Esse é um assunto muito difícil, mas chegou a hora de a gente encarar a verdade. Tem muito otaku no Brasil. Como vocês bem sabem, muita gente adora cultura pop japonesa.
Mangá, anime, tokusatsu, dorama, k-pop, playstation, playstation, playstation! É um, é dois, é três, e já! Playstation!
Playstation! Playstation! E é muito difícil circular por aí sem se deparar com um maldito otaku.
Eu mesmo sofro muito com isso, às vezes diante do espelho. Embora esse vídeo aqui não seja uma análise sobre o que é um otaku… Embora eu esteja afim de fazer um vídeo como esse. Diga nos comentários se vocês querem que eu faça.
O que eu tô afim aqui de comentar com vocês é: por que a gente gosta tanto de cultura pop japonesa? Porque, no final das contas existe, uma produção tão gigantesca que nos fascina, que nos envolve e que faz com que a gente comece a sair por aí usando avatar de personagem de anime. Parecendo que isso é a coisa mais sensata e madura a se fazer na internet, na relação entre as pessoas, entre pessoas adultas.
Que p… de surto coletivo é esse que agora todo mundo é personagem de Boku no Hero, ou no meu caso de um manga bara. Obviamente a resposta pra isso não é simples, e também tem aí uma conjuntura que não se restringe ao Brasil. É razoavelmente um consenso entre pesquisadores que a invasão da cultura pop japonesa aconteceu no resto do mundo nos anos 80.
E é no resto do mundo mesmo, porque, por exemplo, na China (já até tem um vídeo aqui no canal que eu falo disso), a invasão japonesa também se deu nessa época. Porém, vamos falar mais aqui do ocidente. Bem, aqui foi muito, muito visível.
Pode-se dizer que o grande embaixador dessa invasão japonesa no Brasil foi Akira de Katsuhiro Otomo. Porém, obviamente, uma andorinha só não faz verão. Então, muita coisa começou a vir junto, muita produção começou a fazer parte da rotina das pessoas.
Especificamente, aqui no Brasil, no que tange os mangás, nós podemos falar do impacto também de Lobo Solitário. Já em relação aos animes, temos Drgon Ball, temos Cavaleiro do Zodíaco, que também foi uma febre na indústria de brinquedos. Vocês lembram daqueles bonecos piratas de Cavaleiros do Zodíaco?
Aqueles negócios que brilhavam, parecia radioativo, dava câncer. Isso pra não falar de outros fenômenos como Pokémon, Naruto e agora One Piece. Aliás, não aguento mais falarem de One Piece, mas por causa disso, em breve, vou fazer mais um vídeo.
Digam se vocês querem realmente que eu faça. Eu vou fazer. Na verdade, f… a opinião de vocês, foda-se, eu vou fazer igual!
E olha que eu tô só falando mais especificamente daquilo que me interessa mais, mangá e anime. Porque tem todo um outro universo à parte, que basicamente acaba se estendendo a todas as formas de arte. Contudo, essa constatação não responde nada, né?
Por que que a gente gosta tanto dessas paradas? A resposta mais óbvia é, elas são legais, mas a gente sabe muito bem que o gosto também tem a ver com o momento, com a moda. Alguns vão dizer que, no Brasil, a explicação passa pelo fato que aqui é o país do mundo com mais japoneses fora do Japão.
Mas, de novo, não responde nada, porque isso acontece no mundo todo, não tá acontecendo só no Brasil. Porém, aqui no Brasil, acho que há um componente bastante específico que faz com que a cultura japonesa seja tão interessante pra nós. E é justamente sobre isso que eu quero comentar aqui nesse vídeo.
Porque é uma parada que já tava na minha cabeça algum tempo, e a ficha foi cair assistindo Meu Amigo Totoro de Hayao Miyazaki (ou no sentido original, Miyazaki Hayao), que é um grande animador, de um pessimismo monstruoso e de uma delicadeza que eu não sei se vai ter outro quando ele morrer. Meu Amigo Totoro é uma das suas animações mais famosas, é de 1988, justamente nessa época da febre, do boom, dessa invasão da cultura pop japonesa. Embora sua recepção aqui no ocidente não tenha sido imediata.
Inclusive teve o problema de que distribuidoras ocidentais acabaram, muitas vezes, retalhando certos trechos do anime, como por exemplo, o momento onde o pai toma banho com as filhas, uma coisa tipicamente japonesa que não tem nada demais. Mas nos EUA resolveram cortar porque, ai meu Deus, né? O pai que toma banho com as filhas, né?
Que coisa monstruosa. E olha que era a mesma década que estava passando o Rambo, estraçalhando as pessoas. Miyazaki tem motivo pra ser mal-humorado, né?
O cara tem; Mas voltando aqui, que eu já me perdi nessa p… Meu Amigo Totoro é, pra mim, a síntese do porquê a gente olha pra esse monte de coisa e tudo isso nos encanta, nos fascina, nos atrai demais. E eu tô falando aqui muito de olhar brasileiro, ok? Não dá pra tentar dar conta do mundo todo.
Então caso você seja uma pessoa sem coração e nunca tenha visto Meu Amigo Totoro, eu vou comentar esse anime aqui com vocês, inclusive pagando aqui de especialista, sendo que eu fui ver pela primeira vez faz poucos dias. Vou falar também de cultura japonesa, cultura de fã, e tentar explicar por que nós BR gosta tanto de personagens de olho grande e cabelos espetados, que é uma generalização, tá? Nem todos são assim, enfim.
A piada não foi boa. Mas antes de continuar nesse vídeo que vai dar todo errado, eu peço que você curta o vídeo se estiver curtindo, se inscreva, caso seja novo por aqui e compartilhe. Esse canal só existe e consegue driblar inclusive a censura do Estúdio Ghibli, que odeia que a gente faça vídeos sobre os animes dele, porque tem apoiadores.
E para eles tem recompensas bem legais, como lives aqui comigo, grupo de estudo, grupo no Telegram, sorteio de gibi e conteúdo exclusivo. Vou deixar o link do nosso apoio na descrição do vídeo no primeiro comentário fixado. E cogite ser membro também pelo YouTube, por R$ 6,90 ao mês, e ter acesso a vídeos exclusivos.
Bem, vamos lá. Primeiro acho que eu preciso falar um pouco sobre a assinatura Miyazaki. Ele é um artista que já tem uma obra consideravelmente vasta e que alguns temas sempre retornam.
Um deles que sempre se comenta por aí é a relação dele entre humanos e o meio ambiente, a natureza. Algo que, inclusive, chega a ser gritante em Meu Amigo Totoro. Mas tem algo mais na poética do Miyazaki que tem a ver um pouco com a investigação dos pequenos gestos.
Mesmo diante de histórias mais fantásticas como, por exemplo, Nausicaa ou Nausicaa, eu até hoje não sei pronunciar esse negócio. Mesmo ali, com uma típica história de aventura, ainda assim, a ênfase vai estar no pequeno, no sutil, no delicado. E Meu Amigo Totoro parece um anime que foi feito num papel muito delicado, que basta um pouco de chuva, um pouco de vento e ele se desfaz no ar.
Uma analogia que, agora pensando, tem muito a ver com a própria cultura japonesa, com a própria arquitetura japonesa. Porque, afinal de contas, a gente está falando de um arquipélago que fica no meio de uma falha tectônica e por isso as casas precisam ser feitas de tal maneira que se elas caírem na tua cabeça, você consegue não só reconstruí-las, mas não morrer por causa dessa queda. Essas condições de vida no Japão, que inclusive tem muito a ver com a filosofia da impermanência, que está presente no Xintoísmo, no Budismo… Bem, isso tudo aparece como puro suco daquilo que o Miyazaki vai trabalhar.
Então acho que talvez isso seja um primeiro ponto. Tem algo fascinante que o Miyazaki faz que é, de alguma maneira, conseguir nos transmitir, nos trazer esse sentimento de impermanência. De mostrar pra gente que todo momento, seja ele alegre ou triste, está de passagem.
Nós, nós estamos de passagem. Só que dá pra descer mais níveis nessa reflexão. Vamos falar um pouco da sinopse de Meu Amigo Totoro.
caso você não tenha visto. A história se passa em Tokorozawa, uma cidade que fica a 30 km de Tóquio e tem uma área rural considerável. Inclusive lá Miyazaki tem uma casa, e essa casa, de certa maneira, é o cenário em que a gente vai acompanhar Meu Amigo Totoro.
Sim, tem muita coisa autobiográfica. Porque a gente acompanha um pai e suas duas filhas se mudando para uma casa no campo. E as verdadeiras protagonistas da história são essas duas meninas, Satsuki, que tem 10 anos, e Mei com 4.
Inclusive, é preciso dizer o seguinte, a capacidade que o anime tem de fazer uma menina de 4 anos de uma maneira crível, é algo assombroso. Toda vez que eu vejo anime, filme, sei lá, que mostra criança, parece que a galera não sabe como é que é uma criança. Mas a Mei, gente, tudo que ela fala, até o jeito que ela anda, que ela dorme, tudo tem a ver com uma típica menina de 4 anos.
Até mesmo a teimosia eu consigo reconhecer aqui em casa, nas minhas crias aqui. Mas voltando para a história, elas estão se mudando para essa cidade no interior. O pai é um arqueólogo na Universidade de Tóquio, então ele passa boa parte do dia fora, precisa pegar um ônibus, demora, então tem o lance lá do trabalho dele, tem o tempo de ir e vir.
E por sua vez, a mãe das meninas está internada num hospital que é relativamente ali perto, e não fica dito que ela sofre, mas ela não consegue voltar com frequência para casa, e isso, portanto, faz com que as meninas acabem ficando um tanto sozinhas. A comunidade os acolhe, tem ali uma vizinha, que é a vovó, que vai, de certa maneira, ser uma figura materna na ausência da mãe, mas ainda assim, elas são meninas relativamente sozinhas num mundo novo. Aliás, sobre o lance da doença da mãe, inclusive, também é mais um elemento um tanto autobiográfico, porque a mãe do Miyazaki sofria de tuberculose vertebral, algo que fazia com que ela ficasse longos períodos ausente, internada no hospital.
Porém, o que é interessante aqui, saindo um pouco desse papo da biografia, é que a solidão das meninas vai permitir com que elas se aventurem, afinal, elas estão num lugar novo, vasto e cheio de mistérios. Logo quando elas chegam ali na casa, elas se deparam com os susuwatari, que na versão dublada são chamados de coelhos de poeira. É uma tradução interessante, literalmente seria fuligem, poeira vagante, andante.
Porém, o interessante aqui é dar a um componente tão banal, que é a poeira, uma certa vivacidade. E isso já começa a ser o grande ponto em que eu quero chegar, porque, olha só, existem no Japão os yōkai, que aqui no ocidente a gente não consegue traduzir direito. Inclusive a gente vê em animes, em versões tanto legendadas quanto dubladas, uma série de sinônimos para tentar falar o que é yōkai.
Daí é dito que é um monstro, um espírito, um animal fantástico. Basicamente os yōkai são figuras do folclore japonês, que são muito vastos, inclusive com particularidades regionais, seja por causa da área do Japão, seja ao longo de certa tradição. Inclusive aproveito esse vídeo aqui para ser mais um que vai encher o saco, dizendo que tem que sair no Brasil GeGeGe no Kitarou, obra fundamental de Shigeru Mizuki, que é sobre os yōkai.
Pessoal gosta tanto de mangá, gosta tanto de mangá, porque esse negócio não sai? Mas perdi o foco, deixa eu voltar. O que tem de interessante nos yōkai é que mesmo eles sendo muito diferentes entre si, existe ali um certo princípio comum.
Dependendo como você se relaciona com eles, é possível estabelecer algum tipo de diálogo, algum tipo de relação. Claro que vão ter yōkai que são figuras mais bestiais, então muitas vezes eles podem até te machucar sem perceber que estão te machucando. E também tem aqueles que são mais pilantras, que muitas vezes querem te passar a perna, que só topam as coisas na base da negociata.
Ainda assim perpassa nessa relação com os yōkai o entendimento de que, em alguma dose, a gentileza pode mediar as relações. Se você não incomoda eles, se você não fica no meio do caminho, bom, eles também não tem motivo nenhum para encrencar contigo. Contudo, a grande revelação ao longo do anime vai ser o encontro com Totoro.
E esse encontro não vai se dar em qualquer lugar, e sim numa gigantesca canfuera, que é uma árvore considerada sagrada dentro das tradições xintoístas do Japão. Inclusive isso no anime fica bastante óbvio, ela é separada, apartada, de modo que possa ser preservada, e também, acima de tudo, é reverenciada. Aliás, é divertido o quanto que as meninas começam a se aproximar dessa força que habita ali, a canfuera, a partir de pequenas bagas frutas que são largadas ali.
Para nós aqui do ocidente, acostumados com uma certa apreensão narrativa, parece que tudo está levando para um filme de terror. O fato dessas bagas serem largadas de modo que uma menina de 4 anos siga o rastro, tem tudo uma coisa, assim, de armadilha para uma criança inocente. Mas não esperem algo sombrio no sentido óbvio, porque é aqui que está a diferença na parada.
Uma coisa que Miyazaki faz muito bem é de mostrar seres que são delicados, são gentis, são até mesmo amorosos, mas eles têm um componente assustador, ou seja, eles têm algo que é indomesticável. Mas voltando aqui para o enredo, só para a gente não se perder, a Mei acaba se embrenhando no meio da floresta, e dentro da canfuera acaba encontrando Totoro, que é um ser peludo, gigantesco, uma mistura de urso com coelho com sei lá o que, que tem o detalhe que vai perpassar outros seres fantásticos ao longo da história, de ter um componente assustador. Só que esse assustador não está nas ações, Totoro não faz nada de perigoso, mas ele é grande, a boca dele é imensa, ele tem olhos muito grandes.
É sabido que a cultura japonesa, o xintoísmo, tem um princípio muito forte de animismo. Para explicar isso direitinho, tem a ver com você reconhecer nas outras coisas, vida. Uma coisa que qualquer criança, seja no Oriente, seja no Ocidente, é expert.
Crianças reconhecem vida em bonecos, em coisas, inclusive naquilo que não se vê. E não me entendam mal, não estou dizendo que o xintoísmo ou a cultura japonesa é infantil. Mas ela mantém, sim, viva, algo que tem a ver muito com a percepção que já se desenvolve na infância.
Inclusive aqui no Ocidente, tem um texto bastante famoso do Freud, psicanalista, que vai justamente dizer que o moderno ocidental tem a ver com o corte, com a ruptura em relação a esse animismo. Com o fato de a gente não acreditar mais que coisas, sejam elas quais forem, podem estar vivas ao nosso lado. Daí esses nossos dualismos aqui, tipicamente ocidentais, o homem e a natureza, o homem e a máquina, e a mulher.
. . Bom, a mulher, foda-se, não tem lugar.
Por isso que o titio Freud vai dizer, para o homem moderno ocidental, quando, sei lá, o abajur fica vivo, isso é assustador. Mas aí que tá, em Meu Amigo Totoro, isso é tão orgânico que de alguma maneira a gente acaba entrando na jogada, a gente acaba aceitando essa lógica. Você pode não ter contato com cultura japonesa, você pode não entender nada disso tudo, mas o filme te envolve.
Inclusive um outro ser que aparece no anime é um gatobus, um bakeneko, um gato transformado, que também é uma coisa que aparece a rodo no folclore japonês, e que aqui inevitavelmente faz a gente lembrar também muito do gato de Alice no País das Maravilhas. Tanto o gato, quanto o Totoro e os outros seres, eles todos carregam essa ambiguidade. Eles são seres um tanto centrados em si, mas que podem ser bastante gentis, e ainda assim assustadores.
Existe na internet uma cacetada de teoria da conspiração sobre Meu Mmigo Totoro, de que talvez a Mei estivesse morta, talvez as duas estivessem morta, talvez você esteja morto vendo o filme, pode ser isso também. E por mais que eu mesmo exercite uma série de leituras, muitas vezes piradas sobre as coisas, essas teorias das conspirações são de uma forçação de barras, elas não se baseiam em nada. É a galera querendo pegar uma evidência X e Y desconsiderando, sei lá, o resto do anime inteiro.
Porém, eu tô falando tudo isso porque essas teorias da conspiração são um certo sintoma pra incompreensão diante de um anime como Meu Amigo Totoro. E isso tem a ver com um certo modo ocidental ainda de pensar. Pra nós, seres fantásticos são geralmente seres que não estão no nosso mundo, são figuras muitas vezes de limiar ou de um outro mundo.
E isso tem a ver, de novo, com uma concepção moderna que se apartou de qualquer tipo de princípio animista. Só que isso no Japão não aconteceu, ou pelo menos isso não aconteceu de tal maneira a ponte ter se perdido por completo. Não é por acaso que o pai das meninas no anime é um arqueólogo.
E que por mais que a gente tenha aqui imagens do moderno ao longo do anime, como por exemplo um telefone, ou mesmo um ônibus, que aqui inclusive aparece a partir de um ser fantástico, ainda assim o apelo é todo sobre uma espécie de conciliação entre o moderno e a tradição. Ou mais especificamente, do quanto que a tradição per passo moderno. E tudo isso aparece, meu amigo Totoro, a partir de uma certa indefinição desses seres, de uma certa impermanência essencial, inclusive em termos do folclore japonês.
Porque Totoro não é exatamente um yōkai. Quer dizer, ele pode ser, porém há coisas nele que talvez escapem da maioria dos yōkai. Quer dizer, Totoro tem características típicas de yōkai.
Ele é uma criatura estranha, com poderes estranhos, vive dentro de uma árvore, tem poderes que faz com que cresçam outras árvores, e também tem essa relação bastante mundana com os seres humanos, no caso aqui as duas meninas. Porém, ao mesmo tempo, Totoro pode ser um kami, que seria basicamente um deus dentro da lógica do shintoismo. Os kami são essas grandes deidades que estão muitas vezes vinculadas a fenômenos ou objetos da natureza, ou mesmo determinados acontecimentos específicos.
A mais famosa, por exemplo, é a Amaterasu, deusa do sol no xintoísmo. E uma coisa que é típica na relação que as pessoas têm diante de um kami, é de reverenciá-lo, de ter com ele um respeito, porque, afinal de contas, você está lidando com algo que é muito, muito grande. Daí que essa reverência aparece também diante de Totoro.
O próprio pai ensina as meninas a ter um respeito por esse ser com o qual elas se depararam, e ele próprio parece ter poderes ilimitados quando ajuda Satsuki a tentar encontrar a Mei que estava perdida. Nas discussões que talvez possam ser mais interessantes, se Totoro é um yōkai ou um kami, mas até mesmo isso é tosco. A gente está na verdade querendo rotular pra dizer ah, é isso, é aquilo, é aquele outro.
E é aí que entra o ponto do porquê talvez nos fascine tanto esse anime e porquê talvez a cultura japonesa como um todo mexa tanto com nós aqui no Brasil. Vamos lá, Totoro de alguma maneira, por ser esse ser um tanto indefinido, ele consegue concentrar muito essa noção de pequeno e grande. Pequeno por causa dos pequenos gestos, por causa da ênfase nos detalhes, algo que o Miyazaki trabalha muito, mas também, ao mesmo tempo, trazer pra nós um senso de grandiosidade, algo que pode ser ameaçador, perigoso e também hiper, completamente super poderoso.
E isso tudo tem muito a ver com o reconhecimento da própria natureza, não só da natureza apartada da gente, mas da natureza na gente. Do quanto o pequeno pode ser intenso para nós, como a espiga de milho que a Mei não queria abrir mão porque ela queria dar de presente pra mãe, a espiga de milho ali significa a vida da mãe, a dádiva que ela pode dar pra que a mãe melhore, mas também o grande, o colossal da árvore, do campo, e como tudo isso pode se tornar pequeno a partir da perspectiva de cima. Do quanto que aquilo pelo olhar da Satsuki, no final das contas, se torna menor em busca da sua irmã.
De certo modo, a cultura japonesa é uma cultura indígena que teve uma série de contatos estrangeiros e chegou no que chegou hoje. E nós aqui brasileiros somos seres apartados de uma certa tradição. Nós, enquanto indígenas, pouco indígenas somos.
Afinal, fomos exterminados, escravizados, colonizados. E uma coisa que é muito típica do Brasil é a gente gostar muito dessas culturas antigas. Não que os outros países, outras culturas também não gostem, mas o brasileiro tem um fascino por esse negócio.
Os celtas, os vikings, os gregos antigos, os ameríndios, os povos antigos da África, os povos antigos da Ásia. Notem como aqui no Brasil a gente consome produção sobre isso. E muitas vezes livros, quadrinhos, fanfics de brasileiros.
Gente que nunca saiu as vezes da sua cidade, mas pensa muito sobre essas culturas arcaicas. Quando eu falo arcaica não é no sentido pejorativo, tem a ver com o radical de arkhé de origem, que nem arqueologia, profissão do pai das meninas. Vocês estão entendendo aí como é que as coisas estão se amarrando?
O ponto aqui em que eu quero chegar é que há algo de muito fascinante na cultura pop japonesa e que tem a ver justamente com essa vitalidade de todas as coisas. É como se o universo inteiro fosse pulsante e com o qual você pudesse estabelecer relações a todo momento. E isso tem um impacto colossal em culturas como a nossa, que são caracterizadas justamente por terem sido apartadas dessas ligações, de terem sido cortadas, violentadas na capacidade de estabelecer esse contato entre o eu e o outro.
Obviamente tudo isso não cai numa lógica de melhor e pior, porque afinal de contas o Japão tem seus problemas assim como o Brasil. Porém, o fascínio que há em nós brasileiros por coisas japonesas, eu aposto que tem um pouco disso tudo. E Meu Amigo Totoro é pra mim a síntese desse radical, dessa raiz de tudo que está em jogo aqui.
Eu confesso pra vocês que eu sou um recém convertido em Miyazaki, então digam aí nos comentários que outros animes dele eu posso comentar aqui, se é que ele vai deixar eu comentar, porque o estúdio Ghibli geralmente não deixa. Sim, eles implicam com imagem, às vezes, sempre precisam você botar o vídeo no ar, vamos ver como é que vai ficar esse. Mas mesmo assim sugiram, vai, sugiram, seja a obra que for.
E digam aí nos comentários se faz sentido aí pra vocês toda essa interpretação, da maneira como a gente se sente perante cultura japonesa, se tudo isso aí que eu falei faz sentido. Porque afinal isso aqui é um esboço de ideia e qualquer argumento, ou contra-argumento, vai ser de grande ajuda. No mais, como sempre, peço que você siga a gente nas nossas outras redes sociais, TikTok, Twitter e Instagram.
Obrigado por assistir, valeu pessoal!