Narrativas compartilhadas continua ouvindo. Então, professor Fernando Negrão, agora contando a experiência dele entrando no curso de jornalismo na PUC de Campinas. Bom, chegando em Campinas, antes de propina propriamente dita, conversando com os meus pais, nós sentamos.
A gente tinha o hábito em casa de falar, fazer mesa redonda. Era um hábito da família, e conversávamos muito: eu, meu pai, minha mãe. Meu pai abriu o jogo e falou: "Olha, quanto vai custar para você ir para Campinas?
" Nessa época, a gente não estava morando mais na loja, lá em cima da loja tínhamos uma casa em outro bairro da cidade de Vera Cruz. Já estavam casados, enfim, era uma casa muito grande e confortável. Ele falou: "Olha, você vai deixar essa casa, vai precisar acertar a vida.
Quanto é que vai custar por lá? Bom, então vamos fazer a conta: mensalidade, transporte, alimentação, as atuais outras despesas com livros, material que você vai precisar comprar, o seu cotidiano ali, roupa para lá e para cá, a faculdade. .
. Enfim, então o pai tinha muita pouca instrução: ele falava que tinha até o primeiro grau completo, só pela galera de Paranapanema, um lixão. Falava que era de Bonsucesso, mas ele era mais.
Só que naquela época, tinha o conhecimento empírico do comércio, então era na base da uma lápis e do papel. Ele fez a contabilidade comigo. Ele, meu pai, minha mãe, fizemos as contas.
Ele falou: "O pai pode ajudar aqui que 50% tá. Então a faculdade eu pago e te pago o aluguel para você morar e você estudar. Agora, as outras despesas você vai ter que se virar para transporte e alimentação.
" Não é fácil imaginar alimentação: "A gente faz aqui em casa, você leva congelada. A gente vai comprar uma bolsa térmica, você leva. No final de semana, abastece a geladeira.
E nós temos bastante móveis aqui em casa. A gente leva: tem geladeira, tem fogão. Então você se vira aí com essas coisas.
Então comida não vai faltar. " Então tudo bem. "Bom, então a roupa você traz," falava.
"Aqui não vai precisar lavar roupa, lavada, para pagar ninguém pra lavar roupa. Não, são todas essas coisas. Você tem que pensar como vai sair de casa.
" Então tá bom. Então fizemos as contas e eu falei: "Bom, mesmo assim, aos finais de semana eu venho para Sorocaba e trabalho, né? Faço os free lancers aqui na nova pra loja.
" A loja estava fotografando casamentos, muitos eventos. Então meus irmãos falaram: "Sem problema. Então a gente monta uma agenda pra você.
Então você vem pra cá, você vai estudar, às sextas-feiras à noite já poderia começar a fotografar. Sábado e domingo, então era o conselho: sexta à noite sempre vai ter evento; sábado sempre tinha um casamento; domingo, tinha aniversário, batizado. .
. Enfim, eu trabalharia como fotógrafo social novamente e manteria as minhas atividades. " E eu falei: "Bom, lá em Campinas também eu vou tentar me virar.
" Bombeiro. Então fui lá pra Campinas, matrícula estava na primeira, segunda semana, pra um branco. Um mês pra me entender onde pega o ônibus, onde vai à faculdade, à alimentação, como é que funciona.
Esquentar comida, deixando esquentar no sistema de ondas, na época, tá? Esquentar em banho-maria. Aê, morava com mais um amigo até Sorocaba.
Ele já estava um ano na frente e fazendo publicidade. Então a gente dividia o apartamento. Não estava lá me familiarizando.
Foi bom. Agora preciso dar conta da minha vida também, não vou ficar só estudando. Tenho a tarde toda livre, não vou ficar ocioso, não vou ficar dormindo da tarde.
Eu já tinha 21 anos, né? Então eu já tinha entrado na primeira rodada com 18, fiquei 5, 19, apareceu outra vez a faculdade com 20 e entrei na volta à faculdade em 2011. Então aí peguei a lista telefônica, que hoje muitos ocultam, a moçada não conhece telefone.
Fui ver as emissoras de rádio, sair com quem trabalhou em rádio pela lista telefônica. Peguei, aprendi e soube também que o Benjamim Constant tinham duas emissoras no mesmo prédio, pela lista: Rádio Brasil e a Rádio Educadora. Então vamos lá.
A Rádio Brasil era no terceiro andar, a Rádio Educadora no quinto. Então cheguei no terceiro andar, na Rádio Brasil, sistema Globo de rádio. Estava lá, faixa bonita, lá um fundo da Rádio Globo, e currículo que eu tinha da pilota afago na minha máquina de escrever que eu levei.
Já o certificado do curso de radialista do Senac, a minha experiência do diário, já aluno do curso de jornalismo da PUC, certificado e tal. Conversei com a recepcionista da rádio. Ela foi o momento do jogo, verificar se alguém pode atender.
Aí me apresentou o diretor da rádio. Ele falou: "Vou fazer um teste. " Aí fui fazer um teste lá e eu lembro até hoje.
Ele falou assim: "Grava a vinheta do jornalismo: ‘A informação exata no momento preciso: Brasil Notícias’. " Levou o rapaz e: "Não é por um motor de noticiário. " Você vai bem, você faz esporte.
E falei: "Fácil, fazer nada. Eu não sei quantos jogadores em campo até hoje. O esporte faz isso também, faz qualquer coisa.
Produção do programa foi a AFA também, não sabia o que era, mais fácil. " Então tá bom. "Faça o seguinte, você agora posso te pagar tanto e mais um marmitex.
" "Roupa legal. " Eu soube que você emitex. Aí como é que vai funcionar?
"Você tudo de manhã em estudo, agora você pode chegar aqui na rádio pra eu sair da faculdade, 11 horas, pega ao meio-dia. Posso chegar aqui, você vai trabalhar no meio-dia, 6. Você chega, se almoça e já fica a tarde inteira aqui.
Eu posso te pagar um showroom, valores mais ou menos o valor do estágio. " Salário mínimo já resolveu a vida, né? Então, esse outro valor.
. . E se eu vou aprender a votar numa rádio grande?
Quebra do sistema Globo? Eu já vou começar aqui a me virar. Enfim, aí foi sensacional isso, né?
Esse cotidiano da rádio e produzir um programa popular de Campinas chamava “É Mal”. O programa era “Campinas, Campinas, meu amor”, com Mário Celso. Então, eu fazia diariamente o programa porque adotei Campinas para viver.
Então, as pessoas mandavam cartas. Eu tinha que adaptar a carta para a característica do programa. Tinha dia que não tinha carta e eu inventava carta, porque não tinha Campinas para viver, né?
Essa história da minha vida era toda sexta-feira uma história. Essa história da minha vida! Então, tinha também cartas que mandavam.
Eu tinha certeza que não chegava a carta, eu tinha que inventar carta. Essa história da minha vida tinha receita da semana; tinha que ter a receita que as pessoas mandavam também. Que esta semana que não tinha receita.
. . Também havia a mãe do bebê, um livrinho de receita; e eu tinha que colocar a receita muito fácil, porque na linguagem do rádio, para a pessoa fazer uma receita em casa.
Enfim, ele é o pai, o popular de grande audiência e eu adorava fazer isso, e fazia. E aí, aos finais de semana na rádio, quando eu tinha jogo, Campinas tinha dois times grandes, né? O Guarani e a Ponte Preta.
Eu era escalada para cima pela equipe do esporte para fazer o chamado repórter da galera. Só que Sorocaba não pegou, não funcionou. É, ela que é muito cara, porque era o terceiro repórter.
Então, você tem o repórter que vai para o jogo, no caso quando era o mandatário do jogo; o repórter da Ponte, o mandatário do jogo; e o repórter que é do outro time adversário, o comentarista, o narrador esportivo. E o terceiro repórter fica na torcida do time da cidade. Esse terceiro repórter é acionado quando não tem mais nada a falar.
Se tá, então a bola saiu de jogo ou uma jogada bruta, alguma jogada que. . .
o que se questionar o juiz? Ele fez algum comentário, ele deu um cartão, qual é opinião do torcedor? Então vamos acionar o repórter da galera.
Então, eu estava na torcida ouvindo os torcedores, né? E aí, o repórter da galera era acionado para fazer entrevista com os torcedores ali, então era muito legal! Então, eu ali aprendi um pouco no futebol e ele era o rádio fazendo a televisão, fez exatamente isso.
Então, estava na torcida, chegava cedo no campo para fazer a função do serviço. Olha como está a situação do trânsito, bem pela rua tal. .
. Então, ficava fora do estádio antes de começar o jogo dando orientação se ainda tinha ingresso e se tinha cambista. Enfim, dava orientação antes de começar.
Agora, mas o jogo ia pra dar pra galera. Era um repórter da galera. Terminava o jogo e fazia perguntas para o comentarista da rádio.
“Olha, o Roberto está aqui do meu lado e ele está querendo saber se agora, com esse resultado, o time tem condições ou não de ir para a segunda fase. ” Aí fala, Roberto, você faz a pergunta. E o comentarista Neto falou: “Roberto, a situação é a seguinte, vamos fazer uma análise da sua pergunta”.
Então foi muito legal saber que o chamamento de rádio, né? Peguei a Roberto. Acho que é o que eu faço questão hoje me aproxima muito dos alunos, porque eu tive esse carinho dos professores comigo também.
Então, quando também comecei a me aproximar, também, dos professores da faculdade, essa minha passada pela rádio foi até rápida, porque, como eu fui, de repente, sem falsa modéstia, um aluno que já veio com uma bagagem da prática. Mas eu percebi que a teoria era fundamental, essencial para a minha formação, tá? Então, eu devorava os livros.
Então, o que eu ganhava na rádio, o dinheiro que eu ganhava de influência em Sorocaba também eu tinha uma biblioteca minha e também não estava porque sabia que precisava. Não negou, via. Então, eu comprava os livros, sim.
Eu lembro que existia uma livraria grande aqui em Sorocaba que eu ligava para minha mãe, pedi para que ela fizesse a compra por amigos. Jerry, tá? Não era da minha terra, era de ali, no centro da cidade.
Era um rapaz que era físico, não é? O grupo Time-Life. Aí, minha mãe ia lá fazer encomenda dos livros, taquigrafia; e eu tinha que colocar a receita muito fácil, porque na linguagem do rádio, para a pessoa fazer uma receita em casa.
Enfim, ele é o pai, o popular de grande audiência e eu adorava fazer isso e fazia. Então, começamos a produzir também um tablóide semanal para o jornal Correio Popular de Campinas. Era um tablóide agrícola, chamava Folha.
Verde já estava no auge, a agricultura regional em Campinas. Eu viajei muito para fazer este blog, então, nos horários, comecei a matar aula e aí, algumas matérias, ficava dois ou três dias viajando, fazendo reportagens sobre agricultura. Então, viajei muito para fazer matérias de novos tipos de plantas, novos tipos de cultura e novos tipos de defensivos agrícolas.
Então, eu comecei a me especializar em educação sobre tipos de culturas diferentes da agricultura. Então, esse professor ali começou a ampliar o leque e eu era repórter dele, porque eu fotografava e escrevia os textos, e, obviamente, ele era editor. Então, ele fazia e eu comecei a ganhar cada vez mais, um salário legal já nessa época.
Então, tive uma vida tranquila, literalmente, porque meu pai continuava ajudando. Não dava para pagar todas as contas, mas já dava para ter uma vida confortável. Então, dava para viver ali em Campinas tranquilamente.
É que meu amigo acabou saindo do apartamento e eu morei sozinho, porque eu tinha mais tempo para estudar e tinha mais conforto. Eu tinha mais liberdade de guardar os meus livros, de estudar na hora que eu queria, de fazer minhas pesquisas. Enfim, então foi muito bom esse momento, de estudar, de pesquisar, de trabalhar.
Então, foi muito interessante esse período em que fiquei apenas me dedicando a isso. E aí chegou o fim da faculdade: chegou o fim da faculdade em 91 e aquela angústia de todo aluno bom. Eu estava na expectativa de montar uma produtora de vídeo em Sorocaba.
Eu tinha feito alguns ensaios já na cidade. Eu tinha um primo que já estava aqui. A gente tinha montado algumas coisas para fazer, algo pequeno, mas já havia uma estrutura do equipamento.
Já tinha, inclusive, montado algumas coisas com ele para a produtora. Já tinha comprado câmeras e uma ilha de edição. Embora eu fosse para a cidade como jornalista da produtora para fazer nosso trabalho, a TV já tinha chegado aqui.
A Globo e o SBT estavam chegando também. Eu pensava: “Agora a gente vai montar uma produtora na cidade. ” Uma amiga que trabalhava no SBT em Campinas me disse: “Olha, eu vou sair da televisão.
” Ela fazia estágio na faculdade e cantava na televisão. Ela ia embora para São Paulo, porque minha família disse que, terminando a faculdade, ela deveria voltar para casa. “Você quer fazer um teste lá na TV?
” Eu disse: “Puxa vida, vamos fazer um teste lá! ” E aí eu fui fazer o teste. Nunca tinha trabalhado em televisão, apenas tinha feito experiências na época da faculdade.
Fui fazer o teste no SBT durante o período do Natal, nos dias 22 e 23 de dezembro. O diretor de jornalismo, então, peguei meu terninho. Parecia que não combinava nada, o blazer não combinava, o sapato, mas era o que eu tinha.
Ele falou: “Bom, então você vai para a rua. ” Eu assistia muito televisão. Eu acho que, nesse momento, estava no ritmo com os alunos.
Eu assistia muito ao SBT; o SBT tem um programa popular de jornalismo chamado “Que Agora? ” Eu era fissurada naquele estilo, porque era um estilo de rádio, com reportagens narradas. Um repórter tinha que ter criatividade para cobrir os fatos, comentando e fazendo entrevistas.
Enfim, eu gostava muito dele, do Silas. Quando cheguei no SBT, no primeiro dia para fazer o teste, o estilo da reportagem local era formal, chamado off, passagem sonora. Aconteceu uma matéria sobre uma tragédia: um cachorro que escapou de uma casa, um dogue alemão, que atacou duas crianças que estavam na frente da residência.
Quase machucou as crianças e eu cheguei faltando dez minutos para o jornal entrar no ar. Fiz essa reportagem em forma de narração. O cinegrafista falou: “Olha, faça em forma de narração, porque não vai dar tempo de você fazer a matéria convencional para a gente colocar no ar agora.
” Então, já sabia como fazer. Você usa a experiência do rádio; o texto já vem dentro de uma sequência para elaborar na cabeça, porque eu já via onde estava acontecendo e como o fato tinha ocorrido três horas antes quando chegamos. Para minha felicidade, graças a Deus, a criança já estava saindo do pronto-socorro com curativo, mas estava viva.
Então consegui entrevistar também a mãe da criança. "A criança está bem. Aqui está a entrevista com o bombeiro.
" Enfim, toda matéria correndo pela televisão. A matéria entrou no ar e o diretor do jornal, ao ver minha matéria, me parabenizou: “Você passou no teste, então você vai ficar com a gente como repórter, se você quiser ficar. ” Lógico, era meu presente de Natal.
Então, a partir de hoje, aprovado, você fica aqui como repórter da televisão. E aí foi isso que aconteceu. Comecei a trabalhar no SBT e, aí no SBT, fui repórter, produtora, cheguei a ter uma carreira sem mudanças.
Em oito meses, fui várias vezes a São Paulo fazer cursos. No TJ Brasil, aqui no jornal do SBT, conhecendo a dinâmica do jornalismo nacional do SBT. Em oito meses, assumi a chefia do departamento de jornalismo da emissora.
Então, acho que essa trajetória, tudo que eu tinha trazido de experiência. . .
O currículo, com a minha indicação do repertório de jornalista, fez com que, em oito meses, a direção da casa percebesse que eu poderia assumir a direção de jornalismo. Então, eu, muitos colegas mais velhos, professor, a minha professora de jornalismo, que também trabalhava na emissora, de repente, ela era minha ex-professora Elvira, chefe dela. E ela foi, muito pitoresca essa situação.
Você sabe, eu estava com 24 anos, né? Eu fui chefe da minha professora. Sempre foi um método muito legal.
Então, você, daqui a pouquinho, continua contando a história. E aí, ela me passou o carro, como você deve saber. Então, até daqui a pouco!