sabidamente a mulher erotiza o intelecto masculino. É a ideia de que sim, a mulher consegue [música] mudar o homem e ela ela muda ele para melhor, ela faz com que ele saia do sofrimento dele. A questão é saber se depois que ele virar esse cara tão legal, ela ainda vai gozar do mesmo jeito.
E aí ele cria uma [música] barreira e reprime o que muitas mulheres querem, que é [música] atitude, como a gente falou aqui, pegada. E esse homem da nova masculinidade, ele não tem nem atitude, [música] nem pegada. Por isso que eu acho que feminista não entende nada de mulher.
[música] >> O que as mulheres querem hoje é diferente do que queriam no passado. >> Sim, hoje a mulher quer liberdade pública. >> O feminismo que liberou as mulheres também é capaz de reprimi-las?
>> Com certeza, Thaís. >> Simone de Bolvo ou 50 Tons de Cinza. 50 tons.
>> Nós estamos na terceira onda do feminismo. Nunca se falou tanto em empoderamento das mulheres. Nunca se falou tanto em luta contra a violência de gênero e luta contra a imposição de papéis a partir do gênero.
Se fala nisso nas redes sociais, nas escolas, nas faculdades, em tudo quanto é lugar. No entanto, ao mesmo tempo, a gente vê coisas que vão na contramão desse discurso. Por exemplo, no mercado editorial, tá?
acontecendo um boom, uma grande venda de livros eróticos, livros eróticos para mulheres, né? Então, por exemplo, a gente vê que nesses livros a maioria das autoras é mulher e a esmagadora maioria das personagens femininas, ela tem um perfil doce, ingênuo, submisso, diferente. E os homens pelos quais elas se apaixonam, eles têm um perfil dominador, poderoso.
Eles são ricos, eles são um pouco canalhas, eles são um pouco sádicos até. Esses são os homens pelas quais as mulheres se apaixonam, né? esse descompasso entre o que a gente ouve e essa demanda por esse tipo de livro erótico que as mulheres estão comprando a rodo.
Isso significa só que a mensagem feminista ainda tá restrita a um pequeno nicho ou isso revelaria algo mais sobre o que querem as mulheres? >> Olha, Thaís, primeiro eu diria que se eu soubesse que você vinha de rosa, eu teria vindo de azul. [risadas] A ministra da Maris ia gostar muito.
>> Agora voltando à tua pergunta, eu não acredito que seja simplesmente por uma questão de que ainda não houve essa capilaridade absoluta do feminismo, né? Apesar de que o feminismo tem influenciado muito, principalmente gerações mais jovens, de classe média para cima, né? A a impressão que eu tenho é o seguinte, não o o debate com feminismo sério ah não se põe em questão direitos femininos.
combate à violência doméstica. Acho que essa coisa é muito clara. Acho que a dificuldade do debate com o feminismo sobre o que você falou é porque ah há há uma espécie de ah impedimento para se tocar nesse assunto que você tocou.
Então o feminismo se transformou numa espécie de repressão, de certa forma tem que assimilar essa questão e o conflito com o desejo. O desejo sempre foi conflitivo. Você não vai resolver o desejo nem da mulher, nem do homem com política.
Então vamos continuar nesse assunto porque uma edição recente da revista Piauí trouxe uma reportagem sobre esse mercado editorial dos livros, dos livros eróticos femininos, né? E eles são centenas já, são centenas de títulos e alguns deles chegam a ter até 5 milhões de leituras no Kindle, né? Outra curiosidade que eu queria te contar é a seguinte: os títulos que fazem mais sucesso são os títulos que incluem duas palavras: virgem.
virgem, né, no sentido da mulher virgem. E a outra palavra é CEO. CEO no sentido de um executivo rico, poderoso, etc, etc.
Então, vamos dar uma olhada aqui nos títulos. responder. Olha que curioso, o CEO e a Virgem, uma Virgem resgatada pelo CEO, a Virgem protegida do CEO, a virgem do CEO grego, a virgem submissa e o CEO dominador, uma virgem para o CEO, o CEO viúvo e a babá virgem.
Pode tanto se e por tanta virgem. Você sabe que eu tô rindo aqui, Thísso, porque todo esse debate sobre a mulher se deu tanta volta, se proíbe o beijo do príncipe na Cinderela porque ela tá dormindo, porque se dá essa volta toda para as mulheres continuarem querendo ler Branca de Neve e Cinderela, porque é isso que esses filmes falam, só numa numa releitura, como falam os pós-modernos, num cenário contemporâneo, mas continua sendo Branca de Neve Cinderela, gata borralheira, resgatada pelo CEO. >> Eu acho que tem uma autora que vai te dar 100% de razão.
A gente ouviu a Jéssica Macedo. Ela é autora do livro Uma Virgem para o CEO. Vamos ouvir o que que ela falou.
>> O perfil das minhas leituras é bem variado, vai de mulheres mais velhas, idosos, até mesmo adolescentes de todas as faixas etárias e classes sociais. Mas o que eu percebo em comum nelas é uma vida cada vez mais atribulada. se desdobram em jornadas duplas, triplas, tendo que cuidar do trabalho, onde às vezes elas ocupam cargo de chefia, mas quando elas chegam em casa ainda tem os filhos e todas as outras tarefas que ocupam cada vez mais tempo, deixando que elas tenham menos tempo para elas mesmas.
E aí quando elas vão ler os meus livros ou outros do mesmo gênero, elas procuram viver um conto de fadas. O que ela fala para nós é assim, na realidade, essas mulheres cansadas, eu já ouvi de muitas mulheres que estão cansadas mesmo, eh, e essa crítica inteira não levou a sério a ideia que talvez esses príncipes encantados fossem caras legais. Tô falando como metáfora, eles não existem.
[música] É conta de fada, mas que no plano da imaginação delas, eles não eram opressores, eles não eram machistas nojentos, eles não eram estupradores, eles eram caras legais que iam dar para elas uma vida em que elas era de alguma elas eram de alguma forma centro de atenção, de dedicação, de amor e de desejo. É por isso que eu costumo dizer que às vezes feminista não entende nada de mulher. Vamos continuar na história dos contos de fada e ainda dentro do circuito da literatura e agora do cinema.
50 Tor de Cinza é a mãe de todos os livros do gênero erótico hoje. Eu acho curioso quando a I James fala que ela libertou os desejos ou as fantasias femininas, ao mesmo tempo ela como que condena as fantasias masculinas, porque a fantasia dele envolvia sadismo. E daí no final tudo fica bem, ela se casa e ela salva salva o homem do das trevas, do sadismo.
Então você não acha que é uma forma de, se ela tá libertando o desejo feminino, ela tá condenando a fantasia masculina >> total. Início ela é bem contemporânea, né? Recentemente eu vi uma mulher dizer mais ou menos o seguinte: "A tragédia do casamento é que a mulher passa a vida inteira esperando que o homem mude e ele nunca muda.
E o homem passa a vida inteira achando que ela não vai mudar e ela muda. " Eu acho que todos os livros, outros livros também transitam por aí de alguma forma, é a ideia de que sim, a mulher consegue mudar o homem. E ela ela muda ele para melhor, ela faz com que ele saia do sofrimento dele e de certa forma se torne ainda melhor do que ele era >> por amor a ela.
>> Por amor a ela, porque ele mudou por causa dela. A questão é saber se depois que ele virar esse cara tão legal, ela ainda vai gozar do mesmo jeito. [risadas] >> O que eu achei interessante foi que então ela disse que o sadismo é uma imagem que espelha, na verdade, essa esse desejo de ser conduzida, da mulher de ser conduzida.
também as feministas não vão gostar. >> É bom, mas é seguramente você pode fazer alguma coisa para as feministas gostarem. Eu não sei dizer justamente o que elas querem que você diga, né?
No caso do que a Maria Homem falou, essa, digamos, essa ideia de ser objeto porque o outro conduz, né? E essa ideia também de que um objeto, porque aí tem um jogo, né? Porque se o homem deseja essa mulher que se faz objeto dele, esse objeto também conduz o homem ao enlquecimento de desejo por esse objeto.
Então tem uma via de mão dupla nesse jogo. E esse tipo de sutileza que do meu ponto de vista faz todo o debate político sobre sexo ser um elefante numa loja de cristais. >> Quem que é esse tal de homem tóxico, Pondé?
>> Que que é o homem tóxico? Olha, é a masculinidade tóxica. é uma masculinidade possessiva, invasiva, uma masculinidade que pode chegar a violência física, ah, uma masculinidade que opera no nível da violência psicológica, da dominação, é uma espécie de força do mal, um uma nova definição de demo, certo?
que quando você joga sobre o homem, é claro que existem homens maus, como existem mulheres que também não são essas coisas todas, né? Mas assim como na idade média se achava que a mulher tinha uma natureza essencialmente demoníaca por conta da coisa do sexo, da sedução e tal, hoje em dia se acha que o homem tem uma natureza essencialmente demoníaca. O homem heterossexual tem uma natureza essencialmente demoníaca e ela aparece com os nomes meio técnicos.
Um deles é essa ideia de que existe uma masculinidade tóxica em todo o homem que demonstra um desejo poderoso em relação à mulher. Então esse homem tóxico, ele aparece também na literatura, quer dizer, ele tá sendo identificado na literatura, né? Em especial nos livros, por exemplo, do Philip Roth, que tá sendo acusado de que foi acusado de fazer personagens tóxicos, não é?
personagens em busca da dominação, da dominação feminina, embora eles meio que quase sempre se deem um pouco mal na no final, né? [risadas] Então vamos ver agora um trecho do filme Fatal, que foi baseado no livro O animal agonizante do Philip Ross. >> O filme, especificamente, essa cena, né?
O personagem é um personagem que é um professor, mais de 60 anos, tem um programa no rádio que discute literatura, é um cara um tanto famoso naquele círculo e que no final de cada período ele então faz uma reunião na casa dele com os alunos. Hoje isso já seria um problema, né? Porque hoje um professor fala com uma aluna assim com vidro na frente antes da pandemia, né?
>> E gravando o encontro. >> É porque a paranoia é total. E aí ele escolhe uma aluna que ele tá atraído por ela e ele faz todo missen, lê uma carta supostamente do Cafkaa que ele tem no original, toca piano, certo?
Ele se exibe, seduz a aluna, né? E aí os os colegas vão indo embora, ela vai ficando e aí eles têm o caso. Eu não vou dar spoiler, vale a pena ler esse livro, um dos melhores livros do Roth sobre esse tema específico e uma adaptação bastante boa, bastante bem feita.
É claro que esse filme ele ele pega um certo arquétipo, né? O cara mais velho, a menina mais nova. E é justamente aí que se encontra esse mito do professor com aluno, um cara sábio, inteligente, culto e a menina que quer aprender.
>> De novo, que conduz a mulher para um lugar legal. >> Conduz a mulher para um lugar legal. quando ela inclusive gosta desses temas que se costuma chamar de cabeça, não sei o quê.
E aí há um a realização de uma coisa que é sabidamente a mulher erotiza o intelecto masculino. >> Bomé, você deve se lembrar certamente do seriado Friends. naquela época não tinha ainda esse esse termo masculinidade tóxica não estava em voga, mas as mulheres já queriam mudar um pouquinho, os homens dá um jeitinho neles e vamos ver [risadas] um trecho aqui desse episódio da série Friends em que a Jennifer Erneston, ela namora o Bruce Willis, que é um heterossexual meio abrutalhado, meio machão e tal, e daí ela aconselha ele a fazer terapia para se livrar desse machismo e ele obedece o conselho dela e aparece mudado.
Aí vamos ver o que que ela acha da mudança. >> É muito boa essa cena porque é justamente assim, mas ninguém sabe direito como lidar com os sentimentos. Ninguém.
Quem disser que sabe é mentiroso. Ninguém sabe. >> Nem a mulher, pelo visto, porque ela não gostou nem um pouco de ver.
Nem homem nem sabe como lidar com sentimento. Você é uma das grandes falácias do mundo contemporâneo. Resultado, ela ela quer que ele não seja tão brutamontes como ele era e aí ela em em digamos assim ela incentiva que ele vai fazer terapia, entra em contato com a sua história e na hora a cena é muito boa, ele no colo dela chorando e ela de saco cheio pensando, não era bem isso que eu tinha em mente.
Certo? Então, não era bem isso que eu tinha em mente. Hoje em dia iam dizer que então a personagem dela sofre de opressão patriarcal, ela ainda não conseguiu dar um salto paraa nova masculinidade, porque o homem ideal hoje é o cara que quando a mulher tem filho, ele deprime mais do que ela.
Se você tocar num assunto de que a mulher ah continua desejando ser objeto de desejo do homem, ela quer fazer com que o homem a deseje, >> ainda que com uma possibilidade. >> É, é isso aí como possibilidade. É mesmo que não aconteça isso na prática, certo?
Isso daí você não pode dizer, porque se você disser, dependendo do lugar, você pode perder o emprego, perder o patrocínio, perder aula na universidade, sofrer algum tipo de cancelamento. E isso leva ao que ela fala na segunda parte, que ela escuta na clínica das amigas, né, de que as mulheres são meio exaustas, meio cansadas, porque os homens não têm atitude. Então os homens, os homens mais jovens principalmente, cada vez mais entram nessa vibe, >> certo, que é construída na escola, na família, nas redes sociais, nas novelas, nos cinemas, de que o homem é tóxico.
Muitas mulheres quando chegam lá, por volta dos 29, 29, 35, entram numa certa ansiedade com relação a filhos. Vai ter filho, não vai ter filho, tem que tomar uma decisão sobre isso, certo? Essa decisão tem a ver com o ciclo biológico.
Você pode empurrar, mas chega numa hora e se você é mãe ou pai, nós nós estamos falando das mulheres, sa, 45, você pode escutar muita gente descolada falando: "Não, hoje você pode ter filho com 45, não sei o que, mas vai encarar o moleque quando você tem 45 anos. Vai trabalhar e ficar durante a noite acordada. Não há dúvida que as mulheres devem ter a mesma chance no mercado de trabalho.
Ao mesmo tempo, não há dúvida que essa questão com ter filhos, não ter filhos, gerar filhos, é um problema que as mulheres têm. Os homens não têm esse problema, porque inclusive os homens podem ter filhos com mulheres mais jovens, eles não têm o problema do ciclo reprodutivo e da menopausa no mesmo momento que as mulheres têm, até onde a gente sabe. Então, não adianta querer dizer que a questão do mercado de trabalho e da carreira profissional das mulheres não passa muitas vezes por certas escolhas que não são iguais e idênticas a que os homens fazem.
>> Pondé, o feminismo está tentando construir um novo homem. Acho que tentando sim, faz parte do discurso, porque pressupõe que tudo é uma construção social e que você então mudando certos elementos, você constrói outros atores sociais, como se fala por aí. Eu acho que na realidade, neste sentido específico, a gente falava que existem áreas como violência doméstica, igualdade salarial, todo esse debate aí, acho que isso não tem o que debater, mas nessa área da relação entre homem e mulheres, eu acho que na realidade o feminismo quer construir um nome um homem novo, mas tá estragando, na verdade, a relação entre homens e mulheres.
Você acha que os desejos da mulher são os mesmos desejos das ativistas? Eu acho que não. Eu acho que o desejo da mulher, ele difere do discurso das ativistas primeiro porque ele é natural, ele é diversificado e ele nem sempre é politicamente correto, né?
Pelo menos como se vê hoje em dia. E o discurso das ativistas ele é construído e nem sempre ele é correto. Mas aí eu tô falando do ponto de vista do acerto, né?
E ele não é diversificado. >> E não é diversificado, ele é único. Só existe uma possibilidade.
E P, por que que você diz que as feministas não entendem nada de mulher? >> Primeiro, essa é uma frase tipicamente retórica, né? Ela visa a apontar de uma forma irônica um problema que eu vejo no discurso feminista, que é isso que a gente vem falando aqui ao longo do programa.
Ah, a, o discurso feminista, ele é monotemático, ele é estreito, ele quer tornar o desejo correto e aí ele cria uma barreira e reprime o que muitas mulheres querem, que é atitude, como a gente falou aqui. [música] Também tem uma outra palavra que é pegada, certo? E esse homem da nova masculinidade, ele não tem nem atitude, nem pegada.
Por isso que eu acho que feminista não entende nada de mulher. Thaís, qual é a causa feminina que você acha que vale a pena se lutar? mais de uma causa, vai, mas tem que ser concreta, não pode ser >> abstrata.
Então eu acho que uma coisa bem concreta é >> uma briga pela igualdade salarial, primeiro, porque não tem motivo nenhum para ser diferente. Então, igualdade salarial, em primeiro lugar, acho justo, muito justo, e creches, eu acho que as pessoas, as autoridades deviam se preocupar em fazer creches em vez de fazer discurso só, né? Até porque sem creches a maior parte das mulheres não tem como se emancipar.
Ah.