Você se lembra daquela história de um tempo atrás quando um cara processou a Coca-Cola depois que ele encontrou um rato dentro da garrafa ou algo assim? Bom, nunca foi provado isso de fato e esse homem, inclusive, perdeu o processo contra a Coca-Cola. Mas isso não importa, se tinha um rato ou não na Coca dele, o meu caso foi com certeza pior.
Era verão antes do meu penúltimo ano do ensino médio. Eu estava relaxando no meu quarto, jogando e me empanturrando de fast food. Eu já tinha tomado várias latas de refrigerante e energético, então quando abri uma nova e tomei um gole, percebi que havia algo errado com o gosto.
Nunca fui uma pessoa muito inteligente, então tomei outro gole para experimentar melhor o gosto estranho. Dessa segunda vez, senti algo que andava dentro da lata. A levei para a cozinha e despejei o conteúdo na pia.
Quanto mais eu despejava, mais eu sentia o cheiro de algo ruim vindo. Quando esvaziei, cortei a lata com uma faca de cozinha. Ao fazer isso, um dedo decrépito, meio dissolvido, caiu.
Imediatamente, vomitei no chão da cozinha. O ano seguinte foi um turbilhão de aparições em tribunais e consultas privadas com advogados. Meus pais estavam ansiosos para saber o que tinha acontecido de fato e estavam processando a empresa de refrigerantes por mais de R$ 1 milhão.
Isso me custou caro. Quanto mais o caso se arrastava, mais minha vida desmoronava. Perdi meus amigos da escola, que a cada vez mais se afastavam de mim.
Atrasei em todas as matérias e teria que repetir de ano. Nunca pensei que realmente sentiria falta de ir às aulas, mas o problema era que ninguém parecia capaz de ter uma conversa comigo sem trazer à tona o incidente do dedo. Eu estava totalmente associado ao fato de que nunca seria conhecido por mais nada, a menos que mudasse meu nome e aparência.
Os procedimentos judiciais se estenderam, meus pais pegaram dinheiro da minha poupança da faculdade e venderam nossa casa para pagar os advogados. Se não ganhássemos o processo, perderíamos tudo. Quando completei 18 anos, ficou claro que meus pais não iriam me dar aconselhamento ou qualquer tipo de ajuda profissional.
Resolvi procurar ajuda por conta própria e, depois de uma noite vasculhando a internet, encontrei um grupo de apoio a menos de 2 km de distância. Era um grupo para pessoas que passaram por situações semelhantes à minha. Depois de superar meu espanto de que havia outras pessoas que encontraram restos humanos em seus refrigerantes para justificar um grupo de apoio, entrei em contato com o organizador do grupo e solicitei uma vaga na próxima reunião.
Uma semana depois, dirigi para o local. O grupo se encontrou em um restaurante. Éramos nove no total.
A maioria de nós encontrou algum tipo de resto em nossas latas de refrigerante, mas um cara comeu parte de uma orelha humana dentro de um bolo de creme. A moça que organizou o grupo foi a doutora Tônia, uma socióloga que encontrou uma costela humana quebrada em sua lata de refrigerante numa noite e depois se dedicou a estudar o fenômeno. "Bem-vindo!
Faz tanto tempo que não temos alguém novo no grupo. " O sorriso da doutora era caloroso e convidativo, isso me deixou à vontade. Ela gesticulou para o assento ao lado dela.
"Por favor, sente-se aqui. " Aquela foi a melhor noite que tive em quase dois anos. A doutora Tônia e todos os outros no grupo foram muito agradáveis e receptivos.
A melhor parte, porém, foi que, depois que contei minha história, ninguém me perguntou nada sobre o dedo. Isso era um alívio para mim, poder falar com as pessoas sem que me perguntassem qual era o gosto da carne humana. Foi uma bênção.
A noite continuou e eu estava tão distraído que foi uma surpresa quando percebi que a doutora e eu éramos os únicos que restavam. Verifiquei as horas e, bom, eu deveria estar voltando. "Obrigado por me receber, doutora", falei.
"Por favor, me chame de Tônia. E, na verdade, você poderia me fazer um favor? " Ela se inclinou para a frente e me lançou um sorriso tímido.
De repente, fiquei nervoso. A blusa dela estava desabotoada muito para baixo. Ela continuou: "Você se importaria em me acompanhar até em casa?
É só descer a rua, mas esse bairro é meio assustador à noite. Aposto que você me manteria segura, não é? " "Sim, totally", falei.
"Ótimo, obrigada! " Ela pagou a conta e seguimos nosso caminho. De alguma forma, em algum momento, o braço dela acabou enrolado no meu.
Todos os tipos de cenários estavam passando pelo meu cérebro adolescente, cheio de hormônios. Por mais que eu tenha fantasiado sobre uma mulher mais velha se interessando por mim, tenho que admitir que fiquei um pouco desconfortável. Fui ao grupo de apoio com esperança de encontrar algum tipo de alívio para o meu trauma e depressão.
Eu realmente consegui progredir e não queria arriscar isso me envolvendo com a pessoa que organizava o grupo, uma mulher com mais do que o dobro da minha idade. Mas a parte adolescente excitada do meu cérebro venceu. No final, chegamos ao prédio do apartamento dela e ela destrancou a porta.
"Muito obrigada por me acompanhar até em casa. Você deveria entrar um pouco", ela disse. "Não, de jeito nenhum", pensei.
Por mais jovem que eu fosse, eu sabia o que significava um convite noturno para o apartamento de uma mulher. Essa era uma linha que eu não estava pronto para cruzar. Mesmo que não fosse uma ideia terrível fazer coisas com alguém com quem eu estava contando sobre minha saúde mental, era de certa forma esquisito.
Mas eu realmente queria que minha primeira vez fosse com uma mulher mais velha e não alguém próximo da minha idade e nível de experiência. "Sim, claro", eu disse, com a fraqueza e nervosismo escorrendo de cada fibra do meu ser. Ela me levou para seu apartamento.
Andar de cima, sentei no sofá e a observei enquanto ela tirava o paletó. Com apenas uma camisa branca de botões, consegui ver que ela não estava usando sutiã. Forcei-me a pensar em outra coisa.
"Posso te trazer alguma coisa para beber? " ela perguntou. "Vinho?
" "Conhaque, acho que tem uma garrafa de vodca por aqui em algum lugar, se você preferir. " "Eu de tinto? Ah, você sabe que eu não tenho idade para beber, né?
" falei. Ela andou até mim e se abaixou para me olhar nos olhos, que estavam lutando para fazer o mesmo. "Nós dois somos adultos aqui, não somos?
" "Não vou contar a ninguém se você não contar," ela disse. Engoli em seco e falei: "Eu aceito o que você tiver. " "É isso que eu gosto de ouvir!
" Ela foi até a cozinha e voltou com dois copos cheios de um líquido arroxeado. Nós brindamos e bebemos. Era doce, quase como amoras maduras, mas eu só consegui sentir o gosto depois que o álcool ardente encheu minha garganta e nariz.
Era muito mais forte do que o que eu estava acostumado a beber. Quase engasguei. "Então, o que você acha?
É do seu gosto? " "É. .
. é ótimo. Só me pegou de surpresa, só isso.
Não esperava que queimasse tanto. " "O que é isso? " perguntei.
"Ah, só algo que eu mesmo preparei. Me diz aí o que você sentiu. " Ela se inclinou, o olhar em seu rosto ao mesmo tempo ansioso e calmo.
Limpei minha garganta: "Bem, eu senti mais o gosto do álcool. " "Você sabe qual é o gosto? Tem algum tipo de alegrim?
" "Sei lá," falei e tomei outro gole. "Tem outra coisa também. O gosto é familiar, mas não tenho certeza do que é.
" Eu congelei. O gosto era realmente familiar e, assim como antes, tomei um segundo gole. Levantei-me rapidamente e a doutora começou a rir.
Corri para a cozinha dela e vi o jarro da mesma bebida arroxeada que ela me serviu. Havia uma cabeça de homem flutuando nela. Olhei ao redor do local, horrorizado.
Outros jarros com líquidos de várias cores estavam espalhados pela cozinha. O menor estava com cheiro de morte e tinha uma mandíbula inferior que parecia pequena o suficiente para pertencer a uma criança. O maior era um jarro alto com o que parecia ser um fêmur dentro.
Atrás de mim, a doutora Tônia começou a rir. Eu nem olhei para ela enquanto disparava para a porta. A polícia me pegou nas ruas horas depois, gritando sobre partes de corpos.
Fiquei internado por 5 meses. Eles só me liberaram quando ficou claro que meus pais não tinham mais condições de me manter lá. O processo contra a empresa de refrigerante deu errado e perdemos tudo.
Não foi comprovado que foi culpa da empresa ter um dedo lá dentro. Morei em um parque de trailers por anos com dois estranhos esquisitos que tinham medo de mim e se odiavam. Acabei conseguindo me mudar e ter um barraco só meu, e é onde permaneço até hoje.
Até onde eu sei, eles nunca pegaram a doutora Tônia, se é que esse era o nome verdadeiro dela. Obviamente, não fui a nenhum grupo de apoio novamente. Descobri que geralmente consigo esquecer meus problemas ficando bêbado de vodca ou tequila.
Qualquer coisa dá conta do recado, desde que a garrafa e o licor estejam limpos. Não sei mais o que dizer sobre minha vida, então acho que vamos encerrar por aqui. Sou pobre, miserável, com uma saúde péssima.
. . bem, exceto pelos meus dentes.
Acontece que parar de beber refrigerante faz maravilhas para sua higiene bucal. Quem diria? Não.
Até a próxima. Obrigado.