[Música] Olá pessoal bem-vindos à semana 7 da nossa disciplina de Literatura e cultura brasileira nós vamos essa semana a tratar de obras textos e autores que abordaram a tópica da terra e a terra nós sabemos que ela pressupõe falar de posse da terra mas claro que também falar do cultivo da terra do Trabalho junto à terra e vocês devem se lembrar lá da nossa primeira aula que nós fizemos uma associação entre cultivo e cultura uma comunidade que trabalha junto à terra que tem ali e o seu cotidiano relacionado a esse trabalho tem evidentemente também a
sua cultura uma cultura própria que inclusive normalmente tem muito vínculo com os ciclos ligados at terra não é Então esse é o nosso assunto dessa semana e nessa nossa primeira aula da semana nós vamos tratar disso daqui ó ter Terra ser da terra e ser a terra porque são coisas bastante Diferentes né uma coisa é a propriedade é ter a terra e isso não necessariamente corresponde na maioria das vezes nem corresponde de fato a ser da terra e muito menos a ser a terra que é essa questão que nós estávamos falando do vínculo eh afetivo
do vínculo cultural que se estabelece com um determinado pedaço de chão né e ah os textos né as obras que abordam essa tópica normalmente são obras que se inscrevem no âmbito eh social né que levantam as questões sociais na literatura porque vocês sabem que a literatura eh eh não se furta a falar de nada tudo é assunto literário então H as doenças a morte as desigualdades as injustiças sociais tudo isso é assunto da literatura e muitas vezes essa problemática da terra se inscreve aí né nesse âmbito Então vamos lembrar do seguinte sempre se abordaram as
questões sociais em Literatura né como é que a literatura consegue eh a sensibilização do leitor e como é que ela aborda essas tópicas de um modo diferenciado né Eh outros discursos podem e fazem isso né tratar de questões sociais o discurso histórico o discurso científico jornalístico enfim a literatura a gente sabe que ela tem o diferencial né que a partir do momento em que ela incorpora a subjetividade né ela consegue apresentar não só uma visão de Fora que seria uma visão mais objetiva mais externa dos fatos mas também uma visão de dentro Como assim aquela
visão de como é que os fenômenos né E essas disputas e esses problemas são sentidos né e percebidos pelas pessoas que são as personagens eh então Eh vale a gente lembrar né como é que a geração Modernista de 1930 1940 teve uma inclinação muito forte né para tocar Nessas questões sociais quase sempre procurando essa visão de dentro do problema né não se limitando a uma visão externa dos fatos só para ilustrar então tem aqui Um uma cena do filme Capitães da Areia né pela Cecília Amado que é neta do Jorge Amado claro que base o
filme baseado na obra Capitães da Areia que é uma obra em que justamente Jorge Amado deixa muito claro né como é que ele se interessou em mostrar a visão da sociedade de modo geral a respeito da vida dos meninos abandonados marginalizados que viviam ali no cais do porto num trapixe abandonado em Salvador sem jamais deixar de fornecer a visão de dentro né como é que eles sentiam vivenciavam as experiências ali de modo que claro que dessa maneira o leitor tem uma proximidade muito maior com essas crianças e e consegue enxergá-las não só como o resto
da sociedade enxerga né como marginais Mas também como crianças que são afinal das contas então nós estamos falando disso né dessa propriedade vamos dizer assim do texto literário eh essa geração de 30 e 40 também se debruçou muito sobre H essa esse âmbito né do trabalho e da posse da terra do próprio Jorge Amado tem aqui Um exemplo que é o livro Seara Vermelha em que vão comparecer a a questão da retirada e do retirante né a gente já conhece esse termo que é a fuga da seca e do messianismo né dos beatos do Sertão
do Cangaço e veja um livro de 1946 que é também o ano de publicação do livro Água Funda de uma autora que nós até mencionamos na nossa aula sobre literatura de autoria feminina em que ela vai tratar de uma fazenda do Sul de Minas mas também percorrendo um período aí que vai desde o fim da escravidão até os primeiros problemas relativos ao trabalho livre ou supostamente livre mas que se revela bastante servil eh e r no Sou de minas isso né não no Nordeste mas eh e ela ali vai estabelecer uma relação muito forte e
muito bonita com a questão da cultura dessas populações né as crenças o misticismo tudo aquilo então que como a gente disse tá eh muito vinculado né gostaria de lembrar também de 1946 é o livro Sagarana do Jong marães rosa porque é um autor de que a gente também já tratou numa aqui das nossas aulas que abordará a questão da Terra e do Trabalho junto à terra e e e fará muita questão de explorar os aspectos culturais do sertanejo e do Vaqueiro umou posteriormente relação e então nac de nós temos o morte Vida Severina de que
nós trat tratamos brevemente num das nossas aulas e que retomamos aqui especificamente para falar disso né dessa nossa tpica da semana morte Vida Severina que é de 56 João Cabral de Melo Neto e a gente tá aqui diante então de uma peça escrita em versos ou de um poema dramático né um poema feito para ser ensenado foi encenado continua sendo ensenado por isso que eu coloquei aqui a oitava cena porque é uma obra dividida em cenas são 18 cenas vocês devem se lembrar da gente ter falado que aqui se conta a trajetória do Severino partindo
do Sertão da região mais árida de Pernambuco eh e atravessando o estado para chegar até o Recife em busca não só de sobrevivência mas alguma dignidade né de uma vida um pouco mais digna de trabalho de emprego muito bem na sua trajetória o Severino Então se decepciona bastante porque parece que ele só vai se deparando com a morte né Na oitava cena a oitava cena tem esse título aqui ó assiste ao enterro de um trabalhador deito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério nós já sabemos que trabalhador direito
é o trabalhador da roça da lavoura e aqui essa cena se passa numa zona Canavieira né o o lavrador da cana de açúcar do latifúndio ali eh do canavial o lavrador será enterrado e está sendo enterrado pelos amigos que ao mesmo tempo cantam enquanto fazem esse enterro Então nós vamos ler um trecho dessa cena eh em que esses companheiros do lavrador morto dizem o seguinte essa Cova em que estás com palmos medida é a conta menor que tiraste em vida é de bom tamanho nem Largo nem fundo é a parte que te cabe deste latifúndio
não é cova grande é cova medida é a terra que querias ver dividida é uma cova Grande para teu pouco defunto mas estarás mais ancho que estavas no mundo é uma cova Grande para teu defunto parco porém mais que no mundo Te sentirás largo é uma cova Grande para tua carne pouca mas a terra dada não se abre a boca Então veja eh nesses versos né bastante célebres bastante conhecidos a gente tem uma perspicácia né e uma ironia por parte desse discurso poético cabralino por quê porque veja o que os amigos do lavrador Estão dizendo
é que essa Cova em que o lavrador morto está tão pequenininha com palmos medida é finalmente a terra que ele gostaria de ter né que ele gostaria de ter dividida é a parte que te cabe deste latifundio Olha como isso toca na questão do trabalho da Posse que não andam juntos né e é um trabalho inteiro então uma vida inteira dedicada ao trabalho junto à Terra para nunca conseguir um pedaço de terra que possa chamar de seu a não ser Finalmente um pedaço de terra Qual a terra da cova né Essa Terra tão pequena e
ainda assim outra oposição né tremenda é uma cova Grande para teu defunto parco mínimo magro pequeno porque é uma referência a condição Severina que nós já abordamos a condição de de desnutrição a condição de sofrer com a seca com a fome né com as dificuldades cotidianas nessa região e então nós temos aqui por meio da ironia claro que uma visão extremamente crítica A respeito dessa cina né dessa vida desse destino de só ser possível obter alguma terra na morte tá essa cena pessoal Aliás o link tá disponível para vocês no nosso material ela ficou muito
célebre ela foi musicada pelo Chico Buarque vocês encontram com o título de funeral de um lavrador né Essa aqui inclusive é a capa do Vinil né do LP olha entre né os romances de 30 e morte vida in nós temos aqui nas artes plásticas também essa tópica numa série do Cândido Portinari chamada os retirantes dessa série faz parte essa tela aqui enterro na rede 1944 Qual é a ideia né mais uma vez o desespero o drama todo aqui da situação é uma morte muitas vezes H precoce né algo até de que João Cabral de mela
neto fala em morte Vida Severina a morte de que se morre de velice antes dos 30 de emboscada antes dos 20 de fome um pouco por dia e aqui a pobreza que persegue esses habitantes até mesmo na morte vocês veem que não existe caixão né é um enterro na rede é um um um enterro pobre vamos dizer assim né se consiste em embrulhar o o defunto o cadáver nesse pano nessa a rede e depositá-lo na terra falando de falando sobre isso né Eu gostaria de ler com vocês um dos cemitérios pernambucanos João Cabral de Melo
Neto existe um texto sobre isso também no nosso material de base essa semana esse aqui então é um deles é o cemitério Pernambucano de Nossa Senhora da Luz também é uma região Canavieira em outros poemas ele vai tratar de outros cemitério nordestinos e aqui ele diz assim ó poema diz assim nesta terra ninguém jaz pois também não jaz um rio noutro Rio nem o mar é cemitério de rios nenhum dos Mortos daqui vem vestido de caixão portanto eles não se enterram são derramados no chão vem em redes de var abertas ao sol e a chuva
trazem suas próprias moscas o chão lhes vai como luva mortos ao ar livre que eram hoje a terra livre estão são tão da terra que a terra nem sente sua intrusão então a gente vê aqui né nesses quatro quartetos como é que existe a menção aos mortos desse cemitério aos mortos de um de uma região pobre de um cemitério pobre como é que eles vêm vestidos é uma metáfora que ele também emprega em Morte e Vida Severina né Eh não vem vestido eles não vem vestidos de caixão né Isso seria então praticamente um luxo nessa
região eles não se enterram eles são derram ados no chão ao mesmo tempo em que tem uma grande desumanização nesse derramar no chão ã Claro que existe também a própria identificação com o grão né com a semente e aquela relação que nós falamos do vínculo extremamente forte entre o trabalhador e o seu trabalho então não vem em caixão vem em redes nos nos remetemos imediatamente ao quadro portin né enterro na rede vem redes e o chão eles vai como luva então serão envolvidos por esse chão O que será que quer dizer mortos ao ar livre
que eram né eram mortos ao ar livre Car claro que é uma referência a morte em vida percebam que como a morte né é uma metáfora a morte é uma metáfora para falar de uma vida eh de privações né uma vida de carência uma vida de fome uma vida de dificuldades essa a tal morte em vida então eram mortos ao ar livre hoje a terra livre estão né E são tão da terra que a terra nem sente essa intrusão essa espécie de invasão do morto é uma total né e definitiva identificação entre a Terra e
o trabalhador da Terra associando com Morte e Vida Severina então nós temos essa perspectiva né crítica a respeito da distância que existe entre ter a terra ser da terra e ser a terra até a nossa próxima aula em que continuaremos a falar desse assunto até lá [Música] e [Música] [Música]