tô na sala fazendo um concerto assim, eh, geralmente final de algum concerto que eu olho assim, veja onde é que eu cheguei, tipo, não tem como não lembrar dele, porque ele sempre falava do da sensação que fica depois. Como é que você tá se sentindo tocando aquilo?
Você pode estar tocando duas notas de qualquer maneira e você pode estar tocando duas notas, sentindo aquelas duas notas, sentindo que você precisa fazer as pessoas que estão te ouvindo sentir. Então eu sempre tento tocar tudo com muito amor, assim, com muito sentimento. E porque ele me falava isso, que tudo que você toca, independente se você tá numa sala de conserto, se você tá dentro de um presídio tocando para alguém, você tem que tocar com o mesmo sentimento.
As pessoas falam que ah, realização é quando você é adulto, já tem sua família, sua casa. E para mim não, eu acho que depois de tudo, para mim realização isso aqui, tipo, consegui tocar numa numa das melhores orquestras jovens que existe, tendo aula com dos melhores professores. Então, a música, né, a arte no geral, a dança, a música, ela me ajudou a superar coisas que eu acho que eu nunca superaria, talvez sozinha assim.