No vídeo passado, nós discutimos aqueles determinantes do luto que antecedem ao momento da perda, mas que devem ser considerados ao analisarmos o processo de luto de alguém. Hoje, nós vamos ver os determinantes que são simultâneos ao momento da perda, que, em geral, envolvem características do próprio sujeito enlutado e que são importantes para compreendermos como essa pessoa está conseguindo se ajustar e se adaptar à sua perda. Algo que é importante quando pensamos sobre o processo de luto é considerar a idade do enlutado, vai fazer diferença se a gente está falando de uma criança que perdeu os pais, de um adolescente, de um adulto ou de uma pessoa idosa.
Como vocês vão poder ver em aulas posteriores, o luto em crianças e adolescentes vai comportar características muito específicas dessa fase, que tem relação com a sua capacidade, inclusive, cognitiva de entender o processo da morte. Do mesmo modo, pensar o luto em pessoas idosas, que já experienciam a perda de muitas outras pessoas, pode também trazer elementos importantes para a compreensão de como ele lida com o luto. Outro aspecto, igualmente importante, é pensarmos as próprias características de personalidade da pessoa enlutada.
O modo como lidamos com as situações da nossa vida, com as situações de estress também vão compor a nossa experiência de luto. O enlutado é alguém que tem tendência ao pesar, que tem tendência a focar mais a sua percepção e os seus afetos nos aspectos difíceis da sua vida ou é alguém que apesar das dificuldades entende que sempre há algo de aprendizado nas situações? O enlutado é alguém que costuma compartilhar o que sente com outras pessoas ou que se permite entrar em contato com seus afetos ou é alguém que tende a inibir os seus afetos evitando lidar com eles?
Essa características que compõe também a personalidade do sujeito, o modo como ele lida com si mesmo, com a vida, com os outros, com os seus afetos, também é algo importante que vai compor a experiência do luto. Importante pensarmos também nas estratégias de enfrentamento que o enlutado adota frente aos estressores que são decorrentes do luto. Em geral, a perda de alguém acaba provocando mudanças na vida do enlutado, a depender do papel social que essa pessoa que faleceu ocupava.
Perder um marido, além de se perder um companheiro, um amor, um parceiro sexual, um amigo, pode implicar também em outras perdas materiais e concretas que podem se constituir importantes estressores para essa viúva a partir desse momento. Então as estratégias de enfrentamento a esses estressores, que algumas vezes são aquilo que a gente chama de estressores secundários à morte, vão determinar também de que modo o enlutado se sente durante a o seu período de ajustamento e adaptação. Nesse exemplo, que trago para vocês pensarem essa situação, a morte de um marido pode significar, por exemplo, uma reestruturação financeira dessa família, que traz muitas dificuldades para essa mulher que se torna viúva, o modo como ela lida com isso, se as suas estratégias de enfrentamento são mais focadas nas emoções ou se são mais focadas nas resoluções dos problemas decorrentes dessa morte vão também compor o enlutamento.
Essa mesma pessoa pode adotar estratégias de enfrentamento emocional que sejam mais ativas, ela pode compartilhar seus afetos, pedir apoio emocional, pedir ajuda. Isso tudo contribui para um certo modo de enfrentamento do luto. Do mesmo modo, ela pode adotar estratégias de enfrentamento emocional que sejam mais evitativas, ela pode se isolar de familiares e amigos, pode evitar entrar em contato com seus afetos decorrentes da morte do seu marido, pode adotar métodos ou modos de lidar com a perda que amenizem o que ela está sentindo, por exemplo, fazendo uso de consumo de álcool, outras drogas ou medicamentos, de modo a evitar a experiência e o contato com aqueles afetos.
Então o modo como o sujeito lida com os estressores decorrentes dessa morte vão ser importantes também pra gente pensar numa experiência de luto. Vamos comparar duas situações, pensar duas mulheres de meia idade com filhos pequenos que se tornam viúvas, uma pode adotar estratégia de enfrentamento em que ela busca rede de apoio, aciona pessoas com quem ela pode contar para apoio prático, compartilha os seus afetos e as suas emoções com quem ela confia e de quem gosta, ela entra em contato com os sentimentos decorrentes dessa perda, que são sentimentos difíceis; uma outra mulher pode adotar estratégias de enfrentamento que são totalmente diferentes, ela pode afastar-se de familiares e amigos mantendo-se mais isolada, evitar entrar em contato com seus afetos fazendo uso, por exemplo, de álcool ou de outros medicamentos de modo a não se permitir ficar triste, evitar a todo custo aqueles afetos. O modo como o sujeito adota estratégias para lidar com a sua perda e com os efeitos decorrentes dela, ou seja, os chamados estressores decorrentes da morte e do luto vão ser importantes mediadores para nós pensarmos essa experiência de luto.
Além disso, um outro aspecto ligado ao próprio enlutado é aquilo que a gente chama de um certo estilo cognitivo. Algumas pessoas têm uma tendência maior ao pesar, a ruminação e vão estar sempre rememorando e presas aquilo que poderia ter sido feito e não foi, aquilo que não deu certo, ao passo que outras pessoas conseguem construir percepções e crenças mais otimistas sobre a vida e mesmo em situações mais difíceis conseguem olhar para aquela situação entendendo que há sempre algo que leva a uma certa aprendizagem. Parkes ao entender o luto como um processo de transição psicossocial, aponta para essa característica também do luto, que o luto é um processo de aprendizagem.
O sujeito aprende novas habilidades, desenvolve novas características, aprende a desempenhar novos papéis. Vamos voltar ao exemplo de uma mulher viúva, ela pode a partir da viuvez começar a desempenhar atividades que anteriormente não desempenhava, pode tomar conta ou tomar à frente de certas situações com os filhos que ficavam por conta do seu falecido marido, pode assumir determinadas responsabilidades financeiras que eram do seu marido e apesar de todo o sofrimento na experiência do luto, com ausência do marido ela pode identificar: "Ah, eu tenho aprendido tal coisa, eu tenho me desenvolvido nisso". Assim, o modo como o sujeito também avalia a sua experiência e lida com ela, que estratégias ele elenca para lidar com ela vai fazer com que o seu percurso nesse processo de luto seja diferente.
Isso tudo tem relação com outros aspectos muito importantes também relativos ao enlutado que é a autoestima e o sentimento de autoeficácia. Pessoas com melhor autoestima numa situação de luto tendem a acreditar que elas são capazes de lidar com aquela experiência, que apesar da dor e do sofrimento elas têm recursos que com o apoio dos entes queridos, dos familiares e dos amigos elas serão capazes de lidar com todas as consequências daquela morte. Pessoas com baixa autoestima poderão apresentar mais dificuldades de lidar com o luto por não se verem como capazes de lidar com aquela situação altamente estressante.
Do mesmo modo, o senso de eficácia, acreditar que é capaz de lidar com aquela situação que é difícil. Assim, ao pensar na experiência do luto é importante nós conhecermos também quem é esse enlutado, a sua história de vida, suas características de personalidade, o modo como em outras situações difíceis da sua vida, que foram estressoras também, como ele lidou com essas outras situações, quais estilos de cognição ele costuma apresentar frente a situações difíceis. Conhecer isso nos permite identificar também quais fatores de risco o próprio enlutado apresenta nessa experiência de luto, isso vai ser importante para orientar profissionais nos serviços de apoio ou no atendimento em saúde mental aos enlutados na direção da assistência.
Outro aspecto que é importante relativo ao próprio enlutado é o status socioeconômico. O impacto que o luto pode ter na vida de alguém ou mais propriamente que a morte de alguém pode ter sobre a vida de uma pessoa ou de uma família tem relação também com seu status socioeconômico. Assim, a exemplo que eu dei de mulheres que se tornaram viúvas, a classe social às quais elas pertencem também vão compor a experiência de luto, uma pode a partir da morte do marido ter a condição socioeconômica da família totalmente alterada e ela, por exemplo, dali em diante ser demandada de ter um trabalho formal para sustentar os filhos; uma outra pode não sentir os mesmos impactos, uma mulher que perdeu o marido que tinha um trabalho formal com vínculo, que a partir dali passa a ser assegurada pelo sistema de previdência pode ter uma experiência de luto atravessada por estressores diferentes de uma outra que o marido não tendo nenhum trabalho formal passa a se ver a partir daquele momento sem nenhum tipo de renda.
Então, a classe socioeconômica também vai compor a experiência de luto, porque ela pode determinar o quanto aquela morte torna a experiência mais ou menos estressora pensando nesses estressores secundários à morte de alguém. Outro aspecto também relativo ao próprio enlutado é sua nacionalidade. O modo como lidamos com a morte, a nossa experiência de luto, a manifestação do nosso pesar tem íntima relação com o nosso contexto cultural.
Enlutar-se numa sociedade tradicional, em que o senso de coletividade é bastante forte, que o senso de comunidade pode, por exemplo, fazer com que uma mulher viúva se sinta muito mais amparada pela sua comunidade, que a partir daquele momento entende que ela é de responsabilidade de todos. Uma mulher de uma outra sociedade com características mais individualistas, por exemplo, pode ter sentimento de desamparo muito mais intenso com a morte desse marido, a quem ela atribuía o papel de proteção e de provedor. Então considerar também a cultura no qual o sujeito está inserido é algo importante para se pensar a experiência do luto.
A religiosidade também vai compor essa experiência, então as crenças que o sujeito tem em vida após a morte, as crenças no sobrenatural vão fazer com que esse sujeito lide com a morte de um jeito ou de outro. Nesse sentido da religiosidade é importante a gente considerar a importância que tem os rituais de despedida. A possibilidade de participar de rituais de despedida compõe algo que é importante para a experiência do luto e contribui para a elaboração dessa perda.
Outro aspecto importante também é a gente considerar o gênero, ser um enlutado homem, provavelmente, vai ser muito diferente de ser um enlutado mulher, porque socialmente nós aprendemos modos diferentes tanto de viver o luto quanto de expressá-lo. Mulheres são normalmente muito mais incentivadas a expressar o que sentem, a compartilhar os seus afetos e por conta disso acabam acionando redes de apoio afetiva muito mais íntimas e mais intensas. Ao passo que homens, normalmente, são ensinados a suprimir a manifestação dos seus afetos, a mostrarem-se fortes, a não chorar, então, perder alguém, passar por uma experiência de luto sendo homem ou sendo mulher vai tornar a experiência também distinta.
Além disso, é importante considerarmos quais são os estressores secundários, ou seja, os estressores decorrentes à essa morte. Algumas mortes além da ausência do sujeito amado, também vão impor ao enlutado uma série de outros estressores. Eu dei o exemplo aqui de mulheres que se tornam viúvas e passam a ter que lidar com situações que são difíceis e anteriormente não comuns a elas, podemos pensar em muitas outras situações.
Vamos pensar um homem que se torne viúvo com filhos pequenos e ele passa a ser agora individualmente responsável pelo cuidado cotidiano desses filhos. Isso pode ser uma fonte de estresse para esse homem. Filhos que ao perderem o pai descobrem que esse pai tinha uma série de negócios inacabados e isso traz uma série de dificuldades para essa família em termos financeiros e judiciais.
Muitas vezes uma morte impõe ao sujeito também uma série de outros estressores com as quais o sujeito enlutado deve lidar. Então ao pensarmos a experiência do luto é importante também considerarmos isso. Quais são os aspectos decorrentes dessa morte que impactam a vivência desse luto, e eles não devem ser negligenciados nas ofertas de apoio à pessoa enlutada, e considerarmos também quais são as características da pessoa enlutada que tem contribuído para um ajustamento melhor ou pior a essa perda.
Portanto, "O luto é um processo complexo e multideterminado. É um erro achar que um único mediador será responsável pelo modo como o sujeito enfrenta e se adapta à sua perda". Até o próximo vídeo!