Lar - essa pequena palavra significa muitas coisas dependendo de pessoa pra pessoa, e sempre foi uma das coisas que nossa espécie sempre buscou, um local onde se proteger, descansar, procriar e prosperar. Todos nós temos esse anseio e o advento da civilização é uma das grandes forças que nos movem adiante, cada vez mais longe, explorando sempre a próxima colina. Um desejo que não é de hoje, e como vimos em diversos videos do canal, as migrações humanas evidenciam esse espirito de buscarmos um local que se pode chamar de “seu”.
O continente africano está repleto de exemplos nesse sentido, e nesse vídeo, iremos conhecer sobre os povos Bantus e como se espalharam pelo continente africano e o tornaram o seu lar. Quem são os povos Bantus? A nomenclatura “Bantu” tem suas raízes etimológicas na lín-gua desses povos onde o prefixo ba, é um prefixo nominal de classe que indica plural e ntu, significa “pessoa” ou "humano".
Portanto, “Bantu” refere-se a “povos” ou “humanos”. E esse termo “Bantu” não é o nome de um povo específico, ou uma sociedade coesa, mas é utilizado para descrever um grupo etnolinguístico que engloba cerca de 400 subgrupos étnicos di-ferentes, unidos principalmente por suas línguas relacionadas, que fazem parte da família linguística chamada de banta. E dentro desses grupos surgiu organizações sociais, religiosas, políticas e econômicas distintas devido a abrangência de suas migrações pelo continente que estão distribuídos em uma vasta região que vai desde o Camarões até a Somália e do Sudão até a África do Sul, cobrindo grande parte da África subsaariana.
Desse tronco linguistico, várias línguas surgiram como o suaíli, zulu, Xhosa, Shona, Lingala, Luganda, Umbundo e centenas de outras, somando atualmente, mais de 200 milhões de falantes. Mas qual a origem desse extenso grupo africano e como se es-palharam pelo continente? A origem dos grupos Bantu Há ainda algum debate quanto ao ponto de migração Bantu, onde o seu Urheimat seria na parte sul da África Ocidental, e acabou gradualmente a se movendo e dominando as partes central, oriental e meridional do continente, começando em meados do 2º milênio antes de nossa era, e tendo um declínio nessa expansão por volta de 1500 EC.
Com eles, os Bantu trouxeram novas tecnologias e habilidades, como o cultivo de culturas de alto rendimento e o trabalho com ferro, que produziu ferramentas e armas mais eficientes. Embora a maioria dos historiadores concordem com a ocorrência geral das migrações Bantus em África, os momentos precisos, as motivações, as rotas, bem como as consequências ainda são debatidos. Mas o que se sabe é que os primeiros grupos que iniciaram as migrações eram de agricultores que falavam vários dialetos proto-bantu, em regiões de savana e floresta tropical ao redor do rio Níger, no sul da África Ocidental, nos territórios entre a atual Nigéria e Camarões até o Gabão.
Utilizando ferramentas de pedra e de ferro, cultivaram com sucesso culturas como painço, sorgo, arroz seco, feijão e melões, embora o fizessem a um nível de subsistência, ou seja, cultivavam apenas culturas suficientes para satisfazer as suas próprias necessidades. Eles tinham a tecnologia para criar ferro a partir do minério de ferro, mas não se sabe como aprenderam essa técnica, exceto que as três possibilidades mais prováveis são que o conhecimento foi introduzido pelos fenícios no Norte, pelos egípcios ou kushitas no Leste, ou foi introduzido pelos primeiros grupos subsaarianos a desenvolver a metalurgia em ferro, a cultura Nok. Inclusive tenho um vídeo onde narro sobre essa cultura, e deixarei o link nos cards finais, caso queira conhecer tambem essa sociedade ancestral.
Embora não haja evidências diretas que conectem a cultura Nok com os povos bantus, é possível que o conhecimento da metalurgia do ferro tenha se espalhado através das migrações e interações entre diferentes grupos na África. Os bantus, co-nhecidos por suas expansões ao longo do continente, podem ter adotado e adaptado as técnicas de fundição de ferro con-forme se moviam para o sul e leste da África, levando consigo o conhecimento que poderia ter origens na prática Nok. Essa transferência de tecnologia teria tido um impacto signifi-cativo nas sociedades bantus, pois o ferro oferecia vantagens sobre as ferramentas de pedra, como maior durabilidade e efi-cácia.
Isso não apenas melhorou a agricultura, mas também a capacidade de caça, guerra e outras atividades que requeriam ferramentas e armas mais robustas. Portanto, o legado do fer-ro da cultura Nok pode ter sido um dos muitos fatores que con-tribuíram para a expansão e o sucesso dos povos bantus em to-da a África Subsaariana. As Grande Migrações Durante o segundo milênio AEC, pequenos grupos populacionais Bantus começaram a migrar para a África Central e depois para a região dos Grandes Lagos da África Oriental.
Esse movimento pode ser traçado pelo estudo da linguística e pela observação da relativa proximidade das línguas locais entre si e da língua originalmente falada pelo povo bantu do delta do rio Níger, o já mencionado proto-bantu. Ao mesmo tempo, deve-se ser cauteloso com tais estudos, uma vez que a passagem de uma língua pode não refletir necessariamente a migração dos seus falantes e o mesmo pode ser dito das práticas culturais e suas tecnologias. E as causas dessas migrações são debatidas, onde historiadores sugerem que o motivo da migração Bantu pode ter sido o esgotamento dos recursos locais, como terras agrícolas, pastagens e florestas; superpopulação; fome; epidemias; aumento da competição por recursos locais; guerra entre tribos rivais ou como consequência de disputas de sucessão; mudanças climáticas afetando as colheitas ou o famoso e indomável espírito de desbravamento humano.
Foi o povo Bantu quem fundou os assentamentos costeiros da África Oriental, e que se tornariam, com a adição de comerciantes muçulmanos da Arábia e da Pérsia a partir do século VII EC a Costa Suaíli. Do sul da África Ocidental e do Grande Vale do Rift da África Oriental, duas correntes de povos Bantus moveram-se mais para o sul em uma segunda onda de migração que ocorreu durante o primeiro milênio AEC. Uma terceira vaga de migração, na primeira metade do primeiro milénio da nossa era ocorreu à medida que os povos Bantus Orientais se deslocavam ainda mais para sul, onde hoje é o Zimbabue, o Botswana, Moçambique e o leste da África do Sul.
O processo de migração Bantu tem sido tradicionalmente visto por alguns estudiosos como um processo gradual e de lenta absorção de aldeia em aldeia através de uma África pouco povoada. No entanto, o compêndio a História Geral de África da UNESCO no volume II, dá uma perspectiva bastante diferente ao processo, pelo menos no que diz respeito à primeira vaga onde menciona: A principal expansão dos Bantu foi vasta e rápida, e não uma série de etapas graduais, como alguns argumentaram. Mas não se tratava de uma peregrinação nómada sem propósito, nem de uma conquista militar organizada.
Foi um processo notável de colonização – no verdadeiro sentido da palavra – a abertura de terras essencialmente vazias. (Mokhtar, 320) Os Bantus partilharam os seus conhecimentos sobre fundição de ferro, fabrico de cerâmica e as suas competências agrícolas com tribos indígenas forrageiras e nómadas que conheceram, muitas das quais acabaram por se estabelecer em comunidades aldeãs estáveis. Dialetos Bantu e aspectos dessa cultura foram adotados, embora os migrantes, é importante notar, também tenham aprendido com os povos nativos, especialmente em áreas como o cultivo de alguns grãos ou técnicas de pesca que foram aperfeiçoadas ao longo dos séculos para obter o melhor dos locais específicos.
Essas migrações bantus tiveram um grande efeito por onde passaram, como por exemplo a já citada disseminação da tecnologia de fundição de ferro, sendo que e os impactos ambientais decorrentes vieram junto, pois o carvão era necessário para fundir o ferro e as ferramentas de metal facilitaram o desmatamento da floresta e a busca por esse mineral. Houve tambem o aumento no número de pessoas que viviam em aldeias, o que por sua vez criou sociedades regionais mais distintas, formando reinos diversos pelo território que os bantu dominaram, consequentemente, nesse processo, ocorrido a expulsão de alguns povos nativos – não bantus - para áreas mais remotas. Como os povos que os Bantus encontraram ainda estavam na Idade da Pedra em termos de armas e tecnologia, os migrantes armados de ferro e a sua casta guerreira especializada tiveram pouca dificuldade em impor-se onde quer que fossem.
A sua tecnologia superior também encorajou os povos locais a aceitar a sua liderança. Alguns grupos resistiram a esta onda de cultura Bantu, como os “pigmeus” que se retiraram para as profundezas das florestas tropicais da África Central ou os grupos de caçadores-coletores da savana, os Khoisan, que também se retiraram para o ambiente inóspito e menos acessível do Deserto de Kalahari. E ao contrário dos khoisan, que eram sociedades de caçadores nômades, os bantus já desde o início praticavam a agricultura, caça e a pesca.
Entre os diversos estados bantus, que surgiram, destacou-se o reino do Congo, que dominava grande parte dos atuais Congo e Angola. Outro importante reino se localizava na região entre Zimbábue e Moçambique. Lá, o povo shona fundou o Império Monomotapa, sendo que ainda hoje podemos ver as ruínas das imponentes muralhas de sua mais importante cida-de, Grande Zimbábue, construída no século XIII.
E entre os séculos IX e XV, vários outros estados de língua ban-to começaram a surgir na região dos Grandes Lagos e na sava-na ao sul das florestas tropicais da África Central, onde surgiu os reinos Lunda, na África Central, o Império Luba e os Reinos de Buganda e Karagwe. Esses reinos bantus desempenharam um papel crucial no desenvolvimento cultural, político e eco-nômico da África, e sua influência ainda é sentida até hoje. Em videos futuros, pretendo falar sobre cada um desses reinos africanos.
Durante os séculos XVIII e XIX, o fluxo de grupos bantus que eram escravizadas no Sudeste africano aumentou com o co-mercio estabelecido entre os europeus e governantes africanos. Essas pessoas escravizadas, eram capturadas em guerras en-dêmicas entre os Estados africanos. Eram os próprios estados africanos que negociavam os capturados de grupos étni-cos vizinhos ou prisioneiros de guerra e os vendia para os euro-peus, que os levavam para suas colônias pelo Oceano Atlantico.
Esse tráfico humano com etnias bantus ocorreu tambem no Sultanato de Zanzibar, na atual Tanzânia, que lucrou com essa prática abominável. Com a chegada dos colonizadores euro-peus, o Sultanato de Zanzibar entrou em conflito direto no co-mércio e na concorrência com portugueses e outros europeus ao longo da Costa Suaíli, levando eventualmente à queda do sultanato e ao fim da negociação de escravos na costa suaíli em meados do século XX. As migrações Bantu não foram isentas de desafios e dificulda-des, onde os povos Bantus enfrentaram uma variedade de obs-táculos em sua busca por terras férteis e novas oportunidades.
Ao dominarem grande parte da África subsaariana, os vários grupos bantus moldaram e foram moldadas pelas sociedades com as quais entraram em contato, tendo ecoado através do tempo, uma fascinante narrativa de resiliência, intercâmbio cul-tural e de expansão, nos fazendo lembrar da rica história afri-cana e das complexas conexões que unem seus povos, povos que estavam buscando o seu lugar no mundo, o seu lar. Espero que tenha gostado desse vídeo e se chegou até aqui, deixe um joinha e compartilhe com mais pessoas. Se não é ins-crito considere se inscrever para receber videos como essa toda semana e se já é inscrito verifique se sino de notificações está ativado, alguns inscritos mencionam que a plataforma desabili-ta essa função em suas contas, faça para não perder os vídeos recentes.
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