Os vídeos a seguir foram feitos antes da crise da COVID-19. Mas hoje, eles parecem mais relevantes do que nunca. Se há uma lição que estamos aprendendo, é que uma mudança está a caminho.
Voltar ao que chamávamos de normal não é aceitável. Na verdade, a normalidade era o que estava errado. Depende de nós lutar pelo futuro que precisamos, pelo futuro que queremos.
Vamos seguir juntos e cuidar uns dos outros. Esta é uma série de vídeo que explora a conexão entre os alimentos que consumimos, a crise climática e a destruição de florestas e outros ecossistemas em todo o mundo. É aqui que começa a nossa história.
Contagem Regressiva para a Destruição - com Alice Braga Existe um elemento poderoso e antidemocrático por trás de absolutamente tudo. Um elemento que está na nossa mesa de jantar, nas escolhas no supermercado, nos governos e nos tratados nacionais e internacionais: O atual sistema de produção de alimentos. O fluxo econômico dos ingredientes básicos da nossa dieta que está transformando tudo o que comemos em commodities.
É um sistema que parece organizado. Mas está completamente, totalmente, fora de controle. Na próxima vez em que você for comer, dá uma olhada no seu prato.
Você sabe de onde veio sua comida? Onde ela foi cultivada? O que foi usado no cultivo?
E talvez o mais importante: você sabe como ela afeta a sua saúde e a saúde do nosso planeta? A agricultura e a pecuária são responsáveis por 80% de todo o desmatamento no mundo. E essas áreas desmatadas são essenciais para manter nosso clima equilibrado - evitando grandes secas, enchentes e deslizamentos de terra.
E não estamos falando apenas de florestas aqui. Prados, zonas úmidas e outros ecossistemas estão sendo rapidamente transformados em enormes zonas de monocultura e pastagens. Áreas que, nas mãos do agronegócio, param de absorver dióxido de carbono da atmosfera e começam a emitir mais carbono quando viram pastos e plantações.
Funciona assim: Muitas vezes você precisa desmatar para ter terra para os animais. Muita terra. Temos meio bilhão de cabeças de gado no planeta, o mesmo que a população da Rússia e dos Estados Unidos juntas.
23 bilhões de galinhas. Deixa eu repetir: 23 bilhões. Três galinhas por pessoa na terra.
Aí então você precisa desmatar ainda mais terras para cultivar grãos para alimentar o gado e as galinhas. E estamos falando apenas de gado e galinhas. A agricultura industrial hoje é tão grande que as emissões de gases de efeito estufa deste setor são equivalentes à de todos os carros, trens, navios, ônibus e aviões, juntos.
Hoje, mais terra é utilizada para cultivar comida para os animais do que para as pessoas. Mas o problema é que a gente não escolheu como a nossa comida é produzida em larga escala. Mesmo que existam outras opções como melhores técnicas agrícolas, conhecimento tradicional e dos povos indígenas sobre como cuidar dessas terras, o atual sistema industrial de produção de alimentos continua avançando sobre os ecossistemas que ainda resistem.
E a bomba de carbono está crescendo cada vez mais. Então, que que tá acontecendo? Que &%$@ é essa?
Eu vou explicar. Isso é um grão de soja. Você come isso, certo?
Bom, às vezes. Esse tipo de grão é cultivado em enormes quantidades principalmente para alimentar galinhas, porcos e vacas. Para o agronegócio, comida não é só comida.
É uma commodity. Commodity é algo que só existe para ser comprado e vendido da forma mais barata possível, gerando o maior lucro possível. E uma das maneiras mais baratas de fazer isso é aumentar a produção em cima de florestas, jogando o custo climático na conta das gerações futuras.
Simplificando: O agronegócio não está cultivando comida. Está cultivando lucros. Mas nem sempre foi assim.
Antigamente toda comida era orgânica, toda comida era cultivada localmente. Mas naquele tempo nós chamávamos esse tipo de comida… bom… comida. Não havia rótulos e adesivos para identificar alimentos produzidos sem venenos.
Não havia uma seção especial para alimentos que não destroem o planeta a fim de obter lucro. Mas agora quase tudo é feito assim. Alimentos produzidos de forma responsável foram rotulados como produtos de luxo, enquanto alimentos contaminados com pesticidas, produzidos em áreas desmatadas ou em terras indígenas invadidas se tornaram padrão.
São mais em conta, mais baratos. Mas dá pra chamar de barato um alimento que vai destruir nossa saúde, nosso futuro e a vida de tantas outras espécies? Como foi que a gente saiu de um sistema alimentar sustentável para um mundo cheio de comida de má qualidade, substâncias cancerígenas e mais galinhas no planeta do que pessoas?
Bom . . .
a questão é que nós não escolhemos isso. Na raiz de todo esse problema, existe um sistema. Um processo econômico e político que favorece as grandes empresas e as práticas agrícolas insustentáveis.
Ao longo dos últimos 100 anos, pequenos produtores e produtores locais foram atropelados por políticas governamentais e por multinacionais do agronegócio como essas. É por isso que hoje é mais lucrativo vender comida cultivada com agrotóxico e uma dose alta de desmatamento e violência do que vender comida sem nada disso. O mesmo vale para aquele meio bilhão de cabeças de gado.
Esse sistema representa grandes negócios, e grandes negócios significam mais lucro para as grandes empresas. Empresas mais ricas. E mais carbono na atmosfera, mais incêndios nas florestas, mais enchentes, e menos futuro para o resto de nós.
Tá tudo muito errado. Nós não temos nenhuma oportunidade de opinar como essas empresas devem fazer negócios. Porque se a gente pudesse escolher, as coisas seriam muito diferentes, certo?
Quem é a favor de destruir, queimar a Amazônia apenas para tornar alguns bilionários ainda mais ricos? Quem é a favor de empurrar os pequenos agricultores para fora de suas terras e suas famílias para a pobreza? Quem prefere comer veneno em toda refeição?
Se você pudesse escolher, o que preferiria: comer todo o futuro dos seus filhos, ou dividir com eles? E no fundo as corporações sabem que isso não é o que a gente quer. É por isso que elas gastam bilhões em comerciais com vaquinhas felizes, áreas verdes, agricultores sorridentes, enquanto, na verdade, estão o tempo todo apoiando políticas e governos que fazem exatamente o contrário.
A verdade é: eles não se importam. Há 10 anos, muitas marcas conhecidas se comprometeram a tirar o desmatamento da sua cadeia de produção. Elas também prometeram reflorestar áreas que já foram destruídas.
Adivinha? 10 anos se passaram e quase nada foi feito. Hoje, a cada 5 segundos um campo de futebol é desmatado para dar lugar à produção de commodities.
Isso num mundo onde 1. 3 bilhão de toneladas de comida é jogada fora por ano. Hoje 26% de toda a terra do planeta é utilizada para pastagem ou plantação de grãos para alimentar animais.
E até agora nós não vemos nenhum sinal de mudança. Nós não precisamos de mais comida de má qualidade. Nós precisamos cultivar nosso alimento de uma forma melhor.
Aqui é onde temos uma escolha a fazer. Um grande escolha! Podemos proteger as florestas e o nosso planeta ou podemos permitir que a produção de commodities continue se expandindo sobre os ecossistemas e enfrentar as consequências.
Não dá pra ter os dois. Então esse é o mundo do agronegócio. Uma bandeja de animais criados à base de soja, desapropriação de terras e uma carga de carbono na atmosfera que vai acabar fritando todos nós.
Obrigado por assistir. No próximo vídeo, mergulharemos no mundo sombrio das commodities pra mostrar como essas grandes empresas estão enganando as pessoas e destruindo o planeta.