Quando hoje nós tomamos banho em um mesmo rio que nos banhamos ontem, podemos dizer que é o mesmo rio? Heráclito disse, que nós não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Ele tinha razão.
A água no rio hoje é completamente diferente da água que nós tomamos banho ontem. E ainda é o mesmo rio. A compreensão da impermanência ajuda-nos a ir além de todos os conceitos.
Ajuda-nos a ir além de “mesmo” e “diferente”, “vindo” e “indo”. Ajuda-nos a ver que o rio não é o mesmo rio mas também não é diferente. Nos mostra que a chama que acendemos na vela antes de dormir não é a mesma chama queimando na manhã seguinte.
A chama não é duas chamas diferentes, mas também não é a mesma chama. Buda ensinou que tudo é impermanente – flores, mesas, montanhas, regimes políticos, corpos, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência. Nós não conseguimos encontrar algo que seja permanente.
Impermanência significa que tudo muda e que nada permanece o mesmo em dois momentos sucessivos. E embora as coisas mudem a todo momento, elas ainda não podem ser descritas com precisão como as mesmas ou como diferentes do que elas eram a um momento atrás. O Buda nos pediu para não ficarmos falando sobre a impermanência, mas para usá-la como um instrumento que nos ajude a penetrar profundamente na realidade e que nos ajude a uma intuição libertadora.
Quando estudarmos a impermanência, temos que questionar: “Será que existe algo neste ensinamento que tenha a ver com a minha vida cotidiana, com as minhas dificuldades diárias, com meu sofrimento? ” Se virmos impermanência como mera filosofia, isso não é um ensinamento de Buda. Devemos aprender a contemplar profundamente a natureza da impermanência em nosso cotidiano, isto é A Prática da Impermanência.
Thich Nhat Hanh. "Tudo muda. Não há nada a que se prender.
Esse é o ensinamento mais importante do Buda". - Shunryu Suzuki. De maneira profunda, contemple e examine a impermanência em sua vida.
Temos que nutrir o nosso discernimento da impermanência o dia inteiro. Assim, olhar as coisas em profundidade pode se tornar um estilo de vida. Quando Confúcio estava na margem de um rio assistindo seu fluxo, ele disse: “Oh, flui assim, dia e noite, sem fim”.
Graças à impermanência, nós podemos transformar sofrimento em alegria. A impermanência é o que nos possibilita a transformação. Nós precisamos aprender a apreciar o valor da impermanência.
Ao praticar a atenção plena da impermanência, nós nos tornamos mais bem dispostos e amorosos. Se estivermos gozando de uma boa saúde e estivermos conscientes da impermanência, vamos cuidar bem de nós mesmos. Sabendo que a pessoa que amamos é impermanente, podemos apreciá-la ainda mais.
A impermanência nos ensina a respeitar e valorizar cada momento e todas as coisas preciosas existentes em nós e à nossa volta. Quando entrarem numa discussão com alguém que vocês amam, por favor, fechem os olhos e visualizem vocês daqui a 300 anos. Ao abrir os olhos, tudo o que vocês vão querer é abraçar um ao outro e reconhecer o quanto cada um de vocês é precioso.
Podemos praticar a impermanência respirando conscientemente. Pratique a arte de viver conscientemente, e então, examine profundamente a natureza impermanente das coisas. Ao contemplarmos profundamente a impermanência, veremos que as coisas mudam porque as causas e condições mudam.
Do ponto de vista do tempo, nós dizemos “impermanência”, e do ponto de vista do espaço, nós dizemos “nenhum eu”. Antes de ter entrado nesta sala, vocês eram diferentes física e mentalmente. As coisas não conseguem permanecer do mesmo jeito por dois momentos consecutivos, portanto, nada pode ser considerado um “eu” permanente.
Examinando a impermanência de maneira profunda, você compreende: “nenhum eu”. Examinando “nenhum eu” de maneira profunda, você compreende a impermanência. Não podemos dizer: “Eu posso aceitar impermanência, mas nenhum eu é difícil demais”; pois são a mesma coisa.
Nós temos que nutrir, diariamente, o nosso discernimento da impermanência. Se assim fizermos, vamos viver de forma mais plena, vamos sofrer menos e apreciar muito mais a vida. Vivendo de maneira plena, vamos tocar a razão de ser da realidade, o nirvana, Ao entrarmos em contato profundo com a impermanência, acessamos um mundo além de permanência e impermanência.
Nós tocamos a base do ser e compreendemos que aquilo que tínhamos chamado de existência e inexistência são apenas noções. Nada jamais é perdido. Nada jamais é ganho.
Isto é, Nirvana.