[Música] [Aplausos] [Música] Estamos mais uma vez aqui, falando diretamente do simpósio Bioins em Maringá, diretamente aqui dos estúdios da Uningá. E o nosso próximo entrevistado é o Arnaldo Collose Filho, pesquisador do IDR Paraná, que veio especialmente de Londrina para participar aqui do evento, um dos palestrantes. O tema que o senhor abordou foi a importância da matéria orgânica na atividade microbiana do solo.
Seja muito bem-vindo, Arnaldo. Fala um pouco para a gente sobre o tema da sua palestra. Obrigado, Cleber, por esse convite, por estar aqui na Uningá, pelo convite feito a mim pelos organizadores.
Bom, o tema da minha palestra eu acho que é de extrema importância, considerando que a atividade biológica no solo, não só a atividade microbiológica, mas a atividade biológica como um todo, é fundamental para que os processos no solo aconteçam, né? E ela suporta toda a produtividade ou cultivo, resultado financeiro dos agrosistemas, né? Qualquer produção de cultura, qualquer produção agrícola, vai depender do funcionamento desse sistema.
E a matéria orgânica é a base do funcionamento dos sistemas no solo, né? Então, assim, a minha palestra foi no sentido de mostrar para as pessoas a importância da atividade biológica para os agrossistemas sustentáveis, né? E a ligação disso com a matéria orgânica do solo.
Isso é importante para todas as culturas, isso é importante para todas as culturas, não só para culturas, mas para todo o crescimento vegetal de maneira geral. Se você pensar bem, as florestas têm um sistema de regulação, um sistema de equilíbrio que funciona na base da atividade biológica, né? Então, todo o material que cai das folhas, e porque lá não se faz fertilização, não se faz manejo nenhum, o sistema está em equilíbrio.
Então, ele é baseado no funcionamento dessa atividade biológica, né? Então, assim, claro, o sistema agrícola, para o sistema de produção de grãos, por exemplo, é fundamental que a gente conheça como que é esse sistema biológico, como que ele funciona, para a gente poder manejar o sistema agrícola e ter sucesso nos nossos cultivos. Arnaldo, é aquilo que a gente chama de terra gorda, aquela terra que tem bastante matéria orgânica que a gente encontra no meio das matas e das beiras de rio, né?
Pois é, esse é o sonho de todo mundo, né? Não só nosso, dos técnicos, mas eu acho que de todo agricultor que entende o que está fazendo, né? Porque produzir grãos, produzir na construtora é uma tarefa que exige ciência, exige conhecimento, né?
Mas, instintivamente, os agricultores sabem essa informação que você trouxe, que quando a terra é gorda, o resultado é melhor. Agora, nós, da ciência, nós, os pesquisadores, procuramos entender como isso funciona e qual a importância realmente dessa terra gorda para a produção agrícola, né? E a gente sabe que a nossa agricultura é muito dependente dos fertilizantes químicos, porque o teor de matéria orgânica, ou a quantidade de matéria orgânica nos nossos solos, não é muito bom.
São solos tropicais, e eles têm baixo teor de matéria orgânica, né? Então, exige um manejo mais adequado para ter boa fertilidade, para que o cultivo seja rentável e produtivo. Então, assim, nós temos trabalhado bastante agora com a alta dos fertilizantes, né, promovida pela guerra na Ucrânia, não só pela guerra na Ucrânia, mas por todo o contexto da economia brasileira e mundial.
A gente tem levado essa discussão com os agricultores, e intuitivamente eles sabem disso, né? Que precisam reduzir o uso de insumos químicos para ganhar em rentabilidade e para garantir a sustentabilidade do sistema de produção deles, né? Então, assim, quais são as técnicas de produção conservacionistas que vão possibilitar isso?
Que essa matéria orgânica, naturalmente, no mínimo, se mantenha no solo ou se mantenha para que o processo dele seja rentável e sustentável. Com relação às suas linhas de pesquisa, o que você pode trazer para a gente que o senhor apresentou aqui no simpósio? Então, eu trouxe para cá porque nós trabalhamos no IDR para o estado do Paraná todo com pesquisas nessa linha de sustentabilidade, manejo sustentável, né?
Mas aqui, para a região de vocês, aqui de Maringá, a gente tem uma grande preocupação com os sistemas produtivos da região do arenito, né? Porque é uma região muito particular de solos relativamente frágeis, né? Eles têm fertilidade, mas o manejo exige um manejo mais apropriado, porque diferenciado, né?
Então, a gente sabe, a gente tem trabalhado muito no sentido de desenvolver sistemas de produção mais apropriados aqui para a região noroeste, porque a gente tem que conhecer, a gente conhece a vocação da região em função do solo e do clima que tem, do regime de chuvas e temperatura. Mas então, esses fatores precisam estar bem definidos para que o sistema produtivo seja sustentável e rentável. Então, eu trouxe dados de um experimento de longa duração instalado a campo na unidade experimental do IDR em Xambrê de integração lavoura-pecuária, né?
Porque a gente entende que a integração lavoura-pecuária é um sistema de produção muito viável aqui para a região, mas ele é extremamente tecnológico, né? O agricultor que se dispõe a fazer a integração lavoura-pecuária precisa fazer isso bem feito e, assim, ele vai ter rentabilidade e sustentabilidade no cultivo dele. E eu trouxe os dados aqui de como um sistema de integração lavoura-pecuária, bem feito, aumenta a atividade biológica no solo, mesmo que não aumente o teor de matéria orgânica em curto espaço de tempo, mas ele mantém o solo ativo biologicamente para sustentar uma produção comercial, digamos assim, rentável, né?
Então, assim, praticando os princípios de rotação de culturas, de não revolvimento e de integração lavoura-pecuária, você consegue um sistema produtivo bastante eficiente aqui para a região do arenito. Esse é um deles, né, que foi um dos resultados que eu apresentei ali na minha palestra. Um outro problema.
. . Muito comum aqui na nossa região, principalmente na Terra Roxa, é a questão da compactação do solo.
Também, né, essa matéria orgânica ajuda nessa questão. Né? Sim, a matéria orgânica é fundamental para a estruturação do solo, né?
E ela consegue, ela tem funcionalidade no processo de estruturação; ela consegue deixar o solo mais leve, criar poros, através dos quais água e ar circulam. Isso cria toda uma condição para o desenvolvimento de vidas, para a atividade biológica no solo, de organismos, de minhoca, e tudo funciona melhor, né? No caso dos solos, mais os latossolos, que têm um teor de argila maior, o problema de compactação é sério, né?
Mesmo aqui no arenito também, né? Então, assim, o tráfego de máquinas, um tráfego muito pesado, máquinas muito pesadas, isso precisa ser olhado com muito cuidado, porque ele realmente não só impacta o desenvolvimento de plantas por conta dessa desestruturação de poros, por menor aeração e menor circulação de água, o que favorece a ocorrência de erosão, né? Porque quando a água não tem uma infiltração adequada, ela escorre.
Quando ela escorre, ela leva solo, né? A água de escoamento, isso tem consequências muito terríveis, porque as consequências da erosão vão além da propriedade onde está ocorrendo o processo, porque a erosão vai para a água, vai para os leitos dos rios, né? Isso gera contaminação de água, gera encarecimento no processo de tratamento de água para abastecimento urbano.
Então, tudo é muito interligado. E assim, é até arrojado falar, mas a matéria orgânica está no centro de todos esses processos, porque ela está totalmente ligada aos processos de estruturação de solos, com o processo da manutenção da atividade biológica e de crescimento das plantas, em suma, né? Então, é muito importante ter esse olhar sobre a matéria orgânica como um componente do sistema.
Importante, nas minhas andanças, produzindo reportagens por todo esse estado, aqui inclusive estive em outros estados, mas, específico aqui, eu vi muito pessoal usar braquiária para fazer ali a cobertura do solo. Existem outras tecnologias que o senhor pode destacar para a gente ou mesmo trazer mais dados sobre essa braquiária? Olha, a braquiária, assim, eu também fui criado na roça; na verdade, eu sou mineiro, não sou paranaense, né?
E lá em Minas Gerais, nos anos 70, assim, havia uma discriminação muito forte contra a braquiária. O pessoal tinha muito medo da braquiária por ela se tornar uma invasora, por ela ser meterial e entrar no cafezal. Então, toda aquela discussão que aconteceu lá.
Mas hoje a braquiária está sendo usada como uma planta de muita valia, entendeu? Para trazer, para incorporar carbono no solo, para colocar matéria orgânica, para participar como planta de cobertura. E ela é realmente uma alternativa boa para a região.
Por quê? Porque a braquiária é uma gramínea e ela tem uma habilidade de crescimento muito forte. Ela produz um sistema radicular muito agressivo, e esse sistema radicular, de uma maneira ou outra, ele leva e incorpora carbono no solo.
Quando ela cresce, essas raízes crescem no solo, elas vão organizando essa parte da estruturação, ativando a biologia do solo. Muitos organismos se multiplicam no sistema radicular da braquiária, sabe? E, depois, quando essa braquiária é manejada, ou secada, ou termina o ciclo, essa matéria orgânica que ela deixou ali vai motivar uma grande quantidade de biomassa de organismos, organismos de solo.
Então, ela é realmente uma planta interessante para os sistemas de produção, né? A gente sabe que tem vários sistemas de produção aqui na região que usam braquiária consorciada ou em rotação, e de forma, e ela é realmente… Mas tem outras. Eu acho que assim, a agricultura moderna tem que estar baseada no princípio da diversificação dos cultivos.
E é isso que a integração lavoura-pecuária propõe, né? Se você não consegue fazer uma diversificação no mesmo momento do cultivo, você pode rotacionar as áreas, mas rotacionando aquilo que você está fazendo, se é cultivo, se é produção de grãos. Um ano de produção de grãos, depois você reforma e faz pastagem; depois de dois ou três anos, pastagem e roda.
E aquilo tudo vai trazendo um benefício de aumentar a diversidade e a atividade biológica ali no sistema, entendeu? Então, são tecnologias que já são conhecidas, mas elas precisam ganhar corpo no entendimento dos agricultores e na aplicação no campo. Na utilização no campo, eu conheci a tecnologia de integração lavoura-pecuária-floresta na região.
E isso aí, o senhor também trabalha com isso? Existe esse sistema? Nós trabalhamos com esse sistema também, né?
Você tem mil maneiras de fazer integração; vai depender da região onde você está e do seu objetivo, né? A integração da lavoura com a pecuária e com a floresta traz outros benefícios, não só para o solo, mas também para os animais e para a produtividade, porque quando você avalia a produtividade de uma integração, você tem que avaliar o sistema como todo. Então, na integração lavoura-pecuária, a rentabilidade do sistema vai ser o produto da produção de grãos e da pecuária.
Se você analisa um sistema de integração lavoura-pecuária-floresta, a rentabilidade do sistema vai ser o resultado da produção de grãos, da produção da pecuária e da produção florestal, né? Então, assim, o sistema tem que ser analisado como um sistema. E assim, se o agricultor é imediatista, muitas vezes ele acha aquilo complicado demais, uma tecnologia muito demorada, ele não consegue ver o benefício, mas no longo prazo ele vai ter benefícios certamente econômicos e ambientais também, entendeu?
Com redução de erosão, com melhora da matéria orgânica, aumento da atividade biológica, tudo isso vai acontecer. Nós temos exemplos aqui no arenito de integração lavoura-pecuária-floresta muito interessantes, né, que mostram uma aplicabilidade, mostram o rendimento e mostram a melhoria na sustentabilidade dos recursos naturais. Foi muito bom o bate-papo aqui com o senhor.
Pesquisador do IDR Paraná de Londrina, Arnaldo Colossi Filho: "Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de destacar aqui? Então, eu, assim como pesquisador, gostaria de destacar, primeiro, que eu queria agradecer a você, né, que facilita essa nossa conversa com os agricultores, né? Proporciona esse contato com os agricultores, que é muito importante.
E a segunda coisa que eu queria destacar é que, assim, nós não podemos mais nos aventurar em tecnologias, em coisas que não têm uma base científica, né? A pesquisa agrícola e a pesquisa agropecuária são muito importantes, e elas têm que ser regionalizadas. A gente não pode mais pegar tecnologias que são boas para regiões distantes, que não têm aquelas características da nossa região, e usá-las aqui; elas não vão funcionar.
Realmente, esse é o nosso desafio no Paraná. Agora, Paraná já avançou muito na agricultura; nós somos considerados de vanguarda na agricultura de manejo de conservação de solos. Mas o nosso desafio é regionalizar o nosso trabalho.
Aí sim, nós vamos ter um estado conservacionista que preserva os recursos naturais e produtivo, que tem produção de alimentos de qualidade, grãos e fibras de qualidade. Então, pesquisa e difusão são a base de tudo, e a gente precisa de apoio, viu? Isso é muito importante.
Os agricultores têm que valorizar o trabalho. Obrigado! Muito bom, Arnaldo, agradeço aí os elogios também.
O Arnaldo Colossi Filho, pesquisador entendedor, então, essas tecnologias que ele passou para a gente. Está bom? Eu volto em breve com outras entrevistas e mais informações durante o simpósio Bioins, Somos na Agricultura.