Olá, pessoal. Sejam bem-vindos para essa aula de supervisão de casos clínicos três. Eu sou o Cássio, eh, e vou acompanhar vocês aí.
Vamos juntos, né, eh, pensar um pouco a respeito da supervisão. Vamos dar uma olhadinha no que que a gente vai vai estudar nessa aula, então, né? Então, a gente vai começar aí falando sobre os o saber que interessa a psicanálise, o saber que se transmite ou aprender a aprender.
Nós vamos falar então da douta ignorância. Eh, é disso que se trata em psicanálise. Depois, do segundo tema, nós falaremos sobre os os alguns outros com os quais o psicanalista costuma se autorizar o seu ofício, né, da escuta do inconsciente.
Falaremos um pouco sobre a demonstração ou a mostração que a gente faz da nossa prática, né? O analista não é uma pessoa que trabalha exclusivamente sozinho. O grupo na supervisão, né?
Traremos de novo a questão a respeito da da supervisão em grupo e a supervisão do caso. É, essa é uma é uma é uma questão que a gente vai problematizar. A supervisão, quando a gente faz a supervisão, ela supervisão, ela é uma supervisão do caso clínico ou do analista, né?
Então, nós falaremos aqui a respeito do relato. Bom, pessoal, ah, qual é o saber, né, do psicanalista, né? Eh, quando a gente procura um analista, a gente procura um analista porque ele sabe de alguma coisa, né?
Eh, qual é o saber que o analista realmente tem, realmente sabe? o saber que interessa ao psicanalista, né? É disso que a gente vai tratar hoje.
Será que esse saber ele é um saber ensinável? Eh, é possível ensinar a fazer psicanálise? Não, desde já, então, diremos que não, que o saber que interessa paraa psicanálise é um saber, mais do que se ensinar, é um saber que se transmite.
Trata-se, como veremos, de um aprender a aprender. Muito bem. É necessário que o analista tenha bem claro em mente, né, que é é muito importante que o analista saiba o máximo possível sobre o máximo de coisas possíve possíveis, porque a experiência humana, né, sobre a Terra, ela é muito muito eh eh multifacetada, plurar, plural, plural, não singular.
Eh, porém, eh, o, o analista ele estuda muito, ele vai ao teatro, de preferência, ele assiste filmes, ele lê livros, né? Ele é uma pessoa que tenta se apropriar da da da dimensão, né, eh, da expressão humana, eh, para ter noção do quão do do do quão eh diferente é possível ser humano, né? Eh, no entanto, o saber mais importante, o saber com o qual ele de fato opera é um saber muito especial, tá?
Ele sabe que sobre este sujeito em particular que o visita agora, ele não sabe nada, né? Ou seja, eh, eu posso saber, já posso ter ouvido 1000 pessoas, 1000 casos diferentes de todos os tipos psicológicos. Eh, mas eu nunca ouvi essa pessoa, né?
E essa pessoa é uma pessoa que tem, portanto, uma história que eu não conheço. E é por isso que ao invés da gente começar falando, a gente começa escutando e segue escutando até o final. Eh, o saber do analista é o saber sobre o inconsciente, né?
Ou seja, há aqui uma radical inversão, né? Quando você leva o seu carro no mecânico, você não espera que ao chegar o mecânico, o mecânico pergunte para você, né? Mas o que que você acha que é?
Eu não sei o que que eu acho que é. Eu acho que tá fazendo esse barulho o carro e você que sabe, né? Você que estudou aí carro, mecânica e tal, assim com ortopedista, assim com todo profissional eh ao qual a gente supõe que tem um saber e de fato tem.
Pois bem, no caso da psicanálise, qual é o saber que o analista tem? O analista sabe que existe um saber no próprio sujeito que o procura, mas que ele não sabe. Ele, o próprio inconsciente, ou seja, um saber insabido, um saber inconsciente.
Quando esse sujeito tem um sonho, acorda de manhã e não entende nada desse sonho, quando você escuta esse sonho, é possível situar no sonho uma uma frase, um um enredo, né? Eh, um roteiro, né? Ou seja, a própria, segundo o Lacan, o próprio fato de que seja possível interpretar o inconsciente é o fato de que o inconsciente é interpretável, ou seja, de que ele compõe um saber.
Eh, logo o processo de supervisão, portanto, comporta o processo de supervisão, ele pode e foi de fato ainda é chamado de um processo didático pedagógico em que se aprende a fazer, né? Eh, eu particularmente não trabalho tanto com essa noção de pedagogia ou de aprender. Ensino aprendizagem, um processo de ensino aprendizagem, embora seja também um processo de ensino aprendizagem, não é só isso, porque algo não pode ser ensinado e não pode ser aprendido.
Algo precisa ser transmitido. Não é articulável em frases lógicas, em sentenças, etc. Mas pensando na chave do ensino aprendizagem, hã, é possível dizer que eh o processo de supervisão é um processo no qual se aprende a aprender.
Como assim? Ora, se o analista é o sujeito que vai aprender com o inconsciente daquele que que ele fala, né? Se eu estou ali para escutar, o analista não é uma pessoa que pode se julgar eh eh satisfeito comer as palavras, uma pessoa que pode eh se antecipar ao sentido, né?
Ele não pode se dar ao luxo, por exemplo, de não fazer uma pergunta que lhe ocorra fazer, né? Pressupondo que ele já sabe a resposta, porque pode ser que a resposta seja absolutamente outra, né? Ou seja, o analista é o sujeito, desde Freud que aprende com o inconsciente.
Nós situamos o saber que nos interessa, não em nós, mas um saber próprio da experiência humana na sua relação de um corpo com a linguagem. Nisso acontece um entrelaçamento e uma produção de saber própria, que a gente chama de inconsciente, que lá que chama de outro, né? Eh, é um outro que nos habita, né?
a gente não só fala como a gente é falado. Pois bem, então, eh, quando o analista vai para uma sessão de análise, ele vai para aprender e apreender este saber que não é dele, não é exatamente daquela pessoa, mas ele se processa na medida em que a pessoa fala. E um processo de supervisão, portanto, é um processo no qual se aprende a aprender isso daí.
É por isso que eh em algum momento do seu ensino, Lacan vai então situar aquilo que foi chamado de doluta ignorância, né? Quer dizer, o analista ele é um ignorante, né? Mas ele não pode se contentar em ser um em não saber de nada, em não é esse tipo de ignorância que se trata.
É uma ignorância doutora, uma ignorância erudita. Eh, ela ecoa um pouco do sei que nada sei lá Socrático de antes de Cristo, né? Quer dizer, o analista é uma pessoa que vai sim saber o máximo possível, mas ele sabe primeiro que sobre esse sujeito ele não sabe nada.
E segundo, existe um saber no próprio inconsciente deste sujeito que vai ensinar este sujeito e o analista encontrar os caminhos pelos quais eh ambos devem seguir ao longo desse percurso. Bom, toda vez que a gente pensa, né, ah, em um psicanalista trabalhando, a gente costuma se reportar a um certo imaginário, né, em que você vê, por exemplo, então o Freud ou um analista qualquer, né, sentado numa sala, eh, na qual uma pessoa fala para ele, né, a pessoa deitada no divan, etc. de modo que parece um trabalho bastante solitário, eh, e em alguma boa medida, de fato, o é, né?
Mas ele não necessariamente é um trabalho tão solipsista assim, né? H, o processo de se autorizar a começar a fazer uma psicanálise já foi regulado por várias instituições, mas como vocês sabem, ele é um processo que eh a partir principalmente da escola de Lacan, ele deixou de ser um processo tão institucionalizado e passou a ser cada vez mais um processo eh que resguarda um pouco da marginalidade, da subversão que é própria da psicanálise, né? O analista diz Lacan é uma pessoa que autoriza de si próprio, né?
Isso é muito interessante porque preserva toda uma aura de liberdade. Por outro lado, também comporta toda uma parcela de charlatanismos, de pessoas que se autorizam sem a devida eh precaução, sem a devida formação, sem a devida ética, né? Isso é um ônus com o qual a psicanálise até então tem arcado.
Pois bem, o psicanalista se autoriza de si próprio, segundo Lacan, e de alguns outros, né? Ora, ã, o que que isso quer dizer? Que outros são esses, né?
Vejamos. Então, desde o início da psicanálise, Freud instituiu aquilo que ficou chamado de reuniões das quartas-feiras. E no que que consistiam essas reuniões?
Freud se reunia com algumas figuras conceituadas da sua época, não necessariamente médicos, haviam eh eh haviam poetas, haviam eh pessoas de outras áreas, né, mas interessadas na psicanálise, interessadas naquilo que Freud vinha descobrindo a respeito daquilo que ele escutava, eh, daquilo que Freud vinha aprendendo com as pessoas, com o inconsciente daqueles que vos falavam. e ele instituiu, portanto, esses grupos de discussão. Existem as atas dessas reuniões.
Eh, mas o que que fundamentalmente nos interessa aqui? Nos interessa fundamentalmente pensar no fato de que ainda que dentro de um consultório se escute solitariamente uma pessoa que também fala sozinha, eh o trabalho de uma psicanálise não se encerra aí, né? Não é só escutar.
O analista ele precisa também, como foi eh como Lacan disse eh posteriormente, ele precisa fazer escola, né? Ou seja, ele precisa se reunir com outros analistas para prestar conta daquilo que ele faz. Não prestar conta no sentido neurótico de se justificar, mas no sentido daquilo que Freud fez.
Freud poderia ter criado a psicanálise, não escrito nada, não compartilhado nada com ninguém, morrido e levado embora, né? Mas não foi o que ele fez, né? Freud fez aquilo, descobriu, publicou.
né? Vocês sabem que para para que se crie uma ciência é necessário se definir um objeto e uma publicação. Por quê?
Porque ciência é publicável. Ciência é método e o método precisa ser compartilhado para que outras pessoas possam julgar o método que se utilizou para chegar aqueles resultados. o analista faz escola, ou seja, ele participa eh seja em Lacan, seja em qualquer outra outra outra matriz teórica, outra escola de psicanálise, eh tal como Freud nas reuniões de quarta-feira, o analista ele é uma pessoa que se reúne com outras pessoas que, como eles, se ocupam da mesma coisa para discutir aquilo que tá acontecendo, né?
eh, tanto no que diz respeito, por exemplo, a uma supervisão, quanto que diz respeito a um cartel, né, como se chama os grupos de estudo de Lacan, ou grupos de estudo instituídos em outra modalidade, congressos, jornadas, simpósios, colóquios, cursos, né? Ou seja, o analista, portanto, ele se autoriza de si próprio, mas também ele não prescinde de alguns outros. e Lacan vai chamar mesmo de canalha, de charlatão, as pessoas que não se comprometem, né, eh eh com esse tipo de de formação mesmo de laço social entre os psicanalistas que compõem, né, eh entre as pessoas que compõem essa doutrina.
Eh, naturalmente é o tipo de coisa que constitui uma comunidade, né, que é a comunidade psicanalítica, né, ali é o espaço em que se compartilham as experiências, é o espaço em que se discutem e que se elaboram os conceitos, como a gente pode ver pelas atas das reuniões de quarta-feira, né? H Freud tinha uma determinado, um determinado papel ali, né, a quem o considere como sendo uma pessoa, um déspota, por exemplo, não necessariamente um déspota, mas Jung, por exemplo, que participou dessas reuniões, ele diz que o Freud era uma pessoa que, uma vez convicta, era muito difícil de persuadi-lo do contrário. Por outro lado, existem eh visões diferentes e a respeito da postura freudiana nessas reuniões, como sendo uma pessoa muito mais eh interessada no tema, na no desenvolvimento dos conceitos do que provar efetivamente uma posição eh que fosse a dele.
O fato é que, sendo assim, o assado, Freud se punha, se expunha, né, nas suas escutas, nas suas elaborações, colocava o seus conceitos, as suas elucubrações teóricas, né, o que que ele vinha pensando a respeito daquilo que ele escutava. E ele colocava isso para jogo, né? Ele colocava isso na mesa, eles discutiam, criticavam, pensavam juntos, propunham, né?
E assim foi se dando a elaboração dessa, desse monumento teórico que é a psicanálise, que é uma coisa bastante ampla, né? Ou seja, o que nos interessa aqui é isso. O psicanalista não trabalha sozinho, ele escuta sozinho, mas ele depois precisa fazer comunidades.
Como é que eu escolho um analista, né? Eu abro a lista e e acho o nome da pessoa. Pode ser assim.
Muitas pessoas escolhem assim, não tem problema nenhum, mas eh em geral, via de regra, escolhe-se um psicanalista por ouvi-lo falar em algum lugar, né? por ter conhecimento a respeito dele, né? Eh, não raro as pessoas que que procuram um tratamento psicanalítico são envolvidas com a psicanálise, então elas elas estão mais ou menos circulando no meio, né?
Eh, e o analista é uma pessoa que circula nesses meios. A gente sabe que vem muito por indicação, né? Então, assim, eh, você tem um analista para me indicar?
Tenho. Quem? Ora, quem?
que aquele que eu vejo que faz escola, aquele que eu vejo que traz os casos, que faz uma supervisão, que faz análise pessoal, ou seja, que está a trabalho, né? Aquele que nunca aparece não tem como indicar, porque eu não sei o que que ele faz, eu não sei como que ele fala, como que como que ele se apropriou do discurso psicanalítico, de modo que não é possível a gente fazer psicanálise sem estar eh no laço social. Bom, pessoal, hã, então, o analista, apesar de trabalhar sozinho, ele precisa, em alguma medida, eh, mostrar aquilo que ele faz, né?
Eh, claro que não se trata de você expor as pessoas, de você mostrar eh, digamos, essa hipses líteres, aquilo que acontece dentro de uma sessão. Não é assim que as coisas funcionam, por óbvio. No entanto, não é uma coisa, é preciso compartilhar e essa é uma é um comprometimento ético que um psicanalista deve ter com a psicanálise, né?
A psicanálise é uma coisa que se transmite, né? Se a gente acredita que a psicanálise, em alguma medida eh mantém um espaço que talvez não seja tão grande, mas que ele é muito próprio eh na pól, né, na civilização, se ela contribui em alguma medida, seja pro estabelecimento da ordem, seja do caos da humanidade, eh é necessário que ela continue e que seja, portanto, transmitida. Então, o o o psicanalista é uma pessoa que demonstra, né, ele mostra aquilo que ele faz.
E isso, essa mostração, essa demonstração, seja na apresentação de um determinado eh caso ou de uma de um desenvolvimento teórico, por exemplo, num congresso, num simpósio, no seminário, seja eh numa em uma supervisão, eh trata-se da manutenção da ética que autorizou o seu ato, né? Ou seja, quando eu estou me analisando, estudando, quando eu resolvo me autorizar a receber pacientes, eh vocês vão de convir comigo que é uma decisão razoavelmente eh eh arriscada, né, no sentido de que é possível, por exemplo, que uma intervenção mal colocada possa desencadear, por exemplo, uma passagem ao ato, né? Quando você se propõe a escutar pessoas que estão sofrendo, você pode receber pessoas, por exemplo, que estão com uma ideação suicida, né?
Eventualmente você vai eh fazer uma intervenção do tipo que, por exemplo, outro dia eu eu escutei eh num CAPS a a pessoa escutando uma pessoa e ela dizia assim, a pessoa tentou se se suicidar, não conseguiu, ela dizia: "Ah, mas você pensou na sua mãe quando você foi fazer isso? " Ora, esse é o tipo de intervenção que talvez traga muito mais culpa para uma pessoa que já sofre de uma culpa que quase a aniquilou. A pessoa que se suicida, não raro, ela sofre de culpa, né?
Ela é uma pessoa que tem e essa ideia do autoestermínio porque se sente muito culpada. Vocês percebem que dependendo de do tipo de caso que você esteja lidando, você pode precipitar uma passagem ao ato? Assim, depois ninguém sabe porê, mas às vezes com uma palavrinha muito simples, né?
Porque a pessoa que tá falando para você, escutando você como um profissional, ela tende a considerar sua palavra como uma palavra muito, né, de um especialista e etc, né? Eh, ou seja, o ato de de você se autorizar a escutar uma pessoa, ou seja, o ato analítico, ele traz consigo embutido indissociavelmente uma ética, né? A mostração e a demonstração daquilo que se faz eh implica na na manutenção dessa ética, né?
Uma supervisão, portanto, é aquilo que visa lembrar um analista do porque que ele se tornou se tornou um analista, tá? A a a supervisão também tem uma uma eh uma finalidade de qualificação, né? Quer dizer, a gente se supervisiona para se qualificar, né?
Para eh arejar, né? Os pontos cegos, né? O que que de repente a minha escuta não tá escutando?
O que que eu tô, né? o que que de repente é um conflito meu, né? Às vezes um pré-julgamento meu, né?
Às vezes um um preconceito meu que me impede de escutar essa pessoa na sua singularidade, sem efetuar julgamento de valor ou querer conduzir essa pessoa segundo aquilo que eu considero ser o melhor, né? Seria uma pretensão e tanta, né? Eh, a supervisão, portanto, também é um lugar de desacomodação, né?
Quer dizer, não é um lugar que você vai necessariamente para se sentir confortável na sua poltrona de analista, não. A poltrona de analista é um lugar de pessoas desacomodadas, né? de pessoas que continuam o seu trabalho, de continuam querendo saber mais a respeito disso que nos causa sofrimento, que nos causa sintomas, eh, mas também disso que nos coloca trabalho, ou seja, ao desejo humano, né?
Eh, eh, e também fundamentalmente em relação ao real, né? O real, como um conceito lacaniano é aquilo que não cessa de não se escrever, ou seja, aquilo que eh a nossa elaboração simbólica, a nossa ciência, a nossa filosofia, tudo aquilo que o ser humano produz em termos de de saber, né, e que se manifesta em termos de simbólico, de linguagem, se deposita, seja nos livros, sejam nas lousas, enfim, tudo isso Isso eh tenta lidar com essa com esse nervo desencapado, né? Com essa com essa verve que que lá que eu chama de real, né?
Que é aquilo que às vezes nos acorda de noite, que é aquilo que não se encaixa, que por mais que você mire num determinado objetivo, ao alcançá-lo, algo ali não se satisfaz. E, portanto, você precisa relançar de novo o teu desejo e manter-se assim caminhante, né? Ou seja, isso, essa falta constitutiva, eh, esse espinho na carne, eh, isso é uma coisa com o qual o psicanalista deve saber operar, né?
Uma psicanálise não é necessariamente tornar-se completo, aliás, não é mesmo tornar-se completo, pelo contrário, é saber-se dividido, mas não não não sucumbia essa divisão, né? que é uma postura fundamentalmente melancólica, né? Não.
A postura do psicanalista é a postura de quem não cede diante do real. Ele não cede diante disso, que não cessa de não se fazer eh compreendido. Eh, e no entanto é aquilo que nos faz trabalhar.
Pois bem, é, é por essas e várias outras que o psicanalista precisa mostrar aquilo que ele tá fazendo, demonstrar aquilo que ele tá fazendo, compartilhar com outros colegas, escutar a experiência de outros colegas com esse tipo de experiência, né, para que vá se constituindo uma uma comunidade e para que ele, ao contribuir com essa comunidade também possa ser beneficiado por ela na sua prática. Eh, e as pessoas que ele recebe em consultório também. Bom, eh, mais uma vez, então, eh, tomemos o grupo na supervisão, né?
Eh, o grupo, a supervisão em grupo acaba sendo uma modalidade muito recorrente de supervisão na medida em que nas instituições, seja de ensino, de transmissão ou até mesmo nas nos dispositivos de saúde em que eventualmente se fazem, né, eh a supervisões eh aos moldes da supervisão psicanalítica, eh, por motivos de de logística, de custo, de possibilidades mesmo, eh, acaba sendo a modalidade predominante, acaba sendo a de grupo, né? E no entanto é uma modalidade muito interessante de supervisão, né? Que tem seus prós e contras, né?
Vejamos um pouquinho então quais são esses prós e contras, né? é a modalidade mais comum em instituições, como eu disse a vocês, seja instituições de ensino, seja em instituições de saúde. Eu coloquei aqui para vocês alguns prós e contras.
Na realidade, eu coloquei aqui só contras mesmo. Eh, desculpa, só prós. Os contras, né?
Ã, por exemplo, a amplificação das resistências são alguns pode ser pode se considerar contras, né? Mas não necessariamente, né? Porque uma vez que uma resistência emerja, eh, situá-la, problematizá-la, né?
Eh, não dê, não é não é necessariamente um contra, né? Contribui em alguma medida para pro amadurecimento dessa escuta clínica, desse desse percurso formativo da da desse analista. Isso não é um contra, mas pode ser, né?
a depender de como o grupo, a depender da maturidade analítica de um grupo e de um supervisor como condutor desse grupo, pode ser que inviabilize, inclusive, né? Mas aqui, vejamos, hã, um uma uma característica inerente aos grupos de supervisão é isso que eu coloquei como uma dispersão das identificações imaginárias. Ou seja, quando você faz uma supervisão individual, eh, é, é, é, é comum que você se identifique com o seu supervisor, né, que você inclusive comece a a em alguma medida mimetizá-lo, né?
Ou seja, você começa a copiar um pouco do estilo deste supervisor, porque você não tem um estilo seu ainda, né? Você ainda tá desenvolvendo, né? Raramente uma pessoa começa a fazer a a psicanálise, começa a escutar pessoas depois de ter terminado um processo de análise pessoal que costuma durar 4, 5, 6, 10 anos, né?
Às vezes se interrompe, depois volta, né? Vocês sabem que psicanálise não é assunto de poucas semanas, né? Psicanálise é uma coisa que a gente faz eh ao longo de anos, né?
às vezes para e retoma. E e e o fato é que você até que você desenvolva um estilo próprio, você precisa, isso não é só em psicanálise, isso em qualquer coisa, né? Você precisa aprender com quem?
Com os mestres, né? Então você vai buscando essas referências e eventualmente você vai supondo, como você supõe no seu analista, um saber, né? Eh, a gente não sabe ainda que o saber que esse analista tem é justamente o não saber, né?
é com é com não saber que ele opera, né? Essa é a é a perícia de um analista, né? É jogar saber operar com o não saber, sem se angustiar tanto, né?
Esperar o tempo de uma análise, né? Não se precipitar em interpretações, em querer saber das coisas, quando às vezes as coisas ainda não se elaboraram suficientemente para que ele possa vir a saber. Pois bem, eh, mas até que você saiba disso, a gente supõe no analista, assim tal como no supervisor, um saber, né, no caso do supervisor, um saber fazer, né?
Eh, e aí é natural que se dê uma identificação, né? Eh, que como toda identificação é sempre imaginária, é sempre da ordem do ego, do ideal de ego, né? Ou seja, a gente tende a se identificar com o saber desse outro.
Ora, numa supervisão em grupo, como a palavra circula entre as diferentes pessoas, é possível que o saber também se dilua, né, eh, em termos de identificação. Ou seja, mesmo uma pessoa que às vezes não tem a autoridade, né, suposta, eh, pelo supervisor, pode eventualmente ouvir alguma coisa muito interessante e colocar, de modo que aquele saber que até então era acreditado só a pessoa do supervisor, o que é uma alienação? O que é uma alienação?
em alguma medida é uma alienação. Eh, e as supervisões vão servir não apenas para correções de rota. E essa informação é fundamental.
Uma supervisão não serve só para apontar os erros, os pontos cegos, aquilo que foi um desvio ético ou técnico do supervisionando. Uma supervisão também serve para autorizá-lo, para corroborá-lo quando ele faz uma boa intervenção, quando ele aponta para uma boa hipótese diagnóstica, quando ele escuta uma manifestação do inconsciente ilegítima, quando ele não responde de uma maneira neurótica. Tudo isso também é apontado pel um supervisor.
Ou seja, uma supervisão ela também visa a eh somar nessa autorização eh de um candidato de um de um de um candidato analista ou de uma pessoa que já está eh escutando. Sempre tem que ser de uma pessoa que já tá escutando. É, então ela, o analista supervisor faz parte do alguns outros que auxiliam na autorização do eh analista supervisionando.
Ou seja, essa possibilidade de que as, numa supervisão em grupo, de que outras pessoas opinem, intervenham, faz com que o saber que era atribuído só ao supervisor analista, ao analista supervisor, possa também se desvincular desta pessoa, o que possibilita também que fique que o saber ele fique mais fluido, né? e que, portanto, as identificações imaginárias, que a gente sabe que serão depois eh fruto de resistências em relação ao não saber, elas de certa forma já vão se dissipando, né? Se dispersando.
Eh, dispersão, portanto, da suposição de saber. Isso é importante, tá? Importante por quê?
Porque o saber, de novo, o saber que interessa o psicanalista, não é o saber do supervisor, é o saber do inconsciente. O supervisor só é uma pessoa importante porque ele sabe aprender com o inconsciente, porque ele sabe escutar. Quando a gente fala em escuta é escuta mesmo, né?
Em psicanálise é escuta mesmo, é música. O inconsciente é música. Ele não, o Lacan diz: "Abstenham-se de compreender, né?
Quando a gente tá interessado em entender as coisas e fica notando, a gente deixa o quê? De escutar, né? E então a gente escuta escuta o quê?
O significado das coisas, não? A gente escuta o significante, né? A gente escuta mais a música de uma pessoa, né?
Eh, ou seja, se você situa esse saber, seja no supervisor, seja no outro, né? você tende a se encantar, se deslumbrar, né, com o saber desta pessoa e acaba deixando de olhar pro saber que realmente interessa, que não é o do supervisor, é o saber inconsciente que tá no supervisor, tá em você, tá no outro, tá em todo mundo, porque todo mundo fala. Então, há uma coisa que se elabora nisso daí.
Eh, então a supervisão em grupo, de certa forma ela propicia, assim como ela pode amplificar resistências que às vezes obstruem o processo, assim também ela lubrifica, né, digamos assim, eh essa essa fluidez eh do saber eh também atuando nesse sentido de uma forma positiva. Bom, pessoal, eh há uma controvérsia, né, eh, teórica com desdobramentos, eh, práticos a respeito, eh, sobre o que incide uma supervisão, né? uma supervisão, ela é uma supervisão do caso ou do analista, né?
Eh, ora, eh, ambas as concepções são plenamente justificáveis. Vejamos, ela é uma supervisão do caso. Por quê?
Porque quando você decide levar um caso pra supervisão, em última instância, quem que vai se beneficiar de uma supervisão? Eh, o próprio a própria pessoa que tá sendo atendida por você, né? Vamos supor, eu levo um caso paraa supervisão, né?
Eu levo esse caso porque esse caso está, eu tô com dificuldade para atender esse caso, né? Então, a supervisão é supervisão de quê? Do caso, né?
Eu vou contar, não vou contar a minha história, eu vou como analista, vou contar a história do caso. Olha, essa pessoa nasceu em 1996, daí ela eh contraiu uma doença, né? Eh, depois ela conheceu uma pessoa e etc e tal.
Então, vou contar o caso dessa pessoa, a supervisão, supervisão do caso. Só que o caso nunca é o caso, né? A gente nunca está lidando exatamente com a realidade das coisas.
Nem esta pessoa que nasceu em 1996, que construiu uma doença e depois se casou, etc. Nem esta pessoa se reporta aos fatos tal como os fatos se deram, né? eventualmente ela acha que ela foi abandonada pela mãe quando a mãe não foi, não abandonou ela.
A mãe, na verdade, também ficou doente e tal, mas ela significa aquilo como um abandono. Ou seja, nem ela, ao relatar a própria vida relata tal como foi. Ela relata aquilo que da vida ela viu, aquilo que da vida ela experienciou, ela sentiu, né?
Eh, o que dirá eu relatar a realidade das coisas? Eu que a escutei, né? Então, é, não é nem de segunda mão, né?
É, é uma coisa de terceira, quarta mão, né? São, é uma linguagem que vai se depositando sobre uma experiência, eh, que é aquilo que a gente chamou de história, né? Pois bem, então o que que acontece?
Eh, de modo que, eh, um caso só é um caso clínico se for trabalhado como tal por um analista. Muito bem. Ou seja, sendo assim, a supervisão nunca é do caso.
A supervisão é sempre do analista, da escuta que este analista fez do caso que ele foi relatado, né? Vocês percebem que, portanto, as duas preposições são verdadeiras, né? A supervisão é sempre a supervisão do caso, porque afinal de contas é dele que você tá trabalhando, é ele que te trouxe para uma supervisão, mas ela também é sempre uma supervisão do analista.
Por quê? Porque esse caso é sempre produto da elaboração de um analista, da análise pessoal que esse analista fez, do estudo teórico que ele fez, da de todos os enfim, do nível em que está a a clínica dele, certo? De modo que a gente tem assim uma estrutura mais ou menos parecida com isso aqui.
E a estrutura de fato é essa, né? Por quê? Porque um caso só é um caso, só é um caso, ele só se destaca de uma narrativa, de uma história qualquer.
Por isso que eu coloquei aqui a palavra história, porque é de ficção que se trata. Vocês sabem que para Lacan eh, a verdade, ela é uma verdade discursiva, né? Não a verdade objetiva dos fatos.
Se há, nós não conhecemos. O ser humano é um ser de ficção, é um ser que significa suas experiências a depender de que de que de que lado ele está, eh, a partir de que ponto, né, de qual é a perspectiva em relação à qual ele lança o seu olhar, né? Uma pessoa vê uma coisa daqui, para ela acontecer uma coisa, a outra vê de lá, para ela acontecer outra.
E tá todo mundo imerso a uma um caldo, né, de linguagem, portanto, absolutamente ficcional. Eh, pois bem, o que faz de uma história ficcional um caso clínico? O que que faz de uma história um caso?
É um analista, né? De modo que essa estrutura de de oito aqui, né, que vocês conhecem, é uma figura topológica que lá canta ao emprestado da da topologia, eh, para dizer que uma coisa se constitui ao constituir a outra. Ora, um analista só é um analista quando ele tem casos, né?
Um analista não é um analista porque ele tem um diploma. O analista não é analista porque ele estudou e se formou e ou porque ele fuma cachimbo ou porque ele anda assim assado, né? eh, como algumas pessoas às vezes acreditam ser, né?
Isso não, isso são semblantes, né? Um analista só é um analista enquanto as pessoas o procuram para relatar para ele o seu sofrimento e lhe pedir ajuda. É isso que faz de um analista, um analista é o fato de que ele receba casos.
É por isso que um analista que não escuta não é mais um analista, né? Se eu, por exemplo, estudei psicologia, me formei, né? Aí eu parar de de trabalhar com psicologia hoje, eu continuo sendo um psicólogo até morrer.
Não é o caso de um analista. Um analista só é analista enquanto escuta. Deixou de escutar, ele deixou de ser analista, tá?
Eh, ou seja, o que faz de um analista um analista é um caso, é o caso clínico que ele trabalha, né? E o que faz de um caso clínico um caso clínico é um analista que faz de uma narrativa, de uma história qualquer, um caso clínico. Eh, de modo que um não vai sem o outro, né?
Ou seja, eh, uma proposta, né, que eu tenho e trago, compartilho com vocês a respeito desta controvérsia, que não é uma controvérsia qualquer. Se uma supervisão é uma supervisão de um caso ou de um analista, ela se resolve e ou pelo menos, não sei se ela se resolve, mas pelo menos ela talvez se elabore um pouco mais. Se a gente pensar que a supervisão ela é supervisão de um relato, ora, de um relato da pessoa que procurou o analista e que relatou ao analista sofrimentos, impasses, constrangimentos, sonhos, medos, terrores, tesão, eh, nojo, dor misturada com prazer e etc e tal.
relatou, né? Os fatos não não a gente não sabe quem lida com fato é advogado. Psicanalista lida com um discurso, né?
Eh, você não analisa um sonho, porque não tem como analisar um sonho. Você analisa o relato de um sonho, né? A pessoa só pode lhe contar o sonho depois que ela acordou, né?
Então é sempre relato. Psicanalista trabalha com relato. Ainda que esteja trabalhando com uma criança, uma criança vai desenhar, né?
ela vai eh dessa forma lúdica representar, né? Pois bem, de modo que o que ele faz é um relato e o que o analista supervisionando trazem uma supervisão para o supervisor é o relato do relato, certo? Pois bem, então, a supervisão, na minha concepção, não só na minha, claro, amparado, por exemplo, pela peliva lacaniana acerca da supervisão, ela é uma supervisão do relato, né?
Isso pode parecer simples, óbvio, mas não é, né? Porque eventualmente você numa supervisão você pode apontar para alguma coisa, a pessoa fala: "Não, não, mas eu acho que isso não aconteceu ou aconteceu? " "Bom, não interessa se acontecer ou não".
O relato, claro que interessa se aconteceu ou não, mas o que mais interessa aqui é o relato. É porque, ã, não se enganem, né, gente? O que que acontece?
Os limites da vida de uma pessoa estão muito relacionados aos limites da linguagem dela. A prática clínica de uma de um analista também tá relacionada eh à maneira com que ele opera com a linguagem na sua lida, com essa dimensão pulsional e do real. De modo que interferir na linguagem não é simplesmente interferir no modo de contar as coisas, né?
É interferir na própria dimensão de realidade das pessoas, seja do caso que tá sendo escutado, seja do analista que está escutando. Bom, gente, chegamos então à parte, a sessão na prática, né? H, a sugestão, o convite é para que vocês assistam o vídeo da supervisão de número dois, tá?
Eh, que vocês têm disponibilizada no AVA, tá? É uma supervisão real de um grupo real de supervisão, né? Em que vocês podem assistir e discutir com os seus colegas sobre de novo, essa modalidade de supervisão em grupo, né?
Eh, quais são os prós, quais são os contras, né? eh desse tipo de de supervisão, tá? Eh, mais uma vez eu sugiro que vocês não se atentem tanto ao mérito do caso, né, ou das interpretações que são feitas, né, seja pela analista supervisionanda, seja pelos outros participantes, quer seja do supervisor, mas que vocês eh se debrucem mais sobre a dinâmica da supervisão, né, e principalmente com base nos temas apresentados ao longo do texto escrito.
É importante que vocês façam essa correlação entre aquilo que vocês estão vendo e aquilo que vocês estão lendo para que a gente possa articular os conceitos eh a prática. Bom, chegamos então ao final dessa dessa pequena jornada, né? Eh, para que a gente finalize, então, uma rememoração bastante breve daquilo que a gente viu.
Quer dizer, começamos pelo saber que se transmite, o saber que interessa a psicanálise e que se transmite porque não é de todo ensinável, não é todo ele passível de ser ensinado. Então, algo precisa ser transmitido, né? Esse para além.
Trata-se de aprender a aprender com o inconsciente. Isso no processo de supervisão. Quer dizer, se como analista nós aprendemos com o inconsciente daquele que nos fala, com os sonhos dele, com aquilo que ele traz, processo de supervisão se trata de um processo em que você aprende a aprender.
Com isso, a gente chegou então nesse conceito aí, né, de doluta ignorância. Esse é o saber com o qual o psicanalista opera. É uma ignorância, mas é uma ignorância advertida.
advertida de que esta pessoa porta um saber e tal como a maêutica socrática, né? Nosso ofício consiste muito mais em saber fazer perguntas, em saber extrair um saber que já está lá, né, ou que se elabora a partir da análise. Vimos que o analista é aquele que se autoriza de si próprio, mas não prescinde de alguns outros que, como eles, se ocupam da mesma matéria e que chancelam, né, a prática desse psicanalista enquanto uma comunidade, enquanto um grupo, enquanto um laço social.
Para isso é necessário demonstrar aquilo que você faz, mostrar a sua prática, né? Dar notícias do tipo de trabalho que você tem, vem fazendo. Vimos que o grupo na supervisão ele, além de ter os seus contras do tipo das resistências que ele eventualmente pode suscitar ou amplificar, enfim, ele também possibilita uma certa dispersão, né, do saber ou da suposição de saber.
colocando mais em evidência o saber que realmente interessa a psicanálise, que não é aquele da pessoa, seja do supervisor, seja de quem quer que seja, e que por fim, né, na a supervisão do caso, a supervisão de que se trata em psicanálise, ela não é só uma supervisão do caso e tampouco é uma supervisão especificamente do analista. Ela é fundamentalmente a supervisão do relato, do relato, do relato. É isso que fundamentalmente eh é é eh é é sobre isso que incide uma supervisão, o que talvez pudesse fazer com que ela viesse a se chamar uma super audição.
Por enquanto é isso.