[Música] hoje o programa diálogo Sem Fronteira tem a satisfação de receber a professora Lívia ou chiro professora Lívia seja bem-vinda ao nosso programa muito obrigada funar um prazer estar aqui a professora Lívia Ela é formada em história pela USP depois ela sigue no mestrado no doutoramento na área de letras linguística eh na Universidade de São Paulo também depois seguiu num pós-doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro um grande centro nesse âmbito e eh há pouco tempo é professora desde 2015 é professora aqui da nossa universidade a partir desse ano a partir de 2016 é
que o concurso foi em 2015 de qualquer maneira a professora eh atua aqui no nosso Instituto de estudos da linguagem e é estudiosa digamos da eh da da comunicação em geral mas especificamente do tema da nossa conversa de hoje que é a variação linguística eh e Quais as implicações sociais identitárias quer dizer as digamos as sociolinguística ligada à variação né então eu gostaria de começar professora Lívia perguntando eh o que que nós podemos entender por variação linguística tá certo é a variação linguística é um fenômeno que ocorre em todas as línguas em todos os lugares
e em todas as épocas né a variação linguística começa na fala do próprio indivíduo né uma mesma pessoa não fala exatamente da mesma maneira todos os momentos e não é só uma questão só de formalidade ou informalidade tem muita coisa que a gente acaba falando de modos diferentes e sem nem perceber por exemplo a a gente pode falar às vezes ó nós vamos lá ou a gente vai lá na verdade não é nem nós vamos provavelmente seria nós vamos uhum né a às vezes uma pessoa pode falar porta às vezes ela pode falar porta estereotipam
a gente pensa que pessoas do interior aqui no contexto Paulista né que pessoas do interior falam porta e paulistanos da capital falam porta mas na verdade essa alternância acaba ocorrendo muitas vezes na fala de um mesmo indiv E por aí vai assim os exemplos são vários ah e daí no final das contas essa variação acaba muitas vezes diferenciando grupo grupos sociais diferentes grupos acabam falando de modos diferentes e homens e mulheres falam de modos diferentes pessoas mais jovens falam de forma diferente das pessoas mais velhas existem diferenças regionais também nos falares né então no português
brasileiro existem diversas variedades ah em última instância essa variação culmina em diferentes línguas né das milhares de línguas que existem no mundo ah e que estão em constante mutação em constante mudanças justamente por causa dessa variação é professor professora Lívia eh o eh o que encanta no tema da variação linguística do aspecto no aspecto sociolinguístico aspecto social é o fato de que eh digamos assim a sociedade eh contemporânea a partir do século XV x quando a língua se generaliza como língua de estado língua de uma nação eh então você tem como impor uma língua mas
ao mesmo tempo imediatamente surge a questão da diferença social então no caso do inglês no caso famoso do inglês britânico quer dizer você tem o inglês da rainha eh E você tem aí depois uma uma infinidade de variações e que eh São marcas sociais não são só são marcas linguísticas naturalmente mas eu digo as pessoas já são classificadas e por isso que as pessoas têm que aprender digamos o inglês da rainha porque é uma maneira da pessoa se livrar digamos assim daquela daquela classe ificação eh original dela então no caso aí da sua pesquisa que
você entrou eh aqui na no Brasil né e em particular em São Paulo eh eu perguntaria justamente Isso quer dizer qual a relação que a professora tem visto nos casos que tem estudado entre a variação linguística e o julgamento de classe social que eu acho que esse é um lógico tem gênero Tem outros critérios também mas eu digo a o básico tradicional é como as pessoas são classificadas numa hierarquia social a partir do como elas falam uhum a Ó você falou de de uma imposição né impor uma língua impor uma Norma sobretudo depois da da
formação do Estado nação né E essa ideologia de que um país uma língua né e uma fé etc Ah mas na verdade na prática é difícil impor né a gente não consegue fazer com que as pessoas falem Olha você tem que falar dessa maneira e normalmente essa imposição eh é no sentido da Norma culta né de cada língua você citou o RP né o da do inglês britânico mas no final das contas as pessoas acabam falando do modo como elas falam com com as pessoas com quem ela elas convivem né a essa questão eh da
Norma na escola a existe essa imposição essa imposição tá diretamente ligada a a fala de prestígio das classes mais altas aquilo que é considerado correto aliás é o modo como as elites falam e aliás o modo idealizado Porque mesmo as pessoas das classes mais altas não falam de acordo com as regras do livro da gramática dauta né mesóclises talvez agora entre em moda novamente mas na verdade normalmente as pessoas não usam a isso cotidianamente agora a isso sem dúvida acaba gerando uma série de preconceitos o papel da escola normalmente é visto como o de ensinar
essa Norma culta mas que já é reconhecidamente o modo como as pessoas não falam no seu dia a dia né quer dizer por que ensinar português pros brasileiros a gente já fala português né O que a pessoa vai aprender na escola a é uma outra variedade que é uma variedade idealizada Mas então a existe essa imposição mas não é a não é uma coisa automática né então por exemplo essa questão de classe social algo que eu tenho visto no português Paulistano e a gente sabe que a cidade de São Paulo é fortemente estratificada né socialmente
e tem diversos falares ah os falantes são capazes de fazer associações existem diferenças os próprios paulistanos a gente faz entrevistas com paulistanos a não só para obter amostras de fala mas também para tentar ah perguntar algumas coisas a respeito dessas avaliações linguísticas ou sociolinguísticas e é interessante ver a qual é o discurso comum né o discurso corrente das pessoas Ah então normalmente Paulistano consegue diferenciar Ou pelo menos acha que consegue diferenciar a quem é da Periferia e quem é de uma região mais Central Lógico que isso também pode envolver outras coisas o modo de se
investir né assim a o poder aquisitivo né Qual é a profissão da pessoa mas só pelo modo de falar é possível a pelo menos fazer uma inferência a os paulistanos acreditam itam que consegue diferenciar Esse é da Periferia esse não é o exemplo do r em final de sílaba que eu que eu citei fala porta ou fala porta Ah eu digo que tem a porta bastante na na fala de paulistanos nativos mas existe uma certa estratificação quando a gente faz um levantamento de dados a gente percebe que esse R é muito mais frequente na periferia
do que nas regiões centrais e pode ser que isso seja um dos indícios que a pessoa né que os ouvintes os falantes usam para fazer essas inferências né uma série de outros traços também concordância nominal concordância verbal são traços também bastante salientes estigmatizados normalmente as pessoas se baseiam nisso para Ah fazer inferências né a respeito de Ah esse não não estudou e daí provavelmente vem uma série de inferencias em Cadeia né se ele fala Sim provavelmente elementos escolarizado então provavelmente ele é de uma classe mais baixa Ah mas são estereótipos no final das contas ó
muitos dos meus amigos são paulistanos formados na Universidade de São Paulo tem quer dizer tem curso superior e falando corriqueiramente claro que sai é que também tem aquela questão da digamos assim da eh diferença de local não é porque porque a professora mencionou que as pessoas mudam né Eh a própria pessoa fala em circunstâncias diferentes a professora mencionou a m ó clise eh mas justamente no âmbito digamos jurídico em que as pessoas são advogados causídicos e que portanto usam toda uma linguagem que não é a linguagem que ela usa dentro de casa a mesma pessoa
é então exatamente mas é Isso demonstra que e aí entra uma uma uma uma questão que é do local de fala né quer dizer a pessoa eh falando num âmbito eh erudito num âmbito elevado no caso especializado como jurídico tem um tipo de fala e e no no conversando com eh no posto de gasolina terá uma fala completamente diferente então Eh de qualquer maneira a questão social que entra aí que a professora mencionou é o estigma associado a quem não domina o outro a norma culta quem não tem não tem não tem como fazer o
duplo registro né quer dizer se a pessoa não tem como fazer esse Outro registro chegar e falar agora você tá colocado num num tribunal e você vai falar como um causídico né agora isso a pergunta que vem em seguida é assim ainda no âmbito da implicações sociais disso eh assim há uma uma nesses nesse estado Nacional vamos pegar França e e Inglaterra como modelos né Eh dessa imposição da Norma culta pela escola e a estigmatização do local do provincial né Tanto Em ambos os casos quer dizer você tem toda uma uma uma pressão muito forte
teve e tem nesse esses países para que assim seja né de tal maneira que a pessoa que não dominar essa Norma do causídico não chegará Presidente não chegará ao trib não ao tribunal por por definição mas não chegará ao poder digamos porque ele não está dominando isso Então essa é a maneira que que que se uma das maneiras né é uma maneira então no caso nosso aqui em que a sociedade ela eu diria tem a escola teve menos possibilidade de por ao contrário da França ou da Inglaterra no qual você tem teve uma imposição muito
mais violenta e muito mais persistente do que no nosso caso porque a escola é recente no Brasil e mal e e ela é recente ela não atingiu todo mundo e continua sendo eh um grande eh eh digamos buraco negro e o ensino inclusive da Norma culta então num caso de uma sociedade com as diferenças sociais tão mais profundas como a professora senora vê o papel da língua na em reproduzir a exclusão é da Olha na verdade eu acho que mesmo essa questão do ensino e da estrutura do acesso ao ensino ao ensino gratuito a ensino
de de qualidade sem dúvida ah pesa muito né aqui no Brasil e para para essa marcação de diferenças sociais e de estigma né de formas que são consideradas corretas ou a prestigiosas mas na verdade isso independe depende do país Porque mesmo na Inglaterra mesmo na França há muita como eu disse a variação linguística tá presente em todas as línguas em todos os lugares e também existem a variedades ou dialetos né nesses países Ah e as pessoas continuam falando mesmo a possibilidade de acesso à escola ou de uma educação universal não eliminou a variação linguística e
daí a gente começa a pensar que provavelmente essa variação Tá além da imposição de uma Norma ou tá Além de A o falante querer simplesmente se adequar ou querer passar por alguém ah de uma classe social mais alta porque existem outros valores que também são importantes no dia a dia ah a gente escuta muito isso né a puxa como que Fulano estudou ou vai pra escola mas não aprende e continua não fazendo a concordância nominal ou verbal eh mas isso porque tá há momento e não é só no posto de gasolina mas assim tem outras
identidades em jogo em que não é interessante falar né da da como tivesse no tribunal o tempo inteiro né as pessoas fariam pedantes eh se falassem assim a o tempo inteiro né mas no final das contas a escola tem esse papel né de procurar e normatizar ou de ensinar a norma culta Na verdade o ideal é que todos os falantes sejam poliglotas né na sua própria língua e seja capaz de ah mudar de registro né De acordo a mas ainda assim mesmo Quando a gente chegar a gente espera né um a a uma educação de
qualidade de acesso a todos a variação linguística ela não vai sumir e na verdade não vai sumir porque faz parte da língua faz parte das identidades dos falantes da na das fil das identidades de Grupo Ah quer dizer os jovens né vão continuar inovando criando novas expressões e gírias ah a gente tem assim contato também né hoje a gente vê nas novas tecnologias existem ah diversos usos inovadores então mesmo a uma escola que atinja todos ah não vai acabar com a variação e não deve mesmo né porque a diversidade linguística e ao contrário a variação
pode ter como a professora mencionou aí no caso do dos jovens eh que é uma coisa estrutural de de diferenciação de inclusive dificultar a comunicação a comunicação não a percepção do adulto em relação do que o que eles estão dier um código né sim então é uma função até uma função quase que estrutural né É se a gente pensar no inglês por exemplo tem o cocn né na nas grandes cidades em Londres e hoje em dia com as migrações também de de Árabes e pessoas da a da África na França na Inglaterra a na Alemanha
também existem Tem surgido dialetos da quer dizer dialetos Não no sentido pejorativo não como uma variedade social que muitas vezes mistura a língua de migrantes mistura o árabe com as línguas locais com o alemão com o francês e muitas vezes isso pode ser um código para se distanciar de outros né mas também e tem a ver com a desses falantes Olha professora lívvia queria agradecer muito sua participação no programa de hoje porque o tema é é fascinante principalmente porque mostra uma ligação entre um estudo técnico e por aprofundado no âmbito da linguística com aspectos sociais
e tão relevantes no geral e em particular pra sociedade brasileira Então queria agradecer muito professora Lívia por participar do programa Eu que agradeço o convite e a oportunidade de falar um pouco mais sobre divulgar isso que a gente vem analisando né nas pesquisas Eu lembro que este todos os outros programas diálogo Sem Fronteira estão disponíveis para download seja no canal da RTV Unicamp seja no canal YouTube da RTV Unicamp E com isso eu convido a todos ao próximo programa diálogo Sem [Música] Fronteira [Música] h