Seguindo com as conferências, nós vamos tratar da virtude da eutrapelia e a prática dessa virtude na vida familiar. Em outras palavras, vamos tratar da justa recreação. A eutrapelia é a virtude que Aristóteles eh explica juntamente São Tomás apresenta na Suma teológica que regra a os nossos divertimentos, a nossa recreação.
Inclusive, tratando das virtudes, São Tomás ele trata em uma questão inteira, que é a questão 168, na segunda parte, da segunda parte da suma, se pode haver virtude nos jogos, ele emprega uma questão inteira. se para explicar se pode haver virtude nos jogos. E a resposta é claro que é afirmativa.
E isso pode às vezes surpreender as pessoas, sejam elas católicas, eh, às vezes ou não. Nós, muitas vezes, os católicos podem julgar que a santidade eh se apresenta como uma vida séria, austera, sem alegria, sem descanso e, portanto, sem recreação. Quando nós sabemos que o santo é justamente alguém que possui a verdadeira felicidade.
Muitas pessoas têm eh muitas vezes a gente pode confundir a seriedade da nossa vida com eh tristeza ou então com amargor. E nós sabemos muito bem que os santos sabiam ter uma verdadeira alegria e um verdadeiro divertimento. São Felipe Neri, ele era conhecido pelas suas brincadeiras, pelas suas tiradas.
São João Bosco passava um bom tempo com as crianças eh nos seus recreios, fazendo brincadeiras. E nós temos inclusive São Tomás More, que subindo eh no catafalco fez uma piada. E nós temos inclusive São Lourenço, que fez uma piada no momento da sua execução na grelha.
Quem não sabe, ele tava sendo queimado vivo numa grelha e ele falou pros carrascos: "Podem virar que esse lado já tá assado". Então, os santos não riam, não se divertiam, apesar de serem santos, mas justamente por eram santos, eles haviam alcançado um grau de virtude e um equilíbrio interior que os permitia aproveitar de forma ordenada os bens criados, sem apego desordenado, nem eh rigidez farisa. Então, outro outra questão que pode se se impor não é que mais entre as pessoas do mundo, não é se um santo pode eh ter uma alegria ou uma recreação, mas no mundo nós temos justamente ou um hedonismo desenfriado em que tudo tem que ser aproveitado o tempo todo, de forma mais prazerosa possível, ou um culto, a eficácia em que o trabalho, a produção, a eficiência toma conta do homem que não tem nenhum eh espaço para os justos eh prazeres da vida.
De um lado, nós temos um ativismo frenético que não conhece o descanso, que transforma o homem em uma máquina de produzir e que vê na recreação, uma perda de tempo. E do outro, nós temos o perigo mais comum nos dias de hoje, que é a indústria do entretenimento, que oferece uma fuga permanente da realidade, um torpor disfarçado de diversão, que ao invés de restaurar as forças do homem esgota ainda mais. E aí que aparece a virtude da eutrapelia entre o viciado em trabalho work e o viciado em séries, por exemplo.
Nós temos justamente a virtude no meio, como diz Aristóteles, que é a eutrapelia. A eutrapelia, então tem esse nome, vem do grego eu, que é bem e trepó, voltar-se, dirigir-se, ou seja, uma boa disposição do espírito, uma capacidade de se dirigir facilmente para aquilo que é agradável e leve, sem perder a compostura. e a dignidade.
São Tomás vai então definir essa virtude como a virtude que modera o uso dos jogos e divertimentos, ordenando-os segundo a reta razão. E aqui vale a pena citar o corpus do artigo 2 da questão 168 da segunda parte da segunda parte da suma teológica. São Tomás diz: "Assim como o homem necessita de descanso corporal para refazer o corpo, que não pode trabalhar continuamente por ter força finita e proporcionada a determinados trabalhos, assim também a alma, cuja força operativa é igualmente finita e proporcionada a determinadas operações.
Por isso, quando se excede em alguma operação, sente fadiga e tanto mais quantas operações da alma se realizam com auxílio do corpo. Ora, os bens sensíveis que são conaturais ao homem proporcionam descanso à alma. Por isso, por conseguinte, o remédio contra a fadiga da alma está em abandonar a atenção do espírito e entregar-se a algum prazer.
Ou seja, aqui é importante, a eutrapelia é uma virtude real. A recreação, ela pode ser realizada de forma virtuosa. Não é uma concessão à fraqueza humana, mas uma perfeição do apetite que ordena de forma reta o uso do descanso e da recreação.
que dentro de todo o organismo da vida espiritual e moral do homem, arapelia, ela aparece como sendo uma parte potencial da temperança, ou seja, uma virtude que participa da natureza da temperança, que visa moderar os os prazeres sensíveis, mais aplicada a uma matéria secundária. A temperança por si mesma, ela regra ou apetite concupsível, então ela vai regrar o comer, o beber e o prazer venério. A outra apelia, ela vai regrar prazeres secundários.
O prazer do jogo, da diversão, do descanso, que embora seja menos intenso, também requer uma ordenação pela razão. E mais do que isso, a virtude da eutrapelia, ela está ao lado do cortejo das virtudes ligadas à modéstia. Então, quando nós pensamos na modéstia e no trage, é simplesmente uma aplicação mínima, né, da virtude da modéstia.
A modéstia é a virtude que regra todo o nosso agir exterior. Então, a eutrapelia, ela está ao lado da humildade, da estudiosidade, da modéstia no ornato. Então são virtude que regra o nosso comportamento exterior.
E nessa citação que nós colocamos ali do de São Tomás, nós vemos claramente o fundamento antropológico da virtude da eutrapelia. Nós vemos justamente que ela se funda na natureza do homem tal qual Deus a criou. Deus nos criou de forma que nós precisamos de recreação.
O homem não é nem um anjo puro espírito, nem uma máquina que é pura matéria. A alma do homem, embora ela seja espiritual, ela opera através do corpo com o auxílio dos órgãos corporais. Eu penso, mas a minha a minha cognição, a minha a minha inteligência funciona por meio de concentração, por meio de imaginação, por meio da memória que, ou seja, usa o cérebro, usa um órgão.
Se eu der uma paulada na cabeça de alguém, vocês vão desmaiar e ainda é capaz de é perder a memória. Nós não somos puro espírito. E além disso, mesmo as eh mesmo as os nossos trabalhos que são mais eh mais ou menos dependentes do corpo, todo eles vão gastar uma energia intelectual ou uma energia corporal.
Por isso, tanto o corpo quanto a alma tem forças que são finitas e que se esgotam pelo uso contínuo e que vão se restaurar pelo repouso. Então, São Tomás utiliza o exemplo das conferências de Ciano. Conta-se que São João Evangelista, quando alguns se escandalizaram por encontrá-lo brincando com seus discípulos, pediu a um deles que trazia um arco, que o estendesse várias vezes seguidas.
Tendo feito isso, São João perguntou se ele poderia continuar assim indefinidamente. Respondeu o arqueiro que se eu fizesse o arco se quebraria. Então, São João replicou: "Assim também o espírito humano se quebraria se nunca relaxasse de sua atenção.
" A recreação, então, mais uma vez, não é uma concessão, mas uma exigência da natureza. Deus nos fez assim. Inclusive, nós sabemos que até os cartuchos, que são os religiosos, com a regra de vida mais rígida, tem recreação diária.
Nós temos dois vícios opostos, a eutrapelia, que é cham que é a bufonaria, o eh Aristóteles chama de bom bomoloquia. É o vício daqueles que fazem do jogo e do riso centro da vida. O bufão busca provocar o riso a qualquer custo, mesmo a custa da verdade, da caridade, do decoro ou de sua dignidade, como o exemplo dado pelo padre Pascoto de alguns colegas da faculdade, subindo na mesa e perdendo as estribeiras.
O bufão não respeita as circunstâncias, não guarda a proporção, não conhece limites. Tudo é motivo de graça, inclusive o sagrado. Esse vício é mais grave do que parece.
Seu bufão habitua-se a não levar absolutamente nada a sério e acaba por perder a capacidade de tratar gravemente as coisas graves. A sua alma se torna superficial, incapaz de recolhimento e de profundidade e frequentemente ele peca contra a caridade. Mas também tem o vício por defeito, a rusticidade, a groquia, o homem duro, áspero, que jamais se permite um momento de alegria ou de descanso.
O rústico considera toda diversão perda de tempo, todo riso leviandade e todo jogo frivolidade. Ele vive em perpétua atenção e exige o mesmo dos que o cercam. Por mais que possa parecer mais respeitável que a bufonaria, ele é igualmente nocivo e ele é chamado de pecado por São Tomás.
Os que não querem dizer nada de jocoso e se tornam pesados para os que brincam, não aceitando moderadamente as brincadeiras alheias, esses são os viciosos que se chamam duros e rústicos. é o artigo 4 da questão 168. O rústico, ele destrói a convivência humana e ele peca frequentemente contra a caridade.
A essa austeridade se torna insuportável, tanto para ele, para quanto os que convivem com ele. E aqui justamente quantos lares podem se tornar pesados e tristes por pais que confundem seriedade com amargor. Para que então nós tenhamos a virtude da eutrapelia presente, São Tomás estabelece três condições fundamentais que nós podemos dizer aqui que são as três condições para que uma recreação seja virtuosa.
Primeiramente, que não se busque prazer em coisas torpes ou nocivas. justamente há diversões que são intrinsecamente más que não podem ser objeto de recreação honesta, coisas que envolvem pecado, obscenidades ou entretenimentos que excitam as paixões desordenadas. Em segundo lugar, não se deve perder a gravidade da alma.
Mesmo nas diversões honestas, é preciso manter uma certa compostura interior. E aqui não é, quando nós falamos em gravidade da alma, não é um uma contradição, não é? Ah, você tem que ser feliz, mas não tanto.
Tem que se divertir, mas não tanto. Não. Essa gravidade da da alma é ter a legítima diversão, a a legítima recreação, sem perder o contato com a realidade, sem se deixar levar indefinidamente por aquela atividade, sem se esquecer, por exemplo, que aquilo ali tem hora para acabar e que tem limites morais, sociais, circunstanciais que devem ser respeitados.
O homem virtuoso sabe brincar sem perder a cabeça, sabe rir sem abandonar-se à dissipação. Ele conserva a consciência de sua dignidade, a consciência da realidade e é a razão então rege aquela recreação. E terceira condição é que haja adequação às circunstâncias.
A prudência deve presidir a escolha do tempo, do lugar, do modo e da companhia nas recreações. O que é apropriado em família pode não ser em público. O que convém ao leigo pode não convir ao clérigo.
O que é a brincadeira que é conveniente com o colega pode não ser conveniente com o chefe? O padre Garriguagrange, comentando essas condições, acrescenta que a recreação deve sempre subordinar seu fim último. Nós nos recreamos não como um fim em si mesmo.
O objetivo não é o prazer pelo prazer, mas para melhor retomar as nossas obrigações de estado e nosso progresso na santidade. A diversão que nos afasta de Deus, ainda que não seja pecaminosa em si mesma, torna-se para nós ocasião de pecado e pode e deve ser evitada. Agora, claro, nós devemos fazer uma distinção.
O que que não é eutrapelia? Hoje em dia, essa distinção é ainda mais importante, porque a diferença entre recreação virtuosa e mero passatempo, mero entretenimento, é algo que é muito importante. A eutrapelia não é simplesmente gastar o tempo, não é matar o tempo, não é fuga da realidade, não é entorpecimento da consciência e sobretudo isso é muito claro, não é?
Por exemplo, maratonar séries até a madrugada, não é passar horas eh na frente de uma tela. Então, quais que seriam então as características da verdadeira recreação? A recreação virtuosa, ela é restauradora.
A recreação verdadeira nos deixa mais dispostos para o trabalho e para a oração e não menos. Depois de uma boa recreação, nós nos sentimos renovados, com energias refeitas. Se ao contrário nós terminamos o descanso, mais cansados do que começamos, mais dispersos, menos capazes de concentração de oração, então não foi recreação, foi dissipação.
E claro, antes que aqui alguém tenha uma ideia genial, essa restauração não é algo meramente físico. Essa restauração inclui o gasto energético, que embora canse imediatamente, nos dispõe ao descanso mental e ao descanso corporal ulterior e uma maior disposição para o exercício dos deveres de estado. Ou seja, ninguém pode dizer que, por exemplo, é a corrida não é restauradora, porque depois eu tô cansado, então não é recreação, então eu devo parar de fazer a atividade física.
Não, muito pelo contrário. O critério aqui não é meramente eh saldo de ATP nas células. A a recreação verdadeira é moderada no tempo.
Autrapelia conhece limites. Tem hora para começar e tem hora para terminar. O entretenimento moderno é projetado para ser ilimitado.
O entretenimento moderno, ele é projetado para causar dependência. O algoritmo sempre oferece mais um vídeo, mais um episódio, mais uma partida. Então, a lógica do entretenimento moderno é o vício e não a virtude.
A restauração, a recreação verdadeira, ela é ativa e não unicamente passiva. A recreação virtuosa envolve de algum modo as nossas faculdades. a conversa, o jogo, o passeio, mesmo a leitura, mesmo eh a música envolve de alguma forma a nossa intervenção, mesmo que seja um filme bom, porque um filme bom assistido com eutrapelia, ele vai nos fazer um refletir e vai nos fazer, por exemplo, eh discuti-lo.
Por quê? Porque tem hora para acabar. Não é mero, não é meramente anestesiar a nossa eh consciência, a nossa atenção.
O entretenimento moderno tende a passividade absoluta. Merce, como nós somos meros receptores de estímulos, consumidores de conteúdo. Existe um abismo entre assistir eh um vídeo curto de rede social numa lógica de dependência e assistir um filme bom com a virtude da eutrapelia.
Até porque a maior parte dos conteúdos de YouTube, de rede social, a gente se esquece 5 minutos depois. A verdadeira recreação ou é social ou pelo menos não nos isola. Autrapelia por sua própria natureza, por firmar-se na natureza humana, sendo que o homem é um animal social, ela ordena ser a convivência.
Mesmo quando solitária, como na leitura ou em um bom filme, ela não nos fecha em nós mesmos. Nós a assimilamos e a compartilhamos mesmo leitura, mesmo um bom espetáculo. O entretenimento moderno, no entanto, nos isola.
Cada membro da família em seu aparelho, em seu mundo virtual, com seus próprios gostos, que estão fisicamente próximos, mas afetivamente, espiritualmente distantes. A verdadeira recreação deixa a consciência em paz. Enfim, depois de uma recreação honesta, a consciência está serena.
Depois de horas perdidas em entretenimento, vem o remorço, a sensação de tempo desperdiçado e a inquietação, porque provavelmente alguns deveres vão ser deixados para a última hora. E nós temos aí também a abstinência. Uma vez ativado o mecanismo de recompensa, uma vez que você para deixir, você simplesmente quer voltar o quanto antes para aquilo.
E aqui nós vemos a que o entretenimento moderno tem uma característica particularmente nociva, porque ele funciona como uma fuga da realidade. E a fuga da realidade não é descanso, mas anestesia. Poderia ser outra coisa, poderia ser craque, poderia ser eh álcool, eh poderia ser outras atividades prejudiciais.
É isso daí não é descanso, não é recreação, é fuga da realidade. O que leva tantas pessoas a passar horas diante de telas consumindo séries intermináveis ou simplesmente navegando sem rumo nas redes sociais, como diz em inglês creling, simplesmente eh indo atrás de vídeo, atrás de vídeo. Na maior parte dos casos, o que leva as pessoas a esse comportamento não é a busca de uma recreação sadia, é a fuga das responsabilidades, a fuga das frustrações, a fuga de si mesmo, a fuga da própria vida.
O fato é que para as pessoas hoje a realidade se torna insuportável. O trabalho é penoso, o casamento é difícil, os filhos dão trabalho, a vida espiritual exige esforço. Então a pessoa simplesmente vai atrás de um mundo alternativo, um universo ficcional, onde não há obrigações, onde não há esforço, onde nós simplesmente vivemos em uma dimensão paralela.
Isso não é eutrapilia, isso daí é assídia, é o tédio pelas coisas divinas, a tristeza pelo céu, em busca unicamente de compensação sensível terrena. São Tomás já falava que o homem assidioso busca nos prazeres um remédio para sua tristeza interior. E esse remédio é um remédio falso, porque ele não cura a doença, mas cara os sintomas e leva a uma a um mal ainda maior.
Porque ao sair da anestesia, a realidade continua lá e frequentemente pior e a alma se encontra ainda mais enfraquecida para enfrentá-la. E como então distinguir na prática a recreação virtuosa do entretenimento vicioso? O critério fundamental é este: verdadeira recreação ordena-se a realidade.
O entretenimento vicioso foge dela. Espero que os senhores se lembrem nessa frase aqui do padre Pascuto, que tantas vezes repete essa máxima, que a vida espiritual se fundamenta na realidade. Autrapelia é um descanso para enfrentar a realidade e não uma fuga da realidade.
É um descanso que nos prepara para retomar com mais vigor as nossas obrigações. É uma alegria que nos dispõe para alegrias maiores e não que nos incapacita para elas. E aqui nós podemos justamente nos perguntar, depois da recreação, nós estamos mais dispostos a rezar, a trabalhar, a conviver com a família ou estamos mais dispostos, na verdade, a retornar o quanto o quanto antes para aquela atividade?
Acaso nós estamos mais dispostos a realizar as nossas atividades ou mais cansados, mais dispersos, mais avessos ao esforço? É justamente essa resposta aqui que vai poder nos que vai nos indicar se nós estamos eh praticando outra apelia ou se nós estamos escravos de um entretenimento vicioso. Ó, o padre poca tá aí a eutrapelia, então não é uma virtude menor.
Poderíamos pensar que a eutrapelia, por se tratar dessas questões mais materialmente em sua matéria banais, como descanso e divertimento, seria uma virtude de segunda categoria e irrelevante para a busca da perfeição cristã. E o padre Roy Marim no tratado da eh perfeição cristã diz que justamente ela não é uma virtude menor. Afinal a alegria é um dos frutos do Espírito Santo.
Nosso Senhor participou das festas de bodas, participou de refeições e prometeu a seus discípulos uma alegria que ninguém lhes tiraria. Por isso, Roomarim insiste na importância da alegria na vida espiritual e na importância da eutrapelia como um dos meios de conservar essa alegria. A alma que progride na virtude torna-se progressivamente mais alegre, não menos.
Claro que haverá momentos de aridez, de cruzes, de tribulações, mas o fundo da alma vai ser na alma que tem uma vida espiritual sólida, o fundo da alma vai ser de paz e de alegria. E a outra apelia contribui para para essa alegria, ordenando retamente o uso da recreação. O homem que descansa virtuosamente conserva a serenidade de espírito, diz o padre Rio Marim.
Evita o esgotamento e mantém o seu equilíbrio afetivo. Porque a sua alegria não vai depender das circunstâncias exteriores, mas ela está enraizada na sua vida interior. E a eutrapelia, então ela se encontra em conexão com todas as virtudes, sejam as virtudes cardeais, sejam as virtudes teologais.
Ela tá ligada à temperança, que é a sua virtude principal. Ela é uma parte potencial da temperança. A temperança modera o apetite dos prazeres e a trapelia aplica essa moderação ao prazer específico da recreação do descanso.
Ela tá ligada com a prudência, pois é a prudência que determina o modo, o tempo e as circunstâncias da recreação. Ela tá ligada com a fortaleza que impede tanto a dureza excessiva quando quanto a moleza que busca continuamente o prazer. Ela tá ligada com a modéstia que regula o decoro exterior mesmo nos momentos de diversão.
E ela tá ligada com a caridade, pois é a caridade que leva a recreação natural ao plano sobrenatural. A recreação dos do cristão não serve só para recuperar suas forças, para mas para melhor servir a Deus e a servir ao próximo, incluindo aqui a caridade fraterna, pois a recreação tem este caráter social. Nós nos recreamos com os outros e para os outros.
O padre Garregula Grange, ele diz claramente que a recreação bem ordenada favorece a oração e a recreação desordenada a impede. A alma que nunca descansa acaba por perder a capacidade de recolhimento. A fadiga excessiva dispersa a atenção.
Ela impede o exercício das nossas faculdades e torna a oração penosa. Por isso, o descanso oportuno não é luxo, mas uma verdadeira necessidade espiritual. E aqui vale uma lembrança, tá?
de quando eu tava no seminário, tinha um padre polonês que falava bem mal, o francês, padre Frankoviak, que uma vez durante a nossa recreação, ele viu eh um diácono rezando o breviário na capela. isso durante a recreação. Daí ele olhou assim para outros seminaristas e falou em francês do jeito dele, eh, aquele que reza na recreação reza pro diabo.
Claro que não era um ato de idolatria, nem de satanismo. Eh, na verdade, inclusive, eh, o, o diácono tava esperando um padre que ia, com quem ele ia sair, ele não tava fugindo da arreação, mas eh levou na cabeça de qualquer jeito, alguém tem que levar. Eh, é aquele negócio, eh, ele, eu não sei porque que eu tô batendo, mas ele sabe porque que ele tá apanhando.
E bom, isso daí vai totalmente contra a conferência do padel. esqueçam o que eu falei. [risadas] Mas bem, por outro lado, por outro lado, a recreação excessiva ou desordenada produz efeitos semelhantes, mas por outro por via oposta.
Então, a se a recrea, se a ausência de recreação impede a concentração porque torna tudo penoso e duro, o excesso de recreação dissipa a alma, distrai ela do essencial, enche de imagens e pensamentos que depois surgem nas orações como distrações. Então, o ideal é o equilíbrio, né? justamente que eh alguns mestres da vida espiritual eh chamam de relaxo em Deus, ou seja, um descanso que não nos afasta de Deus, mas que inclui a sua presença.
O homem que tem uma vida interior sólida sabe se divertir, sabe relaxar sem perder a sua união com Deus. É esse o objetivo, que a gente faça tudo, mantendo a consciência da realidade. E a realidade é que nós estamos eh preparando a nossa eternidade.
A recreação, inclusive, ela pode ser meritória quando feita com reta intenção e ordenada a um fim sobrenatural, como por exemplo, brincar com os filhos. descansar para melhor eh cumprir os deveres de estado, recriar-se para manter a alegria que vai nos ajudar a suportar o próximo. E aqui justamente nós vale a pena a gente se lembrar, né, da de que nós somos corpo e alma.
Não é uma alma aprisionada em um corpo, nem um corpo que produz fenômenos eh como que espirituais. E aqui nós lembramos que aquilo que afeta o corpo afeta a alma. E o que afeta a alma afeta o corpo.
As paixões produzem efeitos no nosso corpo e aquilo que afeta o nosso corpo vai facilitar ou dificultar o exercício da nossa razão. Por isso que São Tomás na primeira parte da segunda parte da suma, fala dos efeitos da tristeza sobre o corpo. E um dos remédios que ele propõe para a tristeza é justamente, entre outras coisas, né?
O sono, o banho, a conversa com os amigos e as recreações lícitas. E por isso, né, a recreação previne a tristeza, mantém o nosso equilíbrio afetivo, dá a nós uma maior resistência para enfrentar as provações e favorece as relações sociais, sendo um, sendo que o isolamento é um dos grandes fatores do sofrimento emocional. Além disso, além do bem para a nossa saúde eh psicológica, no sentido eh tomista, nós temos benefícios para o nosso corpo.
Nós todos sabemos que é a restauração das energias, o fortalecimento do nosso organismo e a redução do estresse. É, inclusive tem duas partes aqui, um tanto quanto grande sobre eh a psicologia clínica e sobre as neurociências, que eu vou pular, senão a gente não almoça, mas quem quiser, tiver interesse, pode me procurar depois. Então, a recreação deve fazer parte da nossa da nossa regra de vida.
É necessário que nós ordenemos o nosso dia, levando em conta esse aspecto fundamental eh da nossa natureza humana, a necessidade do repouso mental e corporal. A recreação não deve ser deixada ao acaso, mas deve ser planejada, prevista, integrada no na nossa rotina de vida. Assim como nós reservamos tempo para a oração, para o trabalho e para as refeições, nós devemos de reservar tempo para o descanso.
E justamente quem não planeja a recreação ou raramente tem recreação ou atende de modo desordenado, roubando tempo das demais obrigações. Quem planeja a recreação pode se entregar a ela com consciência tranquila, sabendo que está fazendo justamente aquilo que é apropriado naquele instante. E mais do que isso, fazendo a vontade de Deus.
para aquele instante. É o exemplo clássico de São Luís Gonzaga, que que uma vez na recreação estavam lá jogando e perguntaram para vários eh rapazes: "Ah, o que que você faria se soubesse que o mundo ia acabar ou que você ia morrer daqui a pouco? Ah, eu ia eu ia pedir perdão pro meu amigo.
Ah, eu ia me confessar. Ah, eu ia rezar na capela. " E São Luís Gonzaga falou: "Não, eu ia continuar brincando.
Por ele tava com seis tranquila. e tava fazendo a vontade de Deus naquele momento. E justamente todas nossas atividades devem ser ordenadas ao nosso fim último.
E claro, essa ordenação ao fim último não deve não necessita ser explícita a cada instante. Faça nós termos essa intenção virtual de fazer o que nós estamos fazendo por amor a Deus. E assim a nossa recreação vai se tornar meritória.
A recreação não deve ser nem excessiva, nem insuficiente. A recreação insuficiente leva ao esgotamento, à irritabilidade, a perda de eficácia. E a recreação excessiva leva à dissipação, à moleza, a negligência dos deveres.
É claro que a medida justa não é a uma regra pronta universal, depende do temperamento, do estado de vida, das circunstâncias, das exigências do trabalho. É normal que a recreação de um eh de um militar será diferente, né? Será com tempo e com circunstâncias diferentes do pai de família, do professor, do padre.
A prudência deve discernir em cada caso a medida apropriada, mas nós devemos saber que a recreação deve restaurar e não esgotar. Ela deve, ela não deve prejudicar as obrigações de Estado e deve fazer com que a consciência permaneça em paz. A recreação deve ter início e fim previstos.
Então, dois momentos de 1 hora ou uma hora no fim do dia, eu vou fazer isso de tal a tal horário de eu vou fazer eh de tal hora a tal hora uma caminhada e depois vou ler um livro ou vou brincar em tal momento com os meus filhos. a gente tem que planejar, não que a gente tenha que ficar eh ficar justamente paranóico com o horário, mas tem que ser preciso. Se eu falar vou descansar um pouco ou eu não vou descansar ou eu vou descansar demais.
Esse um pouco facilmente se transforma ou em nada ou em uma tarde inteira. com diversões previamente escolhidas, saber o que nós vamos fazer e não deixar para decidir no momento. Isso evita a tentação de recorrer a coisas fáceis e viciantes, como ver vídeo recomendado no YouTube.
Não que você não possa ver, por exemplo, um vídeo sobre algo interessante, como, por exemplo, é ver um vídeo sobre arqueologia, sobre é uma um personagem histórico, sobre uma questão interessante no YouTube, mas você sabe que você vai ver aquilo até, por exemplo, você, ah, isso daqui parece interessante. Em vez de começar a ver e parar na metade, simplesmente coloca lá eh salvar para assistir mais tarde e depois você pensa 90% vai perder interesse, nem vai lembrar. Dar preferência para atividades que sejam ativas e não meramente passivas.
Escolher recreações que envolvam algo prático, física, mental ou socialmente, e não a mera recepção passiva de estímulos. dar preferência pelo social sobre o solitário. A recreação com outros, família e amigos é muito mais restauradora e mais virtuosa do que algo solitário.
Claro que há exceções, mas mesmo essas exceções, elas devem ter alguma finalidade que seja fora de si, nem que seja a mera reflexão sobre o assunto e não simplesmente, ah, eu quero eh simplesmente ficar assistindo até não poder mais assistir algo até dormir. Isso daí justamente a pessoa já tá num nível de dependência grande. Primeiro porque ela tá prejudicando o sono, eh, e segundo porque ela realmente tá mais interessada na recepção de estímulos do que do que de fato eh na edificação de algo.
E claro, né, existem várias atividades que são lícitas. que são boas. Então, é bom alternar diferentes tipos de recreação, às vezes mais ativa, às vezes mais contemplativa, às vezes mais social, às vezes mais recolhida, às vezes ao ar livre, às vezes em casa.
A variedade vida evita tanto o tédio quanto a fixação excessiva em uma única forma de versão que pode virar obsessão ou dependência. Então, é claro que o o problema não é o fato de estar numa tela, o problema é a relação que você tem com aquilo. Então, se você não é porque é leitura que é bom, não é porque a tela que automaticamente é algo ruim, embora, é claro, são meios que têm uma um maior potencial de eh ser mal utilizado e, portanto, necessita de um maior eh uma maior intervenção do córtex pré-frontal dos senhores por meio do controle inibitório.
senão o negócio desanda. E aqui uma boa coisa que a gente pode mencionar é a importância dos hobbies. são que são ocupações agradáveis, escolhidas livremente, praticadas de modo regular e que não constituem uma obrigação profissional nem dever de estado.
E por exemplo, isso daí não é algo de agora, o nome pode ser mais recente, embora e esteja eh infelizmente na sociedade moderna os Robins estão em extinção, mas São Tomás Mor, por exemplo, cultivava a jardinagem e a música. São Francisco São Francisco de Sales recomendava aos leigos a prática de exercícios honestos adequados. ao seu estado.
Durante séculos, muitos clérigos tinham ocupações manuais que, além de úteis, serviam de recreação. Atualmente, pela sobretudo pelas telas e pela indústria do entretenimento, nós temos uma eh uma real desaparecimento dessas atividades que inclusive eram até pouco tempo atrás, lembrando aqui, por exemplo, dos anos 90, eh, muito comuns para serem inclusive praticadas em família, né? Quem nunca eh colecionou moeda, eh minerais, rochas, eh cédulas e dinheiro, eh eh meu vô, o pai do meu pai tinha eh e a gente e eu tenho ainda hoje uma caixa de selos, eh uma lata de moeda antiga, eh quem nunca fez a coleção de montar esqueleto de dinossauro que vinha na que vendia nas bancas de revista ou então aeromodelos, eh coleção de rochas e minerais, eh montar coisas, tirar foto, jardinagem, eh, e muita coisa que é interessante, mas que tá sendo, tá desaparecendo por causa celular, computador e e a essa essa indústria, né, de da dependência do estímulo imediato.
E há uma, justamente uma divenção dos hobbins que é particularmente relevante, né, que é a prática em família. Os hobbins podem ser individuais, mas ganham uma dimensão adicional quando compartilhados. O pai que ensina seu hobby ao filho não transmite apenas uma habilidade, mas cria um vínculo afetivo, partilha um tempo de qualidade e oferece um exemplo de recreação sadia.
E aqui tem uma questão muito interessante. Tem muitos pais que reclamam que os filhos não fazem nada. eh só fica no na frente do computador eh faz vendo eh vendo coisa inútil.
Só que assim, eles não se perguntam: "Tá, mas o que que eu faço? O que que ele viu eu fazer até hoje? Qual que é a recreação dos pais?
O que que eles mostram para os filhos como sendo importante? Os pais mostram pros filhos que o descanso e a recreação é algo que deve estar presente no dia. Ou justamente os filhos só vem o pai trabalhar, chegar em casa e querer cuidar só dos seus próprios negócios.
Se o filho chega, ah, olha que que eu fiz. Olha, nem que seja, eh, eu tava fazendo, eu tava brincando de dinossauro com fulano e fulano me bateu e não sei o que lá e e o pai simplesmente tá não, eh, eu tenho que fazer minhas coisas aqui. Vai ver isso com a tua mãe ou então vai ver com o irmão mais velho.
É, ele justamente tá mostrando que, bom, se você gosta de fazer isso agora, não é coisa de adulto. Adulto só trabalha e é chato. E e a verdade é que provavelmente o pai de fato tá sendo chato aí, porque ele próprio não tem recreação, ele não tem descanso, ele não tem e se o e o descanso dele provavelmente vai ser um uma na lógica do da fuga da realidade.
Por isso que o a eutrapelia é tão importante na vida familiar. Porque a família deve ser justamente eh uma escola de convivência na caridade. Deve ser uma sociedade que vive da caridade e, portanto, uma sociedade que em que reina a alegria.
O lar cristão deve ser um lugar de paz, que há momentos de seriedade, mas há momentos de alegria. A própria oração dentro da família deve refletir a oração da igreja, em que tem tempos de jejum e de penitência e tempos de festa e alegria. A recreação é o cimento da unidade familiar.
Quando os pais e filhos brincam juntos, quando os esposos, marido e mulher, passeiam juntos, tem uma convivência eh saudável, que tá fundada também em momentos de alegria partilhada, quando a família se diverte junta, criam-se vínculos que nenhuma atividade meramente funcional pode criar. Partilhar a alegria une mais profundamente do que partilhar o trabalho cotidiano. A eutrapelia na família é um antídoto contra o isolamento individualista.
Um dos males mais graves da família moderna é o isolamento dentro do próprio lar. Cada um no seu quarto, cada um com seu com a sua tela, cada um em seu mundo virtual, no sobre o mesmo teto, mas sem convivência real. E esse isolamento é frequentemente mediado pelo entretenimento de massa.
A família se reúne para comer e às vezes nem isso e depois se dispersa. Quando a família se diverte junta, o isolamento se rompe. As brincadeiras, os jogos exigem presença, presença mútua, atenção um ao outro, interação real.
O passeio em família coloca todos no mesmo espaço, compartilhando a mesma experiência. A conversa na mesa se prolonga naturalmente quando não há pressa de voltar para a própria imaginação, para a própria tela. E isso exige certamente uma decisão deliberada, porque o entretenimento solitário é muito mais fácil, muito mais imediato e conforme o gosto de cada um.
sempre exige um esforço, mas o fruto compensa esse esforço. A recreação ainda é um, a recreação familiar ainda é uma ocasião privilegiada para o exercício da caridade fraterna. A caridade não se manifesta apenas nos grandes gestos heróicos, mas sobretudo no cotidiano.
A recreação oferece inúmeras ocasiões para que a gente manifeste essa caridade, participando das diversões um do outro. Ou seja, o pai brinca com o filho mesmo preferindo cuidar de alguma outra coisa. Os esposos se preocupam com o que o outro gosta.
ao invés de simplesmente buscar o que interessa. Um se alegra com a alegria do outro, suporta as imperfeições do outro, porque nem sempre a recreação vai ser perfeita e perdoa as próprias eh as ofensas um do outro. Sacrifica-se o próprio interesse para buscar justamente aquilo que ajuda mais o outro, eh, faz o bem pro outro.
Você se interessa com que o outro se alegre. Claro que o sacrifício deve ser mútuo e equilibrado entre os membros da família, com exercício da autoridade dos pais, inclusive. E justamente o papel dos pais é participar e orientar, participar ativamente, estar presente e engajado, brincar com os filhos e não apenas permitir que eles brinquem e orientar prudentemente.
Selecionar as diversões, implicando os motivos, propor alternativas, moderar a quantidade e dar o exemplo da justa medida. Que assim os filhos vão aprender com os pais. Aprender a se recriar, aprender a se divertir, aprender aquilo que é legitimamente prazeroso em sua quantidade e e de acordo com a justa forma.
E por isso, brincando deste pequenos, introduzindo gradualmente recreações mais elaboradas, criando costumes familiares e incluindo os filhos no hobby dos pais. E assim nós vamos ter de fato uma comunhão familiar. E a comunhão, a partilha dos bens, faz parte da caridade, do amor, da de amizade.
Toda amizade inclui uma convivência prazerosa e a recreação familiar constrói essa amizade. E assim nós vemos justamente que a eutrapelia é uma virtude importante para o católico e sobretudo para a família católica, sem rigorismo nem lachismo, mas justamente com uma alegria ordenada, virtuosa. E por isso que é realmente necessário esta este planejamento, esta deliberação de como é a recreação, o descanso, não somente na própria vida, mas dentro da vida da família, pois é isso que vai efetivamente eh construir e crescer a caridade na família.
A família é a primeira escola da eutrapilia e os pais têm o dever de participar, orientar e dar o exemplo. Os pais têm que ter essa virtude primeiro para se não não se tornarem pessoas ou incapazes ou insuportáveis e para que elas possam transmitir essa virtude aos filhos. Pois a família que tem uma diversão legítima junta, ela vai permanecer unida.
Bom, vamos então encerrar por aqui e vamos rezar.