A gente sabe que tem alguns personagens que a galera que gosta de lembrar cada 10 minutos que é macho demais adora. É uma galera meio reaça, que gosta de fazer cosplay com arminha e com motinho e que às vezes está envolvida com umas paradas meio esquisitas, milícia, complicado. E vamos ser francos que interpretação de texto não costuma ser o forte desse pessoal.
Então eu resolvi ajudar a resolver todos os seus problemas. Vou explicar no mesmo tom de grosseria e macheza porque personagens como Rorschach, Batman, Justiceiro e Juiz Drdd não são modelos de macheza para ninguém. Os comentários vão ser breves sobre cada personagem porque aqui no canal eu desenvolvo com calma, falo das histórias, falo desses personagens, então agora aqui realmente vai ser um negócio mais fast food.
Vamos começar pelo Justiceiro, personagem da Marvel, Frank Castle, ou para os íntimos Chico Castelo, é um cara que usa essa insígnia de caveira para matar bandido e ele mata mesmo, ele não perdoa não. Ele é o legítimo cara que se alguém diz para ele: está com pena, leva para casa! Ele até pode levar, só que em pedaços e em sacos pretos.
E ele é assim tão implacável porque originalmente ele é um cara vítima de trauma. A família dele foi dizimada quando eles estavam fazendo um piquenique no Central Park e os mafiosos, em uma troca de tiros, acabaram matando todo mundo e só sobrou ele. De uns tempos para cá, o símbolo da caveira começou a ser utilizado por grupos policiais, grupos militares, sobretudo nos Estados Unidos, mas também por grupos de extrema direita, supremacistas brancos que utilizam o símbolo da caveira nos Estados Unidos.
Isso fez com que o criador do Justiceiro, Gary Conway, viesse a público e dissesse, galera, parem de usar caveira porque não está legal. E não está legal por uma questão muito simples, o Justiceiro significa a falha do sistema legal. Quando você vê policiais, militares, pessoas do sistema, ou seja, figuras que fazem parte do Estado usando isso, eles basicamente estão dizendo, a gente não acredita mais no Estado, a gente está agindo à margem da lei e aí você pode ver que isso é bem sedutor para esse discurso antissistêmico que rola por aí de que tem que fechar a CTF, tem que fechar o Congresso e valer apenas a decisão desses nossos heróis míticos.
Só que tem um fator que a galera que usa o símbolo de caveira não se dá muito conta, e o Garth Ennis explora isso muito bem na fase dele pelo Justiceiro, é que o Justiceiro é um cara doente mental e ele já era perturbado antes mesmo da família dele ter sido morta. Durante sua passagem na Guerra do Vietnã, a gente já via que ele era um cara extremamente sádico, extremamente cruel e que no fundo, no fundo, o Justiceiro nada mais é do que um cara que inventou uma Guerra Santa, sacou? Inventou uma Guerra Santa contra a criminalidade apenas porque ele tem tesão em matar, aí ele simplesmente direcionou, vou matar pessoas dentro de um critério, como ele tem ainda um resquício de senso moral, ele inventou nesse critério, e, bom, só quem é bandido.
Só que ele gosta tanto de matar, no fundo, só isso é que deixa ele de p*ru duro, que daí ele tem uma elasticidade muito grande, ele tem um critério muito grande sobre o que é bandido, sobre quem é bandido e quem não é, então por isso que ele mata muito. Aí talvez alguém que está assistindo agora deve estar se perguntando, mas por que então ele não seria um modelo de macheza, porque olha só, ainda assim ele faz e acontece e tal. Cara, primeiro modelo de macheza ser um cara que é tantã da cabeça, que é biruta, pô!
Além disso o Justiceiro é um cara mega vaidoso, caprichoso, não está nem aí para todo mundo. E também é meio burro, porque tem uma história muito boa chamada o círculo de sangue, que um grupo chamado Cartel emprega ele para matar os bandidos, é um grupo que supostamente está interessado também em acabar com os bandidos, um grupo de bons cidadãos, cidadãos de bem. E é óbvio que ele é uma milícia, o Frank Castle!
E depois ele descobre isso e fica chateado. Porque é uma milícia? Não, porque tem mais gente matando as pessoas e não só ele, e ele quer esse negócio só para ele, porque no final se tiver mais gente matando, ele vai ficar lá assistindo e chupando pirulito.
Aí antes que venha apontar algum dedo aqui, eu quero dizer o seguinte: eu gosto bastante do personagem, estou devendo um vídeo sobre ele, mas eu gosto dele somente por essas complexidades, não por ele ser modelo. Vamos para o Rorschach do Watchmen, que tem uma galera aí que vê nele um ícone de heroísmo também, um personagem que, meu Deus, como é f***. Inclusive um cara muito burro, idiota, que apenas parasita as ideias dos quadrinhos como o Zack Snyder também viu no Rorschach esse heroísmo e explica muita coisa isso.
Agora eu vou começar a me repetir um pouco, porque esses personagens todos que a gente está vendo aqui têm algumas coisas em comum. Uma delas é, de novo, um cara profundamente perturbado, cheio de traumas. Só que assim, galera, eu sei que às vezes rola uma romantização do trauma, o cara é perturbado, ele sofre.
Só que a grande verdade, galera, é que uma pessoa que não processou isso, não trabalhou isso, não foi atrás de um auxílio psicológico, seja lá o que for, ele, na verdade, é só um cara biruta. E é isso que o Alan Moore e o David Gibbons mostram muito bem aqui. O Rorschach é um maluco, desde o começo da história a gente vê ele como alguém que tem um profundo desprezo pela humanidade e isso nos dá uma certa identificação, porque todo mundo em alguma dose despreza a humanidade, mas ele é um cara incapaz de fazer muitos amigos, é um cara que fede, como falam na história, ele não cheira bem e por mais que o senso de verdade dele seja no final de Watchmen até uma coisa bastante interessante, porque é o diário dele que sobrevive e que, portanto, é a nossa única oportunidade de saber o que realmente aconteceu, Rorschach não deixa de ser um cara paranóico com uma série de problemas que ele vai ter que resolver um dia, quer dizer, não vai, ele acaba morto.
Por que ele também não seria um modelo? Afinal de contas, ele é um cara que busca a verdade, ele está do lado dos mocinhos na história, ele pode ser um cara meio excêntrico, meio traumatizado, mas, afinal de contas, ele é um cara bom, não é? Só que o problema é o seguinte, galera, não dá para ficar separando o mundo em catálogo de brinquedo onde vende os mocinhos e os bandidos.
Rorschach é um personagem muito rico, muito complexo, muito bom, mas não dá para tirar dele modelo de nada. Primeiro porque, de novo, ele é um cara perturbadíssimo. E, do ponto de vista moral, ele é muito problemático porque ele tem um senso de pureza que é impossível e esse senso de pureza, esse senso de verdade, uma objetividade utópica, você só consegue isso a partir de uma violência tremenda.
Aliás, não por acaso, não por acaso, o nazismo era um projeto de purificação do mundo. Eu não estou dizendo que o Rorschach é nazista, só estou dizendo que você, quando quer purificar o mundo, você sempre vai acabar sendo muito violento, porque o mundo é impuro, porque o mundo é sujo e o Rorschach é um cara que anda no meio da sujeira, mas tem nojo da sujeira da qual ele partilha, por isso que, de alguma maneira, ele quer dar conta disso, ele quer resolver isso. De novo, aqui, assim como no Justiceiro, entra essa coisa do capricho pessoal, de coisas muito particulares, de problemas muito pessoais e a defesa da comunidade, a defesa das pessoas é pretexto, sacou?
É pretexto porque, na verdade, o cara ali está completamente fora da casinha. Juiz Drdd. Vamos lá!
O terceiro aqui da nossa lista. Já fiz um vídeo só sobre ele, mas vou falar sobre ele aqui, mas vamos lá, aliás, estou devendo mais vídeos, porque eu gosto muito de Juiz Drdd e ele é um personagem que é um pouco mais difícil para nós entendermos, até porque, muitas vezes, a gente tenta entender o Juiz Drdd pelo filtro dos americanos e os americanos também não entendem o Juiz Drdd, para quem não sabe, o Juiz Drdd é um personagem britânico. E por que tanto nós aqui quanto o pessoal dos Estados Unidos têm dificuldade de entender o Juiz Drdd?
Porque o Juiz Drdd, galera, é uma sátira e tem um choque cultural na questão do humor, porque, no fundo, a gente não entende que isso aqui tudo é uma grande piada. Para dizer isso de uma maneira bastante direta, o Juiz Drdd é um personagem incorruptível, é um cara correto, íntegro, muito habilidoso, cisudo, numa distopia fascista e essa é a piada. Caso você não tenha percebido, você colocar uma pessoa correta que faz tudo certinho em um regime que é podre e aí tem um dilema ético.
Se você é uma pessoa que faz as coisas certas quando o mundo está errado, você ainda está certo? Por isso os criadores do Juiz Drdd, que são caras todos de esquerda, John Wagner, Carlos Esquerra, o editor Pat Mills, por isso que eles reforçam todos esses tropos, esses estereótipos de macheza, de policial implacável. Tem um humor muito britânico aqui, esse humor do subentendido, onde você precisa sacar a piada, a piada não vem pronta para você.
Então o Juiz Drdd não é modelo de nada, ele é uma palhaçada. Uma sátira política que nos lembra que não adianta você ser certinho, você ser bonzinho, você ser cidadão de bem, quando você tem, na verdade, uma sociedade que produz uma série de injustiças e você está ali simplesmente a serviço dela. Em outras palavras, então o Juiz Drdd é um quadrinho que te lembra, sabe essa macheza toda do Juiz Drdd?
Ela serve para nada, ela é tosca, ela é ridícula e ela serve apenas como massa de manobra para um bando de fascistão se manterem no poder. E por fim, não podia faltar aqui, Batman, esse cara sombrio e másculo. Batman é um personagem que teve muitos autores passando por ele, ele tem muitas versões, mas se repetem algumas coisas e se repetem coisas que eu já falei dos outros personagens.
Mais uma vez nós temos o cara caprichoso, individualista, que usa uma série de pretextos para poder fazer o que ele quer fazer, só que existem algumas diferenças no Batman que são bastante significativas. A primeira é a seguinte, o Batman é uma criança mal crescida. Tem o lance da morte dos pais que traumatizou ele, mas aqui mesmo no Cavaleiro das Telas do Frank Miller, o próprio Frank Miller desenvolve um conceito muito interessante de que, antes mesmo da morte dos pais, ele caiu na caverna, viu um morcego e ele ficou fascinado.
Então o Batman é um cara tarado, tem uma tara para o morcego e que a morte dos pais serviu de motivo para ele dizer agora eu tenho que me comportar como um morcego, caçar as pessoas nas sombras. A maior prova que o Batman é essa criança mal crescida que estou falando é que os amigos dele são todos crianças, ele só consegue conversar com criança, por isso que ele está sempre cercado de Robins, de Batgirls. .
. O Batman não consegue ter uma amizade madura porque ele não é maduro, por isso que a amizade do Batman vai no máximo até uma criança de 12 anos. E como ele cresceu sem figuras paternais e maternais, ele tinha um empregado, o Alfred foi um empregado a vida toda, o Alfred até eu chamo de patrão Bruce, o Alfred não o chama de filho, então ele cresceu sendo essa criança que nunca saiu exatamente da infância porque ela foi bruscamente interrompida com a morte dos pais, mas na cabeça dela ela nunca acabou.
Por isso que o final da trologia do Nolan é bastante interessante porque o Batman quando percebe que pode crescer, ou seja, ter mulher, ter filhos, ter uma família, enfim, ser algo além simplesmente do que essa criança com seus brinquedos, ele deixa de ser Batman. E já que eu falei dos filmes do Nolan, no Batman Begins tem uma cena que ilustra algo que aparece também em muitos quadrinhos, que é o motivo do Batman não matar. Batman não mata, não porque ele tem um senso moral, não porque ele acha que não é certo matar, o Batman não mata porque o Batman é aristocrata, isso é um negócio que pouca gente se dá conta quando vai analisar o personagem.
Inclusive falam que o Batman é burguês. O Batman não gosta de burguês, aristocrata e burguês não é a mesma coisa. É muito comum, são muitas as histórias que mostram o Batman encrencando com a burguesia.
O Batman tem asco de burguês, ainda que tenha histórias que tratam ele como um burguês safado, tem histórias que são assim, mas também tem história que trata ele como um burro e torturador, como são os filmes do Zack Snyder naquele negócio sem pescoço chamado Ben Affleck. Mas voltando ao que interessa, é o aristocratismo do Batman que faz com que ele não mate. Ele olha para os bandidos, ele olha para os criminosos, olha para as práticas vis das pessoas e ele pensa: eu preciso me distinguir.
E ele fala isso muito claramente, inclusive no Batman Begins, quando falam para ele:, você tem que matar um cara. E ele fala: eu não vou matar. E aí perguntam para ele: por quê?
E o que ele responde? Não vou matar porque é errado, porque eu não acho que essa pessoa mereça morrer, porque Deus não deixa, sei lá? Não, ele responde: para me distinguir.
E isso tem a ver com a formação social da aristocracia, a aristocracia é aquela classe dos distintos, daqueles que dizem, olha, eu não vou me comportar que nem vocês, a minha diferença perante você são os meus modos, sou de uma outra estirpe de pessoas e por isso que o Batman se comporta como um cara solitário, que nunca está muito bem integrado com a liga da justiça, que nunca está bem integrado com ninguém. Primeiro porque ele não sabe lidar direito com adultos e segundo porque ele é um aristocrata e aristocrata não se mistura mesmo. Então por que o Batman não seria um modelo de macheza?
Bom, meu amigo, vamos lá de novo, é uma criança mal crescida, tem de novo a questão da pessoa caprichosa, cheia dos pretextos, mas tem também uma questão de classe, o Batman não é um aristocrata, então é muito difícil para uma pessoa comum conseguir emular, conseguir reproduzir um grau de distinção como o Batman tem. Fazer cosplay da macheza do Batman no fundo acaba virando apenas cospobre, porque o Batman tem condições de se distinguir e se diferenciar dos outros. A gente não tem.
Enfim galera, esse vídeo todo aqui foi uma série de provocações. Uma coisa que é importante dizer, a leitura é livre, existem interpretações possíveis, inclusive desses personagens todos que eu falei. E sim, é possível lê-los como modelos de uma masculinidade extremamente autoritária, violenta, etc, etc.
Mas agora sendo bem honesto com vocês aqui, eu sempre fui muito criticado por ser um cara muito bronco, muito estúpido, rude nas palavras, já arranjei e arranjo muita treta com uma galera aí, que acha que esse jeito burcutu é uma masculinidade tóxica. Eeu não acho que necessariamente seja. Mas existe, sim, uma pretensão de macheza que é bastante babaca.
E eu acho babaca, por isso estou dizendo que estou muito à vontade para falar isso para vocês, porque assim, eu acho muito esquisito a galera que gosta de buscar nesses personagens modelos serem sempre modelos extremamente individualistas, irresponsáveis, uma galera que só pensa em si ou que quando diz que está cuidando das pessoas, cuidando da comunidade, faz isso por pretextos, no fundo eles têm interesses bastante particulares, bastante pessoais, e eles não estão, na real, ligando para as pessoas. Quer saber, para mim isso não é macheza, macheza é o cac*te! Enfim, acabou virando uma esquete da TV Macho, da antiga TV Pirata, mas às vezes a gente tem que falar a língua que a galera entende É isso pessoal, esse vídeo aqui foi uma sugestão dos apoiadores do canal, seja você também um apoiador do Quadrinhos na Sarjeta É graças aos assinantes que é possível ter liberdade para fazer vídeos assim, com temáticas desse tipo.
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Valeu, pessoal!