Bom chegamos a final ao terceiro e penúltimo vídeo aqui sobre crônica da casa assassinada que é um romance do Lúcio Cardoso que estamos lendo coletivamente dessa vez eu vou comentar um pouquinho de algumas coisas que acontecem entre o Capítulo 29 e o Capítulo 42 O que significa que nós já estamos em um ponto muito adiantado da narrativa de modo que se você ainda não está lendo este livro ou não quer Receber nenhum tipo de spoiler eu sou sugiro que você assista a outros dentre os inúmeros vídeos aqui deste meu canal certo e aí quando você
tiver lendo o livro você volta aqui para esse feito esse aviso eh quando eu pensei na divisão desse cronograma de leituras eu fui assim muito mais pelo número de páginas etc mas eu acho que eu acertei muito na maneira como Eu dividi ainda que de de modo inconsciente ã essa esse livro né Pensando na quantidade de Capítulos para cada vídeo de discussão isso porque eh assim como aconteceu nas vezes anteriores agora a gente terminou a leitura em um ponto muito instigante da narrativa uma vez que é no Capítulo 42 que se revela que a doença
ã que acomete a Nina É de fato câncer Como eu havia meio que acertado no chute no vídeo passado né E aí aliás eu fiquei pensando bastante que na verdade desde o início do romance essa doença já estava Meio que espreitando de modo silencioso então por exemplo se não me engano lá no Capítulo 34 do livro que é o quinto Diário da Bet agora né nessa parte que nós lemos eh existe um momento em que a Nina coloca fogo em vários daqueles vestidos que no início da narrativa eram um motivo de orgulho para ela e
E aí a Bet ela descreve toda essa cena com muito espanto o que dá a essa atitude da Nina uma carga dramática que é muito interessante em termos narrativos né Porque ã uma vez que aqueles vestidos significavam tanto pra personagem o fato dela tê-los queimado é algo surpreendente e a Bet ela consegue e passar essa surpresa de maneira muito satisfatória digamos mas o que me interessa aqui é pensar que ao mesmo tempo em que a Nina estava ali queimando o tecido das roupas os tecidos internos dela estavam sendo destruídos pelo câncer né então Eh acabei
fazendo esse paralelo depois de descobrir que de fato A coitada está com câncer e aliás eu fiquei até um pouco eh me sentindo um pouco mal porque no vídeo passado eu falei alguma coisa semelhante a ou essa personagem está com câncer e aí por isso que ninguém quer falar o nome da doença ou na verdade ela está fingindo e é por isso que ela não fala o nome da doença né e agora descobri que ela tá com uma doença com câncer em estado tão avançado me deixou meio que me sentindo assim com um pouco de
remorso Mas enfim eh Pensando ainda nesses exemplos de como a doença já estava lá desde o início da narrativa espreitando a a personagem quando a nina já está doente já sabe que está doente mas ainda não revelou isso para ninguém existe um momento em que o André que é o filho dela com quem ela se relaciona de maneira sexual mesmo e aí tem um momento em que o André coloca a mão no corpo da Nina e ele percebe que o corpo dela está diferente e aí ele começa a pensar olha Talvez ela esteja doente de
algum modo e esse trecho está na página 361 dessa Minha edição aqui nele disse o seguinte eh a expressão do seu rosto não era habitual mas a de quem realmente luta contra uma dor física e intensa encostada à parede dirse ia que ouvia não a ressonância do que se passava no mundo exterior mas o secreto embate daquilo que surgia e se desenlaça-se aos meus olos E pude Verificar como emagrecera naqueles últimos tempos como seus traços haviam se alterado mais Agudos reforçados pelas reentrâncias como tremia Diante de Mim pobre e sem defesa sua modificação era tão
extraordinária que eu chegava a perguntar a mim mesmo se na verdade aquela mulher fora Bela Algum dia se o fascínio que ela exercia sobre meus sentidos não seria e da minha parte um diabólico equívoco né Então veja eu achei esse trecho Interessante porque assim Isso demonstra que os outros personagens também perceberam que talvez o estado da de saúde da Nina não seja tão tranquilo assim e E aí outro sinal dessa doença dessa vez um Sinal mais simbólico digamos é o seguinte logo no primeiro vídeo dessa dessa série sobre crônica da casa assassinada Eu mencionei o
modo como existe ali uma correspondência entre o corpo da Nina e a casa dos Menezes e Existe um trecho que eu li Se não me engano na primeira no primeiro vídeo aqui de discussão existe um trecho em que o médico ele tá chegando à chácara e ele descreve a casa ao longe como se fosse um corpo doente eh e inclusive ele chega a dizer ele chega a usar a palavra Gangrena para poder se referir ali a casa né ou seja de certa maneira essa descrição do médico eu acho que eu falei isso naquela ocasião acaba
Personificando a casa acaba dando vida à casa mas ao mesmo tempo é uma vida que se deteriora é uma vida prestes a acabar pois bem já no Capítulo 42 que é então o último capítulo que nós lemos e que portanto é o capítulo em que se revela a natureza de fato da da doença da Nina eh esse mesmo médico faz uma descrição muito semelhante do corpo dela o que reforça então essa respondência entre o corpo e a casa e aí eu gostaria de ler o trecho em que essa Descrição aparece isso que eu vou ler
está entre as páginas 420 e 422 diz-se então o seguinte o mal indiferente ia se alastrando pela sua carne e abrindo pequenas Ilhas róseas e canais escuros e veias que se levantavam entumecidas e roxas áreas de longos e Caprichosos desenhos uma geografia enfim da destruição lenta e sem remédio e aí mais adiante o médico continua Dona Nina achava-se realmente em muito mau estado da borda do seio que era de onde partia O filamento principal e que já se mostrava quase que inteiramente de uma cor roxo escura sucedia uma série de manchas que ia finalizar nas
costas o que indicava no interior uma série de tumores bastante difíceis de serem estirados as zona afetada era extensa demais e qualquer esforço operatório resultava praticamente inútil também não devia ela se achar com organismo em muito boas condições pois reagia mal sem nenhuma vitalidade específica a pele nas Costas já se esgarça aqui e ali mostrando lábios entre partidos como os de um fruto já muito maduro até on diria aquilo não poderia avaliar mas literalmente e para que compreendam bem a minha impressão ela parecia estar se decompondo em vida e aí eh eu não sei vocês
mas eu fiquei muito impressionado quando eu li esse trecho e e eu acho que tão impressionante quanto essa descrição feita pelo médico Ah é o trecho seguinte que é o momento em que a Nina fala sobre Como percebeu como ela foi se dando conta de que estava doente e de que essa doença não era tão simples assim e é isso que eu vou ler tá na página seguinte 423 contou-me num esforço que uma ou outra vez se Detinha como os feridos que se arrastam e se apoiam a um muro a fim de readquirir forças e
que possuí um grão sobre o seio não maior que uma Pitanga e incolor não sabia como machucar um dia este grão e ele enchar enquanto ela o tratava com compressas e Remédios caseiros até o momento em que descobriu abaixo do seio uma mancha escura como uma equimose olhando-se no espelho vira outras que desciam em direção às costas experimentara com o dedo não doíam e aí um pouco mais abaixo o médico continua dizendo numa certa manhã levantando-se vira o lençol Tinto de sangue trêmula Viera até o espelho apalpar as costas e retirar os dedos sujos de
uma matéria purulenta só aí dissera que necessitava Ir ao Rio procurando médico em segredo sem dizer nada a ninguém Então veja que eu imagino que essa ideia do recer em vida que o médico menciona aqui em dada altura vai ser mais explorada na na última parte que nós vamos ler do romance mas já nesse início nesse momento eh do diagnóstico do Câncer eh já é meio perturbador pensar que uma mulher de uma beleza tão proverbial cuja aparência sempre despertou eh o fascínio e a curiosidade de todo todo mundo assim Como aconteceu também com a Chácara
dos Menezes que sempre atraía a atenção eh de Vil de Vila Velha Mas enfim eh é muito perturbador pensar que essa personagem que a gente foi acompanhando ao longo de toda a narrativa mesmo sabendo que ela iria morrer mas enfim é perturbador pensar nela ã como essa pessoa que está agora se desmanchando o que de certo modo se liga a forma do romance que também é uma forma que se desmancha que Também é uma forma atomizada Então veja só assim como o câncer vai se espalhando pelo corpo da Nina assim como essa doença vai se
ramificando a própria narrativa também se ramifica a própria narrativa também se espalha por meio desses vários narradores há então a metáfora do Câncer como uma doença que vai corroendo lenta e silenciosamente a pessoa até chegar ao ponto ali em que não dá para fazer mais nada e essa metáfora se aplica também ao declínio da Própria família Meneses que foi aos poucos decaindo foi aos poucos sendo destruída por um mal interno tal qual um câncer que vai corroendo o corpo do doente isso torna a fragmentação dessa narrativa ainda mais genial porque ela representa não apenas o
fim da narrativa e da família tradicionais mas também representa o apodrecimento de um tipo de discurso de uma visão de mundo de um posicionamento diante das coisas e aí eu volto Aquela minha dúvida do vídeo Anterior que é a quem interessa revisitar tudo isso e reconstruir recuperar os fragmentos dessa dessa história outra coisa também que eu pensei a partir desse corpo doente da Nina é que o o sinal do câncer é a cor roxa e essa cor recupera a imagem das Violetas o que de certa maneira é uma grande ironia e de uma ironia terrível
uma vez que é como se a Nina desde o início se atraísse por aquilo que vai ser o símbolo de sua própria destruição Eh mas veja até essa atração dela até esse impulso autodestrutivo da personagem também faz sentido se a gente pensa que mesmo com todo o sofrimento que ela passou na chácara há 15 anos ainda assim a Nina decide voltar a casa dos Menezes por tudo isso é como se acontecesse aqui ao longo da narrativa um deslizamento das Violetas que surgem primeiro como elementos concretos Então são de fato flores e depois esses elementos vão
se tornando cada vez mais Abstratos então primeiro a Nina entrava em contato com essas flores que são as viol as depois e a imagem da flor desaparece mas o cheiro continua porque o André em dado momento ele descreve o perfume da Nina como sendo um perfume de Violetas e agora tudo que resta é a cor dessas flores que reaparecem então nesses sinais do câncer é que está cometendo a Nina agora quem deve ter ficado muito feliz com essa notícia do câncer é a Ana que desde o início dessa Parte que nós lemos para esse vídeo
vem batendo na mesma tecla que é a Nina é uma pecadora e por isso mesmo ela precisa ser punida para poder enfim pagar pelos seus pecados e essa noção de pecado que é um tema central na obra do Lúcio Cardoso vai se modificando ao longo aqui de crônica da casa assassinada principalmente porque essa noção quase sempre aparece nas Confissões de Ana que aliás vem se mostrando não apenas uma grande Personagem como também a principal narradora do romance pelo menos pensando no número de Capítulos narrados por ela até agora não sei se futuramente isso se modifica
Mas enfim a noção de Pecado ela se ela se altera eh para a Ana porque a relação dessa personagem com a religiosidade vai se modificando pelo seguinte motivo no início eh da narrativa a presença da da Nina incomodava a Ana porque ela se sentia inferiorizada diante dessa sua rival só Que aos poucos a relação entre elas foi se tornando cada vez mais violenta principalmente porque a Nina sabe que a Ana tem inveja dela e Inclusive a Nina gosta dessa inveja porque ela demarca um a superioridade de Nina em relação a Ana né E isso de
certa maneira é algo que acaba ferindo essa outra personagem então a relação entre as duas já não estava muito boa desde a de a parte que nós lemos pro vídeo anterior né mas enfim e aí sobre essa inveja da Ana em Relação a Nina existem aqui dois trechos interessantes que eu gostaria de de ler com vocês agora o primeiro deles está na página 399 e nele disse o seguinte deixa eu pegar aqui não queria reconhecer ela caída e vencida tinha necessidade de sua força de sua beleza de sua onipotência para poder viver mesmo aquela falta
de vaidade aquela modéstia no se apresentar pareciam a mim uma traição Então veja a Ana ela precisa que a Nina seja Vitoriosa porque se a Nina for uma coitada não faz sentido que a Ana tem inveja de uma mulher que não tem nada a perder né digamos assim então é isso a a a Ana meso ao mesmo tempo que Ela detesta a Nina ela precisa que a a Nina se dê bem para justificar a própria inveja e daí antes disso na página 306 é dito o seguinte eu quase a invejava aquele ímpeto bruto aquela cegueira
na Conquista de seus apetites né Eh nesse mesmo trecho aqui que é um trecho em que a Ana declara textualmente que sente inveja ou que quase sente inveja de de Nina nessa mesma página 306 eh a Ana diz o seguinte encaminhei me ao Ofertório que ficava ao fundo do quarto e retirei de dentro a lamparina que iluminava permanentemente a imagem de Nossa Senhora das Graças Veja essa imagem da Ana apagando a a a luz que iluminava ali O altar de Nossa Senhora das Graças eu acho que esse trecho ele é significativo para demarcar muito bem
o afastamento da personagem de uma uma postura religiosa aquela Ana que aparece no começo que é devota que é temente que vai se confessar ali ao ao Padre Justino Ela jamais faria um negócio desse né Então veja no início a confissão de As Confissões de Ana eram confissões religiosas eram confissões que visavam ali enfim alcançar a graça digamos o a Eram Confissões de Penitência dessa personagem aqui nesse trecho que nós lemos a partir dessa desse Capítulo né é nesses trechos aqui essas confissões elas são muito mais criminais digamos assim né elas elas assumem um outro
aspecto eh e aí como eu tava dizendo antes essa mudança na personagem tem a ver também com a Nina Porque conforme a relação entre as duas vai mudando a raiva da Ana aumenta e ela passa a querer cada vez Mais a morte da Nina Mas a questão é a seguinte A Ana foi criada em uma mentalidade religiosa que colocava Deus no lugar de alguém que pune os pecadores que é aquele mesmo Deus que que havia Aparecido no Morro do Salgueiro e que é enfim o o o cenário do segundo romance do lci Cardoso que é
lá Salgueiro sobre o qual já há vídeo no canal eu vou deixar o link para aquele vídeo na descrição lá naquele livro existe muito bem Aquele Deus punitivo e o Deus do Perdão né e o personagem protagonista do livro ele oscila entre essas duas visões de de da divindade né Então veja a Ana ela tá muito mais conectada à aquele Deus punitivo aquele Deus vingativo E conforme o tempo vai passando e a nina não sofre nenhum tipo de punição por seus pecados a Ana passa a rechaçar a ideia da existência de Deus porque Deus é
aquele que pune os pecadores se a Nina que é uma pecadora não está sendo punida isso significa que Deus não existe e Isso fica bem nítido no momento em que a Ana decide matar a Nina usando aquela mesma arma que o Demétrio conseguiu com o farmacêutico e com a qual o jardineiro ah tirou a própria vida assim como o Valdo também havia utilizado essa mesma arma para tentar se matar né Eh e essa cena demonstra que a Ana não acredita mais em Deus essa cena em que ela decide matar a Nina demonstra essa descrença dela
em Deus não tanto pela transgressão não tanto pela vontade de matar a outra Mulher mas sim porque Isso demonstra que a Ana cansou de rezar e esperar pela vontade de Deus pela justiça de Deus para que alguma coisa acontecesse e por isso mesmo ela decidiu resolver a situação por conta própria eh e aí o outro momento que deixa bem claro o afastamento dessa personagem em Rela a Deus são os vários trechos em que a Ana conversa com o Padre Justino e os dois TM várias discussões teológicas muito interessantes E aí eu separei aqui Alguns trechos
em que essas discussões acontecem então por exemplo entre as páginas 312 e 313 existem alguns momentos que eu gostaria de de destacar diz a Ana então sim eu vou ler sem muito contexto até porque aí você pode ler também tá para quem está com outra edição isso que eu vou ler é o capítulo 30 tá chamado continuação da segunda narração de Padre Justino aliás parêntese no vídeo passado eu falei para vocês que a organização do livro estava Me chamando cada vez mais atenção e aqui é um momento muito e eh específico em que essa organização
é interessante porque é sempre um capítulo da narrado pela Ana um capítulo narrado pelo padre um pela Ana um pelo padre e assim por diante né E isso gera uma tensão ali porque ã o padre diz que ele o padre ele vai percebendo que a Ana tá com um discurso diferente em relação a Deus e aí no capítulo da Ana a gente vê o porquê disso né então são capítulos que Se complementam muito bem e que geram um suspense que vai se estendendo então por exemplo Logo no início e a Ana já confessa ao padre
ó eu tentei matar a Nina A Nina ela tem que morrer aí depois a gente fica né nossa O que será que ela fez aí Vem o capítulo em que ela vai falar sobre isso então eu achei muito interessante esse esse modo de construção desses capítulos mas enfim eu ia ler aqui então o trecho que está entre as páginas 312 e 313 então a Ana diz o seguinte se inferno existe Padre Justino é aqui nessa casa e aí o padre ele responde mais algumas coisas e aí ele diz apenas a verdade no bem como no
mal é a única coisa que satisfaz a essas almas sequiosas de absoluto eh e aí mais adiante o o padre ele continua falando ali com a com a Ana e aí ele diz concordando com ela porque a Ana diz ó o inferno é aqui nessa chácara não tem porque eu temer o inferno metafísico se Eu já estou vivendo o inferno e aí o padre concorda com ela e diz não é de hoje que o diabo tomou conta dessa Chácara o diabo minha filha não é como você imagina não significa a desordem mas a certeza e
a calma veja um padre Fala um negócio desse eu achei incrível né eh mas enfim daí mais adiante é dito o seguinte o poder do mal é uma construção assim firme nos seus alicerces segura de suas tradições consciente da responsabilidade do seu Nome não é a tradição que se arraiga nela mas a tradição transformada no único Escudo da Verdade veja aqui é um é um trecho muito interessante porque eh eu acho que no primeiro vídeo dessa dessa série aqui sobre o crônica eu falei para vocês que eu eu li um trecho de uma entrevista do
Lúcio Cardoso e e naquele trecho ele diz que ele se voltava contra o tradicionalismo de Minas Gerais e o Padre Justino tá falando exatamente disso aqui né ele tá Falando olha o mal ele tem uma alcera ele tem uma base tradicional sempre ã que a tradição impede que exista um avanço é como se houvesse ali a presença da maldade essa maldade que quer conservar as coisas como elas sempre foram Mas enfim achei esse trecho muito interessante E aí na página 313 é dito o seguinte muitas vezes em dias passados imaginei O que poderia tornar essa
casa tão fria tão sem alma e foi aí que descobri a terrível imutabilidade de Suas paredes que é uma um complemento aquilo que eu acabei de ler né a gelada tranquilidade das pessoas que habitam nela ah minha amiga pode acreditar em mim nada existe de mais diabólico do que a certeza não há nela nenhum lugar para o amor tudo que é firme positivo é uma negação do amor e aí um pouco mais abaixo existe uma frase que eu achei incrível que diz temos horror do que realmente somos e mas enfim Então veja que esses trechos
eu eles me chamaram Muito atenção porque eles saem da boca de um padre que reflete sobre o mal de uma perspectiva no mínimo Inesperada pensando na na posição que ele ocupa dentro dessa cidadezinha que é Vila Velha E aí um outro trecho desse mesmo capítulo que chamou bastante a minha atenção também é o momento em que a Ana reflete sobre a impossibilidade de amar um Deus que exige que a pessoa vá contra a própria Natureza e aí considerando a formação Católica do Lúcio Cardoso bem como o fato dele ser homossexual essa me parece uma reflexão
que diz muito da crise do próprio autor em relação a sua fé e aí se você leu eu esqueci de pegar mas eles estão aqui ó não sei se vai dar para ver aí eh se você leu Os Diários do Lúcio Cardoso que foram reeditados recentemente pela companha das letras você percebe nesses diários em vários momentos o autor ali numa crise profunda Ele se ele se angustiava muito eh nesse modo como ele lidava com a própria fé considerando essa questão particular dele que era o fato dele ser homossexual mas enfim na página 307 eh a
Ana ela diz uma coisa que eu acho que se liga muito bem a tudo isso né ela diz o seguinte ó hã Cadê por mais que faça não posso imaginar Deus afastado do amor de qualquer amor que seja mesmo mais pecaminoso porque não posso imaginar o Homem sem o amor e nem um homem sem Deus eh para servir a a Deus é preciso renunciar ao amor humano neste caso Prefiro não servir a Deus porque ele me fez humana e não posso e nem quero espontaneamente renunciar àquilo que me constitui e umedece minha própria Essência que
Deus é esse que exige a renúncia à nossa própria personalidade em troca de um mirífico reino que não podemos ver nem vislumbrar através da névoa eu sei a graça mas para seres Terrenos e limitados Como eu como supor a renúncia e a santidade como supor o bem e a paz senão como uma violência criminosa ao espírito que me habita eu achei esse trecho assim de uma de uma sinceridade de uma beleza muito importantes sobretudo eu não gosto muito de pensar em detalhes sobre a vida do autor mas eu acho que nesse caso aqui cabe fazer
essa esse pequeno comentário né relacionando essa reflexão aquilo que angustiava o Lúcio Cardoso ou deveria Angustiar o Lúcio Cardoso Mas enfim outra conversa bem tensa dessa parte que nós lemos Ou pelo menos eu enxerguei com muita atenção essa essa conversa acontece no momento em que a Ana revela que vai matar a Nina e mostra a ela a arma só que a Nina sabe que a Ana não vai ter coragem de apertar o gatilho mesmo estando com muita raiva e essa raiva se deve ao fato de que a Nina foi se encontrar com o André no
pavilhão que era o lugar onde vivia o Jardineiro e que foi enfim eh eh eleito pela Ana como uma espécie de lugar sagrado tanto que ela diz em dado momento aqui que era como se ela tivesse erigido no pavilhão o seu altar particular Então veja como que a a Nina foi até um lugar sagrado para ter ações incestuosas com o próprio filho né então diante disso a Ana decide matar a Nina pra evitar que esse tipo de profanação acontecesse uma segunda vez mas aí voltando contrariando as expectativas da Assassina em potencial a nina não esboça
a menor reação de Pânico ao ver a arma apontada para ela muito pelo contrário ela diz o seguinte isso que eu vou ler está na página 324 o sangue dos Meneses que não é o seu contaminou a como uma doença porque você não quebraria nunca a Quietude desta casa com um tiro a paz a sacrosanta paz dessa família nem cometeria um incesto nem um assassinato nada que manchasse a Honra que eles reclamam né Então veja aqui esse trecho ele chamou muito a minha atenção por dois motivos primeiro porque como eu disse no vídeo anterior a
Ana é muito mais perigosa do que a Nina pelo menos no no meu ponto de vista e eu acho que o desenrolar aqui dos fatos provou que eu estava pelo menos em partes certo ao dizer isso porque Val lá que a Nina tem atraído o marido valar que a Nina e esteja agora tendo um caso com o próprio filho mas ainda assim não Me parece que nada disso seja tão mais grave do que tentar assassinar outra pessoa né então enfim não sei me parece que a Ana exatamente por ela ser muito contida no momento em
que ela explodir acredito eu não sei se essa explosão vai acontecer em algum momento quer dizer acontece né você apontar a arma para alguém é um sinal de que você está explodindo ali de certa maneira né mas enfim essa foi a primeira coisa que chamou a minha atenção a segunda coisa Que chamou a minha atenção nesse trecho foi justamente ã o fato de an Nina ter dito que a o sangue dos Meneses contaminou a Ana como se fosse uma doença o que mais uma vez antecipa a questão do câncer mas veja o câncer ele surge
aqui né essa doença na verdade ela surge aqui da própria família Meneses E aí uma vez que essas duas mulheres são duplo uma da outra ã se uma adoece a outra meio que tem que adoecer também e ambos os adoecimentos são bem tristes já Que se por um lado A nina está ali com câncer está se decompondo em vida está sofrendo fisicamente por outro lado a Ana sempre se anulou e se tornou uma pessoa fria insossa para poder agradar o demetri Então ela sempre sofreu mesmo sem ter consciência desse sofrimento e aí sobre essa questão
do duplo entre as duas eh um trecho da página 322 diz o seguinte ã deixa me pegar aqui estávamos Reunidas convertí amnos no mesmo ser e Eu a sugava eu a fazia minha porque queria arrancar dos seus lábios a presença daquele amante eterno formidável na sua eloquência né então enfim eh esse trecho aqui eu acho que deixa muito explícita a imagem das duas como duplo uma da outra né E aí como eu disse antes a Nina ela foi se provando uma personagem incrível nesse Romance ao longo dessa dessa ter Tera parte da Leitura Ah E
aí fora tudo isso que eu já disse sobre ela eu vou citar aqui Algumas outras atitudes dessa personagem que chamaram a minha atenção então por exemplo assim que a Nina percebe que está doente ela decide voltar pro Rio de Janeiro então sozinha para consultar um médico de lá e aí nisso acontece aquela cena da queima dos vestidos e dias depois a Nina realmente vai embora da Chácara pois bem no dia da partida ou melhor dizendo na noite da partida a Ana ela fica ela ouve uma conversa ali de que a Nina estava se preparando para
ir Embora e aí ela vai para perto das empregadas e Ela finge que tá fazendo alguma outra coisa preparando um chá ou ou algo do tipo só para ficar ouvindo a conversa das empregadas que estão falando justamente da Nina né e eu achei que eu achei demais a a Ana ali dissimulando fingindo não ligar para nada que estava ouvindo só que ela não consegue se conter justamente no momento em que uma das empregadas menciona que a Nina tinha atacado fogo nos vestidos e aí sim a Ana se desespera e sa correndo para ver a partida
da Nina Porque se ela havia queimado mesmo os vestidos algo realmente muito grave deveria estar acontecendo com ela né por outro lado assim que a Ana se recupera do Choque ela chega à conclusão de que a Nina só queimou aqueles vestidos para comprar vestidos novos então quando a Nina volta do Rio de Janeiro com várias malas cheias de roupas novas a Ana percebe que Pelo menos em parte ela tinha razão né E que realmente aquela mulher não ligava para as pilhas de dívidas que se acumulavam na casa dos Meneses o que demonstra que a Ana
é uma mulher muito observadora uma vez que julgando pela ideologia paternalista dessa casa certamente quem cuidava das contas da família não das da família não era a Ana e no entanto ela estava ligada de que o a posse os bens da família estavam cadavez mais escassos né mas enfim na Verdade graças à narrativa do coronel né E que que enfim assume a voz em um dos capítulos que nós lemos nós ficamos sabendo que durante a tal viagem da Nina ao Rio de Janeiro ela de fato recebeu diagnóstico e esse diagnóstico a deixou muito abalada e
mais uma vez a narrativa esconde o nome da doença o que não apenas gera um suspense como também se adequa muito bem aquela ideia de que existem coisas existem doenças que você não pode nomear E aí eu até usei o Exemplo teve alguém que comentou que comentou no vídeo passado né que pessoas mais velhas geralmente não falam o nome de algumas doenças com medo de atrair ou coisa do tipo né então é mais ou menos isso que acontece aqui então para poder consolar a amiga diante desse diagnóstico o Coronel acabou gastando rios de dinheiro em
roupas novas só para depois descobrir que a Nina praticamente fugiu de volta pra chácara e nem foi ela quem lhe revelou estar doente o coronel É que a seguiu a linha em um determinado momento Ah e aí acabou convencendo o médico a contar o que é que estava acontecendo E aí o médico diz que ela está de fato doente apesar de não mencionar o nome da doença e que no fim das contas é tarde demais para tomar alguma Providência que tivesse algum tipo de de de retorno digamos bom quando a Nina volta para a chácara
ela esconde a doença de todo mundo e E aí o Valdo coitado para Comemorar a volta da Esposa faz um jantar que acaba se tornando bastante desconfortável e esse desconforto vem do fato de que a Nina e o estavam conversando amistosamente o que demonstra que realmente tinha algo de errado acontecendo uma vez que os dois Nunca conversavam na verdade a a a relação entre os dois sempre foi bastante hostil né E aí agora os dois ali estão conversando sobre trivialidades isso Tudo já torna um ambiente meio esquisito E aí para piorar ainda mais as coisas
depois desse jantar o dem foi até o piano que ficava ali na sala e enquanto ele tocava piano a Nina ficou dançando pela pela sala e tudo isso foi tão impressionante que até os empregados foram assistir aquela cena mas em meio a tudo isso a todo esse circo e quem primeiro percebe que toda aquela cena é um grande teatro é a Ana que fica ali meio afastada e diz o seguinte diante de Toda essa pataquada que está acontecendo isso que eu vou ler está na página 406 a a Ana diz o seguinte do lado de
fora isolada daquele quadro harmonioso pensei comigo mesma que eles tinham toda a aparência de uma família feliz aparências apenas porque em todos eles havia um elemento destrutor que os corroía veja aí essa essa imagem do Câncer de novo agora que a gente já sabe que a Nina tá doente tudo que eles falam sobre Corão já acende um sinal né Ah podiam gozar daquela felicidade de se encontrarem juntos sozinha eu eu assistiria a tudo como a um espetáculo que me houvesse sido vedado e ainda daquela vez o ciúme encheu me o coração e como tantas vezes
já o Fizeram no decorrer da vida contemplei minha cunhada com inveja até mesmo o seu próprio mal essa doença que a corroía transformar num motivo de preponderância e de domínio que Deus viesse em meu socorro e Atribuísse o castigo que ela merecia que demonstrasse o quanto havia de injusto e de pecaminoso em sua vitória Então veja que aqui Existem várias coisas que eu já fui mencionando né ao longo do ao longo dessa minha fala sobre essa postura religiosa da Nina que vai aos da Ana que vai aos poucos se desgastando a inveja dela enfim e
aí ainda pensando na nessa corrosão apontada pela pela Ana nesse trecho em dado momento essa mesma personagem se lembra de Dona Malvina que É a mãe dos Menezes E aí e pensando nesse nesse declínio da família e a Ana diz o seguinte na página 317 Ai meu Deus do céu eu tô lendo muito eu sempre falo isso né mas enfim gente eu vou esse vídeo eu já até Cansei de fazer vídeo esperar que o vídeo sobre o livro fica curto porque eu sei que não vai ficar enfim eh na página 317 logo no comecinho da
continuação da terceira confissão de Ana Capítulo 31 é dito o seguinte entre as Folhas a chácara respona suja e triste e E aí a a a a Ana ela começa a falar da Dona Malvina tal e aí ela diz que na época de Dona Malvina ainda havia vitalidade ainda havia saúde percorrendo os alicerces agora podres ó essa ideia da podridão né a presença de Dona Malvina vitaliza toda uma geração de Meneses condenada à morte e naquele momento eu sentia que tinha direito a tudo qualquer atentado apenas arrastaria ao Pó a arquitetura de uma família já
Meio desaparecida né Então veja a Ana ela é uma mulher muito observadora né porque ela percebe o declínio iminente dos Menezes E aí outro comentário interessante que parte dessa personagem é aquele que a Ana faz em referência ao como o melhor dos Meneses e daí na página 401 ela diz o seguinte ele ou seja Valdo que Possivelmente era o melhor o mais amável dos Menezes em quem o Silêncio encobria não um fio egoísta mas certa distinção de caráter e cujo único pecado em toda sua vida decorrer unicamente de sua fraqueza ao ter conhecido e amado
aquela mulher né então achei muito legal esse comentário da da Ana porque assim eu não sei se eu já falei para vocês mas de início eu tava achando o Valdo um personagem muito chato né até porque como ele é o irmão do meio ele sempre ficava ali naquela coisa meio Emoça e conforme o livro foi passando a gente percebeu que o Valdo até que tem o seu valor ali ele não é tão expressivo quanto o Demétrio ou quanto o Timóteo que aliás sequer apareceu Ou pelo menos apareceu muito pouco nesse trecho que nós lemos para
esse vídeo mas enfim apesar de não ser tão assim destacável quanto os outros irmãos o Valdo também não é uma mosca morta né enfim tudo isso demonstra que a Ana é uma mulher muito observadora muito Sagaz mas Nada supera O meu espanto no momento em que a Ana ataca o André e o coitado fica ali sem saber direito o que fazer porque enfim eu vou ler primeiro o trecho que tá na página 337 E aí depois eu eu faço uma breve contextualização mas enfim é dito o seguinte então a o o andr tá ali no
quarto dele tá à noite a luz tá apagada E aí a Ana entra no quarto né se esgueirando ele vê aquela mulher entrando e pensa que é a Nina e aí quando ele vai abraçar ele Percebe que na verdade é a Ana e aí a Ana diz se você se deita com sua mãe por que não poderá fazê-lo com sua tia e aí o o André disse está doida é E aí vai ela ela começa a descrever a cena toda e daí ela diz enlacei novamente como uma serpente que se apodera de sua presa e
procurei lhe os lábios com meus lábios cheios de sede tateando premindo avaliando através do pano de sua roupa o calor do seu sangue e sua vibratilidade e sua vibratilidade perdão de homem e aí Um pouquinho mais abaixo eu levada até a parede e com a mão roçava lhe As Faces os lábios o queixo o ouvido enquanto murmurava cega e surda a tudo que não fosse o impulso que me movia eu achei essa frase assim é tão exagerada e que que até engraçado né ela diz quero ver como é feito se soubesse como preciso disso quero
sentir a linha do seu nariz a força dos seus lábios beije-me André beije-me como beija a sua mãe como beijo uma mulher qualquer uma Vagabunda da rua e aí mais abaixo é um beijo só para que eu sinta o arqueado de sua boca então vija todo esse trecho todo esse ataque da novamente isso daqui é um trecho em que ela explode né que comprova que ela não é tão santinha assim como eu disse no vídeo anterior Mas enfim todo esse trecho se segue uma conversa na qual a Nina revela A Ana que ela se relaciona
com o filho porque ele é ela vê no André a imagem do Jardineiro com quem ela teve um caso há 15 anos e Com isso a nina não apenas confirma o adultério como também deixa bem claro que na verdade o André não é filho do Valdo mas sim do Alberto e como a Ana é obsecada eh pela por esse jardineiro né como ela é obsecada pelo Alberto ela acaba indo procurar o o sobrinho para confirmar essa semelhança e é por isso que ela quer Tatiara do do do céu da boca dele etc etc mesmo porque
na continuação da ter ser a confissão de Ana alguém eu não Me lembro mais se a própria Ana ou se a Nina eh diz que a Ana tem remorço de ter tido O Alberto uma única vez o que significa que a Ana também teve um caso com o jardineiro mas pelo visto tudo aconteceu uma única vez ao passo que com a Nina esses encontros eram mais frequentes então novamente a Ana é um duplo da Nina Então ela fica seguindo essa outra mulher porque ela sabe que a Nina tem a coragem que ela mesma não tem
de transgredir as interdições de eh Realizar os seus desejos porque as duas estão presas aos Meneses mas cada uma reage de um jeito diferente a essa prisão E aí tudo isso afunda Ana em um processo de inquietação metafísica que muitas vezes se traduz em ideias como a fraqueza da Carne o pecado a Dan são o conflito entre o bem e o mal e a ideia de que o mal é uma força incontrolável inexplicável que age sobre a vida das pessoas e as afasta de Deus e tudo isso me fez lembrar bastante dos romances do Dostoyevski
principalmente lá de os irmãos karamazov que é um um dos meus romances favoritos da vida eh e já tem uma playlist aqui no canal sobre a a leitura que eu fiz dos irmãos carav então se você não viu aquela minha playlist Eu sugiro que veja mas enfim portanto se de início As Confissões de Ana como eu já disse tinha um caráter de absolvição de busca de Penitência né e uma absolvição religiosa aos poucos isso vai mudando conforme ela Eh vai enfim confessando mesmo que chegou a ter uma conduta criminosa ao eh ameaçar a vida da
da da Nina né E aí outro personagem muito importante em todo esse momento do livro que nós estamos é o próprio André que vai aos poucos ganhando consciência de que a relação incestuosa com a mãe tem algo de assimétrico já que enquanto ele ainda estava ali se descobrindo como um homem a partir do Olhar da mãe a nen por outro lado parecia estar sempre pensando em Outra pessoa quando estava com ele e existe inclusive um trecho em que a crise de ciúmes e a angústia por não compartilhar dessas memórias com a mãe é tão forte
que o André chega a ser agressivo com ela e aí É nesse momento de agressividade que ele percebe que provavelmente ela está muito doente e aí aquele trecho que eu li para vocês no começo desse vídeo né mas Então veja eh o André ele também não é um idiota ele vai aos poucos percebendo que tem alguma Coisa errada naquele comportamento da Nina e aí depois a Nina acaba confessando isso né pr pra pra Ana Então são trechos que se complementam bom eh pensando ainda nessa relação incestuosa entre Nina e André no vídeo passado eu citei
o Freud com o Toing Tabu agora eu vou recorrer a um outro teórico que é o Jorge batai e que também refletiu um pouco sobre essa questão do erotismo etc e aí se tudo der certo no último Vídeo dessa série dedicada à crônica da casa assassinada eu vou falar um pouquinho sobre a a visão do Claude levr sobre esse mesmo tema né E aí novamente eu não sou especialista em nada disso e além do mais o batai não é um autor dos mais fáceis então se eu falar algo de errado me corrijam por favor e
de preferência me corrijam com alguma educação mas enfim eh o livro que eu vou usar aqui nesse momento rápido do vídeo é esse daqui que é o erotismo é um livro De 1957 portanto um livro contemporâneo de digamos assim ao crônica da casa assassinada que foi lançada em 59 mas que já estava pronto há algum tempo né então o zeitgeist que une esses dois livros é o mesmo praticamente e mas enfim aqui em o erotismo o batai diz que a nossa existência É pautada principalmente pela descontinuidade tendo em vista que assim como a gente entra
nessa vida sozinho Nós também vamos sair dela sozinhos E aí essa Solidão fica ainda Ainda mais palpável por o nosso cotidiano é construído a partir de uma variedade enorme de elementos que tornam tudo mecânico de modo a nos afastar dessa nossa percepção sobre a própria descontinuidade Por isso mesmo as culturas segundo batai tendem a se organizar a partir de dois polos que o autor vai chamar de interdito e transgressão o problema segundo é que esses dois polos são vistos como opostos pelas culturas quando na verdade eles São complementares na nossa vida e tudo aquilo que
nos leva à transgressão de algum modo ou seja tudo aquilo que faz com que nós nos ã dirijamos contra algum interdito é aquilo que o autor vai chamar de erotismo O que significa que o erotismo para o batai não necessariamente tem a ver só com sexo já que como diz o autor em um trecho bem famoso do livro O erotismo é a aprovação da vida até na morte por que isso bem porque essa pulsão Erótica que nos leva a transgressão nos coloca diante daquilo que nos é interditado e um dos maiores interditos que a cultura
nos impõe se refere justamente à morte Pense aí por exemplo que em independente da época ou da cultura geralmente existe um grupo muito específico de pessoas que pode manipular cadáveres que pode lidar com os mortos etc isso nos mostra que a morte é um lugar onde nós não podemos chegar a gente não pode se aproximar do Território da Morte né então a morte é o grande interdito em várias culturas segundo o batalho Então existe uma contradição interessante aqui por em enquanto impulso o erotismo Se liga à vida mas na medida em que esse impulso nos
impele a transgressão ele também se aproxima da Morte Por isso mesmo o batai defende que o domínio do erotismo é o domínio da violência e da violação o que novamente se liga à ideia da Morte como uma interrupção violenta e inevitável da Vida e exatamente por ser ável é ainda mais violenta né mas ao mesmo tempo o autor diz o seguinte no início do capítulo 12 que aquele que ele se dedica a falar sobre a prostituição isso que eu vou ler está na página 153 dessa Minha edição aqui ah é só uma uma frase mas
é dito o seguinte o sentido último do erotismo é a fusão a supressão do limite ora com isso nós já temos aqui algumas coisas importantes para pensar no romance né em crônica da Casa assassinada em primeiro lugar o Pavilhão é esse espaço que se opõe à ordem à rigidez e às regras sociais da Chácara dos Menezes inclusive o Pavilhão fica perto da natureza e no presente como ninguém o frequenta esse Pavilhão foi tomado pela natureza o que reforça a ideia de algo que se opõe à cultura então em suma o Pavilhão é o lugar onde
as transgressões acontecem a relação incestuosa acontece no pavilhão o adultério acontece tanto Da Nina quanto da Ana acontece no acontecem no pavilhão o suicídio do Jardineiro acontece no pavilhão Então veja que esse espaço da transgressão é um espaço que reúne violência morte e sexualidade só só que ao mesmo tempo é um lugar quase sagrado pra Ana como eu disse em dada altura do campeonato Ela diz que erigiu ali o seu altar particular e segundo o batai existe algo de erotismo na própria religiosidade na medida em que a organização religiosa Tenta driblar a nossa solidão tenta
apagar a nossa descontinuidade E aí em segundo lugar se o erotismo é uma forma pensando na relação entre o livro do batai e o romance né se o erotismo é uma forma de recuperar a unidade perdida e é por isso que no trecho que eu li o autor fala em fusão em supressão de limites isso se adequa muito bem ao que o próprio André diz em alguns trechos se referindo a essa relação incestuosa isso que eu vou Ler está eu vou ler dois trechos um tá na página 3 56 e outro está na página 364
Então vamos lá no primeiro treo André diz o seguinte não somos pessoas diferentes esta é somos uma única e a mesma pessoa porque o deus do amor é um Deus ermafrodita reun na mesma crição dois sexos diferentes esculpiu a imag de um ente de sabedoria e conhecimento que da sua dualidade faz o paradigma da perfeição mulher e mãe que outro ser híbrido poderia condensar melhor a forma Do nosso sentimento amá-la é reintegrar no que fui sem susto e sem dificuldade é a volta ao país de origem amando-a como homem sinto que deixo de ser eu
mesmo para completar essa criatura total que deveríamos ter sido antes do meu nascimento nessa fome de conjunção não pode haver pejo porque não há imoralidade né Então esse é o primeiro trecho que meio que ecoa essas palavras aqui do batai pensando o erotismo como esse elemento que unifica os corpos E aí Pensando nessa unificação como o contrário da descontinuidade dessa solidão eh fundamental do ser humano e aí na página 364 continua-se essa mesma reflexão dizendo o seguinte chegávamos ao instante em que as palavras eram desnecessárias escutávamos apenas e os menores sons se transformavam em monstruosos
ruídos discordantes animais porque um único movimento nos interessava e era a Mecânica assombrada medieval que nos unia e nos fazia de encontro um ao outro não como seres diferentes mas como o mesmo ser conjugados na mesma carne e no mesmo sangue com o ouvido colado aos seus seios não me importava saber se era meu ou dela aquele coração que batia era nosso e eu me sentia partir ramificar me do seu tronco como se naquela obscuridade houvéssemos nos transformado numa árvore e perdêssemos todo o aspecto humano vegetais e pagãos ardendo sobre Aquele fogo que a noite
e o desejo nos transmitiam né então enfim esses trechos eh eles me chamaram bastante atenção e aí foi por isso que na hora que eu li isso eu falei nossa me lembro de ter visto algo parecido lá no Bat aí eu voltei e reli aqui algumas das minhas marcações desse o erotismo né Eh mas Então veja existe aqui explicitamente esse desejo de unidade na relação que o André estabelece com a mãe e é por isso que mesmo sabendo da gravidade de suas Ações o personagem continua fazendo tudo o que faz porque a transgressão do interdito
Gera prazer nele uma vez que esse momento da relação sexual com ae mãe é o único momento em que o personagem se sente verdadeiramente seguro verdadeiramente pertencente a alguém porque em vários momentos fica evidente que o André é um ser estranho na chácara tanto que até o quarto dele fica meio que afastado como se ele não fizesse parte da família Como de fato Ele não faz uma vez que ele não é filho do Valdo ou talvez ele não seja filho do Valdo já que tudo indica que ele é filho do Jardineiro mesmo e aí finalmente
existe aqui outro trecho do livro do batai que eu gostaria de ler que está na página 42 eh que é um trecho que diz o seguinte o que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas constituídas dessas formas da vida social regular que fundam a ordem descontínua das individualidades Definidas que somos né e ou seja o erotismo pro batai é aquilo que desestabiliza a ordem que torna poroso o que antes era concreto que fragmenta aquilo que antes era estabelecido Então nesse sentido o erotismo não está apenas nesses personagens que transgridem o interdito
que atravessam os limites que vão para além das fronteiras o erotismo também é no romance essa própria forma da narrativa que é instável fragmentada então é isso né aqui em Crônica da casa assassinada o erotismo não só desestabiliza a noção de ordem social mas também desestabiliza a possibilidade de encadear discursivamente essa mesma ordem e é por isso que a narrativa é tão sinuosa Porque o autor manipula a focalização por meio desse excesso de vozes que deixa tudo ambíguo mas também porque ele nos dá notícia de um mundo eh movido por essa essas pulsões heróicas um
mundo noturno um mundo de uma realidade que Parece o tempo todo estar sendo ameaçada pela morte Como se até o ar estivesse contaminado pela corrupção pela destruição já no título do romance eh já fica indicado ao leitor que o tempo vai ser algo importante aqui uma vez que crônica tem a mesma raiz da palavra Cronos que é lá tempo né né E esse tempo é aquele que corrompe tudo é aquele tempo que destrói as coisas Tal Qual o tempo do do prust lá no em busca do tempo perdido né E essa destruição ela é Acelerada
a partir do momento em que a Nina chega como essa figura inquietante essa figura que rompe o equilíbrio anterior que já estava ameaçado essa figura que vai e volta toda hora para essa chácara como se ela andasse em círculos e que vai aos poucos se dando conta de que não dá para lutar contra a passagem do tempo é por isso que a destruição inevitável dos Meneses se ã faz com que eles se apeguem tanto ao passado para preservar essa identidade Essa unidade anterior o problema é que tudo isso faz com que eles olhem com desconfiança
para tudo o que é novo porque eles iram tanto qualquer impulso de vida que desorganizar aquela casa né ah e eles fizeram isso mesmo sabendo que o presente é decadente e que as coisas são absolutamente transitórias daí é que vem aquela tensão que eu acho que eu já mencionei em vídeos anteriores entre uma ordem patriarcal eh conservadora tradicional ligada ali ao império do Século XIX a e e uma ordem que é a ordem burguesa uma ordem do século XX uma ordem que representa a novidade uma ordem que vem de fora lá do do do do
Rio de Janeiro para a província enfim quer dizer agora a pouco eu falei para vocês que a Nina vai se dando conta e os outros personagens também que não tem modo de lutar contra a passagem do tempo mas pelo visto Tem sim um jeito de burlar essa lógica temporal que é através da escrita tanto é assim que a Maior parte desses discursos dos narradores à Não é enfim um discurso oral né eles são discursos escritos o que nos mostra que existe um distanciamento entre o fato vivido e a narração memorialística sobre ele de modo que
esses narradores conseguem voltar no tempo e corrigir ou fazer comentários aos documentos originais e aí sobre isso existe um trecho muito interessante em que o André surpreende a Nina mexendo Nas coisas dele e aí é dito o seguinte isso que eu vou ler que vai ser o último trecho do livro que eu vou ler está entre as páginas 382 e 383 a surpreendi remexendo meus papéis que é isso um romance um diário a força de repisar esses fatos perdi deles a noção real misturei um aos outros confundir tudo e agora que esse pobre caderno veio
novamente ter as minhas mãos entre outros restos dessa casa que não existe mais digo a mim mesmo que Realmente não há grande diferença entre aquele que fui e aquele que sou hoje e esse trecho é importante não só por levantar a possibilidade de que realmente é o André quem está organizando toda essa narrativa que foi algo que Eu mencionei na no no vídeo passado né que na minha opinião é o André que organ tudo isso mas esse trecho é importante também porque ele tensiona os limites entre a narrativa de memória e a narrativa ficcional e
aí Veja bem se a gente vai ter alguma resposta para isso né para quem é que tá organizando este livro não sei pode ser que sim pode ser que não eu acho que ter ou não uma resposta é meio que indiferente diante disso tudo o fato é que para descobrir isso a gente vai ter que ler a última parte do livro que é então que se estende então do capítulo 43 ao Capítulo 5 56 e enfim é sobre essa última parte que tem ali 120 páginas que nós vamos falar no próximo vídeo dessa Série certo
não sei vocês mas eu estou adorando essa nossa leitura conjunta aqui evidentemente o crônica da casa assassinada se tornou a pelo menos até agora né a melhor leitura do ano vamos ver como será essa finalização para a qual diga-se de passagem Estou bastante ansioso Enfim vou deixar na descrição a referência aqui do texto do Bat e vou deixar também ah o link paraa minha playlist com outros vídeos sobre a obra do Lúcio Cardoso e eu fiz uma série de Vídeos sobre a obra desse autor justamente como preparação para chegar aqui no crônica da casa assassinada
eh e vou deixar também o link para o meu perfil no apoia-se e assim caso você queira e possa contribuir financeiramente com esse meu trabalho aqui no YouTube basta você entrar em contato com os planos de apoio e também com as recompensas equivalentes a cada um desses planos agora se você já ajuda fica aqui o meu agradecimento e para Você que quer ajudar mas que não pode fazê-lo financeiramente basta você mostrar a algoritmo do YouTube que meu conteúdo é de algum modo relevante então curta esse vídeo compartilhe comente etc etc etc certo vemo-nos então nos
próximos vídeos e um plexo