Todo mundo sabe que Jesus dirigiu aos seus discípulos um conselho, uma ordem, se você quiser chamá-la assim: "Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, dia após dia. Tome a sua cruz e me siga. " É uma coisa meio difícil, né?
Por quê? Porque não adianta. Nós somos racionais e a gente procura sempre uma saída, né?
Tem que ter uma saída, porque é claro! Imagina esse negócio de renunciar todos os dias, renunciar a mim mesmo, tomar a cruz e seguir Jesus todo dia, todo dia, sem cansaço, sem desânimo, sem desistir, né? Não tem fim de semana, não tem feriado, não tem férias, nada.
Tomar a cruz todos os dias é um negócio meio doido. Como é que esse é o Deus de amor? Mas acontece que nós temos que entender que a cruz é a cruz de [música] amor.
Vejam, Jesus é o Deus de amor que se fez homem. Mas nós, manchados pelo pecado original, nós, mordidos pela serpente, nós duvidamos do amor. Temos em nós o veneno da dúvida, e o veneno da dúvida nunca foi tão forte como nos nossos tempos.
Sim, porque veja lá atrás: Adão e [música] Eva. A serpente colocou a dúvida: "Deus disse que vocês não podem comer dessa árvore. Imagina, vocês não vão morrer!
Acreditem em mim, serpente, não no que Ele disse. " Ou seja, a primeira coisa do pecado original foi tratar Deus como alguém de quem devo desconfiar, desconfiar do amor de Deus. Ele, o Deus de bondade, me deu uma orientação, mas eu prefiro acreditar na serpente.
Adão e Eva caíram. Qual foi o primeiro resultado? Se esconderam de Deus atrás do arbusto.
Ouviram os passos de Deus que vinha na brisa da tarde, passear com Adão e Eva como amigo, e se escondem atrás do arbusto. Dali pra frente, começou a dúvida do ser humano. Não bastasse isso, a nossa civilização ocidental moderna, a partir de Descartes, se acha muito, sabe muito, inteligente.
Se você duvida, é a dúvida metódica, não virou o jeito de ser, né? Você vai falar com as pessoas sabidas, e elas vão dizer: "Você tem que ser crítico, você não pode confiar em tudo. " Mas, meus queridos, se você não tiver fé, você nunca vai receber amor.
Fé é a maneira de você receber amor. Ou seja, você tem que entender que Deus está querendo, todos os dias, dia após dia, mostrar o amor d’Ele para você. Mas você está entretido com outras coisas.
Deus está aqui. "Padre Paulo, me ouve um pouquinho, não tô culpado. " "Pera aí, Padre Paulo, eu quero te dizer do meu amor.
" "Não, mas espera aí, eu tenho o que fazer. " Então, não tem como você se pôr numa situação de ouvir o amor de Cristo se Ele não tivesse vindo aqui para quebrar nossos conceitos, morrendo na cruz por nós. Então, a primeira coisa não é: "Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, dia após dia, e me siga.
" Não é isso. Essa não é a primeira coisa. A primeira coisa é: Ele veio, renunciou a si mesmo, dia após dia tomou a sua cruz e morreu por mim; me amou, se entregou por mim.
O fato de Ele ter se entregado por mim, eu preciso receber essa notícia, mas eu não vou receber essa notícia se eu continuar sem fé, duvidando. Olho pra cruz de Cristo e digo: "Não! Imagina, imagina se Ele me amou.
" O diabo transforma a cruz de Cristo exatamente no contrário. Ele põe a cruz de Cristo de cabeça para baixo. Ou seja, a cruz de Cristo é o sinal de Deus que nos ama.
O diabo transforma aquilo no quê? Num homem abandonado por Deus. O diabo faz você olhar pra cruz e dizer: "Tá vendo?
Olha o que Deus faz com os filhos d’Ele. Não queira ser filho de Deus! Olha como é que termina o filho d’Ele na cruz!
" O diabo inverte as coisas. Ao invés de você olhar para a cruz como Deus abandonado por mim, que morreu por mim e me amou, você inverte e olha pra cruz como um homem abandonado por Deus, porque Deus não merece confiança. "Olha o que Ele faz com os filhos d’Ele!
" Não! Você precisa se encontrar com a cruz de Cristo, com aquele amor com que Ele nos amou. E, se encontrando com a cruz de Cristo, com o amor como Ele nos amou, nesse ato de fé você diz: "Opa!
Se eu fui amado assim, então preciso amar de volta! " Aí faz sentido: renuncia a ti mesmo, dia após dia. Aí faz sentido viver uma quaresma, viver uma penitência, porque simplesmente o fato é o seguinte: eu tenho que parar com esse barulho da carne, do mundo e do diabo no meu ouvido para poder ouvir a Ele que me diz: "Foi por ti que eu morri na cruz.