Bem-vindo ao programa Filosofia e Cultura! Toda semana nós estamos aqui, então, apresentando a vocês alguma temática correlacionada a esse mundo da filosofia e a esse mundo da cultura, no sentido geral, no sentido amplo. Hoje, eu gostaria de falar um pouquinho sobre uma obra que também é considerada um clássico, né, na história da filosofia: os primeiros textos, ali, digamos, realmente fundantes da civilização ocidental, que é "Apologia de Sócrates", né, feita por Platão.
Ora, Sócrates, evidentemente, é um grande nome, né? Alguém que, até hoje, sempre chama a atenção em vários aspectos, em vários sentidos. E nessa obra, evidentemente, Platão – o nome já diz, né?
– se é "Apologia de Sócrates", ele procura fazer, digamos assim, a defesa do seu mestre, mostrando que Sócrates teria sido preso e acusado injustamente e, por conseguinte, evidentemente, além disso, né, condenado sem motivo algum, sem uma justa, digamos assim, acusação. E, por conseguinte, não teria como ter uma justa condenação. Ora, nessa obra, o que é interessante, o que chama a atenção, em primeiro lugar, e eu quero salientar aqui dois aspectos.
Primeiro, evidentemente, Sócrates é preso e ali sofre todo um processo. E os seus acusadores vão salientar justamente o que o acusa: justamente que, por um lado, ele estaria corrompendo a juventude. Já estarei citando a juventude a se rebelar, etc.
Então, uma das acusações é justamente essa coisa de corrupção da juventude, e um outro tipo de acusação é como se Sócrates, enfim, se negasse a adorar os deuses. Portanto, é um certo tipo de ateísmo. Evidentemente, ele vai se defender dessas acusações e vai procurar mostrar que a origem desse mal-estar ou a origem das pessoas estarem, então, nervosas e irritadas para com ele é outra, né?
E aí, efetivamente, no momento em que ele está dialogando com os seus acusadores e com a plateia que está lhe ouvindo, ele chama a atenção para um ponto na sua vida: em um determinado momento, ele está com um amigo, e esse amigo resolve, então, entrar no templo, né, de Apolo e ali consultar, né, a sacerdotisa, etc. , o famoso oráculo, né, de Delfos. E esse amigo, então, adentra a esse templo para consultar, faz lá a consulta e volta, né, muito feliz.
Ou seja, volta feliz, dizendo que haviam dito a ele que Sócrates, de fato, seria o homem mais sábio da Grécia, seria o homem mais sábio. E Sócrates, ao ouvir aquilo, não concorda com o amigo, dizendo que, provavelmente, ali teria algum engano, né? Que nessa consulta teria alguma confusão, porque ele não poderia, ele não se considerar, ele não se via como o homem mais sábio da Grécia.
E, para provar isso, ele diz: "Então, vou conversar com aqueles grupos e pessoas que geralmente são consideradas mais sábias aqui nesse contexto de Atenas. " Ora, quando ele faz isso, ele vai conversar, então, com os políticos, com os poetas e com os artesãos. E ele, como expressa na narrativa, realmente fica surpreso e tem uma certa decepção com todos, né?
Porque, no fundo, tanto os políticos quanto os poetas quanto os artesãos, segundo Sócrates, eles, no fundo, parecem sábios, mas, no fundo, não são sábios. Transmitem, querem transmitir, muitas vezes, uma imagem de sábios, mas, na realidade, não são. Parecem, mas não são.
Os políticos, com toda uma preocupação de realmente apresentar uma imagem e não a realidade; os poetas, que muitas vezes deixam bem claro que as coisas que dizem ali não são tanto por capacidade ou competência própria, mas porque têm uma fonte de inspiração divina e que é diversa deles; os artesãos, achando que porque dominam uma técnica em um ponto, são sábios, mas não têm nenhuma clareza e compreensão de vários aspectos da realidade. Então, Sócrates de fato começa a chegar à conclusão de que talvez ele seja o homem mais sábio, mas não é porque ele, de fato, sabe tudo, não é porque ele é portador ou tem a posse da sabedoria, mas sim porque ele tem a consciência da própria ignorância. Daí aquela coisa do "sei que nada sei".
Então, talvez aqui Sócrates não esteja querendo indicar ou recomendar que o início da sabedoria, o primeiro passo, é o reconhecimento da própria ignorância. Ou seja, não tem como eu saber nenhuma outra coisa se antes eu não tenho essa clareza de que eu não sei praticamente nada. Então, se eu sei que não sei, esse é o primeiro passo: reconhecer a própria ignorância.
E, aí, só devido a isso, ele diz que se sentiu talvez realmente imbuído de uma missão. E qual seria essa missão? Despertar a consciência das pessoas do seu sono mais profundo, trazer as pessoas realmente para a realidade e se libertar, portanto, dessa ilusão que muitas vezes vivenciam de uma consciência ilusória de si mesmas, né?
Do mundo, das coisas. Por isso, o famoso adágio socrático, né, "conhece-te a ti mesmo". Ou seja, o primeiro ponto a se fazer, né?
Ou seja, ser o primeiro a reconhecer a própria ignorância, e o segundo é justamente aprender a tomar uma postura reflexiva em relação a si mesmo. Ou seja, antes de buscar conhecer qualquer coisa, depois que eu reconheço a minha própria ignorância, eu devo buscar me conhecer. Eu devo buscar, de fato, ter claro quem eu sou.
E Sócrates diz: é por isso que muitos ficaram irritados comigo, é por isso que muitos ficaram nervosos, é por isso que, provavelmente, muitos me prenderam, querem me ver morto, porque eu incomodei as pessoas com minhas perguntas, com as minhas questões. Muitas vezes, eu, de fato, procurava mostrar para as pessoas que elas não eram tão sábias assim como achavam que eram. Na realidade, a imagem, a visão que elas tinham de si mesmas não correspondia muitas vezes à realidade.
E, portanto, Sócrates coloca, né, que eu realmente me sinto imbuído dessa missão e muitos jovens, vendo que eu fazia, muitos jovens. . .
nas perguntas, as questões que estavam. . .
E os diálogos que eu realizava, procurando despertar a consciência das pessoas, acabaram vendo tudo ali como tudo aquilo ali, como os olhos, e me imitaram; procuraram fazer as mesmas coisas. Então, eu não tinha intenção de despertar nada em ninguém, no sentido de fazer com que os jovens militassem e reproduzissem isso que eu estava fazendo, mas eles escolheram fazer. O que posso fazer?
E a segunda coisa que Sócrates vai chamar a atenção: ele diz, nesse processo todo, né, de mostrar como o autoconhecimento é importante, e ao questionar as pessoas, levá-las a se conhecerem. Eu acabava, muitas vezes, ajudando-as a verem que elas não são aquilo que achavam que eram. E mostrar uma segunda coisa: como a maioria das pessoas, no fundo, no fundo, estão bem mais preocupadas, né, com as necessidades do corpo, com aquilo que a nossa corporeidade nos solicita, né, o prazer, né, a subsistência, né, as riquezas dessa vida.
Então, nós estamos muito mais preocupados com as riquezas, com os prazeres, com o bem-estar físico e, portanto, com todas as solicitações do nosso corpo, do que cuidar da própria alma. Então, a própria questão do autoconhecimento já não era algo valorizado, mas em outras coisas. Então, infelizmente, muitos entendem que o cuidado de si significa se preocupar ou buscar as riquezas dessa vida e os prazeres que vêm junto com elas.
E Sócrates diz: "isso está equivocado". Nós, nesse cuidado de si, em primeiro lugar, cuidar de si mesmo é cuidar da própria alma; é refletir e analisar quem nós somos, quem de fato nós somos. E aí, no próprio texto, evidentemente, depois que ele dá essas explicações, ocorre ali todo um processo de debate, de discussão, onde alguns realmente querem que Sócrates seja solto e vão aparecer em determinadas propostas, né?
Ou seja, se você realmente quer ser solto, então é pague ali uma quantia em moedas ou faça isso ou faça aquilo, né? E Sócrates não aceita nenhuma proposta. Principalmente, aí ele vai propor o seguinte: "se vocês realmente querem que eu seja solto, então aceito que vocês, em primeiro lugar, reconheçam que eu fui, que eu fiz, que todo meu trabalho foi extremamente benéfico para a cidade de Atenas e que, importante, vocês me paguem uma aposentadoria para eu viver em paz e cuidar da minha família até o resto da minha vida".
Um sinal de reconhecimento evidente que isso gerou, despertou a ira muito mais ainda das pessoas. Mas uma proposta que vai ser interessante é a ideia de que só poderia ser solto, poderia continuar vivo, desde que ele deixasse de fazer o que ele estava fazendo. Sócrates ficaria livre, continuaria vivo, desde que parasse de dialogar com as pessoas, de questionar a vida das pessoas, o pensamento das pessoas, enfim, que cessasse todo esse processo de reflexão sobre o ser, sobre a vida, sobre o modo de se comportar.
E se ele fizesse isso, então seria assunto, continuaria vivo. O que é interessante é que Sócrates não aceita essa proposta. Ele não só não aceita no sentido, né, de ter uma coerência de vida, ou seja, de viver de acordo com o que ele propôs e refletiu com as pessoas, mas principalmente, né, Sócrates diz que uma vida que não pode ser refletida, que não pode ser pensada, é uma vida que não vale a pena ser vivida.
Essa frase dele, né, é muito interessante porque, no fundo, o que Sócrates está nos dizendo com todas as letras: por um lado, sim, essa vida, esse mundo ou viver é bom, mas será que vale a pena abrir mão de tudo, abrir mão dos nossos valores e princípios, abrir mão até de uma certa forma daquilo que é uma das grandes características do ser humano, que é a capacidade de pensar, de refletir, de buscar compreender as coisas para continuar vivo? Será que vale a pena abrir mão de coisas tão preciosas simplesmente para continuar vivo? Segundo Sócrates, não.
Segundo Sócrates, nós temos que, de fato, ter claro que existe uma honra, uma honra que nada cumpre; uma honra, né, a dignidade não pode ser perdida e vendida por nada. Se, para continuar vivo, eu preciso abrir mão da minha humanidade, é melhor, então, morrer. Segundo Sócrates.
Então, esse texto nos leva a pensar em tudo isso: qual é realmente o conhecimento que eu tenho de mim mesmo? O que eu realmente valorizo na minha vida? São simplesmente as coisas materiais, corporais, a fama, a glória, o prazer, ou será que eu me preocupo com outras coisas?
E será que eu já cheguei ao ponto de abrir mão de coisas tão preciosas, tão necessárias, simplesmente para continuar vivo? Mas até que ponto a existência se reduz a esse mundo, a essa vida, ao aqui, ao agora? Então, a Apologia de Sócrates, escrita por Platão, nos leva a pensar sobre essas coisas.
E, como eu sempre digo, se você não leu, se você não conhece, vá até a obra, leia o texto, porque tem vários outros elementos que eu não mencionei aqui. O nosso programa tem justamente esse intuito de cultivar, realmente, uma boa filosofia, uma boa reflexão filosófica e vários elementos culturais que nos leva a buscar cada vez mais aquilo que é verdadeiro, que é bom e que é belo. Se você gostou, deixe aí, então, a sua curtida, compartilhe o nosso vídeo e até o nosso próximo encontro.
Um forte abraço, fique com Deus!