E se você fosse criado por jacarés da Amazônia durante toda a sua vida, dia um, você acorda submerso, coberto de lama, água escura ao redor, olhos atentos, vendo se você é fraco. Você não tem coloção, só o pântano e probabilidade de sobreviver. Você tem fome, qualquer erro chama atenção.
Você aprende rápido a não se mexer à toa. Ano três, você nunca aprende a andar reto como humanos. Seu corpo cresce baixo, sempre perto do chão.
Suas mãos ficam ásperas e unhas grossas. Você aprende que ficar imóvel é tão importante quanto atacar. O frio da água deixa de incomodar.
Ano 10. Seu corpo sabe quando fugir antes mesmo de você pensar. Seus pulmões se adaptam à respiração curta.
Seus músculos ficam densos, feitos para explosão, não para resistência. Ano 20. Você não pensa com palavras.
Pensar não tem som. Tudo é leitura de vibração, cheiro, correnteza, distância. Ficar longe da água provoca um desconforto estranho, profundo, como se algo essencial estivesse faltando no seu corpo.
Ano 25. Os humanos te encontram e falam seu nome esperando que signifique algo, mas seu corpo rejeita o ambiente fechado, as luzes fortes, o chão seco, seu peito aperta, sua pele estranha, o ar parado. foi adaptado, mas agora não faz mais parte do mundo humano.