É, e aí eu acho que uma outra peça que é muito, muito importante foi uma peça que a gente lutou muito para fazer já no núcleo experimental, que a gente fez com pouquíssimo dinheiro, que a gente fez com muita vontade, porque era uma vontade represada de muitos anos. E que eu acho que é um caso único, assim, de a peça ser feita no momento certo, na hora certa, do jeito certo e para a plateia certa. Que foi original, original!
A gente vivia naquele momento ou aquele drama terrível da crise hídrica. A gente não sabia se até água, senão ia até água. O que acontecerá daqui uns meses?
Existe racionamento de água? A Sabesp diz que não existe, mas existia, porque no próprio teatro, às nove da noite, água cortada. Quando dava intervalo da peça, as pessoas iam no banheiro e não tinha água para dar descarga.
Elas achavam que era golpe de marketing da gente, mas não era, simplesmente porque não tinha água mesmo. A Sabesp cortava às nove da noite até às nove da manhã do dia seguinte. [Música] E foi depois que eu voltei de Londres que dirigi essa peça.
E lá eu entrei em contato com um autor chamado David. E ele mudou. Li as coisas do David Hare, li as entrevistas de David e assisti à entrevista do Bié.
Mudou um pouco algumas coisas pra mim, principalmente porque, numa das entrevistas dele, perguntaram pra ele assim: "Ele é dramaturgo acima de qualquer coisa, que também dirige. Ele tentou ser ator uma única vez, depois desistiu, mas ele é basicamente um dramaturgo. " E perguntaram um dia pra ele: "Sobre o que você gosta de escrever?
" E ele respondeu: "Eu gosto de escrever sobre as coisas que me dão raiva. " E essa frase nunca saiu da minha cabeça, nunca, nunca saiu da minha cabeça. E hoje em dia, com o núcleo experimental, isso é um mote para a gente.
E eu já disse várias vezes que lá no núcleo experimental a gente gosta de fazer teatro a respeito das coisas que nos dão raiva. Tudo o que acontece na porta do teatro pra fora, que deixa a gente muito indignado e com raiva, são as coisas que a gente escolhe hoje em dia. E por isso a gente escolheu fazer "1984", uma peça que fala sobre coisas terríveis que o geógrafo previu que aconteceriam há 35 anos atrás, mas que aqui ainda acontece hoje em dia.
Por isso a gente escolheu fazer "Senhor das Moscas", uma peça que fala sobre a escalada do fascismo entre crianças que ficam perdidas em uma ilha. Por isso a gente resolveu falar de "Lembra Todo Dia de Você" pra falar de como é a vida do soropositivo e, Ailton, todas as questões terríveis que o soropositivo enfrenta, porque ainda é uma categoria de pessoas que sofre preconceito, que sofre, que são estigmatizadas simplesmente porque carregam dentro do corpo um único microorganismo que é diferente de todas as outras pessoas. E por isso a gente continua escolhendo esse tipo de material, né?
"Preto no Branco", que fala sobre o racismo, "Ou Você Poderia Me Beijar", que fala sobre a questão homoafetiva. Enfim, são escolhas que vão sendo feitas em função do original, né? "Original" que é basicamente uma peça sobre corrupção e como a corrupção pode destruir todos os pilares civilizacionais de uma sociedade.
Mas a outra coisa que é importante falar do núcleo experimental é que uma das coisas que a gente se dedica integralmente é em criar um tipo de teatro que alia inteligência a entretenimento. A gente jamais vai deixar de lado as questões que são relativas ao entretenimento. E essas questões que são relativas ao entretenimento, elas não são frívolas do nosso ponto de vista.
Elas são questões que são relativas ao entretenimento: a qualidade da produção, o apuro visual, o apoio técnico, a qualidade dos atores das interpretações. Isso tudo tem a ver com essa coisa chamada entretenimento, né? A gente só faz um esforço perene de tentar aliar essas duas coisas, né?
De tentar fazer entretenimento aliado à inteligência, porque eu acho que daí o teatro se potencializa, né? Um do outro, assim, quando essas duas conseguem acontecer concomitantemente. E aí parece que tudo faz sentido, e que você está fazendo uma coisa que tem penetração, vamos dizer assim, que tem relevância, que você não está fazendo por ego ou por diletantismo, ou por uma satisfação pessoal, né?
Aí parece que tudo faz sentido, e parece que é uma coisa que encaixa na outra, e que o público, de fato, é atingido pelo que você está fazendo. Eu não preciso disso. E de bons a devida licença para.
. . Se deve, se sente quando você é importante.
Pelo mesma coisa, você. . .
[Música] Para viver como diretor de teatro, eu demorei um pouco mais para viver de teatro. Não porque a atividade pedagógica, atividade de professor, ela rapidamente começou a me remunerar. Ela é uma fonte de renda complementar para mim até hoje, né?
Tanto em todas as escolas pelas quais eu passei, como nas oficinas do núcleo experimental. Graças a Deus, as oficinas do núcleo experimental são muito concorridas, né? Então a gente sempre tem muita gente boa, muita gente interessada.
Nas últimas edições, eu tive que abrir novas turmas e tudo mais. Mas eu acho que, quem tem, além de trabalhar como diretor e como professor, eu também faço cenário e figurino. Então, muitas vezes sou chamado para fazer cenário e figurino de outros projetos, de peças de outros diretores ou de companhias diferentes e tudo mais.
Mas eu acho que quando você. . .
isso é uma coisa que vem de lá de Sorocaba, né? É quando você passa pelo teatro estudantil, quando você passa pelo teatro amador, você tem que subir na escada, afinal, refletor. Eu me lembro nitidamente dessa imagem.
Na minha cabeça, eu de shortinho curto na escada no salão nobre do Getúlio Vargas afinando a meia dúzia de refletores que tinham lá naquela época, né? Então, ah, ah, ah, ah. .
. as atividades eram, as células vão se popularizando e aí você acaba conseguindo, sim, viver de teatro. Se fosse pensar só como diretor, aí demora mais, né?
Mas, como sendo uma pessoa do interior, eu acho que a gente é mais um pouco mais ligado nisso, né? Eu percebo isso talvez um pouco vivendo aqui em São Paulo. Com todo mundo, a gente existe um pedaço, como se fosse um pedaço meu que nunca saiu de Sorocaba.
Eu volto pouco para Sorocaba porque não consigo, embora tenha toda uma família da minha família que mora lá. Eu vou pouco a Sorocaba, mas tem um pedacinho dessa história que é um pedacinho que tá lá em Sorocaba e que tá lá dentro do Getúlio Vargas, mais do que qualquer outro lugar, e que nunca vai sair da loja, sabe? Vai sair nunca de lá de dentro.
E, curiosamente, são memórias que são memórias muito mais fortes do que algumas memórias de coisas mais recentes, sabe? De coisas que aconteceram depois. Então, a formação em artes, ela é de mais importante.
Você pode parecer que vão virar artista, pode ser que não, pode ser que a sua vida vá pra outro lugar, pode ser que o seu trabalho seja diferente, mas a formação em arte, ela dá uma certa sensibilidade pra vida, para o mundo, que não tem outra coisa que faça, né? Mas se eu não tivesse entrado em contato com isso, e se não tivesse tido esse Getúlio Vargas, não fosse essa escola que ele foi, porque foi brilhante, foi brilhante! Eu estudei dez anos lá e se não fosse lá.
. . então, isso não pode ser acidental.
Isso tem que ser em todo lugar, sabe? Tem que ser em todo lugar. Não pode privar uma pessoa de ter essa experiência, não porque ela vai virar um artista, mas porque ela precisa passar por isso, porque passar por isso pode fazer com que ela seja uma pessoa mais feliz.
Uma coisa que você fala: "você fala português, mas ainda tem muito presente". Como fica? Você consome?
Escreve? Eu sou um exemplo. .
. como assim? Olha, eu sou uma intenção da ONU!
Não sei se a intenção é essa. Eu fiz o mestrado na. .
. em Londres, mas não nem procurar revalidar nada disso, porque eu já entendi faz tempo que, se eu for pra carreira acadêmica, vou querer me dedicar a essa carreira acadêmica e aí não vou conseguir fazer as outras coisas que eu faço, né? As outras coisas que eu faço, elas tomam praticamente todo o tempo da minha vida, sabe?
Eu geralmente tô. . .
eu posso. . .
as pessoas da minha família, tanto de Sorocaba quanto algumas pessoas que moram no Nordeste também, meus primos, meia tinha. . .
tal, eles sabem que virou até uma piada, uma chacota familiar, que assim, eu não atendo o telefone porque estou ensaiando. E geralmente é isso: não atendo telefone porque estou ensaiando. Eu vivo dentro de sala de ensaio ou dentro de sala de aula, então eu não conseguiria hoje migrar para uma carreira acadêmica.
Eu fiz o mestrado porque tinha uma dívida comigo mesmo por ter largado uma estrada no meio e porque eu queria. . .
e para a chapa que eu precisava ter uma experiência fora do Brasil, que desse toda uma renovada no ar que eu respirava no fazer teatral. E eu que agradeço mesmo você, parte a essa sua história maravilhosa. É muito bom lembrar tudo isso, é muito bom fazer essa retrospectiva.
E tem aquela frase: "ver o clichê são janelas". Pra mim, é um pouco isso, assim. .
. aquele. .
. não sei de quem é a frase, mas é "não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez", né? Impossível não é, mas durante muito tempo parece que é.
. . é porque ou porque ficam dizendo que é, ou porque você mesmo se convence de que é, né?
Mas se você simplesmente nem pensar que seja, você vai lá e faz.