É só por dinheiro", disse a família dele, sem saber que ela ouvia. Ele ficou calado. Ela foi embora naquela mesma noite, levando um segredo. 5 anos depois, no casamento da melhor amiga dela à beira do lago, um menino tropeçou no tapete. O milionário o segurou, olhou naquele rostinho e reconheceu a si mesmo. Apoie o canal deixando seu like e comentário e vamos para nossa história. Eloía prendia o último grampo no cabelo De Luana quando a amiga segurou o seu pulso com uma força grande demais para quem estava apenas nervosa com o próprio casamento. Pelo espelho
do quarto, viu os olhos da noiva se encherem d'água e achou que fosse emoção dessas que chegam junto com o vestido, o véu e o violino, que já afinava lá embaixo, no gramado que descia até o lago de Furnas. Mas Luana não sorria. "Elô, eu preciso te contar uma coisa antes de você descer", disse com a mesma voz miúda de quando as Duas eram meninas em Carmo do Rio Claro e Luana quebrava alguma xícara da avó. "Jura que não vai me odiar?" Eloía riu porque não havia no mundo nada que Luana pudesse fazer para merecer
ódio, e ajeitou uma mecha solta atrás da orelha dela. Fala logo que o padre já chegou e o Caio deve estar derretendo dentro daquele terno. Luana respirou fundo, olhou para as próprias mãos e depois para o reflexo da amiga. A mãe do Caio é prima dos Albuquerque. Eu só Descobri semana passada. Juro por Deus. quando chegou à lista dos convidados da família do Caio. O Gustavo tá aqui. Chegou faz meia hora. O grampo escorregou dos dedos de Eloía e tilintou no piso de madeira. Ela não se abaixou para pegar. Ficou olhando para o ponto exato
onde ele tinha caído, como se ali estivesse a explicação de como 5 anos inteiros podiam caber numa frase tão curta. 5 anos, sem dizer aquele nome em voz alta, nem para a tia, nem para o Espelho, nem para o travesseiro. 5 anos em que aprendeu a desviar os olhos das caminhonetes com placa de minas, das sacas de café com o brasão da fazenda Santa Rita, de qualquer homem alto, de cabelo escuro e enrolado que atravessasse a rua de costas. E agora ele estava ali a poucos metros, respirando o mesmo ar de lago e de dama
da noite, sem saber que lá embaixo, num terninho azul marinho alugado em Goiânia, havia um menino segurando uma Almofadinha de cetim com as alianças dos noivos. "Se você quiser ir embora, eu entendo", continuou Luana apressada, as palavras tropeçando umas nas outras. "Eu peço pro meu irmão levar vocês até a rodoviária de Passos. arrumo o outro pagem. Falo que o Benício passou mal qualquer coisa. Eu só não podia deixar você descer sem saber. Eloía ergueu os olhos. A vontade de fugir subiu pelo corpo como água fervendo, conhecida demais. A mesma que a tinha empurrado Para dentro
de um ônibus noturno numa madrugada de outubro, com uma mala de roupas mal dobradas e um exame guardado na bolsa. Foi exatamente por reconhecer aquela vontade que ela decidiu ficar. Da outra vez, pensou, eu saí sem dizer uma palavra e passei 5 anos carregando tudo o que não disse. Ninguém vai estragar o seu casamento, muito menos eu respondeu, pegando o grampo do chão e prendendo enfim o último cacho de Luana. Eu fiz 300 bem casados e dois taxos de doce de Leite para essa festa. Não vou embora antes de ver você cortar esse bolo. A
porta se abriu sem batida, do jeito que só as crianças abrem as portas. Benício entrou puxando a gravata borboleta com as duas mãos, o rosto vermelho de indignação. Mãe, essa gravata tá me enforcando. Eu não consigo nem engolir cuspe. Eloía se ajoelhou na frente dele, afrouxou o elástico e alisou a lapela do palitó pequeno que ainda cheirava a loja. O menino a encarou de perto e Franziu a testa. Uma arruga funda entre as sobrancelhas, séria demais, para um rosto de 4 anos. Você tá com olho de chuva. Era uma expressão só deles. Nasceu numa tarde
em Pirenópolis, quando Benício tinha 3 anos, e a encontrou chorando escondida atrás do fogão à lenha, depois de uma conta de luz que ela não sabia como pagar. Ele não entendeu o choro e, desde então, chamava de olho de chuva qualquer brilho diferente no olhar da mãe. É o rímel da Tia Luana que arde, mentiu ela sorrindo. E você está pronto? Lembra o que combinamos? Andar devagar, não correr, não balançar a almofada e não comer bem casado antes da hora", recitou ele, contando nos dedos. "Mas depois eu posso comer três, dois, três, mãezinha." Ele só
a chamava de mãezinha quando queria alguma coisa e sabia que funcionava. Eloía beijou a testa dele bem no lugar onde o cabelo se enrolava num redemoinho que pente nenhum conseguia domar. um Redemoinho que ela conhecia de outra cabeça, de outras manhãs, de um travesseiro que não era mais o seu. Benício saiu correndo atrás da mãe de Luana, esquecendo na mesma hora a promessa de não correr. E Eloía ficou parada no meio do quarto com as mãos frias. Luana a abraçou por trás com cuidado, para não amassar o vestido azul claro bordado de flores que as
duas tinham escolhido juntas por vídeochamada. Hã, você nunca me contou Direito o que aconteceu naquele domingo", disse a noiva baixinho. Só que ouviu uma coisa e foi embora. Eloía fechou os olhos e a lembrança veio inteira, com cheiro e com som, como sempre vinha. Era o primeiro almoço de família para o qual Gustavo a levava de verdade, sem pressa, como namorada. A mesa da varanda da Santa Rita estava posta com frango com quiabo, tutou e angu. E dona Vera Albuquerque a cumprimentou com dois beijos no rosto e Um olhar que mediu seus sapatos antes de
chegar aos olhos. Eloía tinha levado uma compota de figo feita na véspera, no tacho de cobre que herdou da avó e a deixou na cozinha para servir na sobremesa. No fundo da bolsa, dobrado em quatro, estava o exame que ela tinha buscado no laboratório de alfenas na sexta-feira e que ainda não tinha mostrado a ninguém. planejava contar a Gustavo naquela noite no alpendre depois que todos fossem dormir. Foi buscar a Compota na hora do café e quando voltava pelo corredor ouviu a voz de Marcelo, o irmão mais velho, vinda da janela que dava para o
terreiro. É só por dinheiro, mãe. Moça de feira não se apaixona por herdeiro, se apaixona pela herança. Dona Vera respondeu alguma coisa sobre ter visto aquilo acontecer com outras famílias da região e sobre ser questão de tempo. Eloía parou no batente com a compota nas mãos e viu Gustavo encostado na coluna da varanda de costas para ela, Olhando o cafezal. Ele ouviu tudo. Ela esperou que ele se virasse, que dissesse o nome dela, que dissesse qualquer coisa. Ele não disse nada, só acendeu um cigarro que nem costumava fumar. e continuou olhando as fileiras de café,
descendo o morro. Ela deixou a compota sobre a mesa, pediu licença, disse que estava com dor de cabeça e pediu ao caseiro que a levasse até a cidade. Naquela mesma noite, arrumou a mala no quartinho alugado em Carmo do Rio Claro, Escreveu três bilhetes e rasgou os três. Às 4 da manhã, estava na rodoviária de Passos comprando uma passagem para Goiânia. E de lá seguiu para Pirenópolis, para a casa da tia Zezé, irmã da mãe, que fazia pamonha para vender e nunca perguntava mais do que precisava saber. Trocou o chip do celular na primeira semana.
Soube por Luana meses depois que Gustavo tinha aparecido na feira de sábado algumas vezes e perguntado por ela. Depois parou De aparecer. Ela concluiu que ele tinha acreditado no irmão e aquela conclusão, mais do que a frase de Marcelo, foi o que a impediu de voltar. Em Pirenópolis, reaprendeu a vida de trás para frente. Acordava antes do sol para mexer o doce de leite no taxo. Vendia os potes na rua do lazer para os turistas de Brasília. E quando a barriga cresceu demais para ficar em pé ao lado do fogo, passou a fazer as contas
e os rótulos sentada. Benício nasceu em junho, numa noite de Quadrilha, com o forró da praça entrando pela janela da maternidade. Aprendeu a contar, empilhando os potes de goiabada, aprendeu as cores com as fitas da festa do divino e aprendeu a ler, soletrando o nome da mãe nas etiquetas. Só uma vez perguntou pelo pai aos 4 anos, depois que o pai de um coleguinha apareceu na escola para a festa do dia dos pais. Eloía respondeu que o pai dele morava longe, em outra cidade e que não sabia que ele existia. Benício pensou um pouco E
perguntou se o pai sabia fazer doce. Quando ela disse que não, ele deu de ombros, satisfeito, como se aquilo explicasse tudo, e voltou a brincar. "Ele nunca soube?", perguntou Luana. E o silêncio de Eloía foi resposta suficiente. A noiva apertou as mãos dela. Elô, você não precisa resolver nada hoje. Hoje você só precisa segurar meu buquê e não me deixar cair naquele gramado. Eloía riu, com os olhos ainda úmidos, e desceram juntas à escada de Pedra do casarão. O fim de tarde pintava o lago de dourado. As cadeiras brancas estavam alinhadas no gramado diante de
um arco de flores do campo. E além delas, os canions de Capitólio se erguiam avermelhados com as lanchas pequenas lá embaixo parecendo brinquedos. Eloía tomou seu lugar ao lado do altar e percorreu os convidados com os olhos, fila por fila, sem encontrar quem procurava. Por um instante, sentiu um alívio covarde. Pensou que ele talvez tivesse ido embora, que Luana tivesse se enganado. O violino começou a tocar. Todos se viraram pro fundo do corredor e Benício apareceu com a almofadinha erguida à frente do peito, compenetrado, dando passos lentos e exagerados, arruga entre as sobrancelhas denunciando o
esforço. Os convidados sorriram. No meio do caminho, a ponta do sapato novo prendeu na borda do tapete e o menino tombou para a frente. Antes que Eloía Conseguisse se mover, uma mão surgiu da ponta de uma das fileiras e o segurou pelo braço, firme, salvando o menino e as alianças de uma vez só. Era um homem de terno azul marinho e gravata de arabescos, que se ajoelhou no tapete para ajeitar o palitó do pagem. >> [limpando a garganta] >> Tudo certo aí, campeão?", perguntou com um meio sorriso. "Obrigado, moço", respondeu Benício, franzindo a testa daquele
jeito que era só dele. O sorriso Do homem se desfez devagar. Ele ficou olhando para o rosto do menino um segundo além do necessário, depois para o redemoinho no alto da cabeça dele e, por fim, ergueu os olhos para o altar. Eloía sentiu o buquê de Luana pesar como pedra em suas mãos. 5 anos depois, Gustavo Albuquerque a encontrou no meio de 100 pessoas e ela entendeu pelo jeito como o rosto dele empalideceu, que ele não estava olhando para ela, estava olhando para o filho. Benício, alheio a Tudo, retomou a caminhada com a almofada firme
contra o peito, orgulhoso de não ter deixado cair nenhuma aliança, e chegou ao altar, procurando a aprovação da mãe. Eloía conseguiu sorrir para ele, mesmo com a garganta fechada, e o menino se postou ao lado do noivo, estufando o peito, como tinha ensaiado no quintal da tia Zezé. Gustavo continuava de pé no corredor, com a mão ainda meio erguida, como se tivesse esquecido o próprio braço no ar. Uma senhora de chapéu tocou No cotovelo dele e só então ele voltou para a cadeira sem tirar os olhos do altar. O padre começou a falar sobre paciência.
sobre perdão, sobre o amor que tudo suporta. E Eloía não ouviu uma palavra. Ouvia apenas o próprio coração e a pergunta que tinha passado 5 anos evitando e que agora estava sentada na terceira fileira de terno azul à espera de uma resposta. Quando a cerimônia terminasse, não haveria ônibus de madrugada, nem chip novo, nem tia Distante. Haveria apenas aquele gramado, aquele lago e um homem que finalmente tinha motivo para exigir que ela falasse. A festa começou no terraço do casarão, assim que o sol se escondeu atrás dos canhons e Eloía se agarrou ao trabalho como
quem se agarra a um corrimão. arrumou os bem casados em pirâmide, trocou as colheres de pau dos tachos de doce de leite, reabasteceu a goiabada Cascão, cortou queijo canasta em cubos que ninguém tinha pedido. Qualquer tarefa servia, desde que mantivesse as mãos ocupadas e os olhos longe da mesa redonda, perto da escada, onde Gustavo estava sentado com um copo de cachaça à sua frente. Ela sabia exatamente onde ele estava, sem precisar olhar. Do mesmo jeito que se sabe onde fica o fogão numa cozinha escura. sentia o olhar dele como se fosse calor. Duas vezes ele
se levantou e duas vezes alguém o parou no caminho. Um tio que queria falar da colheita, uma prima que Queria uma foto. E nas duas vezes Eloía aproveitou para mudar de lugar, levando uma bandeja vazia para a cozinha, fingindo uma pressa que não tinha. Benício, por sua vez, estava no melhor dia da vida. tinha tirado a gravata, conquistado os três bem casados que negociou com a mãe e mais um que a avó de Luana lhe deu escondido. E agora corria pelo gramado com os filhos dos convidados, o paletó aberto voando atrás dele como uma capa.
De vez em quando Voltava até a mesa de doces, encostava o queixo na borda da toalha e anunciava para quem estivesse perto que aquele doce de leite tinha sido a mãe dele quem fez. no tacho de cobre e que ele tinha ajudado a mexer. Eloía ouviu Luana rir de longe da cena e sentiu uma pontada de orgulho que, por alguns segundos foi maior que o medo. Quando os noivos abriram a pista de dança com uma moda de viola que o pai de Luana fez questão de tocar ao vivo, Benício puxou a saia da Mãe e
pediu para ver as lanchas de perto. A ponta do terraço, apoiada numa balaustrada de pedra, dava para ver as luzes das embarcações refletidas no lago escuro e as pousadas espalhadas pelas encostas como brasas acesas. Eloía o ergueu no colo e ele passou os braços pelo pescoço dela, apontando uma lancha maior que as outras. Foi ali que ouviu os passos atrás de si, firmes, sem pressa, os passos de alguém que tinha decidido não ser interrompido de novo. "Boa noite, Eloía." A voz dele estava mais grave do que ela lembrava, ou talvez fosse só o silêncio que
veio depois. Ela se virou devagar, com o filho no colo e o encarou pela primeira vez em 5 anos. Gustavo tinha a barba mais cheia, algumas linhas novas no canto dos olhos e a mesma maneira de ficar parado, com as mãos soltas ao lado do corpo, como se o mundo inteiro pudesse esperar. Boa noite, Gustavo. Benício se remexeu no colo dela e abriu Um sorriso largo. É o moço do tapete. Gustavo desviou os olhos de Eloía para o menino e algo no rosto dele se desmanchou por um instante antes de se recompor. Sou eu mesmo
e você é o pagem mais corajoso que eu já vi. Qual é o seu nome? Benício, eu tenho 4 anos e meio. Eloía sentiu o menino pesar em seus braços e percebeu que Gustavo fazia uma conta silenciosa e que a conta fechava. Ele engoliu em seco, mas manteve a voz leve só para o menino. E foi você que Ajudou a fazer aquele doce de leite? Porque estava bom demais. Fui eu e minha mãe. A gente mexe no tacho um tempão até o braço doer. Você sabe fazer doce? Gustavo sorriu meio sem jeito. Não sei não.
Meu pai também não sabe, respondeu Benício com a naturalidade de quem conta a cor de um carro. O silêncio que caiu sobre os três foi tão grande que a moda de viola lá atrás pareceu vir de outro lugar. Gustavo olhou para Eloía e ela viu naquele olhar uma pergunta que não Precisava ser feita. Por sorte, a mãe de Luana passou por eles naquele momento, levando uma bandeja de pão de queijo. E Eloía aproveitou para colocar Benício no chão e pedir a ela que o levasse para lavar as mãos, que estavam grudentas de doce. O menino
protestou, disse que queria ver a lancha grande e só aceitou ir quando ouviu a promessa de mais um bem casado. Antes de sair, acenou para Gustavo. "Tchau, moço do tapete. Tchau, Benício", respondeu ele, e a voz falhou No nome. Ficaram os dois sozinhos na ponta do terraço. Luía cruzou os braços sobre o vestido azul, não por frio, mas porque não sabia o que fazer com eles. Gustavo deu um passo na direção dela e parou, como se houvesse uma linha invisível no chão de pedra. "4 anos e meio", disse ele baixo. "Não, aqui, Gustavo, é o
casamento da Luana. Então me diz onde? Na rodoviária de Passos às 4 da manhã? Porque você tem o costume de escolher lugar para sumir, não para Conversar? A frase acertou onde devia acertar e ela sentiu o rosto esquentar. Eu escolhi o lugar onde ninguém ia me olhar, como sua mãe me olhou. Minha mãe? Ele franziu a testa e Eloía quase perdeu o fôlego porque era a mesma ruga que ela beijava todas as noites no rosto do filho. O que a minha mãe tem a ver com você ter ido embora sem uma palavra? Eu passei semanas
atrás de você, Eloía. Fui na feira, fui no quartinho que você alugava, falei com a dona da pensão, Liguei para um número que não existia mais. Ninguém sabia me dizer nada e quem sabia não quis dizer. Ela o encarou sem acreditar que ele pudesse estar perguntando aquilo. Eu estava no corredor naquele domingo com a compota de figo na mão. Ouvi o seu irmão dizer que eu estava com você só por dinheiro. Ouvi sua mãe concordar e vi você encostado na coluna da varanda ouvindo tudo sem abrir a boca. Gustavo empalideceu durante alguns segundos não Disse
nada e ela viu que ele estava revendo a cena por dentro do lugar dela pela primeira vez. "Você ouviu?", murmurou ele. "Ouvi e ouvi o seu silêncio também, que foi o que mais doeu. Eu tinha um exame na bolsa, Gustavo. Ia te mostrar naquela noite no alpendre. Depois daquilo, fiquei pensando em que tipo de lugar eu ia criar um filho, numa família que já tinha decidido quem eu era antes de me conhecer, com um pai que não conseguia Nem me defender numa varanda. Ele passou a mão pelo cabelo e anotou que os dedos tremiam. Eu
fiquei calado naquele dia e isso eu não vou negar. Tem motivo, não é o que você pensa, mas eu não vou me explicar aqui no meio de uma festa. como se cinco anos coubessem em 10 minutos. Ele respirou fundo e voltou a olhar para ela com uma firmeza que a desarmou. Só me responde uma coisa. sem rodeio. Ele é meu filho. Eloía pensou em todas as respostas que tinha ensaiado ao longo Daqueles anos, nas madrugadas diante do tacho e nenhuma delas serviu. Olhou para o gramado, onde Benício agora corria atrás de um vagalume com as
mãos ainda molhadas, e disse a única verdade que cabia: "Ele é meu filho e é seu também". Gustavo fechou os olhos. Quando os abriu, estavam úmidos e ele não fez nenhum esforço para esconder. Você me tirou 5 anos, Eloía. O primeiro passo, a primeira palavra, o primeiro dia de escola. Eu nem sei o dia em que ele Nasceu. 17 de junho, numa noite de quadrilha", respondeu ela. E a voz saiu mais dura do que pretendia, porque era a única forma de não chorar. E eu não te tirei nada. Eu te poupei de ter que escolher
entre ele e a sua família. Você já tinha escolhido uma vez naquela varanda. Eu não quis ver você escolher de novo. Você não me deu essa chance. Você também não me deu a minha. Ficaram se olhando, os dois feridos, os dois com razão pela metade, enquanto os Convidados cantavam alto na pista e alguém estourava uma garrafa de espumante. Gustavo foi o primeiro a desviar os olhos, não por fraqueza, mas porque parecia estar tomando uma decisão. Quando voltou a falar, a voz tinha recuperado o tom sereno de antes, só que agora havia algo de inegociável nela.
Eu não vim aqui para estragar a festa da Luana. nem para assustar o menino. Também não vou fingir que não vi o que vi. Sei que vocês estão hospedados Na pousada das canoas porque a Luana deixou escapar. Amanhã às 8 eu vou estar no café da manhã de lá. Você pode aparecer ou pode sumir de novo, Eloía. Mas se sumir, dessa vez eu vou atrás [música] e não vou parar na primeira porta fechada. Ele fez menção de ir embora e parou, olhando para o gramado. Ele franze a testa igualzinho a mim, sabia? Meu pai fazia
isso também. Eu sei respondeu ela quase num sussurro. Eu vejo isso todo dia. Gustavo foi embora Antes do corte do bolo. Eloía só percebeu porque a cadeira perto da escada ficou vazia, com o copo de cachaça ainda cheio. Cumpriu o que tinha prometido a Luana. segurou o buquê, sorriu nas fotos, dançou uma música com o pai da noiva e distribuiu bem casados na saída, mas tudo pareceu acontecer atrás de um vidro. Luana a abraçou na despedida, sem perguntar nada, apenas apertou sua mão com força, como faziam quando eram meninas, e uma das duas Levava bronca.
Já passava da meia-noite quando chegaram à pousada. Benício dormiu no carro e acordou só para vestir o pijama, reclamando que ainda estava com gosto de bem casado na boca. Eloía o cobriu com o lençol e se deitou ao lado dele, sem tirar o vestido, olhando para a janela aberta, por onde entrava o barulho dos grilos e o cheiro úmido do lago. Pensava no café das 8, no rosto de Gustavo ao dizer o nome do menino, na frase inacabada sobre um motivo que não Era o que ela pensava. Pensava que talvez tivesse passado cco anos inteiros
brigando com um silêncio que nunca entendeu direito e sem querer pensou no começo. Num sábado de maio, 6 anos antes, um rapaz de camisa de botão dobrada até o cotovelo parou na barraca dela na feira de Carmo, do Rio Claro e pediu para provar o doce de leite. pediu para provar de novo e disse muito sério, que tinha um problema, porque depois daquilo nenhum doce da fazenda ia Servir. Ela respondeu que o problema era dele. Ele voltou no sábado seguinte e no outro e em todos os sábados daquele inverno, sempre comprando um pote a mais
do que precisava, até confessar que a dispensa da Santa Rita estava entupida de doce de leite e que a cozinheira já desconfiava. Eloía riu tanto que derrubou uma pilha de goiabadas. Foi naquele riso que tudo começou sem pressa, entre pedaços de queijo e conversas que se estendiam até a feira Acabar e os feirantes desmontarem as barracas ao redor dos dois. Ela nunca tinha pensado no dinheiro dele. Pensava nas mãos dele, carregando os taxos até a caminhonete, no jeito como ele ouvia, sem interromper. Quando achou que o filho já dormia, ele se virou para ela com
os olhos meio fechados. Mãe, o moço do tapete estava triste. Por que você acha isso, filho? Benício bocejou, afundando o rosto no travesseiro, porque ele estava com olho de chuva igual a Você. Eloía não respondeu. Ficou acordada até o céu clarear sobre o lago, olhando o relógio do celular, contando as horas que faltavam para as 8. Às 7:50, Eloía já estava sentada na varanda pousada diante de uma xícara de café que esfriava sem ser tocada. Tinha deixado Benício na piscina com dona Cida, a mãe de Luana, que chegou de maiô florido e chapéu de palha,
e prometeu não tirar os olhos dele, nem para piscar. Daquela varanda dava para ver a estrada de terra Que descia até o portão. E Eloía pegou a si mesma, olhando para ela a cada minuto, sem saber se torcia para ver a caminhonete dele aparecer ou para que ele desistisse. Às 8 em ponto, Gustavo entrou pelo salão, não pela estrada. Tinha conseguido um quarto ali na mesma noite. E ela entendeu que ele tinha passado à noite a poucos quartos de distância. provavelmente tão acordado quanto ela, vestia jeans e uma camisa de linho clara, com as mangas
dobradas até O cotovelo. E aquela imagem a desmontou mais do que o terno da noite anterior, porque era o rapaz da feira que estava ali, só que mais velho e mais cansado. Ele puxou a cadeira em frente a ela e se sentou sem pedir licença, como quem sabe que a licença não viria. A moça da pousada trouxe mais café, pão de queijo e uma cesta de broa de fubá, e os dois esperaram que ela se afastar. "Obrigado por ter vindo", disse ele. "Eu vim porque você disse que ia atrás. Não Quero você aparecendo em Pirenópolis
sem avisar na porta da minha tia, assustando- Benício. Então você mora em Pirenópolis?" Ele sorriu de leve, sem [limpando a garganta] humor. 5 anos procurando e bastava olhar para Goiás. Eloía apertou a xícara entre as mãos. Vamos combinar uma coisa, Gustavo. Se essa conversa for para você me cobrar cada dia, eu levanto agora e a gente resolve tudo por advogado. Não tenho dinheiro para um bom, mas tenho a Certidão do meu filho e 4 anos e meio de cuidado com ele. A palavra advogado ficou suspensa entre os dois. Gustavo apoiou os cotovelos na mesa e
passou as mãos pelo rosto. Eu não quero, advogado. Eu não quero tirar o menino de você, Eloía. Se é isso que te assusta, pode esquecer. Eu vi ontem como ele olha para você. Nenhum homem decente separaria aquilo. Ele fez uma pausa e a voz ganhou firmeza. Mas eu também não vou voltar para Santa Rita e fingir que ele não Existe. Quero que ele saiba quem eu sou. Quero o meu nome na certidão dele. Quero estar presente do jeito que der, na distância que for. Você quer. Você sempre soube o que queria. Rebateu ela. Naquele domingo
também sabia e ficou calado. Ele não desviou os olhos. Ontem eu disse que tinha motivo. Você quer ouvir ou prefere continuar achando que sabe? Eloía hesitou durante 5 anos. A certeza da covardia dele tinha sido um abrigo dolorido, mas conhecido. E agora Ele lhe oferecia a chance de sair de dentro dela. Fala. Gustavo respirou fundo e olhou para o lago, como tinha olhado para o cafezal naquele dia. Na quinta-feira anterior à aquele almoço, meu pai teve um infarto no curral. Leve, disse o médico de Alfenas, mas ele saiu do hospital com uma lista de remédios
e uma ordem. Nada de aborrecimento, nada de briga, nada de susto. Ninguém fora de casa sabia, nem você. Ele pediu segredo porque não queria o povo da região, Achando que a Santa Rita estava sem comando. Ele girou a xícara no Piris devagar. Naquele domingo, ele estava sentado do outro lado da mesa, a 3 metros da janela onde o Marcelo falava. Se eu abrisse a boca, ia virar uma briga feia, porque eu e o Marcelo nunca brigamos pouco. Eu engoli tudo para não matar meu pai de raiva na frente do frango com quiabo. Eu pensei que
você estava na cozinha. Juro por Deus que eu não sabia que você tinha ouvido. Eloía Sentiu o chão da varanda ficar menos firme. Lembrou-se do sogro que nunca chegou a ser, seu Joaquim, um homem calado, que naquela tarde tinha comido pouco e se recolhido cedo, e ela tinha achado que era desprezo. "Você podia ter me contado depois", disse, e percebeu que a raiva tinha perdido um pouco do corte. Eu ia contar naquela mesma noite. Fui ao seu quartinho às 9 horas. A dona da pensão disse que você tinha saído com uma mala e não tinha
deixado o recado. Ele deu um sorriso triste. Você não foi a única com uma coisa importante para dizer naquela noite. Eloía ela quis perguntar o que ele queria dizer, mas algo no rosto dele fechou a porta e ela entendeu que aquela resposta não viria ali. E o seu pai? perguntou mais baixo. Morreu três anos atrás, dormindo. O coração não aguentou o segundo. Hoje sou eu que cuido da Santa Rita. O Marcelo foi para Ribeirão Preto e a gente se fala no Natal quando se fala. ficaram um Tempo em silêncio. Pela primeira vez não era um
silêncio de acusação. Eloía olhou para ele e viu por trás da barba e das linhas novas o luto que não tinha acompanhado, a fazenda que ele segurou sozinho, e se perguntou quantas coisas os dois tinham carregado separados, que poderiam ter carregado juntos. Mas logo lembrou de outra coisa e a dureza voltou. Seu pai morreu. Sua mãe está viva e ela continua achando o que achava. Minha mãe acha muita coisa Respondeu Gustavo. Mas quem decide quem entra na minha vida sou eu. Isso eu aprendi tarde, mas aprendi. É fácil dizer isso numa pousada em Capitólio longe
dela. Então me dá a chance de dizer isso na frente dela. Eloía desviou o olhar para a xícara. Não estava pronta para imaginar aquela cena, dona Vera diante dela outra vez e mudou de assunto antes que ele insistisse. A gente volta para Pirenópolis na terça, no ônibus das 6. Tenho encomenda de doce paraa festa De uma escola e a tia Zezé não dá conta sozinha. Gustavo a sentiu devagar, como quem mede o tamanho de um prazo. Eh, então me conta dele, só isso por enquanto, do que ele gosta, do que tem medo, como ele é.
E ela contou primeiro com cautela, depois sem conseguir parar. contou que Benício tinha medo de trovão e fingia que não tinha, que dormia com uma lanterna debaixo do travesseiro, que sabia de cor o nome de todos os cavaleiros mascarados das cavalhadas, e Que tinha decidido ser piloto de avião ou vendedor de pamonha, ainda não sabia qual. Contou que ele contava os potes da banca melhor que ela e corrigia o troco dos turistas. Gustavo ouvia sem interromper, do jeito que ouvia na feira. e em certo momento riu alto, um riso que ela não ouvia havia 5
anos e que reconheceu com o corpo inteiro. E você? Perguntou ele quando ela parou. Como você está, Eloía? Ninguém tinha feito aquela pergunta a ela em muito Tempo. Eu tenho uma banca na rua do lazer, um tacho de cobre e um filho que me acha a pessoa mais importante do mundo. Estou bem. Gustavo a olhou com atenção, como se estivesse conferindo a resposta. "Você sempre fala que está bem antes de estar." Ela quis se irritar com a intimidade daquela frase, mas não conseguiu porque era verdade. Um grito agudo cortou a conversa. Benício vinha correndo pelo
gramado, pingando da piscina com uma toalha de bichinho Enrolada no pescoço e dona Cida ofegando alguns metros atrás. Mãe, o moço do tapete. Ele subiu os degraus da varanda e parou ao lado da mesa, olhando de um para o outro com uma curiosidade desconfiada. Vocês são amigos? Eloía e Gustavo se entreolharam. A gente se conheceu faz muito tempo, filho, antes de você nascer, respondeu ela, escolhendo cada palavra. Benício pareceu satisfeito com aquilo e voltou à atenção para a cesta de pão de queijo. Pegou Dois de uma vez e se sentou na cadeira ao lado de
Gustavo, com os pés balançando. "Moço, você tem lancha?" Gustavo segurou o riso. Tem uma pequena ali embaixo no pier da pousada. Por quê? Porque ontem eu vi uma lancha grandona e minha mãe disse que não dava para ir. Ele olhou para Eloía com a melhor cara de pedido que tinha. Mãezinha Eloía sabia reconhecer uma armadilha quando via uma e também sabia que dessa não tinha como escapar sem virar a vilã Daquela manhã. Gustavo percebeu a hesitação e, em vez de insistir, esperou. Se sua mãe for junto e você usar colete o tempo todo", disse ele,
olhando para ela e não para o menino, Eloía suspirou colete, sentado e sem colocar a mão para fora. "Combinado!", gritou Benício e saiu correndo para trocar de roupa antes que alguém mudasse de ideia. A lancha era branca, simples, com o nome Santa Rita pintado em letras azuis na lateral. Gustavo pilotava Devagar, contornando as paredes dos canons, e Benício, afivelado num colete laranja que o deixava parecido com uma boia, gritava de alegria a cada respingo. Quando passaram perto de uma cachoeira que caía direto no lago, Gustavo desligou o motor e deixou o barco deslizar, e os
três ficaram ouvindo o barulho da água batendo nas pedras. Benício quis saber como o lago tinha ficado tão grande e Gustavo explicou que antes ali era um rio e umas Fazendas e que a água foi subindo quando construíram a represa até cobrir tudo. E as casas ficaram lá embaixo? Perguntou o menino, debruçando-se na borda com os olhos arregalados. Algumas ficaram. Dizem que quando a seca é muito forte, dá para ver a torre de uma igreja aparecendo. Que triste! As casas ficaram sozinhas. Ficaram, mas a água protege elas. Um dia, quando o rio volta a baixar,
elas aparecem de novo. Eloía observava os dois da popa com o vento Batendo no rosto. Via Benício franzir a testa com penetrado e via Gustavo reparar de novo naquele gesto e depois sorrir sozinho. Via o jeito como ele segurava o colete do menino pela alça das costas, sem que o menino percebesse, com uma atenção que não se aprende em livro. Sentiu uma coisa que não queria sentir, um calor que começava no peito e subia até os olhos e virou o rosto para o lado, fingindo olhar as pedras. Pensou em todas as vezes que tinha imaginado
Aquela cena e jurado que ela nunca aconteceria. E pensou também que tinha medo, não de Gustavo, mas do quanto seria fácil voltar a confiar nele. Benício cansou da cachoeira e se sentou no banco ao lado de Gustavo, balançando as pernas. Ficou um tempo quieto, olhando para o homem de perfil, e depois perguntou com a mesma naturalidade com que tinha perguntado sobre as casas debaixo d'água. "Moço, você mora longe?" Gustavo demorou a responder. Moro em Minas, numa fazenda de café. É longe de Goiás? Sim, meu pai também mora longe. Disse Benício pensativo. Minha mãe falou que
ele não sabe que eu existo. Ele fez uma pausa e levantou os olhos para Gustavo. Você conhece ele? O barco balançou devagar sobre a água parada. Gustavo não respondeu. Virou o rosto para trás, procurando Eloía, e ela viu nos olhos dele o pedido que ele não ia fazer em voz alta. A decisão era dela e os dois sabiam disso. Eloía sentiu a Garganta apertar. Tinha passado anos adiando aquela resposta, prometendo a si mesma que contaria quando ele fosse maior, quando entendesse melhor, quando ela mesma soubesse o que dizer. E agora a pergunta chegava sozinha no
meio de um lago, sem pedir licença a ninguém. Benício esperava com os pés parados pela primeira vez naquela manhã e o único som era a cachoeira caindo no lago. Eloía saiu da popa e se sentou no banco do outro lado de Benício, de modo que o Menino ficou entre os dois. tirou uma mecha molhada da testa dele e segurou a mãozinha fria de água do lago. Tinha imaginado aquele momento de muitos jeitos, sempre num lugar seguro, a cozinha da tia Zezé, o quarto dos dois e nunca no meio de um lago, com o cheiro de
gasolina do motor e uma cachoeira como testemunha. Mas talvez fosse assim mesmo, pensou. As coisas importantes nunca esperam o lugar certo. Filho, lembra quando você me perguntou do seu Pai na época da festa da escola? Benício fez que sim. Eu te disse que ele morava longe e não sabia que você existia. Era verdade. Mas agora ele sabe. Benício arregalou os olhos e olhou em volta, como se o pai pudesse estar escondido atrás de alguma pedra do canion. Eloía respirou fundo. Ele está aqui, meu amor. O moço do tapete é o seu pai. O menino ficou
imóvel. Olhou para Gustavo de cima a baixo, devagar, como examinava os potes de doce antes de colocar na banca, Procurando algum defeito na tampa. Gustavo não se mexeu. Eloía percebeu que ele segurava a respiração. "Você é meu pai?", perguntou Benício. "Por fim?" Sou", respondeu Gustavo. E a palavra saiu inteira, sem tremer. "Então, por que você não foi lá em casa? Porque eu não sabia onde era a sua casa e porque eu não sabia que você existia. Se eu soubesse, eu tinha ido, Benício. Eu tinha ido no primeiro dia." O menino pensou naquilo por um tempo
que pareceu Longo demais. Depois soltou a mão da mãe e cruzou os braços sobre o colete laranja. Mas você não sabe fazer doce. Gustavo riu e o riso veio misturado com outra coisa. Não sei. Você me ensina. Benício não respondeu. Virou-se para Eloía, subiu no colo dela com colete e tudo, afundou o rosto no pescoço da mãe e ficou ali quieto enquanto a lancha balançava. Eloía o abraçou com força e olhou para Gustavo por cima da cabeça do filho. Ele assentiu devagar, como quem Diz que entende que pode esperar, e religou o motor para voltar
em Alpier. O menino não disse uma palavra durante todo o caminho. Na pousada, desceu da lancha, tirou o colete sozinho e correu para o quarto. E quando Eloía entrou atrás dele, o encontrou deitado de bruços na cama, com a lanterna acesa debaixo do travesseiro, mesmo sendo meio-dia. Ela se deitou ao lado dele sem perguntar nada. Depois de muito tempo, ouviu a voz abafada. Ele vai embora de Novo? Ele nunca foi embora, filho. Quem foi embora fui eu. Benício levantou a cabeça. Por quê? Eloía pensou em mentir, em dizer que era complicado, que ele entenderia quando
crescesse, mas olhou para aquela ruga entre as sobrancelhas e resolveu que já tinha havido silêncio demais naquela família, porque umas pessoas falaram coisas feias de mim e eu fiquei muito magoada. Achei que ele pensava igual a elas, mas agora descobri que não era bem assim. A mamãe errou em Não perguntar. Benício ficou pensando. Adulto também erra? Erra muito, meu amor. Às vezes erra mais que criança. Ele pareceu gostar daquela resposta. Apagou a lanterna, guardou-a de volta debaixo do travesseiro e perguntou se podia almoçar batata frita. Na hora do almoço, Benício escolheu sentar na cadeira ao
lado de Gustavo, sem comentar nada, e passou a refeição inteira, observando o pai de rabo de olho. Quando Gustavo pegou o saleiro, o menino pegou O saleiro. Quando Gustavo apoiou o cotovelo na mesa, o menino apoiou o cotovelo na mesa e esperou a mãe reclamar. E ela não reclamou. Na sobremesa, Benício empurrou o potinho de doce de leite para o lado do pai. Esse fui eu que mexi", disse sem olhar para ele. Gustavo provou devagar, como da primeira vez na feira, e declarou que era o melhor doce de leite de Minas Gerais e de Goiás
juntos. Benício deu de ombros, mas Eloía viu o canto da boca Dele tremer de orgulho. À tarde passou em pequenos avanços. Gustavo ensinou o menino a jogar pedrinhas no lago para que caem na água e Benício ensinou a Gustavo o nome de todos os cavaleiros das cavalhadas, os mouros de vermelho e os cristãos de azul, e explicou com paciência de professor que os mascarados eram os mais legais, porque ninguém sabia quem estava por baixo. Luía os observava da espreguiçadeira com um livro aberto no colo que não leu e Várias vezes flagrou Gustavo, olhando para ela
por cima da cabeça do menino. Não era um olhar de cobrança como na noite anterior, era outro, mais antigo e ela tinha medo de reconhecê-lo. No fim da tarde, enquanto os dois disputavam quem jogava a pedra mais longe, Eloía subiu até o quarto e ligou para a tia Zezé. A tia a atendeu no terceiro toque, com o barulho da panela de pressão ao fundo, eía contou tudo de uma vez. O casamento, o tapete, a lancha, o infarto De seu Joaquim, a pergunta de Benício. Do outro lado, a tia ouviu sem interromper, como sempre fazia. E
quando Eloía terminou, houve um silêncio tão longo que ela achou que a ligação tinha caído. Tia, tô aqui, fia. Tô só desligando o fogo para pensar direito. Ouviu-se o chiado da panela esvaziando. E você, o que tá sentindo? Medo! Respondeu Eloía sem precisar pensar. Medo de quê? Dele? Não, de mim. De voltar a acreditar e dar errado de novo. A tia Zezé soltou aquele riso curto de quem já viu muita coisa nesta vida. Minha filha, você passou cinco anos com medo de uma frase que nem foi ele que falou. Vai passar mais cinco com medo
de uma coisa que ainda nem aconteceu? O doce só dá ponto se a gente deixa no fogo o tempo certo. Tirou antes, desanda, tirou depois, em pedra. Eloía riu e chorou ao mesmo tempo e prometeu que ligaria de novo à noite. Quando voltou paraa espreguiçadeira, Benício Gritou que tinha feito a pedra quicar quatro vezes e Gustavo jurou de pé junto que tinham sido cinco. Quando escureceu, Benício dormiu cedo, exausto de sol e de novidade, e dona Cida se ofereceu para ficar no quarto com ele. Eloía desceu até o Pier, sem saber direito o porquê, e
encontrou Gustavo sentado na ponta de madeira, com os pés descalços, quase tocando a água, olhando as luzes do outro lado do lago. Sentou-se ao lado dele com um palmo de distância entre os Dois. Por um tempo só se ouviam os sapos e o bater da água nas estacas. Obrigado", disse ele finalmente. "Pelo que você falou no barco, eu não ia conseguir pedir. Ele ia perguntar de novo amanhã e depois de amanhã. Ele não desiste de nada." Ela sorriu de leve. Não sei de quem puxou. Gustavo riu baixo e depois ficou sério. Hoje de manhã, quando
eu disse que você não foi a única com uma coisa importante para dizer naquela noite, você quis perguntar e não Perguntou. Eu vi que você não queria responder. Eu não queria responder ali no meio do café com a moça da pousada trazendo pão de queijo. Ele pegou uma pedrinha solta na madeira do pier e ficou rodando entre os dedos. Naquele domingo eu ia te pedir em casamento. Tinha pegado o anel da minha avó dulce na gaveta do meu pai com a bênção dele na semana anterior ao infarto. Ele gostava de você, Eloía. Dizia que moça
que acorda às 4 da manhã para mexer doce Não tem medo de trabalho. Eu fui ao seu quartinho às 9 da noite com o anel no bolso. Fiquei sentado na escada da pensão até meia-noite, achando que você tinha ido a algum lugar e ia voltar. Eloía sentiu os olhos arderem e não conseguiu impedir que as lágrimas caíssem. Não eram as lágrimas de raiva que tinha chorado tantas vezes ao lado do tacho? eram outras, de uma tristeza mais funda, de quem descobre que o sofrimento de anos poderia ter sido Evitado com uma batida na porta. Eu
estava a duas ruas dali, disse, a voz quebrada, na casa de uma amiga esperando dar a hora do ônibus. Se eu tivesse ficado mais uma hora no quartinho. Não adianta pensar assim, interrompeu ele com delicadeza. Eu passei dois anos pensando assim. Se eu tivesse falado na varanda, se eu tivesse ido mais cedo, se eu tivesse ido de novo no dia seguinte, não leva a lugar nenhum. E o anel voltou pra gaveta. Está lá até hoje. Meu pai Nunca me perguntou por ele. Ficaram calados, os dois olhando para a água escura. Eloía pensou na moça de
23 anos que subiu naquele ônibus, tão certa que tinha sido julgada e condenada, tão orgulhosa para bater de volta na porta de quem a tinha machucado. Pensou que tinha criado o filho sozinha por orgulho e também por coragem, e que as duas coisas às vezes se parecem tanto que não se sabe onde termina uma e começa a outra. Gustavo virou o rosto para ela. Estavam mais perto do que ela lembrava de ter se aproximado. "Eu não vou te pedir nada agora, Elô", disse ele. E fazia 5 anos que ninguém a chamava assim com aquela voz,
nem te cobrar nada. Só quero que você saiba que eu nunca acreditei no Marcelo, nem por um dia. Eu só não soube provar isso a tempo. Ela o olhou e sentiu a distância entre os dois ficar pequena demais. Ele ergueu a mão devagar e tirou uma lágrima do rosto dela com o polegar, do mesmo jeito que Fazia quando ela se queimava no tacho e fingia que não doía. Eloía fechou os olhos. Ficaram assim, com a testa quase encostada, respirando o mesmo ar úmido do lago, e ela soube que se desse mais meio palmo, não conseguiria
mais voltar atrás. Foi ele quem se afastou primeiro com um suspiro, como se tivesse feito uma promessa a si mesmo. Não assim, murmurou. Não com você indo embora no ônibus das 6, sem saber o que vai ser amanhã. Quando acontecer, eu quero que Seja porque você decidiu ficar, não porque o lago estava bonito. Ela riu entre as lágrimas e aquele riso desfez um nó que carregava havia anos. Voltaram juntos pela trilha iluminada que subia do Pier até o casarão da pousada, sem se tocar, mas com os braços roçando de vez em quando. Eloía pensava em
como contaria tudo aquilo à tia Zezé, em como seria a terça-feira, em se Gustavo iria até Pirenópolis, ou se aquele fim de semana ficaria para sempre como um sonho Bonito à beira de uma represa. pensava pela primeira vez em muito tempo em um futuro que não coubesse apenas numa banca de doce. estavam quase chegando à varanda quando Gustavo parou de repente. Uma caminhonete prata estava estacionada diante da recepção, com a porta do motorista ainda aberta e os faróis acesos, iluminando o gramado. Eloía conhecia aquela caminhonete. tinha visto ela parada no terreiro da Santa Rita num
domingo de outubro, na varanda, de pé Sob a luz amarela da lâmpada, com um chale de lã sobre os ombros e a bolsa apertada contra o corpo, estava dona Vera Albuquerque. "O tamanho do Caio", murmurou Gustavo, entendendo antes dela. "Ela deve ter ligado hoje cedo. Dona Vera tinha dirigido 2 horas desde o sul de Minas, e seus olhos, frios e atentos, já tinham encontrado Eloía. Ela desceu os dois degraus da varanda sem pressa, ajeitou o chale sobre os ombros e parou a poucos passos dos dois, olhando Primeiro para o filho e depois demoradamente para a
mulher ao lado dele. "Então é verdade", disse com a voz baixa e firme. "Onde está o menino? Ele está dormindo", respondeu Eloía antes que Gustavo pudesse abrir a boca. "E vai continuar dormindo." Dona Vera ergueu o queixo e Eloía reconheceu o olhar que sapatos antes de chegar aos olhos. 5 anos não tinham mudado nada naquele rosto, a não ser alguns fios brancos a mais presos no coque. "Eu dirigi duas Horas, menina." Eu dirigi 5 anos, dona Vera, rebateu Eloía, e a própria voz a surpreendeu pela firmeza. Com um filho no colo e um tacho de
cobre, a senhora pode esperar até amanhã. A sogra, que nunca foi sogra, apertou a alça da bolsa e voltou-se para o filho, como se Eloía não estivesse ali. Gustavo, você tem noção do que está acontecendo? Ela some sem palavra, reaparece justo no casamento de um parente com uma criança que ninguém nunca viu. Bem agora que a Fazenda está no seu nome. Você não acha coincidência demais? Eloía sentiu o sangue subir ao rosto. Era a mesma frase, com outras palavras, dita no mesmo tom de quem comenta o preço do café. Esperou, sem querer esperar, que o
silêncio de Gustavo viesse outra vez. que ele passasse a mão no cabelo e olhasse para o lago. Mas ele deu um passo à frente e se colocou entre as duas. "Chega, mãe!" A voz não foi alta, mas foi suficiente para que a moça da Recepção parasse de digitar lá dentro. Naquele domingo, o Marcelo disse que ela estava comigo só por dinheiro e a senhora concordou. Ela estava no corredor e ouviu tudo. Eu fiquei calado por causa do coração do pai e esse silêncio me custou cco anos do meu filho. Eu não vou ficar calado de
novo. Dona Vera piscou surpresa e pela primeira vez olhou para Eloía de verdade. Você ouviu? Ouvi dona Vera. Com uma compota de figo na mão e um exame de Gravidez na bolsa. A senhora mais velha abriu a boca e fechou de novo sem encontrar resposta. Gustavo continuou. A Eloía não sabia que eu seria convidado. Não pediu um centavo. Até hoje de manhã ela estava disposta a resolver tudo sozinha, como resolveu nos últimos 5 anos. Se alguém aqui tem que explicar alguma coisa, não é ela. Houve um silêncio longo, cortado pelos sapos do lago. Dona Vera
ajeitou o Charle e falou agora mais baixo, mas sem ceder. Então Que se faça um exame. Se o menino é seu, eu quero ter certeza. Não é desconfiança, é responsabilidade. Gustavo se preparou para protestar, mas Eloía pôs a mão no braço dele. Estava cansada daquela frase, cansada de passar a vida tentando provar para aquela família quem ela era. E de repente percebeu que existia um jeito de acabar com aquilo para sempre. Faça", disse, "Pode fazer o exame que quiser, não por mim. Eu sei de quem é o meu filho, mas Pelo Benício para que ninguém
nunca mais olhe para ele do jeito que a senhora me olhou naquele almoço." Dito isso, subiu à escada da varanda e entrou na pousada. E só quando fechou a porta do quarto, com o filho respirando tranquilo na cama, deixou as pernas tremerem. Não dormiu quase nada. De madrugada, ouviu passos no corredor e, pela fresta da cortina viu Gustavo sentado sozinho no pier, do mesmo jeito que o tinha encontrado horas antes, só que agora com A cabeça baixa entre as mãos. pensou em descer e não desceu. Tinha passado a noite repetindo a frase dele, eu não
vou ficar calado de novo e cada vez que a repetia, sentia alguma coisa se soltar por dentro, uma pedra antiga que ela nem sabia mais que carregava. De manhã, o destino resolveu as coisas do jeito dele. Eloía saiu do banho e encontrou a cama vazia. desceu correndo, descalça, com o cabelo pingando e parou na porta do salão do café. Benício estava sentado Numa das mesas de pijama de dinossauro diante de dona Vera. Tinha descido sozinho atrás de pão de queijo, como fazia em casa, e encontrado a única pessoa acordada aquela hora. Eloía ia avançar quando
ouviu a voz do filho e ficou onde estava. A senhora é a mãe do meu pai? Sou. respondeu dona Vera, rígida na cadeira, com uma xícara de café parada no ar. Então, a senhora é minha avó? Benício pensou um pouco. Eu nunca tive vó. A tia Zezé é tia avó que É diferente. Dona Vera não respondeu. Benício empurrou para ela o potinho de doce de leite que a pousada servia junto com o café. Prova. Não é igual o da minha mãe. O da minha mãe é mais escuro porque ela deixa mais tempo no fogo. Mas
é bom. A mulher olhou para o pote e depois para o menino. E Eloía viu o exato instante em que alguma coisa se partiu naquele rosto. Benício, esperando a avó provar, tinha franzido a testa daquele jeito dele. Dona Vera pousou a Xícara no pirão trêmula. Seu avô fazia essa cara, disse quase para si mesma. Todo dia quando lia o jornal da cooperativa igualzinha. Ele fazia doce? perguntou Benício, interessado. Não, mas gostava muito de comer. Ela pegou a colherzinha e provou devagar, e seus olhos se encheram de lágrimas que ela não conseguiu esconder. Não houve exame
nenhum depois daquela manhã. Ninguém voltou a falar dele. Mais tarde, enquanto Gustavo levava o menino para Ver os cavalos de uma fazenda vizinha, dona Vera pediu para falar com Eloía a sós. Sentaram-se num banco de pedra no jardim de frente para o lago. E por muito tempo nenhuma das duas disse nada. Eloía tinha decidido não facilitar, mas percebeu que a mulher ao lado dela não estava procurando facilidade. "O Joaquim perguntava de você", disse dona Vera, por fim, olhando para as mãos. "Deois que você foi embora?" Perguntava se alguém tinha notícia da moça do doce. "No
último ano, já doente, me pediu para te procurar. Disse que o Gustavo nunca mais tinha sido o mesmo e que a culpa era nossa, da nossa mesa, da nossa boca". Ela respirou fundo. Eu não procurei. Disse a ele que tinha tentado e que você tinha se casado com outro longe daqui. Ele morreu acreditando nisso. Eloía sentiu o peito apertar, não de raiva, mas de uma tristeza que não sabia a quem pertencia. Pensou em seu Joaquim, no homem calado do fim da mesa, Que tinha gostado dela sem dizer e que tinha morrido sem conhecer o neto
por causa de uma mentira contada por orgulho. "Por quê?", perguntou apenas. Dona Vera demorou a responder. Porque eu também fui moça de fora, Eloía, filha de professor, sem terra, casada com o herdeiro da Santa Rita. A mãe do Joaquim nunca me aceitou. Eu passei 30 anos tentando provar que merecia aquela varanda. Quando você apareceu, eu vi você fazendo o mesmo caminho e, em vez De estender a mão, fiz com você o que fizeram comigo. Ela finalmente olhou para Eloía. Não estou pedindo que me perdoe hoje. Só não quero morrer como Joaquim, sem conhecer o menino.
Eloía ficou em silêncio por muito tempo, depois respondeu que o perdão não era uma coisa que se dava num banco de jardim, mas que Benício tinha direito de conhecer a avó e que isso ela não ia negar a ele. A terça-feira chegou antes que ela estivesse pronta. Às 5 da manhã, Gustavo os levou de caminhonete até a rodoviária de Passos, a mesma onde 5 anos antes ela tinha comprado uma passagem sem olhar para trás. Benício dormiu no banco de trás, abraçado à mochila e os dois adultos fizeram a viagem quase em silêncio, com o rádio
baixo tocando moda sertaneja. Gustavo tinha insistido em levá-los de carro até Pirenópolis e ela recusou. tinha encomendas, tinha a tia, tinha a vida inteira que construiu lá e precisava Voltar a ela com os próprios pés para conseguir pensar no que tinha acontecido. Ele não discutiu. Disse apenas que entendia e que ia respeitar. Na plataforma, com o ônibus já ligado, Benício acordou de vez e pareceu entender que alguma coisa estava acabando. Ficou parado diante de Gustavo com a mochila nas costas, sem saber o que fazer. Depois, abriu o zíper, remexeu lá dentro e tirou a lanterna,
a mesma que dormia com ele debaixo do Travesseiro desde os 3 anos. "Toma", disse estendendo o braço. "Para você não ter medo do escuro até ir lá em casa". Gustavo se agachou e pegou a lanterna com as duas mãos, como se fosse feita de vidro. E você? Eu já tenho 4 anos e meio, respondeu Benício com importância. E minha mãe deixa a luz do corredor acesa. Gustavo o abraçou e o menino se deixou abraçar com os braços pendurados no pescoço do pai e só soltou quando o motorista buzinou. Eloía ficou por Último. Gustavo se levantou
e os dois se olharam com o barulho do motor em volta e as pessoas passando com malas e sacolas de pão de queijo. Dessa vez você disse tchau falou ele com um meio sorriso. Dessa vez eu vou voltar a atender o telefone, respondeu ela. Ele assentiu. Sério. Me dá 15 dias. Preciso resolver umas coisas na Santa Rita. Depois eu vou até Pirenópolis e vou aprender a mexer doce, porque eu prometi a ele: "Você vai queimar o braço no Primeiro dia, então você passa pomada." Ela riu e subiu no ônibus antes que pudesse mudar de ideia.
Da janela viu Gustavo parado na plataforma, com a lanterna do filho na mão, ficando pequeno à medida que o ônibus manobrava. Benício acenou até perder o pai de vista e depois encostou a cabeça no ombro da mãe. "1 dias é muito", perguntou. É o tempo de uma encomenda grande", respondeu ela. Mas olhando a estrada se abrir diante do para-brisa, Eloía Percebeu que não estava contando os dias para uma encomenda, estava contando para outra coisa e tinha medo. E desta vez o medo não a fazia querer fugir. Em Pirenópolis, a vida retomou o ritmo de sempre,
mas com uma diferença que a tia Zezé notou já no primeiro jantar. Toda noite às 8 o celular de Eloía tocava e Benício corria para atender antes dela. Contava ao pai as vendas do dia, os cavalos que tinha visto passar na rua, a nota do desenho na escola e Gustavo Mandava vídeos da lanterna acesa no escuro do quarto da Santa Rita, fazendo sombras de bichos na parede. Depois, quando o menino dormia, era a vez dela e as conversas iam se esticando madrugada adentro sobre nada e sobre tudo, como na feira. No 12º dia, o telefone
não tocou. Eloía ligou às 9 e caiu na caixa postal. Ligou às 10, às 11 e na manhã seguinte também. Benício perguntou três vezes pelo pai durante o café e ela inventou que a fazenda devia estar sem sinal por Causa da chuva. Mas sozinha diante do taxo, sentiu voltar o velho frio na barriga, a certeza antiga de que as pessoas somem quando a gente começa a confiar nelas. A tia Zezé a encontrou mexendo o doce com força demais e tomou a colher da mão dela. Vai empedrar, fia. Você tá mexendo com raiva e se ele
desistiu, tia? Então você vai saber e vai sobreviver, que nem sobreviveu antes. Mas não decide por ele antes de ele falar. Isso você já fez uma vez. Eloía passou o 13º e o 14º dia sem notícia, trabalhando até as mãos do Erem. No 15º amanheceu na banca da rua do lazer, como sempre, arrumando os potes com Benício, que insistia em olhar para a esquina a cada carro que passava. Já era quase meio-dia quando uma caminhonete prata, coberta de poeira vermelha de estrada, dobrou a rua de pedras e parou bem em frente à banca. Eloía reconheceu
a caminhonete de dona Vera e sentiu o coração falhar, sem Saber se era bom ou mau sinal. A porta do motorista se abriu devagar. Foi Gustavo quem desceu do lado do motorista com a camisa amarrotada de estrada, a barba por fazer e a lanterna de Benício presa no bolso de trás da calça jeans. Antes que Eloía conseguisse dizer qualquer coisa, o menino passou por baixo da mesa da banca, derrubando dois potes de goiabada, e se atirou nas pernas do pai, com tanta força, que os dois quase caíram sobre o capô Empoeirado. Você sumiu!", gritou Benício
com o rosto enterrado na calça dele. "Minha mãe disse que era chuva, mas não choveu nada". Gustavo se ajoelhou nas pedras da rua e o abraçou, rindo e pedindo desculpas ao mesmo tempo. Por cima do ombro do filho, procurou os olhos de Eloía, e ela viu neles o mesmo cansaço que sentia, o cansaço de quem passou três dias com medo. Meu celular ficou debaixo da roda da caminhonete num posto em Ribeirão Preto explicou ele Ainda ajoelhado. Meu número estava lá dentro e eu nunca tinha decorado. A Luana e o Caio estão em Fernando de Noronha,
sem sinal nenhum. E eu não tinha o telefone de mais ninguém que tivesse o seu. Eu tinha duas escolhas: ficar esperando alguém me passar o número ou dirigir. Ele sorriu de lado. 5 anos atrás, eu esperei. Eloía cruzou os braços, tentando manter a dignidade diante dos turistas que já olhavam a cena, mas os olhos atraíram. Você podia Ter mandado um recado pela sua mãe. Minha mãe veio comigo respondeu ele. E só então a porta do passageiro se abriu. Dona Vera desceu devagar, ajeitando os óculos escuros com uma caixa de papelão amarrada com barbante nas mãos.
parou diante da banca e olhou para os potes enfileirados, para as etiquetas escritas à mão, para o tacho de cobre pendurado num prego da parede e ficou em silêncio por um instante. Depois estendeu a caixa para Eloísa. São os figos do pomar da Santa Rita. O Joaquim plantou aquela figueira quando o Gustavo nasceu. A voz falhou um pouco. Achei que era hora de alguém fazer uma compota com eles de novo. Eloía segurou a caixa e sentiu o peso dos figos maduros e com eles o peso de tudo o que aquela mulher estava tentando dizer sem
saber como. Obrigada, dona Vera respondeu e foi sincera. Benício puxou a manga da avó. Vó, você veio ver minha banca? Vim, meu filho, vim ver tudo. Ele a pegou pela mão com a Naturalidade das crianças e a arrastou para explicar a diferença entre o doce de leite claro e o escuro. E dona Vera, de óculos escuros e sapato de salto no meio da rua de pedras, ouviu cada palavra com uma seriedade comovente. Gustavo se aproximou de Eloía e tirou do bolso da camisa um envelope dobrado. Fui a Ribeirão Preto contar ao Marcelo pessoalmente. Contei do
domingo, do corredor, do menino. Contei tudo. Ele não disse nada Por uma hora inteira. Depois escreveu isso e pediu que eu te entregasse. Eloía abriu o envelope. Era um bilhete curto, numa letra apressada de alguém que não estava acostumado a pedir desculpas. Dizia que ele tinha falado por inveja e por ciúme do irmão, que tinha se arrependido muitas vezes, sem ter coragem de admitir, e que, se ela permitisse, gostaria de conhecer o sobrinho. Eloía dobrou o papel devagar e guardou no bolso do avental. Não sentiu Vitória, sentiu alívio, como quem finalmente tira uma farpa antiga
da mão. Um dia, disse, um dia ele pode vir. À tarde, fecharam a banca mais cedo e foram todos para a casa da tia Zezé, uma casa de adobe pintada de amarelo com um quintal de terra batida, um pé de pequi e um fogão a lenha coberto por um telhado de telha van. A tia recebeu dona Vera com um prato de pamonha ainda quente e um olhar demorado, de quem avalia o ponto de uma massa, e as duas Mulheres, que não tinham nada em comum além de um menino de 4 anos e meio, descobriram em
10 minutos que ambas eram viúvas e que ambas achavam que ninguém no mundo sabia fazer café direito. Dali a pouco estavam sentadas lado a lado no banco da varanda falando baixo, ea, de longe, viu a tia pousar a mão sobre a de dona Vera. Agora, anunciou Benício, arrastando um banquinho até o fogão à lenha. O pai vai aprender a mexer doce. Gustavo arregaçou as mangas com a Solenidade de quem vai operar alguém. Eloía despejou o leite e o açúcar no tacho de cobre, juntou uma pitada de bicarbonato e entregou a ele a colher de pau
comprida, gasta pelo uso de três gerações. Sempre pro mesmo lado instruiu Benício de pé no banquinho, com a mão no braço do pai. Não pode parar, senão gruda no fundo e não pode ter pressa. Quanto tempo leva? perguntou Gustavo umas três horas, respondeu Eloía, escondendo o riso. Ele a olhou Desconfiado e continuou mexendo. Na primeira hora espirrou doce na mão dele e ele soltou um palavrão abafado que Benício repetiu com enorme prazer. Eloía buscou a pomada na cozinha, segurou o pulso dele e passou devagar sobre a pele vermelha. E os dois ficaram se olhando por
mais tempo do que a queimadura pedia. Eu avisei que ia queimar o braço", disse ela. "E eu avisei que você ia passar a pomada", respondeu ele. Na segunda hora, o leite começou a Engrossar e a ganhar cor de caramelo, e o cheiro tomou o quintal inteiro, atraindo até o cachorro do vizinho para o portão. Benício, cansado, se sentou no colo da avó, que tinha trocado o sapato de salto por uma sandália emprestada da tia Zezé. Na terceira hora, o sol começou a se pôr atrás das serras dos Pireneus, pintando o céu de laranja, e o
sino da igreja matriz bateu seis vezes lá embaixo, na cidade. "Como eu sei que deu o ponto?", perguntou Gustavo com o Braço doendo e a testa suada. Eloía pegou um pouco do doce com a ponta da colher e pingou num pir. A gota não se desfez. Deu, tirou antes, desanda, tirou depois, em pedra, disse, e olhou para a tia, que sorriu de longe. Deu o ponto certinho. Gustavo tirou o tacho do fogo com cuidado e o apoiou numa pedra do quintal. Depois limpou as mãos na calça, respirou fundo e Eloía percebeu que ele estava nervoso
de um jeito que não tinha ficado nem diante do Fogo, nem diante da mãe. Ele enfiou a mão no bolso da calça e tirou uma caixinha de veludo azul gasta nos cantos. Eu disse que tinha umas coisas para resolver na Santa Rita. Essa era uma delas. Fui buscar na gaveta do meu pai. Ele abriu a caixinha. O anel da avó dulce era simples, de ouro antigo, com uma pedrinha clara no meio e brilhou com a última luz da tarde. Benício pulou do colo da avó e veio correndo ver. Dona Vera levou a mão à boca
e a tia Zezé Segurou o braço dela. Gustavo não se ajoelhou, ficou de pé diante de Eloía, ao lado do taxo, ainda fumegante, do jeito que tinha ficado diante dela na feira, seis anos antes, pedindo para provar o doce. N eu era para ter feito isso numa noite de outubro na escada de uma pensão em Carmo do Rio Claro e cheguei tarde. Não quero chegar tarde mais nenhuma vez na vida. Não vou te pedir para largar nada, Elô. Nem a banca, nem a tia, nem Goiás. Se você quiser ficar aqui, eu divido meu tempo entre
a fazenda e esta casa. Se quiser ir para Minas, a Santa Rita tem espaço para um taxo, uma doçaria e um menino que corre demais. O que eu te peço é só que dessa vez a gente decida junto. Ele estendeu o anel. Casa comigo. Eloía sentiu as lágrimas correrem e não tentou segurar. olhou para o filho que esperava de boca aberta, com a testa franzida de tanta expectativa. Olhou para a tia, que fez um sinal leve com a Cabeça, e para a dona Vera, que chorava sem disfarçar. Pensou na moça de 23 anos na rodoviária
de Passos e teve vontade de abraçá-la e dizer que tudo ia ficar bem. Na noite do Pier, você disse que queria que eu decidisse ficar porque quis, não porque o lago estava bonito falou com a voz trêmula. Não tem lago aqui, Gustavo, só um tacho e um quintal de terra. Ela sorriu através do choro e eu decidi: "Sim, eu vou para Minas com você. Vou abrir minha doçaria em Carmo Do Rio Claro, na mesma praça da feira onde a gente se conheceu. E a tia Zezé vai junto, porque ninguém faz pamonha como ela. Vou coisa
nenhuma protestou a tia e logo emendou. Vou só se tiver fogão à lenha. Tem dois", respondeu dona Vera, rindo pela primeira vez naquele dia. Gustavo colocou o anel no dedo de Eloía, serviu perfeitamente, como se a avó dulce soubesse. Então ele a beijou ali mesmo, ao lado do taxo, com o cheiro de doce de leite no ar e o sino da Matriz ainda ecoando. E foi um beijo que carregava 5 anos de espera e nenhum de dúvida. Benício tapou os olhos com as duas mãos e depois espiou por entre os dedos. Eca", disse, e em
seguida se enfiou entre os dois, abraçando as pernas de ambos ao mesmo tempo. "Então agora eu vou morar na fazenda? Vai, filho", respondeu Gustavo, erguendo-o no colo. "E amanhã cedo a gente vai ao cartório, nós três, colocar meu nome na sua certidão." Benício pensou um pouco. "Então, meu nome vai ser Benício Albuquerque? Se você quiser. Eu quero, mas vou continuar fazendo doce. Vai, e eu vou continuar mexendo para você não cansar o braço. Mais tarde, com o doce já nos potes e as estrelas acesas sobre os pireneus, Benício pediu a lanterna de volta. Gustavo a
entregou e o menino ficou olhando para ela por um momento antes de devolvê-la ao pai. Pode ficar. Agora a gente mora junto, então ela é da casa. Gustavo guardou a lanterna no Bolso, como quem guarda uma medalha. Sentado no banco da varanda com Eloía encostada em seu ombro e o filho adormecido no colo, olhou para o quintal onde a mãe e a tia Zezé discutiam, animadas a melhor forma de fazer compota de figo. "Sabe o que o Marcelo me perguntou em Ribeirão?", disse baixinho. Perguntou porque eu tinha dirigido tanto atrás de você, se era por
teimosia, por orgulho, por causa do menino. "E o que você respondeu?" Gustavo beijou a mão Dela, bem onde o anel da avó brilhava, que diziam que era só por dinheiro e que nunca foi, sempre foi só por amor. Eloía fechou os olhos e sorriu, e o doce de leite esfriou devagar nos potes enfileirados, no ponto exato como tudo finalmente estava. M.